quarta-feira, 26 de setembro de 2018


“1945”, Hungria, 2017, direção de Ferenc Törok, que também escreveu o roteiro juntamente com Gábor T. Szántó. A história é inspirada no conto “Hazatérés”, escrito pelo próprio Szántó. Em agosto de 1945, enquanto os moradores de um vilarejo no interior da Hungria preparam-se para o casamento do filho do prefeito (na verdade, 1º secretário, já que foi nomeado pelos comunistas russos), dois judeus ortodoxos – pai e filho – chegam à estação de trem com dois grandes baús. A notícia da chegada daqueles visitantes misteriosos logo chega ao ao pessoal do vilarejo e vai tumultuar de vez os preparativos do casamento. Todo mundo fica desesperado, pois acreditam que os judeus retornaram para recuperar seus imóveis e pertences - no início da Segunda Guerra Mundial, em alguns países da Europa, muitos judeus foram denunciados e levados pelos nazistas para os campos de concentração, e seus bens acabaram sendo tomados pelos cidadãos locais. No vilarejo, o clima de tensão aumenta cada vez mais, culminando com vários eventos trágicos. O desfecho reserva para o espectador uma grande surpresa, na verdade muito comovente. Embora com elogios, os críticos especializados reagiram com uma certa frieza à primeira exibição do filme no 67º Festival de Berlim, mas eu não. Adorei, achei sensacional, uma pequena obra-prima. Irresistível e simplesmente imperdível!                                                                                              
 

segunda-feira, 24 de setembro de 2018


“GAUGUIN – VIAGEM AO TAITI” (“Gauguin – Voyage de Tahiti”), 2017, França, roteiro e direção de Edouard Deluc (seu segundo longa-metragem). Trata-se de um drama biográfico centrado na vida do pintor francês Paul Gauguin, que ficou famoso com seu estilo pós-impressionista, mas só depois de morrer como indigente, em 1903. O filme de Deluc é ambientado em 1891, quando Gauguin sai de Paris para morar no Taiti, uma das mais importantes ilhas da então Polinésia Francesa. Na capital francesa, o pintor vivia um momento de falta de inspiração, não ligava para a família e passava as noites bebendo nos cabarés. Num desses momentos de boemia, Gauguin fala para um amigo: “Estou sufocando. Não há paisagem nem rosto que mereça ser pintado aqui”. Ao tomar a decisão de viajar para o Taiti, Gauguin tenta convencer a esposa e os filhos a irem com ele, sem sucesso. Ele então parte sozinho. No Taiti, ele conhece a jovem nativa Tehura, que será sua esposa e tema de suas telas mais importantes. Na realidade, Tehura tinha 13 anos quando casou com o pintor, mas no filme ela aparece adulta. Para sobreviver, Gauguin trabalha como estivador, o que irá piorar ainda mais sua frágil saúde. Gauguin, como todo artista, tinha um gênio difícil, era violento, egocêntrico e, ao mesmo tempo, amargurado. O ritmo lento da narrativa não prejudica a história, principalmente pelo excelente desempenho do ator francês Vincent Cassel e da atriz Tuheï Adams, além de uma fotografia exuberante explorando as cores e a natureza selvagem do Taiti, onde as filmagens aconteceram. Enfim, um filme que deve agradar não apenas os fãs de Gauguin, mas os amantes da pintura em geral. Por aqui, antes de chegar ao circuito comercial, o filme foi exibido como uma das principais atrações do Festival Varilux de Cinema Francês 2018.                                                                                    
 

domingo, 23 de setembro de 2018


O drama holandês “LAYLA M.”, 2016, escrito e dirigido pela diretora holandesa Mijke de Jong, é um dos filmes mais esclarecedores sobre o pensamento, o comportamento e os ideais que norteiam os jovens a se engajar numa organização terrorista. A jovem Layla nasceu e vive em Amsterdam com a família de imigrantes marroquinos. Ela é uma garota radical invocada, gosta de bater boca e desafiar qualquer ordem, inclusive na sua família. Ela é radical no que diz respeito à religião muçulmana, seguindo os preceitos do Alcorão à risca. Ao participar de uma campanha pela Internet incentivando as mulheres muçulmanas a continuar usando a burca - proibida na Holanda -, ela desperta a atenção de grupos extremistas, incluindo o jovem jihadista Abdel (Ilias Addab), com o qual se casará. Para acompanhar o marido numa missão na Jordânia, Layla abandona a família e resolve também ingressar numa célula islâmica terrorista. Na Jordânia, porém, ela sofrerá na pele o tratamento machista que é dedicado a toda mulher casada com um muçulmano. Em todo caso, ela resolve encarar a situação e passa a ajudar uma equipe humanitária num campo de refugiados da Síria. O filme é muito bom, tanto que foi selecionado pela Holanda como seu representante oficial na disputa do Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro. Além disso, participou da seleção oficial de festivais como o de Toronto, Chicago e Londres, sendo vencedor do Prêmio Especial do Júri no Filadélfia Film Festival.                                                                               

quarta-feira, 19 de setembro de 2018


Ou Keanu Reeves estava precisando de grana ou então é amigo dos produtores ou do diretor do filme. Não dá para entender como o astro norte-americano concordou em participar – ainda mais como personagem principal – de um filme tão ruim como “SIBERIA”, de 2018, roteiro e direção de um tal de Matthew Ross. O filme é horrível do começo ao fim, o roteiro é confuso demais e a história é ridícula, não dá para entender bulhufas. E, para culminar, a produção é toda de filme B, ou seja, pobre, de segunda classe. Reeves interpreta Lucas Hill, um comerciante de diamantes azuis valiosos que marca um encontro com o sócio Piotr (Boris Gulyarin) na Rússia para negociar a venda de 12 peças ao mafioso Boris Volkov (Pasha D. Lychnikoff). O sócio Piotr acaba sumindo e, seguindo uma pista, Hill vai tentar encontrá-lo em Mirny, na região leste da Sibéria. Aqui ele conhece Katya (a atriz romena feiosa e dentuça Ana Ularu) e, numa grande forçada de barra do roteiro, os dois acabam se apaixonando. Hill, inclusive, acaba tomando uma surra dos irmãos da moça. Nada a ver com a história dos diamantes. Tudo é muito ridículo e indecifrável, culminando com um desfecho dos mais deploráveis. Grande favorito ao Troféu Framboesa, prêmio aos piores filmes do ano. Uma bomba atômica. Fuja a galope!                                                                                

terça-feira, 18 de setembro de 2018


“PIRATAS DA SOMÁLIA” (“THE PIRATES OF SOMÁLIA”), 2017, EUA, conta uma história incrível baseada em fatos reais. Em 2008, o jovem norte-americano Jay Bahadur (Evan Peters) resolveu que seria um jornalista famoso, mesmo sem nenhuma experiência nem faculdade. Quando ele encontra por acaso o jornalista aposentado Seymour Tobin (Al Pacino), conhecido pelas coberturas internacionais nas zonas de conflito em países em guerra, Bahadur chega à conclusão de que para ele não bastaria ser um simples repórter do jornal da cidade. Ele queria muito mais, talvez viajar para um país onde nenhum outro jornalista teria coragem de ir. Naquele ano, 2008, o assunto que estava em evidência eram os ataques de piratas da Somália contra navios cargueiros. E não é que Bahadur vai para a Somália na tentativa de fazer uma reportagem justamente com os piratas? Uma aventura e tanto, como você poderá comprovar assistindo a este ótimo filme de ação e suspense. A direção é de Bryan Buckley, também autor do roteiro, adaptado do livro “The Pirates of Somalia”, escrito pelo próprio Jay Bahadur. Este foi o segundo longa-metragem escrito e dirigido por Buckley. O primeiro foi "Medalha de Bronze", de 2015. Uma curiosidade é a participação do ator somaliano Barkhad Abdi como Abdi, encarregado de traduzir as entrevistas de Bahadur. Ele havia participado do ótimo “Capitão Phillips”, de 2013, com Tom Hanks, cuja história também envolve piratas somalianos. Nesse filme, Barkhad Abid – que é a cara do Ronaldinho Gaúcho, inclusive a dentuça - fazia papel de um pirata bastante violento. O filme tem também a participação especial e efêmera da atriz Melanie Griffith, meio sumida ultimamente. “Piratas da Somália” é um ótimo entretenimento, valorizado pelo fato de contar uma história verídica.                                                                                         
 

domingo, 16 de setembro de 2018


“TIRE-ME UMA DÚVIDA” (“OTEZ-MOI D’UN DOUTE”), coprodução França/Bélgica de 2017, com roteiro e direção de Carine Tardieu. O título em português foi traduzido por mim. Se o filme chegar até nós – se chegar -, não sei que tradução darão. Trata-se de uma comédia romântica centrada no cinquentão Erwan Goumelon (o ator belga François Damiens, do ótimo “Os Cowboys”), cuja profissão é das mais interessantes e arriscadas. Contratado por uma empresa de construção da Bretanha, ele é especialista em desmontar e detonar minas terrestres, mísseis, granadas, torpedos e outras bombas remanescentes da Segunda Guerra Mundial. Depois que sua filha Juliette (Alice de Lencquesaing) engravida e não quer entregar quem é o pai, Erwan vai com ela para fazer exame de DNA. Durante o procedimento, ele descobre que Bastien Goumelon (Guy Marchand) não é seu pai biológico. Ele contrata um detetive para tentar descobrir quem é seu pai verdadeiro e acaba encontrando, num vilarejo a 20 quilômetros de onde mora, o simpático Joseph Levkine (André Wilms), que tem uma bela filha, a veterinária Anna (Cécile de France, de “O Garoto de Bicicleta), pela qual Erwan se apaixona. Só que ela pode ser sua meia-irmã. E aí, o que fazer? A confusão está formada, com muitos momentos de bom humor, tornando este filme um entretenimento dos melhores.                                                                                      

sexta-feira, 14 de setembro de 2018


“ELLA E JOHN” (“THE LEISURE SEEKER”), 2017, coprodução Itália/França, roteiro e direção de Paolo Virzi. A história, baseada no romance (lançado em 2009) do escritor norte-americano Michael Zadoorian, é centrada na aventura de um casal de terceira idade, Ella (Helen Mirren) e John (Donald Sutherland). Eles saem de Boston a bordo do antigo furgão da família, cujo nome é justamente o do livro e do título original do filme: “The Leisure Seeker”, ou seja, “O Caçador de Lazer”, com o objetivo de atravessar os Estados Unidos e chegar até Flórida Keys para visitar a casa onde viveu Ernest Hemingway, o grande ídolo de John, um antigo professor de literatura. Os filhos do casal, Jane (Nael Moloney) e Will (Christian McKay), ficam desesperados com a iniciativa dos pais, por um motivo muito especial: John tem Alzheimer e Ella sofre com as dores de um câncer agressivo. Esse contexto dramático não contamina o bom humor que permeia toda a trajetória do casal pelas estradas afora. Ou seja, trata-se de um ótimo e leve road movie valorizado pelo carisma e competência de Helen Mirren e Donald Sutherland, cuja química é um dos trunfos do filme.  Durante a viagem, um segredo revelado por John desencadeia numa série de acontecimentos que culminam num surpreendente desfecho. E tem mais: na trilha sonora, “Me & Bobby McGee”, um verdadeiro hino dos filmes de estrada na voz de Janis Joplin. Pelo papel de Ella, Helen Mirren foi indicada ao Globo de Ouro de “Melhor Atriz” em 2017. Exibido no mesmo ano no Festival de Veneza, foi aplaudido de pé pela plateia. Este foi o primeiro filme escrito e dirigido por Paolo Virzi em Hollywood. O diretor italiano é conhecido pela realização de dois excelentes filmes: “Capital Humano”, de 2013, e “A Primeira Coisa Bela”, de 2010. Sem dúvida, “Ella e John” é um ótimo entretenimento e uma oportunidade imperdível de curtir esses dois veteranos atores.                                                                                 

terça-feira, 11 de setembro de 2018


“THE CATCHER WAS A SPY”, 2018, EUA – Como não chegou por aqui e nem tem previsão de chegar – se é que vai chegar -, ainda não há tradução disponível. Trata-se de uma história de espionagem baseada num personagem real, Morris "Moe" Berg, jogador e treinador de baseball da liga principal norte-americana nos anos 30, e que durante a Segunda Grande Guerra trabalhou como espião e oficial de inteligência da Agência de Serviços Estratégicos dos Estados Unidos. Moe, interpretado por Paul Rudd (o “Homem-Formiga"), foi recrutado porque era muito inteligente e culto – falava nada menos do que 7 idiomas. O filme segue Moe em sua missão de assassinar o cientista alemão Werner Heisenberg (Mark Strong), que estaria trabalhando na construção de uma bomba nuclear para Hitler. Muito suspense e ação nesta boa realização do diretor Ben Lewin (do ótimo “As Sessões”, de 2012), com roteiro de Robert Rodat. Mais uma ótima adaptação para o cinema de uma história real ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial. Para quem gosta da história mundial, como eu, vai se deliciar. Além disso, vale também pelo ótimo elenco. Além de Rudd e Strong, trabalham a bela Sienna Miller, Jeff Daniels, Guy Pearce, Paul Giamati e o grande ator italiano Giancarlo Giannini (lembram de “Pasqualino Sete Belezas”?).                                                 


“GOTTI – UM VERDADEIRO PADRINHO AMERICANO” (“Gotti: In the Shadow of My Father”), 2018, EUA, direção do ator e diretor Kevin Connally (é o seu terceiro longa-metragem, depois de “Nada a Perder, 2007, e “Minha Querida Primeira-Dama”, 2016), com roteiro de Lem Dobbs e Leo Rossi. O filme é baseado em fatos reais, ou seja, a vida do chefão mafioso John Gotti (John Travolta), que comandou a famosa Família Gambino em Nova Iorque durante as décadas de 60, 70 e 80, “trabalhando” com extorsão, prostituição, tráfico de drogas e casas de jogos clandestinas. Resumindo: um poderoso chefão. A trajetória de Gotti, desde delinquente jovem e pobre, até assumir o comando da organização criminosa, o relacionamento com a família e a esposa Victoria (Kelly Preston, sua esposa na vida real) e, principalmente, com o filho mais velho, John Gotti Jr. (Spencer LoFranco), que se tornaria também um mafioso, culminando com sua prisão pelo FBI no início dos anos 90. O resto é história, que você poderá conhecer com mais detalhes assistindo a “Gotti”. Depois que estreou nos cinemas dos EUA em junho de 2018, o filme recebeu muitas críticas desfavoráveis, com as quais não concordo. Claro que não se compara ao fabuloso “Os Bons Companheiros” (“Goodfellas”), de Martin Scorsese, para mim o melhor filme de Máfia já feito por Hollywood depois do “O Poderoso Chefão”. E “Gotti” tem um trunfo a mais: o excelente desempenho de Travolta, com cheiro forte de Oscar 2019. Claro, pode ser que eu me engane (como sempre). Outro destaque é o recurso utilizado pelo diretor Connally em reproduzir imagens de programas jornalísticos da época, com vários depoimentos de admiradores de Gotti, tornando o filme ainda mais realista e verossímil. Como é possível constatar, o poderoso mafioso era endeusado pelo povão, apesar de ser um criminoso sanguinário, condenado por pelo menos 5 homicídios.                                              

domingo, 9 de setembro de 2018



“MINHA TERRA PURA” (“My Pure Land”), 2017, Inglaterra, primeiro longa-metragem escrito e dirigido pelo Sarmad Masud, mais conhecido como realizador de curtas e séries de TV. Embora tenha sido escrito e dirigido por um paquistanês, falado em urdu (língua oficial do Paquistão) e todo ambientado num pequeno vilarejo no interior do Paquistão, além do elenco de atores locais, o filme foi selecionado como representante oficial da Inglaterra na disputa do Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro. Baseada em fatos reais, a história é centrada em três mulheres (mãe e duas filhas) que são obrigadas a defender a casa onde moram depois que o chefe da casa acabou injustamente preso. O tio, irmão do pai, resolve tomar a casa à força, seguindo uma tradição da sociedade machista paquistanesa que não admite que mulheres tomem conta de uma casa. As mulheres resolvem se armar e repelir os invasores, que contratam outros tantos capangas para invadir a casa. Li algumas críticas que comparavam este filme com os westerns de Sérgio Leone e não quis acreditar, mas realmente lembra alguns antigos faroestes do diretor italiano. Ou seja, trata-se de um bom faroeste paquistanês, acredite se quiser.                                           

sábado, 8 de setembro de 2018


“TÁXI SÓFIA” (“POSOKI”), 2017, Bulgária, roteiro e direção de Stephen Komandarev, que também assina o roteiro ao lado de Simeon Ventsislavov. Ao abordar a rotina diária de trabalho de seis taxistas na capital Sófia, Komandarev cria um interessante mosaico da atual situação sócio-econômica e cultural da Bulgária, um dos países mais pobres da Europa. As conversas dos motoristas com seus passageiros e as situações, algumas insólitas, revelam um quadro de inconformismo e desesperança do povo búlgaro, mas Komandarev ameniza o contexto que poderia ser dramático com um sutil e irônico bom humor, tom que predomina durante todo o filme. As situações, por exemplo: o motorista de táxi leva a filha adolescente para o colégio e aceita pegar outra estudante para uma corrida, no meio da qual ela se revela uma prostituta de luxo. Em outra sequência, um motorista quer conversar com os passageiros sobre o filho morto recentemente. Ninguém lhe dá ouvidos. Aí ele para o carro e vai desabafar com um cachorro. Tem até um padre que trabalha como motorista de táxi, outro que salva um homem que queria se atirar de uma ponte e ainda uma motorista que trava um interessante diálogo com um cirurgião cardíaco, entre outras situações inusitadas. Enfim, um filme que foge da mesmice geral, realizado com inteligência e muita criatividade. A primeira exibição de “Táxi Sófia” aconteceu durante o Festival de Cannes 2017, quando participou da Mostra “Um Certain Regard”. Injusto que não tenha sido selecionado pela Bulgária para disputar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, pois, na minha opinião, é um dos melhores filmes que assisti nos últimos anos. Imperdível!                                             

quinta-feira, 6 de setembro de 2018


“KINGS”, 2017, coprodução EUA/França, roteiro e direção de Deniz Gamze Ergüven. A história é toda ambientada na Los Angeles de 1992, quando a população de South Central - periferia de LA - se rebela depois do resultado de dois julgamentos, o primeiro de uma comerciante chinesa que acabara de assassinar uma garota negra dentro de seu estabelecimento comercial. O segundo, de maior notoriedade, envolveu o espancamento do taxista negro Rodney King por policiais brancos. Tanto a chinesa quanto os policiais foram absolvidos, gerando uma onda de protestos violentos, com saques a supermercados, incêndios e agressões contra brancos e policiais que ousassem passar pelo bairro. Em meio a toda essa confusão está Millie (Halle Berry), uma mãe solteira que cuida com muito sacrifício de oito filhos, alguns deles adotados. Sua principal preocupação é não deixar que seus filhos entrem para a marginalidade, como a maioria dos seus colegas. Seu vizinho, Ollie (Daniel Craig, péssimo), talvez o único branco do pedaço, tenta dar uma força para a família de Millie, principalmente depois que os protestos entram na fase mais violenta. A diretora turca Deniz Gamze Ergüven tinha o roteiro pronto desde 2011, mas não conseguiu financiamento para tocar o projeto adiante. Só conseguiu depois de escrever e dirigir o ótimo “Mustang” (aqui traduzido por “Cinco Graças”), que representou a França na disputa do Oscar 2016 de Melhor Filme Estrangeiro. A estreia mundial de “KINGS” aconteceu no Toronto International Film Festival, em setembro de 2017, e logo depois foi exibido nos festivais de Torino e Estocolmo. Até a primeira metade do filme eu estava gostando, envolvido pelo forte clima de tensão. Depois, achei que a diretora descambou para um sentimentalismo exacerbado, amenizando o impacto das cenas mais fortes. Cheguei a achar que tinha jeito de Oscar 2019, mas fiquei decepcionado com o resultado final. Mais interessante do que bom.                                                

quarta-feira, 5 de setembro de 2018


 O drama inglês “A ÚLTIMA TESTEMUNHA” (“THE LAST WIGNESS”), 2018, direção de Piotr Szkopiak e roteiro de Paul Szambowski, relembra um fato histórico da maior importância: o esclarecimento de que foram os soviéticos, e não os nazistas, os responsáveis pelo que ficou conhecido como “O Massacre da Floresta de Katyn”, que aconteceu entre abril e maio de 1940 e que resultou no assassinato de 22 mil poloneses prisioneiros de guerra, entre soldados, policiais e civis. Quem desvendou o mistério, como mostra o filme – baseado em fatos reais -, foi o jornalista inglês Stephen Underwood (Alex Pettyfer), em 1948, graças à tal “última testemunha” a que se refere o título, um cidadão russo refugiado num campo de oficiais poloneses em Bristol, na Inglaterra. A verdade, como apurou Underwood, era conhecida pelos governos da Inglaterra e dos Estados Unidos, que não quiseram revelá-la para não tumultuar ainda mais as delicadas relações diplomáticas com o governo soviético de Stalin. Como cinema, “A Última Testemunha” é um filme sem brilho, sem ação nem suspense, que só se sustenta por causa do importante lado histórico, o que por si só justifica uma visita. Ainda estão no elenco Talulah Riley, Gwilym Lee, Michael Gambon e Robert Wieckiwicz.                                            

terça-feira, 4 de setembro de 2018


O drama norte-americano “CHAPPAQUIDDICK”, 2017, direção de John Curran e roteiro de Andrew Logan, revela os bastidores do rumoroso caso envolvendo o então senador Ted Kennedy no final dos anos 60. No dia 18 de julho de 1969, Ted estava reunido com a equipe de assessores em sua casa na Ilha de Chappaquiddick. O objetivo era combinar estratégias e iniciar o planejamento para sua candidatura à presidência dos EUA em 1972. Enquanto seu pessoal comemorava o início da campanha, Ted aproveitou um dos intervalos para dar um “passeio” de carro com a assessora Mary Jo Kopecane  - aparentemente sua amante, o que o filme não entrega. No caminho, Ted perde a direção e o carro despenca no rio, matando a moça. Segundo foi apurado posteriormente pela polícia, Ted demorou horas para comunicar o acidente, colocando em dúvida sua afirmação de que tentara salvar Mary Jo. É claro que o caso virou manchete no mundo inteiro, aniquilando sua carreira política e as pretensões de concorrer às eleições presidenciais de 1972. O filme destaca os esforços dos assessores em lidar com a tragédia, tentando aliviar a barra do irmão mais novo de John Kennedy. Aliás, naquele ano, o único vivo dos quatro irmãos. Outro destaque é dado ao relacionamento de Ted com o patriarca Joseph Kennedy, já muito velho e doente. Fica claro que Ted nunca foi o mais querido dos irmãos. Pelo contrário, era tratado pelo pai como o ovelha negra da família. O elenco é muito bom: Jason Clarke (Ted), Kate Mara (Mary Jo), Ed Helms (Joe Gargan, principal assessor), Bruce Dern (Joseph Kennedy) e Clancy Brown (Robert McNamara). O filme estreou nos Estados Unidos no dia 6 de abril de 2018 e ainda não tem data para ser exibido por aqui.                                           

domingo, 2 de setembro de 2018



“TEMPESTADE DE AREIA” (“SUFAT CHOL”), 2016, Israel, é um drama ambientado num vilarejo de beduínos muçulmanos ao sul de Israel. Ali vive uma comunidade árabe das mais retrógradas e machistas. A história é centrada em Jalila (Ruba Blal), uma mulher forte, batalhadora e autoritária, mãe de quatro meninas, a mais velha Layla (Lamis Ammar). O filme começa e lá está Jalila organizando a festa de casamento do seu marido Suliman (Hitham Omari) com uma segunda esposa, muito mais jovem. Não bastasse esse tipo de humilhação, Jalila descobre que Layla gosta de um jovem palestino e fará de tudo para impedir esse namoro. Enquanto isso, Suliman arranja um marido para Layla – como em quase todos os países árabes, é tradição o pai escolher o marido para a filha e obrigá-la a casar, mesmo que ela não queira. Mais uma prova da cultura machista desses países é o banimento de Jalila da casa onde mora, indo viver com os pais, num tipo de exílio. Coisas do mundo árabe. O filme foi escrito e dirigido pela diretora israelense Elite Zexer, mais conhecida como autora de curtas e documentários. Este foi o seu primeiro longa-metragem, todo falado em árabe, e se saiu muito bem, pois o filme é ótimo, tanto que recebeu o Grande Prêmio do Júri na categoria “World Cinema Dramatic” do Festival de Sundance (EUA), além de ter sido selecionado para representar Israel na disputa do Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro. Por aqui, foi visto durante a programação da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2016. Recomendo principalmente por revelar muitos dos costumes e tradições dos povos beduínos. Um filme muito interessante.                                          
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quinta-feira, 30 de agosto de 2018


“TUDO NOS SEPARA” (“TOUT NOUS SÉPARE”), 2017, escrito e dirigido por Thierry Klifa.  Existem três bons motivos para recomendar este excelente thriller francês. Primeiro, o roteiro muito bem elaborado, originando uma história bem interessante e repleta de suspense. O segundo bom motivo é a direção de Thierry Klifa, que consegue manter o clima angustiante de tensão do começo ao fim, lembrando um fio bem esticado a ponto de se romper de repente. O terceiro motivo é o ótimo elenco, capitaneado pelas atrizes Catherine Deneuve e Diane Kruger, com destaque também para Brigitte Sy e os atores Nicolas Duvauchelle e Nekfeu (um rapper francês de grande sucesso, cujo nome verdadeiro é Ken Samaras). Vamos finalmente à história: Julia Keller (Kruger) é a filha drogada e problemática da empresária Louise Keller (Deneuve). O namorado de Júlia é Rodolphe Calavera (Duvauchelle), um delinquente que ganha a vida traficando drogas. Ao lado de seu companheiro Ben Torres (Nekfeu), ele se envolve com uma violenta quadrilha de traficantes, à qual acabam devendo uma grana bem alta. Em paralelo, o clima entre Julia e Rodolphe não está nada bom, culminando com uma briga em que ela acaba acertando-lhe a cabeça com uma barra de ferro. O cara morre e Julia corre para a saia da mãe, pedindo para lhe ajudar a sair dessa situação. Elas tentam encobrir o assassinato, mas Ben desconfia e passa a chantagear Louise. No desfecho haverá uma reviravolta surpreendente, valorizando ainda mais este bom suspense francês. Vale a pena!                                            

domingo, 26 de agosto de 2018


“O MOTORISTA DE TÁXI” (“TAEKSI WOONJUNSA”), 2017, Coreia do Sul, roteiro e direção de Jang Hoon. Mais um excelente exemplar do cada vez melhor cinema sul-coreano. A história é baseada em incríveis fatos reais ocorridos em maio de 1980, quando o motorista de táxi Man-Seop (Song Kang-Ho, o ator sul-coreano mais popular da atualidade), afundado em dívidas, aceita levar o jornalista alemão Peter (Tohmas Kretschmann) de Seul para a cidade de Gwangiu, onde o exército do ditador Chun Doo-Hwan promovia uma sangrenta repressão contra os contrários ao governo, assassinando centenas de civis, principalmente estudantes. Alheio aos acontecimentos, Man-Seop acha que sua missão será tranquila. Mal sabe ele que será envolvido nas manifestações, correndo risco de vida, ele e o jornalista alemão. O grande mérito desse filme é relembrar com realismo o que aconteceu naquela época, ou seja, um fato histórico da maior importância. Apesar do contexto violento da história, o diretor Jang Hoon conseguiu alguma sensibilidade com a amizade entre o motorista de táxi e o jornalista alemão. Nos créditos finais, o verdadeiro jornalista alemão aparece vinte e tantos anos depois dando um depoimento emocionado sobre essa amizade, afirmando que teria a maior alegria em reencontrar o amigo sul-coreano, o que, infelizmente, não aconteceu. O filme é ótimo, imperdível! Para terminar, lembro que foi o filme escolhido para representar a Coreia do Sul na disputa do Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro.                                            


O drama argentino “MATER”, 2017, foi inspirado na peça teatral “El Viento em um Violin”, do dramaturgo Claudio Tolcachir. O elenco do filme é o mesmo que atuou na peça, ou seja, Lautaro Perotti, Araceli Dvoskin, Tamara Kiper, Inda Lavalle e Miriam Cordeiro. Este é o primeiro longa-metragem escrito e dirigido por Pablo D’Alo Abba, mais conhecido na Argentina como realizador de documentários. A história de “MATER” é centrada no jovem Dario (Perotti), mimado, folgado e dependente da mãe Mecha (Miriam Odorico), que toma todas as decisões pelo filho e o domina na base da rédea curta. Vendo que seu filho, aos 30 anos, não quer nada com a hora da Argentina, Mecha paga umas consultas com um psicólogo, sem resultados. As sessões são um fracasso, pois Dario se acha um gênio da psicologia e quer ensinar o coitado do psicólogo. As sessões até que rendem alguns momentos bem-humorados. Corre em paralelo a história de Celeste (Tamara Kiper) e Lena (Inda Lavalle), que querem ser mães – ou pais, lá sei eu – e resolvem encontrar um homem numa balada. O escolhido é justamente Dario, que é obrigado na base da força a consumar o ato. Por aquelas coincidências que só acontecem em filme, uma das lésbicas é filha de Nora (Araceli Dvoskin), empregada há muitos anos na casa de Dario. A confusão está formada, e as duas famílias vão ter que resolver com quem ficará a criança. Mais um bom filme argentino que merece ser  visto.                                                
 
                                   

sábado, 25 de agosto de 2018


“O DESAPARECIMENTO DE SIDNEY HALL” (“The Vanishing of Sidney Hall”), USA, 2017, segundo longa-metragem escrito e dirigido por Shawn Christensen. Filme independente muito interessante e bem elaborado, com um elenco de muita competência: Logan Lerman (“Percy Jackson”), Elle Fanning, Michelle Monaghan, Blake Jenner, Kyle Chandler e Nathan Lane. A história é centrada no jovem escritor Sidney Hall (Lerman), que desde o colégio sonhava em ser escritor. Sempre foi um jovem rebelde, mas muito inteligente. Seus textos no jornal da escola eram bastante elogiados, até que um dia resolveu escrever um livro que virou best-seller e o levou à fama, inclusive sendo indicado ao badalado Prêmio Pulitzer. Em meio à jornada literária de Sidney, o roteiro destaca também, em flashbacks, o seu primeiro grande amor e depois sua esposa, a bela Melody (Fanning), a amizade com seu colega de classe Brertt Newport (Jenner) e sua relação com a mãe (Michelle Monaghan). Depois do sucesso alcançado com seu primeiro livro, Sidney some do mapa, vira andarilho/mendigo e sai pela estrada de ferro afora a bordo de trens de carga. Seu sumiço é investigado por um policial misterioso (Chandler), seguindo uma pista referente ao incêndio de vários livros escritos justamente por Sidney. Enfim, um filme que se mostra acima da média vigente, como comprovam as críticas positivas quando estreou no Festival de Sundance 2017.                                                 


“15h17 – TREM PARA PARIS” (“The 15:17 to Paris”), EUA, 2018, direção de Clint Eastwood, com roteiro de Dorothy Blyskal. O filme conta a história dos três norte-americanos que evitaram o ataque de um terrorista árabe num trem de alta velocidade que ia de Amsterdam (Holanda) para Paris no dia 21 de agosto de 2015. Armado com um fuzil AK-47, pistolas e munição suficiente para matar os 554 passageiros do trem, o terrorista marroquino Ayoub El-Khazzani foi dominado e preso pelos três rapazes, o soldado Alek Skarlatos, o piloto da Força Aérea Spencer Stone e Jaleel White. O filme volta no tempo para mostrar a antiga amizade que uniu os rapazes até os dias atuais, culminando com o ato heroico em território francês. A grande inovação de Eastwood foi escalar os próprios personagens para representá-los no filme. Não prejudicou em nada, embora a gente perceba, em algumas cenas, que não são atores profissionais. Aliás, as atrizes Jenna Fischer e Judy Greer foram duas das poucas profissionais do elenco. Ator em 71 filmes e diretor em outros 40, além de quatro Oscar no currículo, Eastwood tem respeito e crédito suficientes para fazer o que quiser no cinema. Para escrever o roteiro, Dorothy Blyskal baseou-se no livro “The 15:17 to Paris: The True Story of a Terrorist, a Train and Three American Soldiers”, de Jeffrey E. Stern. Em se tratando de Eastwood, eu esperava um filme bem melhor. Não que seja ruim, mas bem abaixo da qualidade de outros filmes do grande Eastwood. Vale apenas pela história incrível de heroísmo.                                                 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018


Ao contrário do que diz o material de divulgação, “DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR” (“UN BEAU SOLEIL INTÉRIEUR”), 2017, França, não é uma comédia romântica, mas sim um drama. Talvez comédia dramática, mas romantismo passa longe. A história é centrada na vida amorosa da artista plástica Isabelle (Juliette Binoche). Mulher de meia-idade, divorciada e com uma filha, Isabella vive vários relacionamentos, ao mesmo tempo em que tem um amante fixo, Vincent (Xavier Beauvois), um banqueiro arrogante e ainda por cima casado. Ela quer mais afeição e busca conseguir quando sai pela noite para dançar, programa que acaba quase sempre na cama com alguém. Foi assim com um ator de teatro (Nicolas Duvauchelle, que tem uma incrível semelhança com o grande Marcello Mastroianni jovem), com um diretor de galeria e com outros tantos. Mesmo com essa variedade de amantes, Isabelle sofre de carência afetiva, pois quase sempre seus romances acabam rápido, entre brigas e desilusões. Já no final, Isabelle consulta um terapeuta (Gérard Depardieu, em participação especial) para tentar resolver sua carência. Aos 54 anos, Juliette Binoche ainda é uma mulher muito bonita, charmosa e sensual, além de ótima atriz (ela é a mais bem-paga do cinema francês). Binoche tem um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “O Paciente Inglês”, de 1996, e nada menos do que seis indicações para o César (o Oscar francês), sendo que numa delas, justamente em “Deixe a Luz do Sol Entrar”, conquistou o prêmio de Melhor Atriz. Realmente, ela é fantástica, a alma desse bom drama francês dirigido pela veterana diretora Claire Denis (“Minha Terra, África”, “Desejo e Obsessão” e “35 Doses de Rum”).                                               

domingo, 19 de agosto de 2018


“DESEJO DE MATAR” (“DEATH WISH”), EUA, 2018, direção de Eli Roth e roteiro de Joe Carnahan, que readaptou o livro “Death Wish”, escrito por Brian Garfield. Trata-se da refilmagem do clássico de grande sucesso lançado em 1974. Sai Charles Bronson e entra Bruce Willis, que finalmente encontra um filme de ação à sua altura, depois de inúmeros fracassos recentes. Desta vez, volta à sua velha forma de durão e canastrão, com aquele sorriso sutil que esbanja ironia. Willis é o médico cirurgião Paul Kersey (Bronson era arquiteto). Uma noite, ele é chamado para atender a uma emergência no hospital, deixando sozinhas a esposa Lucy (Elisabeth Shue) e a filha adolescente Jordan (Camila Morrone). Três bandidos invadem a casa e fazem miséria com as duas, matando Lucy e deixando Jordan em estado grave. Ao perceber que a polícia não se empenha como devia nas investigações, Kersey resolve agir por conta própria. Ao sair pela noite em busca de informações que o levem aos marginais, Kersey cruza com vítimas sendo assaltadas e enfrenta os bandidos na base da bala. Depois de matar alguns, ele acaba virando notícia nos jornais como o “Anjo da Noite”, o herói que está “limpando” Chicago. Sem nunca ser identificado, Kersey prossegue na busca dos assassinos de sua esposa, utilizando mil artimanhas para não ser preso, até encontrá-los e finalmente executar sua vingança. O filme é muito bom, têm ótimas sequências de ação e Willis novamente em forma. Entretenimento dos melhores!