domingo, 7 de setembro de 2014
sábado, 6 de setembro de 2014
O drama chileno “MATAR A UN HOMBRE”
(“To Kill a Man”), 2013, passa longe, muito longe, de um
entretenimento leve e relaxante. É violento no sentido da violência psicológica,
da tensão permanente. Conta a história de Jorge (Daniel Candia), um pacato pai
de família que vive num bairro pobre de periferia e que se vê constantemente ameaçado
por Kalule (Daniel Antivilo), um marginal grandalhão e valentão que reside nas
redondezas. Toda vez que Jorge volta do supermercado, por exemplo, Kalule e sua
gangue costumam roubar suas compras, além de outros pertences pessoais como,
por exemplo, celular e até os remédios que ele toma para diabete (pois é, além
de tudo, Jorge ainda é diabético). Todo dia era a mesma coisa. Jorge vai à
delegacia de polícia e denuncia o que está acontecendo. A polícia, como sempre,
não faz nada. Dá vontade de chamar Van Damme, um Steven Seagal ou um Bruce
Willis para dar um jeito no valentão e em sua turma. O filme segue e, depois de
alguns acontecimentos inesperados, Kalule volta a perseguir a família de Jorge,
sendo que desta vez o alvo é a sua filha. Aí Jorge finalmente resolve dar um basta.
O filme, dirigido por Alejandro Fernández Almendras, ganhou vários prêmios em
festivais, inclusive sendo eleito o Melhor Filme, na categoria “World Cinema”,
do Sundance Fim Festival 2014.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
“BELLE”, 2013, dirigido por Amma Asante, é um
drama inglês de época ambientado na segunda metade do Século XIII na
Inglaterra. A história, verídica, é baseada na vida de Dido Elizabeth “Belle”, uma
mulata filha de um Capitão da Marinha e uma escrava. O pano de fundo do filme é
justamente o início de uma campanha na Inglaterra para abolir a escravidão. O filme
começa com o capitão John Lindsay (Matthew Goode) indo buscar “Belle” para levá-la
aos cuidados do tio, Lord Mansfield (Tom Wilkinson), e da tia, Lady Mansfield
(Emily Watson), que muito a contragosto acolhem a menina, que vai crescer ao
lado da prima branca Elizabeth Murray (Sara Gadon). “Belle” é finalmente aceita
pela família e até começa a chamar os Mansfield de pai e mãe. Ela recebe a
melhor educação possível, mas é discriminada nos almoços e jantares quando há
convidados. Segundo a etiqueta da época, é uma ofensa que uma pessoa de cor desfrute
da companhia de convidados numa mesa. A situação de “Belle” e outros fatos
ligados à questão escravagista influenciarão as futuras decisões de Lord
Mansfield, na ocasião o mais importante magistrado da Inglaterra. Apesar desse
pano de fundo, vamos dizer sério, o filme dá muito destaque aos flertes de
jovens, intenções casamenteiras das famílias e muito blá-blá-blá do tipo “olha
como ele é simpático”, naquela fala empolada da época. Isso tudo deixa o filme
com cara de novela, o que tira um pouco do seu mérito. Mas não o descarte. Além
da história em si, o filme vale pelos cenários suntuosos, pelos figurinos e
pela espetacular reconstituição de época.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
“CONGELADO” (“FREEZER”),
2013, EUA, é um drama de suspense dirigido por Mikael Solomon. A história: o
mecânico Robert Saunders (Dylan McDermott) acorda dentro de um contêiner/frigorífico
com peças de carne. Não sabe por que está ali. A única certeza é de que está um
frio bárbaro e, se não sair logo, morrerá congelado. Ou seja, entrou literalmente
numa grande fria. Um tempo depois, dois homens e uma mulher, todos russos, entram
no frigorífico e querem saber de Saunders onde estão os 8 milhões de dólares
que ele roubou do chefão Oleg. Ele diz que não tem nada a ver com isso, que
eles pegaram o carro errado. Saunders leva uma surra, é ameaçado de morte e continua
congelando. Mesmo assim, consegue fazer piadinhas sobre a sua situação. O filme
continua com o entra e sai dos russos no contêiner e as tentativas de Saunders
de fugir dali. O roteiro absurdo ainda abre espaço para o surgimento de um
policial ferido escondido no contêiner. Uma reviravolta - pra lá de ridícula - no
desfecho consagra a mediocridade desse filme, que termina sem explicar como
tudo aconteceu ou começou. Tirando uma ou outra piadinha de Saunders e a beleza
da atriz russa Yuliya Snigir, nada se aproveita desse abacaxi. No final, a
conclusão mais do que óbvia: na realidade, quem entrou numa fria foi você.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Em
1993, três adolescentes foram presos, julgados e condenados pela morte de três
crianças de 8 anos de idade. O caso é verídico e aconteceu na cidade de West
Memphis (Arkansas), num episódio jurídico dos mais polêmicos. Esta é,
basicamente, a história do drama “SEM EVIDÊNCIAS” (Devil's Knot"), 2013, do aclamado diretor canadense Atom Egoyan.
O filme mostra os bastidores do caso, as controvérsias e deixa bem claro que a
polícia local não conseguiu evidências conclusivas. Pesou mais contra os acusados o fato de serem adeptos de cultos satânicos e ouvirem heavy-metal. Egoyan concentra a história
em Ron Lax (Colin Firth), um investigador particular que se propõe a ajudar os
advogados de defesa. É o primeiro a desconfiar que os jovens podem ser inocentes.
Pelo lado das vítimas, o destaque é dado a Pam Hobbs (Reese Witherspoon), mãe
de um dos meninos assassinados, que no final também passa a suspeitar da
decisão da justiça. Nos créditos finais surgem as informações sobre o que
aconteceu depois, revelando muitas surpresas e uma reviravolta. Com um diretor
tão conceituado como Egoyan (de “O Preço da Traição” e “O Doce Amanhã”) e
atores como Colin Firth e Reese Whitherspoon, podíamos esperar um filme bem
melhor. Foi feito de forma burocrática, no piloto automático. Mas vale como interesse pelo caso que
teve grande polêmica nos EUA.
Mais
um bom filme argentino (como se isso fosse novidade). Trata-se de “UM AMOR” (“Un Amor”), 2011, dirigido por Paula Hernandez. É um drama romântico
e nostálgico, centrado na amizade de dois homens e uma mulher que se conheceram
na adolescência. Nos anos 70, Bruno e Lalo moram em Victoria, cidadezinha no
interior argentino, e são amigos inseparáveis. Até que chega Lisa, uma menina
extrovertida, alegre e sensual, para
passar as férias de verão. Todos por volta dos 15 anos de idade. Lisa logo se
enturma com a dupla de amigos e não se desgruda deles. Os dois, é claro, se
apaixonam por ela, sem que isso interfira na amizade de ambos. Não mais que de
repente, Lisa vai embora com a família, deixando Bruno e Lalo desconsolados. O
tempo passou e cada um seguiu um caminho diferente pela vida. Lisa foi morar no
Brasil e depois na Venezuela. Bruno virou roteirista de séries de TV, casou e
mudou para Buenos Aires. Lalo ficou em Victoria e assumiu a oficina de
automóveis do pai. Trinta anos depois, Lisa chega a Buenos Aires para
participar de uma conferência relacionada ao seu trabalho e resolve procurar os
antigos amigos. O reencontro trará recordações alegres, colocará à tona alguns segredos escondidos
e reavivará as paixões de antigamente. No fim, mais uma vez, a amizade estará
acima de tudo. Os atores que fazem o trio jovem é muito bom (Alan Dalca, como
Bruno, Denise Groesman, como Lisa, e Agustin Pardella, como Lalo). O elenco
adulto mantém a qualidade: Diego Peretti (Bruno), Elena Roger (Lisa) e Luis
Ziembrowski (Lalo). Um filme simples, mas com conteúdo. segunda-feira, 1 de setembro de 2014
“ACONTECEU EM SAINT-TROPEZ” (“Des
Gens qui S’Embrassent”), 2013, é uma comédia francesa dirigida por Danièle
Thompson. A história gira em torno de dois irmãos judeus, o milionário Ronie
(Kad Merad) e o violinista clássico Zef (Eric Elmosnino). Ronie mora em Paris e
Zef está em turnê por Nova Iorque. Começa o filme com Ronie e sua esposa
Giovanna (a musa Monica Bellucci) às voltas com os preparativos da festa de
casamento da filha Melita (Clara Ponsot). Dois dias antes do casório, porém, a
esposa de Zef morre atropelada em Nova Iorque. Como a família dela também é
francesa, o corpo deve ser removido para Paris. Como conciliar uma festa de
casamento com um velório no mesmo dia, para os quais os convidados são os mesmos?
Paralelamente a esta situação inusitada, várias outras surgem no meio do
caminho, como as peripécias do velho Aron (Ivry Gitlis), chefe do clã, que está com
Alzheimer, a traição do noivo com outra integrante da família e por aí vai filme
adentro com uma incontável série de divertidas confusões. O filme tem locações em
Nova Iorque, Londres, Paris e Saint-Tropez. Se não bastasse ser bastante
engraçado, o filme ainda apresenta, como atração adicional, a presença de três belas
e competentes atrizes: Monica Bellucci, é claro, Lou de Laâge e Clara Ponsot.
“GUERRILHA SEM FACE” (“The Dancer Upstairs”) é um suspense político de 2001 (co-produção
EUA/Espanha). Trata-se do filme de estreia do ator John Malkovich na direção. Não
lembro se o filme foi exibido nos cinemas ou se saiu direto em vídeo. A
história é inspirada no caso real da perseguição e prisão, em 1992, de Abimael
Guzman, líder do grupo guerrilheiro peruano Sendero Luminoso. O enredo é
centrado no trabalho do ex-advogado e agora capitão de polícia Agustin Rejas (o
ator espanhol Javier Bardem), chefe da equipe responsável pelas investigações que
resultaram na captura de Guzman. Agustin sofre uma pressão muito grande do
governo peruano – na época, uma ditadura -, que exige a rápida prisão de
Guzman. O filme mostra os bastidores das investigações, incluindo a interferência
do exército peruano, cujos métodos violentos o chefe de polícia repudia e luta
contra, colocando em risco o seu próprio cargo. Durante as investigações,
Agustin se envolverá num romance com a professora de balé da sua filha. A
professora, Yolanda (a bela atriz italiana Laura Morante), terá um papel de destaque na história. O filme mostra a face violenta e
sanguinária do Sendero Luminoso, de tendência maoísta, responsável, em seus 20
anos de existência (1980 a 2000), por pelo menos 70 mil assassinatos. Malkovich
fez um bom filme político, não ao mesmo nível, mas ao estilo de diretores como Costa-Gravas e Gillo Pontecorvo, e vale a pena assistí-lo para
relembrar um dos fatos mais importantes da história do Peru e da própria
América Latina. domingo, 31 de agosto de 2014
Tudo leva a crer que é um filme de Woody Allen. Os cenários destacam Nova
Iorque, mais especificamente o bairro judeu do Brooklyn, a trilha é feita de
jazz anos 30/40, tem piadas com judeus e os diálogos são construídos com aquela
ironia característica do grande diretor. Com o transcorrer do filme, porém,
você vai descobrir que “AMANTE A
DOMICÍLIO” (“Fading Gigolô”), 2013, não é um Allen genuíno, e sim uma imitação,
reforçada pela presença do próprio Woody Allen no elenco. Na verdade, o filme
foi escrito e dirigido por John Turturro, que também é o protagonista principal.
Ele é Fioravante, funcionário de uma floricultura. Seu amigo Murray (Allen) está
sem dinheiro e não sabe o que fazer. Até surgir a ideia de ser o gigolô de um “garoto
de programa”, justamente Fioravante. A primeira “cliente” é a dra. Parker
(Sharon Stone, ainda em grande forma), seguindo-se a socialite Selemina (a
vulcânica atriz colombiana Sofia Vergara) e Avigal (Vanessa Paradis), viúva de
um rabino. Com seu jeito tímido, Fioravante cai nas graças da clientela. Mesmo anunciado como comédia, o humor
do filme é morno e a história não engrena. Resumo da ópera, ou melhor, do
filme: Turturro não é Allen.
sábado, 30 de agosto de 2014
“A LOUCURA DE ALMAYER” (“La Folie
Almayer”), 2009, é uma co-produção Bélgica/França dirigida pela diretora belga
Chantal Akerman. A história é baseada no romance homônimo escrito por Joseph
Conrad, aliás, seu primeiro livro, escrito em 1895. É um filme bastante pesado,
melancólico, desagradável de assistir. A história é ambientada em 1950 em algum
ponto da selva da Malásia, onde mora o holandês Kaspar Almayer (Stanislas
Merhar), que se estabeleceu naquele local ermo com a perspectiva de encontrar
ouro e ficar rico. Ele se casou com a filha adotiva do capitão Lingard (Marc
Barbé) e tem uma filha chamada Nina (Aurora Marion). Ainda menina, Lingard leva
a menina embora para um internato, justificando a Almayer que ela merece uma educação
melhor. Com o tempo, Almayer fica na miséria e acaba louco. Nem o retorno de
Nina, já adulta, trará de volta a alegria a Almayer. Chantal dirigiu o filme imaginando
criar uma obra-prima do cinema. O resultado ficou muito distante dessa
pretensão. O filme é monótono demais, cansativo, algumas cenas mostram os
personagens estáticos por um longo tempo, como se a diretora tivesse gritado “Congela!”,
ao invés de “Ação” ou “Corta”. Alguns críticos profissionais gostaram, mas,
como já disse e admitiu Rubens Ewald Filho, “Crítico adora o que não entende”. Indicado
para estudantes de Cinema ou para quem sofre de insônia.
Apesar
do título adocicado, “LIGADOS PELO AMOR” (“Stuck in love”), EUA, 2012, dirigido por Josh Boone, não é um filme
romântico. Anunciado como comédia dramática, também não faz rir nem chorar. É um filme de relacionamentos, muito falatório e pouco entendimento. William Borgens (Greg Kinnear) é um escritor
consagrado que, depois de três anos, ainda não se conforma de ter sido
abandonado pela mulher Erica (Jennifer Connelly), que agora está morando com
outro homem. Borgens costuma ir até a casa de Erica e, sorrateiramente, fica verificando
pelas janelas o que está acontecendo. Borgens mora com o filho adolescente Rusty
(Nat Wolff), com o qual não se entende muito bem. No feriado de Ação de Graças,
Borgens recebe a visita da filha Samantha (Lily Collins), que também é
escritora. Esta, por sua vez, não fala com a mãe, acusando-a de ser a
responsável pelo fim do casamento. Em meio a esse conflito familiar, o filme
dedica bastante espaço para enfocar os anseios e dúvidas de Samantha e Rusty. Ela não quer saber de namorar
ninguém, de ter um relacionamento sério. Ele começa a namorar Kate (Liana Liberato),
uma colega de classe que adora se drogar. Esses encontros e desencontros
percorrerão o filme até o seu desfecho, mais do que previsível, na base do “Happy
End”. Um filme despretensioso, mas com bons diálogos e ótimos atores.quinta-feira, 28 de agosto de 2014
“NÃO ACEITAMOS DEVOLUÇÕES” (“No se Aceptan Devoluciones”), 2013, é um filme mexicano anunciado
como comédia, começa como comédia e depois vira um novelão - mexicano, claro - com direito
àquelas cenas chorosas de tribunal e música de fundo triste para reforçar a
dramaticidade das cenas. Valentin (Eugenio Derbez, também o diretor) é um
mulherengo daqueles. Toda hora acaba na cama com uma mulher diferente. Só que
uma, Julia (Jessica Lindsey), a quem ele jura amor eterno no auge da transa,
volta a procurá-lo um ano depois com um bebê no colo, dizendo que ele é o pai.
Julia se manda e deixa o bebê com Valentin. O tempo passa, Maggie (Loreto Peralta) já está com
sete anos de idade. Valentin mora com ela agora em Los Angeles e trabalha como dublê
de cenas perigosas num estúdio de cinema. Pai e filha ficam grudados o tempo
inteiro e se dão às mil maravilhas. Não mais que de repente, Julia, agora uma importante advogada num escritório de Nova Iorque, aparece de
volta e se apega à filha que não conhecia, a ponto de querer tirá-la de Valentin.
Como se não bastasse, duas surpreendentes revelações acontecem no final, elevando
ainda mais o nível dramático da história, iniciando um chororô geral. Resumo da ópera,
aliás, do filme: ria bastante nos momentos engraçados, pois no final, se for
muito sensível, vai acabar em lágrimas. Portanto, assista com um pacote de
pipoca e uma caixa de lenços. quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Quando
menos a gente espera, eis que surge uma joia rara do cinema. Confesso que não
tinha referência nenhuma sobre “NINGUÉM ALÉM DE VOCÊ” (“Poupoupidou”), filme francês de 2011
dirigido por Geráld Hustache-Mathieu. Simplesmente uma delícia de filme,
inteligente, divertido e, como se não bastasse, com uma trilha sonora de premiar
os ouvidos – só como aperitivo: “California Dreamin”, com José Feliciano. A
história começa com o escritor de livros policiais David Rousseau (Jean-Paul
Rouve) chegando à cidade de Mouthe, na região de Franche-Comté, interior da
França, conhecida também como “A pequena Sibéria”. Ele foi notificado para
receber parte da herança de um tio recentemente falecido. Só que na cidade só
se fala na morte de Candice Lecouer, nome artístico de Martine Langevin (Sophie
Quinton), uma jovem loira que achava – e agia como tal - que era a reencarnação
da atriz Marilyn Monroe. Rousseau resolve, por conta própria, investigar a
morte da moça como forma até de inspiração para o seu novo livro. Rousseau
encontra o diário escrito por Candice. O filme transforma em flashbacks as
partes mais importantes do diário, fazendo Rousseau acreditar que a conclusão
de suicídio não passou de uma grande mentira. Apesar do tema e dos cenários
gélidos, o filme é todo realizado em tom de humor, mas um humor refinado e com diálogos inteligentes e impagáveis. É daqueles filmes irresistíveis. Tem ótimas sacadas, a principal delas, é claro, a criação da "cover" de Marilyn Monroe, interpretada pela espetacular Sophie Quinton. Outra é a interpretação cheia de ironia do escritor, o tempo inteiro com aquela expressão de sarcasmo. A cena inicial também é uma grande sacada: Rousseau está na estrada dirigindo seu carro e ouvindo uma música que adora. Quando ele entra num desvio, o sinal do rádio desaparece. Ele não tem dúvida: dá marcha-a-ré de volta à estrada para curtir o final da música. Finalmente um filme que dá enorme prazer em recomendar e afirmar “Não Perca!”.
“UM ANJO NO MAR”
(“Um Ange à La Mer”), 2008, direção de Frédérick Dumont, é um drama belga um
tanto depressivo e melancólico. Não chega a ser aquele tipo de “filme-cabeça”,
mas tem lá seus momentos de afetação, como citações entediantes de um poema de Baudelaire
e imagens no mar que você é obrigado a tentar decifrar a relação delas com a
história. O cenário do filme é uma cidade litorânea ao sul do Marrocos. Lá vive
Bruno (Olivier Gourmet), sua mulher (Anne Consign) e os dois filhos
adolescentes. Ao retornar de uma viagem à Itália, Bruno ingressa num período de
depressão profunda. Um dia, ele chama seu filho mais novo, Louis (Martin
Nissen), de 12 anos de idade, e confessa que naquela noite cometerá
suicídio. Bruno pede a Louis que não comente com ninguém. A partir daí, o
menino não faz outra coisa senão vigiar o pai o tempo inteiro, nem que para isso tenha que permanecer durante longos períodos empoleirado no topo de uma árvore que tem uma visão privilegiada do quarto onde está Bruno. Não se pode deixar de destacar o
trabalho de interpretação do jovem ator que interpreta Louis e o dos “veteranos”
Anne Consign e Olivier Gourmet. Foi o primeiro e único longa do diretor belga. O filme, evidentemente voltado para um público especial, é mais interessante do que bom. terça-feira, 26 de agosto de 2014
O
drama inglês “CINZAS” (“Ashes”), 2012, conta a história do jovem James (Jim Sturgess), que, depois de
anos, volta a procurar o pai Frank (Ray Winstone). James vai encontrá-lo num hospital
psiquiátrico. Frank sofre do Mal de Alzheimer, não conhece ou reconhece ninguém
e seu comportamento alterna períodos de calma e outos de extrema agressividade.
James resolve sequestrar Frank e os dois pegam estrada. A partir daí, o filme vira
um road movie muito louco. Num momento de total irresponsabilidade, James deixa
Frank dirigir o carro pela estrada. Depois de algumas situações engraçadas, o
filme volta ao drama e aí você começa a desconfiar que nem tudo o que está
vendo correspondente à verdade. Aos poucos, toda a situação vai sendo explicada
e você vai perceber que foi enganado o tempo todo. O desfecho é um tanto
inexplicável. Trata-se de um filme no mínimo curioso, intrigante. Mas só. O que
vale o filme, no entanto, não é a história em si, meio mirabolante, mas sim a fabulosa
interpretação de Ray Winstone como um doente de Alzheimer. Ele prova, mais uma
vez, por que é um dos melhores atores ingleses do momento. Segundo o diretor Mat
Whitecross, o personagem Frank foi baseado na própria história do seu pai, que
também foi portador da doença. segunda-feira, 25 de agosto de 2014
“WALT NOS BASTIDORES DE MARY POPPINS”, (tradução infeliz para “Saving Mr. Banks),
2013, conta a história verídica da visita da escritora australiana Pamela
Lyndon Travers, mais conhecida por P.L. Travers, aos Estúdios Disney em 1961.
Ela foi convidada pelo próprio Walt Disney, que há 20 anos tentava comprar de
Travers os direitos de “Mary Poppins”. Travers nunca cedeu, temendo que seu
romance fosse transformado, como ela dizia, num dos “desenhos bobocas” da
Disney. Durante a visita, a escritora, interpretada por Emma Thompson, mostra-se uma mulher mal-humorada, intransigente
e grosseira. Ao apresentar a Travers o roteiro, as músicas e como seriam
desenvolvidos os personagens, a equipe de Walt Disney (Tom Hanks) quase vai à loucura com
as interferências da escritora. O ambiente, que já era pesado, fica
insuportável quando Travers recusa a utilização de animação na cena em que Dick
Van Dyke dança com os pinguins. “Vocês que treinem pinguins de verdade”,
ordenava. Revoltada, ela não assina a cessão dos direitos e volta para a
Inglaterra, onde morava na época. Walt vai até Londres tentar convencê-la. O
resto todo mundo conhece. “Mary Poppins” foi lançado em 1964 e se transformou
num dos maiores sucessos mundiais da
Disney. Tão interessante quanto à
visita aos estúdios Disney é o enfoque dado, em flashbacks, ao
relacionamento de Travers com seu pai, Roberto Goff (Colin Ferrel), que sempre
incentivou a filha a inventar personagens
de fantasia. A influência do pai talvez
tenha sido a principal motivação de Travers para se tornar escritora.
“OS HOMENS SÃO DE MARTE... E É
PRA LÁ QUE EU VOU!”, 2013, direção de Marcos Baldini, é uma comédia
adaptada para o cinema da peça homônima que ficou em cartaz durante 8 anos nos
teatros brasileiros, sempre com grande sucesso de público. No filme, Fernanda é
novamente interpretada pela atriz Mônica Martelli, que esteve nos palcos como a
principal protagonista da peça (ela também é a autora). A história conta as
aventuras e desventuras amorosas de Fernanda, que é dona de uma empresa organizadora
de eventos especializada em casamentos. Ela tem 39 anos de idade, é bonita,
charmosa, alta, corpão... Enfim, um mulherão. Mas solteira. A frustração dessa
condição virou trauma e ela resolve partir para o ataque. Conhece alguns caras
promissores, fica toda animada, mas logo vem a decepção e a frustração. Todo
esse esforço para colocar uma aliança na mão esquerda é acompanhado pelos seus dois
assistentes na empresa, Aníbal (Paulo Gustavo) e Nathalie (Daniele Valente),
responsáveis pelos momentos mais engraçados do filme, que ainda tem no elenco
Eduardo Moscovis, Humberto Martins, Marcos Palmeira, Irene Ravache, Peter
Ketnath e Herson Capri. Comparada com outras comédias nacionais mais recentes, esta fica um pouco acima da média em termos de qualidade. Diversão garantida!
domingo, 24 de agosto de 2014
“PEDALANDO COM MOLIÈRE” (“Alceste
à Bicyclette”), 2013, dirigido por Phil ippe le
Guay, é daqueles filmes para se curtir e degustar com calma, apreciar os
diálogos inteligentes, cultos – sem pedantismo – e, acima de tudo, bem
humorados. Todos esses predicados fazem desse filme francês uma delícia de
assistir e saborear. Gauthier Valance (Lambert Wilson), um ator famoso em
evidência numa série de TV, vai até Île de Ré (as locações são lindas) tentar
convencer Serge Tanneur (Fabrice Luchini) a voltar aos palcos para atuar na
peça “O Misantropo”, de Molière. Afastado
dos holofotes há três anos, Serge era um grande ator de cinema e teatro. Ele
concorda em ensaiar a peça com Gauthier, mas não deixa claro se vai participar
ou não. Durante alguns dias, Serge e Gauthier terão uma convivência bastante
difícil. Em meio aos atritos, os dois protagonistas vão garantir momentos de
muito humor, alguns até hilariantes. Mas é nos diálogos inteligentes que o
filme se sobrepõe, lembrando o também ótimo “Conversas com meu Jardineiro”, com
outra dupla de atores franceses consagrados, Daniel Auteuil e Jean-Pierre
Darroussin. Os dois filmes são imperdíveis.
“BELÉM – ZONA DE CONFLITO” (“Bethlehem”),
2013, direção de Yuval Adler, é um drama israelense centrado na história de Sanfur
(Shhadi Marei), jovem palestino que há dois anos é informante do serviço
secreto de Israel. Ele foi cooptado pelo agente Razi (Tsahi Halevi), com o qual
mantém um relacionamento de amizade. As coisas se complicam quando o irmão mais
velho de Sanfur, Ibrahim, assume a autoria de um atentado à bomba que matou dezenas
de israelenses em Jerusalém. O filme mostra claramente que as facções que lutam
pela causa palestina não se entendem, embora tenham em comum um ódio mortal a
Israel. Algumas são radicais, outras moderadas. Só que divergem o tempo inteiro
sobre como devem agir. E acabam brigando entre si. Quando Ibrahim é assassinado
pelos soldados de Israel, por exemplo, duas facções disputam o cadáver à tapa, cada
qual querendo associar o “mártir” à sua sigla. Em meio a tudo isso, alguns
palestinos começam a desconfiar que Sanfur é colaboracionista. Ele terá de sujas as mãos de sangue para provar que não é. O clima de
tensão predomina durante todo o filme, mostrando que viver por aquelas bandas não é nada fácil. É caminhar todos os dias na corda bamba. Quando o filme termina, com tantas demonstrações de ódio de um lado e de outro, você tem a sensação mais do que evidente de que a paz nunca
chegará àquela região. Sempre será uma zona de conflito.
sábado, 23 de agosto de 2014
Vem da Romênia o ótimo drama “INSTINTO
MATERNO” (“Pozitia Copilului”), valorizado por uma estupenda atriz, Luminita
Gheorghiu. Ela interpreta Cornelia, uma dama da alta sociedade de Bucarest. Ela
tem um filho de 34 anos, Barbu (Godgan Dumitrache), um cara supermimado que
mora fora para fugir das garras possessivas da mãe. Uma noite, Barbu dirigia em
alta velocidade quando, ao ultrapassar outro veículo, atropela e mata um
menino. Barbu é detido numa delegacia para ser interrogado. Cornelia é avisada
e imediatamente vai para a delegacia. A partir daí, ela vai fazer de tudo –
mentir, chantagear, oferecer propina etc. – para livrar Barbu de um processo. Ela
trata Barbu como se fosse uma criança e este, por sua vez, a agride com impropérios
e ofensas, de vadia pra cima. É aí então que entra em cena a grande atriz. Ela
ouve o filho xingá-la com uma expressão tal de passividade que parece que não
está ouvindo nem se importando com que Barbu está dizendo. Cornélia tem uma
fixação obsessiva tão grande pelo filho que, quando vai até a casa dos pais do
garoto falecido pedir desculpas e se derrama em lágrimas, a gente fica em
dúvida se ela está sendo sincera ou fingindo. Com uma atriz como Luminita, fica
difícil saber. O filme, dirigido por Calin Peter Netzer, conquistou,
merecidamente, o Urso de Ouro no Festival de Berlim 2013.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Todo
mundo conhece os fatos que levaram Getúlio Vargas a cometer suicídio. O
presidente vivia uma enorme crise política, agravada por acusações de corrupção
e, principalmente, pelo atentato da Rua Tonelero, que matou um major da
Aeronáutica e feriu o então deputado federal Carlos Lacerda, na época o mais
ferrenho adversário do governo Vargas. O segurança pessoal do presidente,
Gregório Fortunato, foi acusado de planejar o crime e Vargas acabou acusado
como mandante, embora nada disso tenha sido provado. O drama histórico “GETÚLIO”, 2013, dirigido por João Jardim, conta tudo
isso e - o mais interessante - é que coloca o espectador nos bastidores da
crise, ou seja, diretamente nas salas do Palácio do Catete, então residência de
Getúlio e sede do seu governo. A gente acompanha as conversas de bastidores, as
reuniões ministeriais, os encontros de Getúlio com ministros, políticos e
assessores. O filme evidencia, com competência, todo aquele clima de tensão gerado pela grave crise - toda a ação ocorre durante os 19 dias anteriores ao suicídio. O filme dá destaque maior à presença de Alzira Vargas (Drica Moraes), filha do
presidente e sua principal conselheira. Tony Ramos faz um Getúlio fisicamente quase
perfeito, mas sua voz poderia apresentar outro tom (é muito a voz do ator) e
também acentuar mais o sotaque gaúcho do presidente. As filmagens aconteceram
no próprio Palácio do Catete, hoje um museu. No elenco, estão ainda Daniel
Dantas, Alexandre Borges, Clarisse Abujamra, Leonardo Medeiros, Jackson Antunes
e Marcelo Médici. quinta-feira, 21 de agosto de 2014
Não
é muito comum chegar até nós, seja no cinema ou em DVD, um filme produzido na
Islândia, cuja indústria cinematográfica é bem recente – anos 80. Vem de lá um
filme produzido em 2006 chamado “TRILHA FRIA” (“KÖLD SLÓO”, ou no inglês "Cold Trail"). Trata-se de um suspense dirigido
por Björn Br. Björnsson. A história é centrada em Baldur (Pröstur Leó
Gunnarsson), um jornalista investigativo de um jornal da capital Reykjavík.
Quando é noticiada a morte acidental de um homem encarregado da segurança de
uma usina de energia elétrica nos confins do deserto ártico islandês, vem à
tona um segredo do passado. A mãe de Baldur, por uma foto publicada no jornal, identifica
a vítima como sendo o pai do jornalista. É motivo suficiente para Baldur seguir
para a usina com o objetivo de investigar o que aconteceu. Segundo a polícia,
havia sido um acidente. Baldur, porém, vai descobrir fatos escabrosos
relacionados com o pessoal que trabalha na usina, inclusive caça ilegal e
contrabando de renas. Quando você pensa que o filme vai acabar, ainda haverá uma
reviravolta surpreendente no final, justamente esclarecendo o assassinato. Mas não se entusiesme muito: o filme não é
nenhuma Brastemp, apesar dos cenários gelados repletos de neve. Em todo caso,
vale pela curiosidade de assistir a um filme islandês.
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