quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A mente humana é capaz de criar obras artísticas espetaculares, mas também é capaz de criar muita bobagem. Nesta última categoria, incluo “SOB A PELE” (“Under the Skin”), 2013, um filme inglês de ficção científica dos mais esquisitos. Nem a nudez frente e verso de Scarlett Johansson é capaz de salvar esse abacaxi. Ela é uma alienígena que chega à Terra e ocupa o corpo de uma mulher. No volante de uma van, ela percorre ruas e estradas da Escócia, oferecendo carona para homens que depois serão atraídos por ela para uma casa abandonada. Lá dentro, ela tira a roupa e eles vão atrás, babando e também se despindo, mas aí submergem dentro de uma água escura. Numa noite, ela dá carona a um homem todo deformado, tipo “Homem-Elefante”, e sente algo por ele que é humano: pena. A partir daí, não consegue mais cumprir sua missão. Há várias situações inexplicáveis, como um motoqueiro que passa o filme inteiro indo de lá pra cá, ou o afogamento de uma mulher e o filho numa praia. Scarlett Johansson continua insossa, mas tem um corpão, isso não se pode negar. A história foi baseada no romance homônimo de Michel Faber. Se por acaso você ler uma crítica elogiando o filme, lembre de uma frase do crítico Rubens Ewald Filho: “Crítico adora o que não entende”
O drama inglês “LOCKE”, 2013, dirigido por Steven Knight, que também escreveu o roteiro, não é um filme muito fácil de assistir. A não ser que você não se incomode em passar duas horas vendo um homem falando ao telefone o tempo inteiro. E, pior, ao volante de um carro por uma estrada. Ivan Locke (Tom Hardy), engenheiro-chefe de uma grande obra na cidade inglesa de Birmingham, entra em seu carro após o final do turno de trabalho. Ele recebe um telefonema de Bethan (Olivia Colman), uma mulher com a qual, meses antes, teve um caso de uma noite. Ela diz que está grávida e, naquele exato instante, está indo para um hospital em Londres, onde mora, e pede que Locke esteja ao lado dela quando o bebê nascer. Ele concorda em ir. Durante a viagem, Locke fala sem parar ao telefone, seja com seu chefe na obra, com o seu encarregado, com sua mulher, seu filho, e ainda conversa hipoteticamente com o pai, responsabilizando-o por todos os seus traumas. É um blá-blá-blá sem fim. O filme dura o tempo real da viagem de Locke até Londres. Teve crítico que adorou, achou uma obra-prima. Arrisque se quiser, mas já está avisado(a). 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

“DUAS VIDAS” (“Zwei Leben”), 2013, é uma co-produção Alemanha/Noruega, direção de George Maas. Trata-se de um drama com enredo bastante complicado. O ano é 1990, portanto, logo depois da queda do muro de Berlim. Katrine (Juliane Köhler) leva uma vida tranquila na Noruega ao lado da família. Um dia, porém, recebe a visita do advogado Sven Solbach (Ken Duken), que está entrando com um processo judicial contra o governo norueguês por um fato que ocorreu no final da 2ª Guerra Mundial: a liberação de bebês concebidos por norueguesas e soldados alemães para a Alemanha. Pronto, a vida de Katrine vira do avesso. O advogado tem provas de que ela é uma dessas crianças e quer o seu depoimento no tribunal. Katrine, porém, quer se manter fora do processo, pois tem medo de que segredos do seu passado sejam revelados. Em flashbacks, ela vai relembrando tudo o que aconteceu desde a sua fuga da Alemanha Oriental, incluindo fatos tenebrosos que não podem vir à tona, pois podem colocar sua vida e a da sua família em grande risco. “DUAS VIDAS” lembra muito aqueles filmes de espionagem que contam histórias do tempo da Guerra Fria envolvendo os países da Cortina de Ferro. Além da ótima Juliane Köhler, o elenco traz Liv Ullmann e Suen Mordin. O filme foi indicado para representar a Alemanha no Oscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro.    
O drama turco “A PARTÍCULA” (“Zerre”), 2012, dirigido por Erdem Tépegöz, é pra lá de pesado, baixo astral, muito longe, mas muito longe mesmo, de um filme que possa ser chamado de entretenimento. O pano de fundo é a crise econômica na Turquia, o desemprego, a falta de opções e muita pobreza. Zeynep (a excelente Jale Arikan) é uma mulher bem sofrida, mãe solteira, mora com a mãe e a filha deficiente num bairro pobre do subúrbio de Istambul. Trabalha numa fábrica, mas o que ganha não dá nem pra comer. Ela e a mãe ainda fazem sachês perfumados para vender, mas a renda é quase nada. Ela tem a ajuda diária do irmão, que trabalha num restaurante e faz uma marmita com as sobras dos clientes e dá a Zeynep. Como desgraça pouca é bobagem, Zeynep é demitida da fábrica. E não é o tipo de demissão “passa no RH”. Ela é literalmente empurrada aos trancos para fora da fábrica, sem receber um tostão, ou melhor, lira turca. Desesperada, ela passa a procurar emprego e acaba conseguindo um trabalho temporário numa fábrica têxtil longe de Istambul, onde deverá permanecer por alguns dias. Na fábrica, ela é assediada sexualmente pelo seu chefe e foge de volta para Istambul. O desfecho do filme deixa claro que não há perspectiva para Zeynep e a família senão o sofrimento e a penúria. A atriz Jale Arikan é a alma do filme, que foi eleito como o melhor do Festival de Cinema de Moscou em 2013.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

“VIVER É FÁCIL COM OS OLHOS FECHADOS” (“Vivir es Facil com los Ojos Cerrados”), Espanha, 2013, dirigido por David Trueba (irmão do também cineasta Fernando Trueba), é baseado numa história real. Aliás, uma história bastante interessante. O ano é 1966. Antonio (Javier Câmara) é um professor de inglês em Albaceta e que, apaixonado pelos Beatles, utiliza em suas aulas as letras das canções da banda inglesa. Quando soube que John Lennon viria à Espanha para a Almeria (Andaluzia) participar das gravações do filme de “Como Eu Ganhei a Guerra”, dirigido por Richard Lester, ele pegou seu carro e rumou para Almeria, onde estava instalado o set das filmagens. Ele queria, de qualquer jeito, conhecer Lennon pessoalmente. No caminho, Antonio dá carona a dois jovens, Juanjo (Fracesc Colomer) e Belén (Natalia de Molina), com os quais dará sequência à viagem e fará uma singela amizade. Depois de muito esforço, Antonio finalmente consegue conversar com Lennon, que lhe mostra uma canção que acabara de compor: “Strawberry Fields Forever”. Segundo consta, Lennon realmente compôs a música inspirado nas plantações de morango existentes ao redor de Almeria (o título do filme é um trecho da letra da música). Dizem também que foi somente depois da conversa de Lennon com o professor espanhol que os Beatles resolveram encartar as letras das músicas nos seus próximos discos. Todos esses fatos realmente aconteceram, inclusive o filme com Lennon, o que torna este filme espanhol ainda mais saboroso. Não foi à toa que conquistou todos os principais prêmios da 28ª edição do Prêmio Goya, o Oscar espanhol.    

domingo, 17 de agosto de 2014

“CHE” foi um projeto audacioso – co-produção França/Espanha/EUA - que tinha por objetivo retratar a trajetória do médico e guerrilheiro argentino Ernesto “Che” Guevara. O diretor Terrence Malick quase ficou com o filme (ainda bem que não), que enfim foi dirigido por Steven Soderbergh em 2007. Com mais de quatro horas de duração e dividido em duas partes (Parte 1: “O Argentino” e Parte 2: “A Guerrilha”), o filme estreou no Festival de Cannes em 2008 e deu o prêmio de Melhor Ator a Benício Del Toro, realmente impressionante na pele de Che. O elenco ainda conta com Demián Bichir, ótimo como Fidel Castro, Rodrigo Santoro, como Raúl Castro, e mais Franka Potente, Joaquim de Almeida, Julia Ormond, Catalina Sandino Moreno e Lou Diamond Phillips, além de Matt Damon, que faz uma ponta. A primeira parte centra a história na revolução que derrubou o ditador Fulgêncio Batista do governo de Cuba. A segunda parte é toda voltada para a presença de Che na Bolívia, onde liderou uma guerrilha armada até ser morto pelos soldados do exército boliviano, em outubro de 1967. Quem quiser conhecer a trajetória dessa figura mítica não deve perder essa grande obra histórica do cinema.   
Em 2003, o menino Colton, de 4 anos de idade, filho de um pastor de uma pequena cidade do Estado de Nebraska (EUA), é operado de emergência por causa de uma crise de apendicite. O estado dele é tão grave que poucos acreditam que fosse viver. Mas viveu. E, quando acordou, disse que esteve no Céu, viu os anjos, conversou com Jesus e com outras pessoas que já haviam morrido – que ele nem sabia que tinham existido. Uma experiência do tipo “quase morte”. O relato do garoto revela-se surpreendente pelos detalhes. Quando ouve o filho descrever o que viu no Céu e com quem conversou, o pastor coloca em cheque a sua própria fé, dividindo suas dúvidas com a comunidade, o que quase lhe custou o cargo na igreja. Essa história virou livro de grande sucesso e, agora, um filme, “O CÉU É DE VERDADE” (“Heaven is for Real”), que arrastou multidões para os cinemas nos EUA quando foi lançado, no início de 2014. O filme conseguiu reunir uma equipe de atores e atrizes de peso, como Greg Kinnear (pastor Todd Burpo), Kelly Reilly (Sonja Burpo), Margo Martindale (Nancy) e Thomas Haden Church (Jay), além do diretor Randall Wallace (“O Homem da Máscara de Ferro”). O menino Colton é vivido pelo ator mirim estreante Connor Corum. Enfim, um filme para discutir, refletir e testar a nossa fé.    

sábado, 16 de agosto de 2014

“ATÉ QUE PROVEM A INOCÊNCIA” (“Until proven innocent”), 2009, é um telefilme produzido na Nova Zelândia. Conta a história, verídica, de um grave erro judiciário ocorrido naquele país nos anos 90. David Dogherty, aqui interpretado por Cohen Holloway, foi acusado e condenado em 1993 pelo sequestro e estupro de uma menina de 11 anos. O caso aconteceu na cidade de Auckland. Enquanto cumpria pena, ele foi entrevistado pela jornalista Donna Chisholm (Jodie Himmer), do jornal Sunday Star-Times. Ao conhecê-lo, Donna acreditou que Dogherty estava sendo vítima de um erro judiciário e mobilizou o advogado Murray Gibson (Peter Elliott) para tentar uma apelação para um novo julgamento. O caso ainda envolveu o cientista Arie Geursen (Tim Spite), que analisou a condenação explorando a versão controversa do DNA encontrado na menina. No fim, a comprovação daquele velho ditado: “A Justiça tarda, mas não falha”. Fora o interesse por conhecer um caso que certamente não chegou ao nosso noticiário, e por retratar um grave erro judiciário, o filme deve ser indicado para estudantes de Direito. Até pelo seu tom didático ao apresentar como funciona o sistema judiciário da Nova Zelândia. 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O australiano “O FOGUETE” (“The Rocket”), 2013, é mais um daqueles filmes que nos encantam e nos emocionam. É o filme de estreia do diretor Kim Mordaunt, que consegue extrair, de um cenário de extrema pobreza que é o interior do Laos e de uma história envolvendo camponeses no limite da miséria, momentos de grande sensibilidade e até de bom humor. Só pra se ter uma ideia, a trilha sonora traz o balanço de James Brown. Essa grande sacada tem tudo a ver com o hilariante personagem Purple (Thep Phongam), uma espécie de cover do cantor americano. Vestido com um terno lilás – que nunca tira do corpo - e com o penteado igual ao de Brown, ele é o responsável pelos momentos mais engraçados do filme. A história gira em torno do menino Ahlo (Sitthiphon Disamoe), cuja família – juntamente com dezenas de outras - é obrigada a sair da vila onde mora por causa da construção de uma represa. Eles são levados para outra região e lá são alojados num acampamento improvisado e em condições quase sub-humanas. É lá que Ahlo vai conhecer Kia (Loungnam Kaosainam), uma gracinha de menina com a qual fará uma grande amizade (o tio de Kia é justamente o tal cover do James Brown). No final, o filme reserva espaço para um concurso de foguetes, uma tradição local para “chamar” chuva. Ahlo vai participar, com a ajuda de Purple, e tentar ganhar o prêmio em dinheiro. Além de ter representado a Austrália no Oscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro, “O FOGUETE” foi premiado em Festivais como o de Berlim, Tribeca, Sidney e Melbourne. Mais do que imperdível, um filme obrigatório. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

“METEORA” (“Metéora”), 2012, é um drama grego de fundo religioso que explora pecado e culpa ao apresentar uma paixão proibida. Não é um filme para qualquer público. É contemplativo, arrastado e com poucos diálogos. Em meio a citações bíblicas e efeitos de animação, o filme conta a história de dois religiosos – o monge Theodoros (Theo Alexander) e a freira Urania (a atriz russa Tamila Koulieva) – que moram em monastérios da Igreja Cristã Ortodoxa na  região central da Grécia chamada Meteóra. Eles se encontram secretamente para conversar e rezar, mas a tentação da carne é mais forte, e aí ninguém segura. De início, Urania consegue rejeitar os avanços de Theodoros, mas depois se entrega de corpo e alma à paixão. Os protagonistas são também representados por figuras de animação criadas ao estilo da arte bizantina, criadas pelo diretor Spiros Stathoulopoulos para complementar a narrativa. A trilha sonora é composta por cantos gregorianos, o que reforça ainda mais o sentido religioso da história. “METEORA” foi exibido no Festival de Berlim 2012 e arrancou elogios de muitos críticos. Mas repito: não é um filme que se possa chamar de entretenimento leve.   

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

“UMA VIDA COMUM” (“Still Life”), 2013, é um drama inglês bastante interessante. John May (Eddie Marsan) trabalha para uma repartição pública municipal de Londres e sua função é localizar familiares e amigos de pessoas que morrem sozinhas. Muitas vezes ele não encontra ninguém que tenha relação com o falecido, mas faz questão de promover um funeral digno, redigindo ele mesmo o obituário e também o discurso funerário.  Para elaborar o perfil do morto e redigir o discurso, ele estuda fotos e objetos encontrados na casa do falecido. May sempre vai à cerimônia. Enfim, um homem bom, que extrapola suas obrigações de trabalho para homenagear os mortos que nunca conheceu. Pessoalmente, porém, May é solitário e triste. Não tem família nem amigos. Ao iniciar a investigação sobre um homem chamado Billy Stoker, May é demitido, mas pede a seu chefe que este seja seu último trabalho. E a este May dedica-se de corpo e alma, localizando amigos e familiares. O final do filme reserva um acontecimento surpreendente e, no desfecho, uma cena bastante comovente. Enfim, um filme que vale a pena conferir. O diretor do filme é o italiano Uberto Pasolini, que não tem parentesco com Pier Paolo, mas é sobrinho do grande diretor Luchino Visconti. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O drama “O CADERNO GRANDE” (“A NAGY FÜZET”), dirigido por János Szász, foi o candidato oficial da Hungria na disputa do Oscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro. A história é baseada no livro escrito por Ágota Kristof. Em 1944, em meio à invasão do país pelos alemães, mãe leva seus dois filhos gêmeos de 12 anos de idade para morar com a avó numa pequena fazenda no interior da Hungria. Os dois garotos vão sofrer o diabo nas mãos da avó, uma velha azeda e mal-humorada, cujo maior prazer na vida é embebedar-se toda a noite e xingar o marido falecido. Ela chama os netos o tempo inteiro de “bastardos” e todo dia de manhã adora dar uns safanões nos garotos, que adoram chamá-la de bruxa. Os dois gêmeos não se desgrudam por um só minuto e é essa união que fará com que eles consigam sobreviver não só aos maus-tratos da avó, como a outras situações difíceis aos quais são submetidos. Aliás, desde o começo do filme os gêmeos apanham muito, a tal ponto que resolvem bater um no outro para se acostumar com a dor. O filme é altamente depressivo e melancólico. Crianças em cenários de guerra sempre aumentam a dramaticidade da história. O tal “caderno grande” é um tipo de diário que os meninos escrevem todas as noites contando os acontecimentos do dia. Não adianta citar o elenco, composto por ilustres desconhecidos, pelo menos para nós. Mas há que se destacar o desempenho dos dois garotos e, principalmente, da atriz que faz a avó. Esta sim, vale a pena citar: Piroska Molnár.     

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

“CÍRCULOS” (“KRUGOVI”), 2012, é uma co-produção Sérvia/Croácia/Alemanha, dirigida por Srdan Glolubovic. Trata-se de um drama bastante pesado sobre culpa e perdão. O filme começa em 1993, em plena guerra étnica na Bósnia. O soldado sérvio Marko (Vuk Kostic) está de folga e volta ao seu vilarejo para visitar a família. Quando está na praça bebendo com um amigo, ele vê três soldados espancando Haris (Leon Lucev), um comerciante muçulmano que ele conhece faz tempo. Marko sai em defesa de Haris, consegue impedir que os soldados o matem. Só que Marko é brutalmente agredido pelo trio e acaba morrendo no meio da praça. Quinze anos depois, as feridas desse episódio continuam abertas para cinco personagens que, de uma forma ou de outra, tiveram relação com o crime ou eram ligadas a Marko, desencadeando as mais variadas situações. Bogdan (Nikola Rakocevic), um dos assassinos de Marko, é internado num hospital em estado grave e será atendido pelo dr. Nebojsa (Nebojsa Glogovac), que era o melhor amigo de Marko. Outra história vai envolver Nada (Hristina Popovic), viúva de Marko, que viaja até a Alemanha para pedir ajuda a Haris, o muçulmano que seu marido salvou do espancamento. A outra história vai colocar frente a frente o pai de Marko e o filho de um dos assassinos. O “Círculos” do título, portanto, faz referência às voltas que a vida dá e as coincidências e encontros que proporciona. Exibido na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e premiado em vários festivais pelo mundo afora, o filme representou a Sérvia no Oscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro. Um filme difícil, mas de grande impacto emocional.            

domingo, 10 de agosto de 2014

O drama independente norte-americano “MARGARET”, dirigido por Kenneth Lonergan, foi produzido em 2006, mas somente lançado em 2011. Dizem que por causa de ações judiciais, cujos motivos não foram divulgados. É um filme, no mínimo, intrigante. A começar pelo título, pois não há personagens com este nome. “Margaret”, na verdade, é um nome apenas mencionado num poema durante uma aula de literatura. A história gira em torno de Lisa Cohen (Anna Paquin), uma estudante de 17 anos que um dia, ao tentar chamar a atenção de um motorista de ônibus numa avenida movimentada, acaba provocando um acidente com morte. Com medo de prejudicar o motorista do ônibus, ela mente em seu depoimento à polícia e mais tarde quer voltar atrás. Esse contexto envolvendo Lisa serve como pano de fundo para inúmeras situações paralelas, a principal delas mostrando o relacionamento difícil de Lisa com a mãe Joan (a ótima J. Smith-Cameron). No filme inteiro, as duas travam verdadeiras guerras verbais. Uma diz uma coisa, a outra entende diferente, e vice-versa. E tudo acaba numa gritaria infernal. Diálogos desse tipo, descontrolados e agressivos, permeiam o filme inteiro envolvendo diversos personagens, o que pode incomodar quem está a fim de um entretenimento leve. O pessoal não se entende, e dá-lhe discussão. É um filme longo (150 minutos). Mas não deixa de ser um filme acima da média. Além de Paquin e J. Smith-Cameron, estão no elenco Mark Ruffalo, Matt Damon, Jean Reno, Matthew Broderick e Allison Janney, entre outros.
Às vésperas das eleições presidenciais de 1950 na Colômbia, o candidato favorito Jorge Elicier Gaitán, do Partido Liberal, é assassinado a tiros quando saía de seu escritório. O caso provocou uma grande comoção no país e foi chamado de “El Bogotazo”. Este é o pano de fundo do filme colombiano “ROA”, 2012. A figura central do filme é Juan Roa Sierre, pai de família desempregado e que tem como ídolo o candidato Gaitán (Santiago Rodréguez). Ele o procura pessoalmente e diz estar passando por sérias necessidades e pede que o ajude arrumar um trabalho. O político trata Roa com arrogância, diz não poder fazer nada e lhe dá três berinjelas como compensação. Decepcionado com o tratamento, Roa passa a ter raiva de Gaitán, a ponto de planejar seu assassinato. A situação se complica ainda mais quando um grupo rival a Gaitán descobre as intenções de Roa e passa a chantageá-lo, colocando em risco a vida da sua família. Baseado no livro “O Crime do Século”, de Miguel Torres, o filme coloca em dúvida a culpa de Roa pelo assassinato. Um mistério histórico que perdura até hoje. Além da história em si, que recoloca em evidência um fato importante na história política da Colômbia, há que se destacar o capricho na reconstituição de época, muito bem feita. O filme é dirigido por Andrés Baiz, o mesmo de “O Quarto Secreto” (“La Cara Oculta”), um dos melhores suspenses dos últimos anos. O elenco conta ainda com Catalina Sandino Moreno, colombiana que concorreu ao Oscar/2005 de Melhor Atriz pelo filme "Maria Cheia de Graça". Aqui, ela faz o papel de esposa de Roa. 

sábado, 9 de agosto de 2014

 

“Traição Perigosa” (“The Kate Logan Affair”), 2010, direção de Noël Mitrani, é um drama policial canadense baseado numa história verídica ocorrida em 2002 na Província de Alberta (Canadá). Kate Logan (Alexis Bledel) é uma policial novata que um dia aborda e algema um homem cujas características físicas são iguais a de um estuprador procurado na região. O homem se identifica como Benoit Gando (Laurent Lucas), um executivo francês de uma empresa de seguros que está no Canadá para participar de um seminário de negócios. Ele está dizendo a verdade e Kate fica toda sem graça. Como pedido de desculpas, convida Benoit para um drink. Eles acabam tendo um caso, mais por insistência dela, pois ele diz que é casado e jamais trairia a mulher. Kate, porém, é do tipo “atração fatal” e insiste em assediar o francês (recusar a gracinha Alexis Bledel também seria demais). Só que um dia acontece um acidente com a arma de Kate e a situação se complica, pois hóspedes do motel ligam para a polícia depois de ouvirem o disparo. Com medo de perder o emprego na polícia, Kate foge com Benoit. Durante a fuga, ela elabora e executa um plano audacioso para salvar a própria pele. Não dá para comentar mais para não estragar a reviravolta trágica no final. Um filme mediano que pode ser visto mais pelo interesse da história. Aliás, nos créditos finais faltou a informação de como ficou a situação dos envolvidos no caso depois de tudo o que aconteceu.    

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

“INVASOR” é um drama espanhol de 2012 dirigido por Daniel Calparsoro. A temática já foi abordada por dezenas de outros filmes, principalmente norte-americanos: soldados voltando da guerra feridos, a maioria sofrendo de stress pós-traumático e, muitas vezes, obrigados a guardar segredo sobre algum fato tenebroso. Pablo (Alberto Ammann) e Diego (Antonio de La Torre), médicos do exército espanhol em missão humanitária no Iraque em 2003, voltam para casa feridos – Pablo em estado grave – e são tratados como heróis. A história que chega à opinião pública, transmitida por fontes do exército espanhol, é a de que eles conseguiram descobrir um arsenal de armas e eliminar os terroristas da aldeia, sendo depois resgatados por soldados norte-americanos. Mas não foi bem assim que aconteceu. Pior: Pablo e Diego ainda testemunharam uma execução de civis iraquianos. Segundo ordens vindas do governo espanhol, eles devem ficar quietos e concordar com a história. Só que Pablo, mesmo sabendo que poderá perder a pensão do exército e colocar em risco a vida de sua família, resolve contar a verdade e muito mais, o que inclui um vídeo feito por celular da tal execução. As cenas da ação no Iraque até que foram bem feitas, conseguindo transmitir aquela tensão própria das situações de guerra. Mas lá perto do final, quando filmam uma perseguição de carros e uma troca de socos, era melhor ter convocado o pessoal de Hollywood. Isso não quer dizer que o filme é ruim, pois garante o suspense até o final.  Estão ainda no elenco a atriz Inma Cuesta, de “Blancanieves”, e Karra Elejalde. 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

“15 Anos e um Dia” (“15 Años y um Día”), 2012, direção de Gracia Querejeta. Começa o filme e você acha que vai assistir a uma comédia juvenil. Ledo engano. A partir da sua metade, esta produção espanhola vira um drama e, no final, um misto de suspense e policial, com direito a um assassinato e a uma reviravolta típica desses gêneros perto do desfecho. Jon (Aarón Piper), de 15 anos, é um terror. Sua mãe Margo (Maribel Verdú) não aguenta mais os aprontos do garoto, o que inclui envenenar o cachorrinho do vizinho e atazanar a vida dos professores da escola. Ela vai aguentando a barra até o dia em que Jon é expulso do colégio. No ato da expulsão, o diretor da escola diz a Margo – que é viúva – que o adolescente está precisando da autoridade de um homem. Margo, então, decide enviar Jon para passar uns tempos com o avô Max (Tito Valverde), um ex-oficial linha dura do exército espanhol que mora num vilarejo à beira-mar. A relação com o avô não vai contribuir para uma mudança no comportamento de Jon, que logo se envolve com alguns jovens delinquentes do local. A trama prende a atenção, mas poderia ter um desfecho mais bem elaborado, quem sabe com alguma mensagem de aprendizado por parte do garoto sobre tudo o que aconteceu. Mas não deixa de ser uma boa opção de programa.                

terça-feira, 5 de agosto de 2014

“Piedade” (“Gnade”), 2012, é uma co-produção Alemanha/Noruega dirigida por Mathias Glasner. Trata-se de um drama pesado, triste e um tanto depressivo. Mas, sem dúvida, um filme bem feito e de muito impacto. Para tentar salvar o casamento em crise, Niels (Jürgen Vogel) e Maria (Birgit Minichmayr) resolvem sair da Alemanha para tentar uma vida nova na Noruega. Mudam-se com o filho adolescente Markus (Henry Stange) para a pequena cidade de Hammesrfest, à beira do Oceano Ártico, onde, em novembro, dezembro e janeiro, o sol não aparece por lá e a noite dura, portanto, 24 horas. Um frio danado, paisagens brancas e gélidas (a fotografia do filme é um dos destaques). Niels vai trabalhar numa usina de gás natural e logo arruma uma amante. Maria arruma emprego como enfermeira na ala de pacientes terminais do hospital local. Na escola, Markus escolhe a companhia de um dos piores alunos. Como se tudo isso não bastasse, quando volta de um plantão, cansada e com sono, Maria bate com o carro em algo que pensa ser um animal e, por causa da escuridão, decide não parar para verificar. Só depois é que vai ficar sabendo que atropelou uma jovem de 16 anos, que morreria logo em seguida. Maria, junto com o marido, vai carregar essa culpa o filme inteiro. E, nesse ponto, vale destacar o excelente trabalho da atriz Birgit Minichmayr e do ator Jürgen Vogel. O filme estreou, fora de competição, no Festival de Berlim 2012.                 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

“S.O.S. Mulheres ao Mar”, 2013, direção de Cris D’Amato, é diversão pura, um ótimo programa para relaxar. Adriana (Giovanna Antonelli), tradutora de filmes pornô, vai buscar o marido Eduardo (Marcello Airoldi) no aeroporto. No caminho de volta para casa, ela nota que ele está estranho e pergunta o que está acontecendo. “Eu quero me separar”, diz Eduardo de supetão. Adriana entra numa enorme depressão e é consolada pela irmã Luiza (Fabíola Nascimento) e por sua empregada Dialinda (Thalita Karauta). Até que um dia elas lêem uma notícia no jornal que anuncia a viagem de lua-de-mel da estrela de TV Beatriz (Emanuelle Araújo) com o novo marido, justamente Eduardo, o ex de Adriana. A viagem compreende um cruzeiro pelo Mediterrâneo. Adriana, Luiza e Dialinda embarcam no navio com o objetivo de complicar a lua-de-mel dos dois, o que dá margem a muitas situações hilariantes. Adriana também vai conhecer André (Reynaldo Gianecchini), um estilista de moda que está fazendo a viagem para refletir sobre uma decisão importante que terá de tomar. O time de mulheres do elenco dá show, principalmente Fabíola Nascimento, bem à vontade como a espevitada e assanhada Luiza. O destaque maior do filme, porém, fica por conta dos cenários deslumbrantes, principalmente quando os protagonistas passeiam por Roma e Veneza. Fazia tempo que eu não via um filme brasileiro com um visual tão bonito.               

domingo, 3 de agosto de 2014

“Bem-Vindo a Nova Iorque” (“Welcome to New York”), 2014, é mais um filme polêmico do diretor norte-americano Abel Ferrara. Ele apresentou o filme no Festival de Cannes e afirmou que a história é ficcional, embora inspirada no escândalo que envolveu o então diretor-geral do FMI e candidato ao governo francês Dominique Strauss-Kahn em 2011, acusado e preso por ter assediado sexualmente uma camareira do hotel em que estava hospedado, em Nova Iorque. No filme de Ferrara, o personagem principal ganhou o nome de Devereaux (Gérard Depardieu) e é apresentado como um maníaco sexual dado a participar de orgias (a primeira meia-hora do filme é dedicada a elas) e a atacar desde aeromoças, recepcionistas e jornalistas. Um promíscuo de marca maior. Mas quando atacou a camareira no hotel em Nova Iorque, a turma da algema o colocou atrás das grades. Embora tudo provado, ele ainda recebeu o apoio da mulher Simone (Jacqueline Bisset) e da filha Sophie (Marie Monté). Logo que o filme foi apresentado em Cannes, Dominique Strauss-Kahn entrou com processo contra o diretor Ferrara. Além de toda polêmica que envolve o filme, há que se destacar o desempenho de Depardieu, que aparece completamente nú (frente e verso) em diversas cenas, um visual grotesco que o grande ator não teve medo de esconder. Não resta dúvida de que é um filme de grande impacto, como quase todos de Ferrara.             
“O Sétimo Andar” (“Séptimo”), 2013, dirigido por Patxi Amezcua, é um filme de suspense reunindo Ricardo Darín, o “Messi” do cinema argentino, e a atriz espanhola Belén Rueda. A história começa com o advogado Sebastián (Darín) indo buscar os filhos no edifício onde mora sua ex-mulher Delia (Belén Rueda). As crianças pedem para descer de escada, enquanto ele vai de elevador. Só que, quando Sebastián chega ao térreo, se dá conta de que as crianças sumiram no meio do caminho. O advogado se desespera com a situação, mobiliza a polícia, invade apartamentos sem mandado, chega a confrontar até mesmo um delegado de polícia que mora no prédio. O que será que aconteceu com as crianças? Não dá para contar mais para não estragar as surpresas do filme. Desde o início, porém, é preciso ficar atento a alguns detalhes que no final serão decisivos para desvendar o mistério. Um interessante jogo de adivinhação para o espectador. O clima de suspense predomina quase até o final, acompanhando a estressante situação de Sebastián, que somente no desfecho encontrará a surpreendente verdade dos fatos. O desfecho do filme, porém, é decepcionante.