“O ESCÂNDALO” (“BOMBSHELL”), 2019,
EUA, 1h49m, direção de Jay Roach, com roteiro de Charles Randolph. A história é
baseada em fatos reais, ou seja, nas denúncias de funcionárias da gigante Fox
News, em 2016, contra o chefão Roger Ailes, fundador e CEO da empresa. O filme
mostra que há muitos anos Ailes (John Lithgow) obrigava as mulheres a se
submeter a seus caprichos sexuais. Caso contrário, não encontravam lugar na
empresa. Entre elas, as principais âncoras, repórteres e jornalistas. Uma
delas, porém, resolveu denunciar Ailes depois de ser demitida. Gretchen Carlson
(Nicole Kidman) contratou advogados para processar o CEO da Fox. No vácuo dessa
primeira denúncia, outras funcionárias da Fox News ingressaram com novos
processos. Megyn Kelly (Charlize Theron) foi uma delas. Outra personagem
importante no filme é a jornalista Kayla Pospisil (Margot Robbie), também
vítima do tarado. Em meio a todo esse escândalo, que ocupou com destaque o
noticiário norte-americano em 2016, o filme destaca a influência do partido
republicano nos meios de comunicação. Na Fox News, por exemplo, não se podia
falar mal de Donald Trump, então candidato à presidência. Esse talvez seja um
dos aspectos mais interessantes do filme, que ainda conta no elenco com as
presenças de Connie Britton, Allison Janney e Kate McKinnon. Mas o destaque
principal, sem dúvida, é o trio das protagonistas principais, Charlize Theron, Nicole
Kidman e Margot Robbie, atrizes que, além de bonitas, são muito competentes.
Theron, quase irreconhecível por causa da maquiagem, cabelo e lentes de contato,
foi indicada ao Oscar 2020 como Melhor Atriz. A australiana Margot Robbie
também foi indicada como Melhor Atriz Coadjuvante. Ela é, na minha opinião, a
atriz mais bonita do cinema atual. E a também australiana Nicole Kidman está
muito bem no papel da âncora que resolve fazer a primeira denúncia. Outra
indicação recebida pelo filme para a disputa do Oscar 2020 é a de Melhor Cabelo
e Maquiagem. Resumo da ópera: “O Escândalo” é um bom filme, mas poderia ser muito
melhor. O que o valoriza, além do trio de atrizes, é o fato de ter sido baseado em acontecimentos reais.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020
terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
“O FAROL” (“THE LIGHTHOUSE”), 2019,
Estados Unidos, 1h50m, direção de Robert Eggers (“A Bruxa”), que também assina
o roteiro com a colaboração de seu irmão Max Eggers. A história, ambientada no
final do século XIX e inspirada em fatos reais, é centrada na relação entre o experiente faroleiro Thomas
Wake (Willem Dafoe) e seu assistente Ephraim Winslow (Robert Pattinson). Os
dois são enviados a um rochedo distante da costa para cuidar de um farol, Wake
como faroleiro e Winslow como zelador do local. Enquanto cada um cuida de sua
função específica, o confinamento e a solidão começam a afetar a dupla. Passam
a se xingar, discutem por qualquer motivo e tomam bebedeiras homéricas. Winslow,
em especial, tem alucinações sobrenaturais, evocando monstros marinhos e até
uma sereia (a modelo Valeriya Karaman). A situação se complica ainda mais
quando uma violenta tempestade no mar impede que o navio de suprimentos chegue
ao rochedo. Filmado em preto e branco (a fotografia, de Jarin Blaschke, foi
indicada para disputar o Oscar 2020), “O Farol” não é um filme de fácil
digestão. É lúgubre, tenebroso, violento, escatológico, um misto de drama,
suspense, terror e fantasia. E também verborrágico demais, com os diálogos e longos monólogos falados no inglês antigo, difícil de entender. A entonação utilizada pelos
atores é bastante teatral, assim como o texto, que lembra as peças trágicas dos
dramaturgos de antigamente. O filme estreou durante o 72º Festival
Internacional de Cinema de Cannes em maio de 2019, arrancando muitos elogios da
crítica especializada. Recomendo assistir exclusivamente pela ótima atuação dos
atores (principalmente Pattinson, o que para mim é surpresa, pois sempre o
considerei um ator muito fraco; Dafoe está ótimo como sempre) e também pela fotografia em p/b, claramente inspirada pelo cinema expressionista alemão da primeira
metade do século passado.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
Vencedor de dois prêmios no
Globo de Ouro (Melhor Filme de Drama e Melhor Diretor) e indicado em 10
categorias para disputar o Oscar 2020, entre os quais Melhor Filme, Melhor
Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia, “1917” é mais
um excelente filme da ótima safra 2019 do cinema mundial. Trata-se de um
épico de guerra ambientado durante a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) e conta a
história de dois jovens soldados ingleses, os cabos Schofield (George Mackay) e
Blake (Dean-Charles Chapman), que recebem uma difícil e quase suicida missão. Eles serão
obrigados a atravessar as linhas inimigas alemãs para levar uma mensagem ao comandante
de um pelotão inglês de 1.600 soldados. A ordem do alto comando era suspender o
avanço do batalhão, pois a retirada dos alemães da Linha Hindenburg, norte da
França, era um subterfúgio para pegar os ingleses numa armadilha. O filme
inteiro mostra o sacrifício e o ato heroico dos dois jovens soldados, que
enfrentaram terríveis obstáculos para cumprir a difícil missão. Para escrever o
roteiro, juntamente com Krysty Wilson-Cairns, o diretor britânico Sam Mendes se
inspirou nas histórias da 1ª Guerra Mundial contadas por seu avô paterno Alfred
Mendes, que lutou no conflito pelo exército inglês. Sam Mendes (Oscar de Melhor
Diretor com “A Beleza Americana” em 2000, e diretor dos dois últimos 007, “Operação
Skyfall” e “007 contra Spectre”) filmou tudo em apenas dois longos planos-sequência
(sem cortes), com a câmera acompanhando a ação bem perto dos protagonistas,
proporcionando ao espectador a sensação de estar em cena participando como protagonista. Para esse trabalho magistral, Mendes contou com a colaboração do fotógrafo Roger Diakins. Ainda estão no
elenco Mark Strong, Andrew Scott, Colin Firth, Benedict Cumberbatch e Richard
Madden. Muita adrenalina, ação e suspense, valorizados por cenas sensacionais,
de tirar o fôlego. Realmente, um filmaço!
terça-feira, 28 de janeiro de 2020
“BLACK ’47” (não deverá chegar
por aqui, pois não tem nenhum apelo comercial; por isso, não foi traduzido), 2018,
Irlanda, 1h40, roteiro e direção de Lance Daly. Trata-se de um drama histórico bastante
pesado, ambientado em 1847 na Irlanda durante o período que se chamou A Grande
Fome, que vitimou milhares de irlandeses. A história é centrada no mercenário Martin
Feeney (o ator australiano James Frechville), que desertou do exército inglês que
lutava no Afeganistão para rever sua família na Irlanda, mas encontrou todos mortos pela fome e
pela omissão das autoridades inglesas. Feeney quer se vingar de todos os que
fizeram tanto mal à sua família, desde o juiz que lhes tirou a casa até o
empresário avarento que se negava a lhes dar comida. A série de assassinatos
cometidos por Feeney chamaram a atenção das autoridades inglesas, que enviaram
para capturá-lo um ex-colega de exército de Feeney, Hannah (Hugo Heaving). O filme
acompanha a trajetória de Feeney e, em seu encalço Hannah, por uma Irlanda afundada na mais trágica crise
econômica, durante a qual grande parte da população morria de fome e frio. Nos diálogos, além da língua inglesa, o roteirista e diretor Lance Daly
fez questão de utilizar os dialetos dos irlandeses residentes em aldeias e
vilarejos da zona rural. Reforçam o elenco atores ingleses bastante conhecidos,
como Stephen Rea e Jim Broadbent. “Black ‘47” estreou, com elogios, durante o
Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2018. O filme é muito
interessante sob o ponto de vista histórico, mostrando um país devastado pela
fome e dominado pela tirania inglesa, o que provocou a ira do povo e depois o surgimento de uma ira maior: o IRA.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
“ENTRE FACAS E SEGREDOS” (“KNIVES
OUT”), 2019, Estados Unidos, 2h10m, roteiro e direção de Rian Johnson.
Mais um dos excelentes filmes que comprovam a qualidade da safra 2019 de Hollywood,
que já nos presenteou com os magistrais “Coringa”, “O Irlandês”, “Era uma vez...em Hollywood”
e outros tantos. “Knives Out” é um filme policial de mistério e foi escrito
inspirado, segundo o próprio Rian Johnson, nas histórias da escritora inglesa
Agatha Christie, principalmente “Assassinato no Expresso Oriente”. Ou seja,
segue a fórmula de um assassinato, vários suspeitos, interrogatórios e o
desfecho revelando o criminoso. O escritor de livros policiais Harlan Thrombey
(Christopher Plummer) aparece morto com a garganta cortada depois de sua festa
de 85º aniversário. Todos que estavam na festa tornam-se suspeitos: os filhos,
genros, netos, empregados etc., cada um com uma motivação diferente para
excluir Harlan da vida terrena. O tenente Elliott (Lakeith Stanfield) é o
encarregado oficial das investigações, auxiliado pelo detetive Benoit Blanc
(Daniel Craig, o atual 007), cujo método de interrogatório privilegia uma forte
pressão psicológica e perguntas desconcertantes. Blanc escolhe como seu bode
expiatório a enfermeira Marta Cabrera (a atriz cubana Ana De Armas, ótima), a imigrante
latino-americana que cuidava da saúde do falecido, aplicando-lhe os remédios e
injeções. A intuição de Blanc estava certa. Marta será a personagem que mais
ajudará o detetive a solucionar o mistério da morte do escritor, a que mais se
envolverá nos acontecimentos da investigação. O roteiro do filme é magistral,
tanto que foi indicado ao Oscar 2020. Entre o suspense reativado a cada minuto e
as várias e surpreendentes reviravoltas, o espectador estará se divertindo com
uma trama bastante engenhosa e com um humor sutil e irônico. O elenco é um luxo
só: além de Plummer, Craig e Ana De Armas, atuam Chris Evans (o Capitão
América), Jamie Lee Curtis, Don Johnson (pai de Dakota, de “50 Tons de Cinza”),
Michael Shannon, Toni Colette e Katherine Langforfd. Cinema de qualidade e
diversão garantida.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
“VELOZ COMO O VENTO” (“VELOCE
COME IL VENTO”), 2016, Itália, 1h40m, direção de Matteo Rovere,
que também assina o roteiro com a colaboração de Francesca Manieri e Filippo
Gravino. A jovem Giulia De Martino (Matilda De Angelis) é uma jovem pilota de
corridas que disputa o Campeonato Italiano de GT (Gran Turismo) por uma equipe
modesta chefiada por Hélio De Martino, seu pai. Ela tinha grandes chances de
conquistar o campeonato, mas durante uma das provas decisivas seu pai morre vítima
de um infarto fulminante. No enterro, surge do nada o filho mais velho do
falecido, Loris De Martino (Stefano Accorsi), sumido há 20 anos. Loris chegou a
ser um piloto promissor na categoria GT e ficou conhecido pelo apelido de “Dançarino”
por suas manobras ousadas nas pistas. Só que Loris se entregou às drogas – é viciado
em heroína – e virou um sujeito fracassado. Quando soube da morte do pai, apareceu
para tentar ganhar algum dinheiro de herança. Não seria tão simples assim. Seu
pai hipotecou a casa para manter a equipe de corrida. Dessa forma, restava a
Giulia conquistar o campeonato e resgatar as dívidas. Para isso, teve que
aceitar seu irmão viciado como técnico. Um acidente, porém, tira Giulia das
pistas, colocando um ponto final no seu sonho de conquistar o campeonato de GT.
Numa última chance de ganhar algum dinheiro, Loris decide participar de uma
prova chamada Corrida da Itália (Italian Race), um tipo de rallye muito perigoso
que costuma provocar muitas mortes. Com a ajuda do mecânico Tonino (Paolo
Graziosi), Loris resolve recuperar o velho Peugeot 205 Turbo 16, seu antigo
companheiro de provas, e enfrentar os desafios da Italian Race. “Veloce Come Il
Vento” conquistou 12 prêmios em festivais de cinema, um deles o “Davi Di Donatello”, da Academia do Cinema Italiano, como Melhor Filme. Não
achei tão bom assim, embora as cenas nas pistas sejam bem filmadas. Só para
amantes do automobilismo esportivo. quinta-feira, 23 de janeiro de 2020
Depois de assistir “MINHA
IRMÃ DE PARIS” (“NI UNE NI DEUX”), 2019, França, 1h38m, não entendi por que
os materiais de divulgação trataram o filme como comédia. Até alguns críticos
caíram nessa, provavelmente porque não o assistiram e apenas reproduziram a
sinopse. Na verdade, trata-se de um drama familiar. Julie Varenne (Mathilde
Seigner), uma atriz francesa de sucesso em filmes independentes de arte, aceita participar de
uma comédia, na tentativa de alavancar uma carreira em decadência. Uns dias antes do início das filmagens, ela se submete a uma
aplicação de botóx no lábio superior que não dá certo. Ela fica desfigurada. E agora, o que fazer? Auxiliada pelo seu empresário Jean-Pierre
(François-Xavier Demaison), Julie acaba recorrendo a uma fã que um dia pediu
seu autógrafo e é muito parecida com a atriz. Trata-se de Laurette (Seigner),
uma cabeleireira dona de um salão de beleza. Laurette topa trabalhar como dublê
de Julie e se sai muito bem. Quando a verdadeira atriz melhora e volta a
filmar, a coisa se complica. No meio desse agito todo, Julie acabará
descobrindo que Laurette é, na verdade, sua irmã gêmea. Como únicos trunfos de “Minha
Irmã de Paris”, destaco a atuação de Mathilde Seigner nos dois papéis, assumindo
as personalidades completamente diferentes das irmãs. Só para lembrar: Mathilde
é irmã da também atriz Emmanuelle Seigner, esposa e musa do cineasta Roman
Polanski desde os anos 80. Outro destaque do filme são os belos cenários da cidade de
Aix-em-Provence, onde a personagem Laurette mantém seu salão de beleza. Resumo
da ópera: entre um e outro sorriso amarelo, dá para assistir “Minha Irmã de Paris” numa sessão da tarde para adultos. segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
“DOR E GLÓRIA” (“DOLOR Y
GLORIA”), 2019, Espanha, 1h53m, é o filme mais autobiográfico do roteirista
e diretor Pedro Almodóvar. É o seu 21º longa-metragem e, na minha opinião, o
mais genial. A história é centrada no cineasta Salvador Mallo (Antonio
Banderas), que tem dificuldade de enfrentar a velhice que chega e, com ela, a
depressão e a falta de inspiração. Tem problemas de saúde, dores pelo corpo e
nenhuma vontade de socializar. Até que um dia resolvem prestar uma homenagem ao
filme “Sabor”, que Mallo escreveu e dirigiu há 32 anos, um grande sucesso na
época. Os preparativos para a homenagem fizeram com que Mallo reencontrasse
Alberto Crespo (Azie Etxeandia), ator principal do filme e com o qual havia
brigado. Mallo também terá a oportunidade de rever Federico (o ator argentino
Leonardo Sbaraglia), seu antigo namorado. Em meio a esses encontros, Mallo
começa a recordar de sua infância pobre (papel do menino Asier Flores) em
Valência nos anos 60 e de sua relação com a dedicada mãe Jacinta (Penélope
Cruz), além de mostrar como surgiu sua opção sexual. Antonio
Banderas está ótimo no papel do diretor amargurado e, merecidamente, conquistou
o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes 2019, onde o filme teve a sua
estreia mundial e a indicação para a Palma de Ouro. “Dor e Glória” também
está representando a Espanha na disputa do Oscar 2020 de Melhor Filme
Estrangeiro. Segundo a prestigiosa revista norte-americana Times, trata-se do
melhor filme do ano. Almodóvar reconhece que Mallo tem tudo a ver com sua vida pessoal
(reparem que o penteado do ator Banderas é igual ao do cineasta). Quem assistir
poderá constatar que o Almodóvar colocou no roteiro uma série de memórias
afetivas. “Dor e Glória” é um grande filme, melancólico e, ao mesmo tempo, bastante sensível. Na minha
humilde opinião, um dos melhores de Almodóvar. Não perca!
domingo, 19 de janeiro de 2020
“DEPOIS DO CASAMENTO” (“AFTER
THE WEDDING”), 2019, Estados Unidos, 1h52m, roteiro e direção
de Bart Freundlich. Trata-se do remake do filme dinamarquês “Efter Brylluppet”,
de 2006, dirigido por Susanne Bier. Indicado ao Oscar de Melhor Filme
Estrangeiro no ano seguinte, o filme de Susanne Bier tinha como protagonista
principal o ator Mads Mikkelsen. No caso desta nova versão norte-americana, o papel
de Middelsen foi substituído por de uma mulher. A história do drama recente é
centrada em Isabel (Michelle Williams) que há muitos anos vive em Calcutá (Índia)
prestando serviços humanitários num orfanato, agora como gerente. Ela não sabe
como seguir adiante, pois não há ajuda financeira. Quando tudo parecia perdido,
eis que chega a notícia de que uma alta executiva de uma renomada empresa de
publicidade sediada em Nova Iorque está disposta a doar milhões de dólares para
o orfanato. Isabel segue para Nova Iorque para conhecer a empresária Theresa (Jullianne
Moore) e negociar os valores e as condições do contrato. Será preciso esperar alguns dias para essa
reunião, pois Theresa está organizando o casamento de sua filha Grace (Abby Quinn). Isabel é convidada
para a cerimônia sem saber que uma grande surpresa estará prestes a acontecer, envolvendo Oscar (Billy Crudup), justamente o marido de Theresa. Não dá para contar mais para não estragar as surpresas do roteiro, que são
muitas até o desfecho. Quem for muito sensível pode comprar uma caixa de
lenços, pois as lágrimas vão rolar. O grande trunfo dessa versão hollywoodiana,
além da história bastante interessante, é contar com três ótimos atores:
Julianne Moore (na vida real, esposa do diretor), Michelle Williams e Billy
Crudup. No mais, nada de muito empolgante para merecer uma recomendação
entusiasmada. Porém, trata-se de um bom programa para quem gosta de filmes lacrimosos.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
“HEBE – A ESTRELA DO BRASIL”, 2019, direção
de Maurício Farias, com roteiro de Carolina Kotscho. Trata-se da cinebiografia (incompleta)
da apresentadora Hebe Camargo (1929-2012), que ficou no ar com seu programa de
auditório durante 60 anos. Seja na Tupi, Record, Bandeirantes e SBT, seu programa
de auditório bateu recordes de audiência, superando muitas vezes a poderosa
Rede Globo. O filme acompanha a trajetória de Hebe durante a segunda metade dos
anos 80, quando já era uma apresentadora consagrada em todo Brasil. Os enfoques
principais são sua relação tumultuada com o diretor Walter Clark na TV
Bandeirantes, seus desabafos ao vivo contra a censura, os políticos e a
corrupção, o que quase lhe valeu uma prisão, e sua ida para o SBT. Mas é na sua
vida particular que o filme dá maior destaque, as brigas violentas com o
ciumento segundo marido Lélio Ravagnani, suas bebedeiras com as amigas Lolita
Rodrigues e Nair Bello, além da sua extravagância em usar joias caríssimas e roupas exóticas e escandalosamente cheias de brilho. O fato da vida de Hebe ser retratada em
apenas alguns anos da década de 80 restringiu em muito a história de Hebe,
nascida em uma família pobre de Taubaté – no filme, ela dá a entender que tinha passado fome na infância. Faltou ainda abordar um aspecto importante na vida da
apresentadora: sua participação no primeiro programa de televisão no Brasil, em
1950, na extinta TV Tupi. Também ficou faltando abordar seus últimos anos de
vida, a doença e sua luta para sobreviver. Ou seja, como escrevi no início
deste comentário, a cinebiografia de Hebe ficou incompleta, o que, na minha
opinião, acabou prejudicando o resultado final – o filme virou minissérie em 10
episódios exibidos na programação Tela Quente da Rede Globo. Não assisti, mas
dizem que é mais completa do que o filme. O elenco é o ponto alto do filme “Hebe
– A Estrela do Brasil”: Andréa Beltrão (Hebe), Marco Ricca (Lélio Ravagnani),
Danton Mello (Cláudio Pessutti, seu sobrinho e principal assessor), Caio
Horowicz (Marcello, filho de Hebe), Daniel Ventura (Silvio santos), Felipe Rocha
(Roberto Carlos), Stella Miranda (Dercy Gonçalves), Otávio Augusto (Chacrinha),
Gabriel Braga Nunes (Décio Capuano, primeiro marido de Hebe), Danilo Grangheia
(Walter Clark), Cláudia Missura (Nair Bello), Karine Teles (Lolita Rodrigues) e
Renata Bastos (Roberta Close). Na mesma linha de cinebiografias de artistas
brasileiros, recomendo as do Palhaço Bozo (“Bingo, o Rei das Manhãs”), Tim
Maia, Chacrinha, Maysa, Elis Regina, Erasmo Carlos, Zezé de Camargo e Luciano “Os
Dois Filhos de Francisco”) e Chacrinha.
terça-feira, 14 de janeiro de 2020
“A PRECE” (“LA PRIÈRE”), 2018,
França, 1h47m, direção de Cédric Kahn, que também assina o roteiro com a colaboração
de Fanny Burdino e Samuel Doux. O filme tem como pano de fundo a religião,
envolvendo questões como a fé, a devoção, o amor, a amizade, o sacrifício e a
entrega. A história é centrada no jovem Thomas (Anthony Bajon), um viciado em
heroína que aceita ser enviado a uma comunidade isolada nos Alpes franceses que
trata de dependentes químicos. São dois tipos de acampamento, um para os
rapazes e outro para as moças. Em ambos, a religião é a força motora para
tentar a recuperação dos jovens. Desde que acordam, os jovens cumprem uma
rotina bastante rigorosa e extenuante. Trabalham na horta, cortam lenha, rezam em
conjunto e participam de sessões de terapia em grupo, durante a qual contam suas
experiências e, alguns ex-internos, a sua vitória sobre o vício. Desde que chegou
ao acampamento, Thomas sempre tem a seu lado um colega que serve de tutor ou
orientador, no caso Pierre (Damien Chapelle), um ex-viciado que trabalha como
voluntário. Após livrar-se das crises de abstinência, Thomas acaba descobrindo
a fé e decide ir para o seminário. Quer ser padre. Ao mesmo tempo, porém,
conhece a jovem Sybelle (Louise Grinberg), outra ex-viciada, pela qual se apaixona.
Thomas viverá dias atormentados, devendo decidir pela Igreja ou pelo amor de
uma jovem. Destaque para a participação especial da atriz alemã Hanna Schygulla
como a Madre Myriam. Durante muitos anos - décadas de 70 e 80 -, Schygulla, dos
clássicos “O Casamento de Maria Braun” (1978) e “Lili Marlene” (1981), foi uma
das minhas musas do cinema. A atriz envelheceu e engordou. Está irreconhecível.
Outro destaque de “A Prece” é o ator espanhol, de descendência alemã, Alex
Brendemühl, do espetacular “The German Doctor” (2013), onde fez o papel do
criminoso de guerra alemão Josef Mengele. “A Prece” estreou em fevereiro de
2018 no Festival Internacional de Cinema de Berlim e consagrou a excelente
atuação de Antony Bajon com o Urso de Prata de Melhor Ator. Merecido. “A Prece”
também foi exibido por aqui durante a programação oficial da 43ª Mostra
Internacional de Cinema de São Paulo. Cinema da melhor qualidade.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
Sou fã de carteirinha de Woody
Allen desde que utilizava a mesma para pagar meia-entrada como estudante. E faz
tempo – década de 60. São mais de 50 anos curtindo os filmes de Allen. Todo ano
ele lança um, seja escrevendo, dirigindo ou também atuando, e não perdi nenhum.
Ele sempre foi um dos meus diretores preferidos, ao lado de Scola, Fellini,
Tornatori, Scorcese e Monicelli. Hoje, aos 84 anos, Allen continua em pleno
vigor criativo e artístico, como comprova seu filme mais recente, “UM DIA DE
CHUVA EM NOVA YORK” (“A RAINY DAY IN NEW YORK"), que escreveu e
dirigiu, mas não atuou. Nele, Allen conta a história das peripécias dos
namorados Gatsby (Timothée Challamet) e Ashleigh Enright (Elle Fanning) em Nova
York. Fanning escreve para o jornal da faculdade e seu objetivo na Big Apple
é entrevistar o diretor de cinema Roland Pollard (Liev Schreiber). O combinado é
que depois da entrevista Gatsby levará Ashleigh para um passeio noturno na
cidade, incluindo jantar, piano ao vivo e um giro de charrete pelo Central Park. Só que o esperado programa dá muito errado, já
que Ashleigh ainda consegue uma entrevista exclusiva com o famoso roteirista Ted
Davidoff (Jude Law) e ainda com o ator latino Francisco Vega (Diego Luna), o galã
do momento em Hollywood. Enquanto isso, Gatsby fica desesperado por não conseguir
falar com a namorada e, passeando solitário pela cidade, reencontra casualmente
Shannon Tyrell (Selena Gomez), a irmã mais nova de uma antiga namorada. Além disso, ainda vai a uma festa da sua família com uma garota de programa. E por aí
vai a história, com muitos encontros e desencontros, com o habitual humor de
Allen, repleto de diálogos e situações inteligentes e hilariantes. Como o
título já entrega, Nova York é filmada debaixo de uma chuva incessante, mas em
nenhum momento perde seu charme, principalmente graças à bela fotografia do consagrado mestre
italiano Vittorio Storaro. Mais um saboroso filme com a assinatura de Woody
Allen e, portanto, imperdível! sábado, 11 de janeiro de 2020
Bruce Willis continua duro de
matar, mas seus últimos filmes são duros de aguentar, de engolir, de assistir.
Em quase todos eles Willis aparece pouco, mas seu nome surge sempre em destaque
nos materiais de divulgação, como se ele fosse o protagonista principal. Além
do mais, Willis está nitidamente sem fôlego para atuar em filmes de ação. Fora
que nunca foi um bom ator e agora piorou muito. Se alguém tiver alguma dúvida a
respeito de tudo isso que escrevi, assista ao recente suspense policial “CENTRO
DO TRAUMA” (“TRAUMA CENTER”), 2019, EUA, 1h26m, direção do cineasta
iraniano radicado na América Matt Eskandari, com roteiro de Paul J. Da Silva. A
história toda gira em torno de Madison Taylor (Nicky Whelan), que por um azar
acaba testemunhando o assassinato de um policial. Embora não possa identificar
os dois atiradores, ela recebeu um tiro na perna e a bala pode denunciar a quem
pertence o revólver do assassino. Os dois vilões conseguem descobrir que
Madison está internada num hospital. Como também são policiais – da Narcóticos
-, acabam tendo livre acesso às dependências do hospital. Seu objetivo é
retirar a bala da perna da moça. Enquanto isso, nada de Willis, cujo personagem
é o tenente Steve Swake. Por um bom tempo, Madison consegue fugir dos vilões até
a chegada da cavalaria, ou seja, o pangaré Willis. A ação transcorre à noite, o
hospital no maior silêncio, enquanto em alguns andares Madison tenta se
esconder dos bandidos. Muito barulho, inclusive tiros, mas nada chama a atenção
nem dos seguranças do hospital e muito menos dos médicos e enfermeiras. Tenha
dó! Os atores Tito Ortiz e Texas Battle, os vilões, são tão medíocres que
chegam a ser cômicos. Posso apontar como únicos destaques a presença da bela
atriz australiana Nicky Whelan e a aparição do ator Steve Guttenberg, que andava
sumido das telas – pelo menos faz tempo que não o vejo. “Centro do Trauma” é um
enorme abacaxi, daqueles que vem com a Carmem Miranda pendurada.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
“A CAMAREIRA” (“LA CAMARISTA”), 2019,
México, 1h42m, estreia no roteiro e direção da atriz Lila Avilés. O filme foi
selecionado para representar o México na disputa do Oscar 2020 de Melhor Filme
Estrangeiro (o México ganhou no ano passado por “Roma”, de Alfonso Cuarón). “A
Camareira” é um filme simples, intimista, mas muito sensível. Utiliza apenas um
personagem principal e outros dois ou três coadjuvantes, tem poucos diálogos e o
cenário é único: o interior de um hotel de luxo na cidade do México. Mesmo
assim, em nenhum momento torna-se entediante. A história acompanha o cotidiano
de trabalho de Eve (Gabriela Cartol, ótima), camareira dos apartamentos vips do
21º andar. O tempo inteiro, ela aparece arrumando lençóis, travesseiros, limpando
os banheiros e a sujeira deixada pelos hóspedes. Mostra Eve tomando conta do bebê
de uma cliente argentina (Agustina Quinci), auxiliando um senhor judeu ortodoxo
a apertar os botões do elevador no sabá, além de suas conversas, na hora
de descanso, com a colega Minitoy (Teresa Sánchez). Eve é mãe solteira e trabalha
duro para sustentar seu filho e pagar uma babá. Ela quer melhorar de vida e,
por isso, participa de um programa de educação para adultos promovido para os
empregados do hotel. Suas jornadas de trabalho, recheadas de plantões extras, a
afastam vários dias do seu filho, deixando-a frustrada e triste. Enfim, a história
toda gira em torno de Eve, que aparece em cena a cada segundo de projeção. Ou
seja, leva o filme nas costas, realizando um excelente desempenho, o que lhe
valeu uma indicação ao Prêmio Ariel (o Oscar mexicano concedido pela Academia Mexicana de Artes e Ciências Cinematográficas) de Melhor Atriz. “A Camareira”
ganhou o Prêmio Ariel como Melhor Filme de Estreia. Resumo da ópera: o filme é
muito bom, bastante sensível e agradável de assistir. segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
“O PINTASSILGO” (“THE
GOLDFINCH”), 2019, Estados Unidos, 2h29m, direção do
cineasta irlandês John Crowley (“Brooklyn”). O filme estreou no Festival de
Cinema de Toronto em setembro de 2019. A história foi adaptada pelo roteirista
Peter Straughan do romance “The Goldfinch”, que deu à escritora Donna Tartt o
Prêmio Pulitzer de 2014. O personagem principal é Theodore Decker (Cakes Fegley
na adolescência e Ansel Elgort na fase adulta). Aos 13 anos, Theo foi com a mãe
visitar o Museu Metropolitano de Arte da Nova Iorque. Durante a visita acontece
um atentado à bomba que mata sua mãe e outras pessoas. Theo sobrevive e recolhe
dos escombros o quadro “O Pintassilgo”, do pintor holandês Carel Fabritius
(1622-1654), justamente aquele que ele admirava quando a bomba explodiu. Como
seu pai sumiu do mapa há tempos, Theo não tinha onde morar e acabou sendo
acolhido na casa da sra. Barbour (Nicole Kidman, com a aparência meio
esquisita, talvez excesso de botox), mãe de seu colega de escola. E por aí vai
a história, acompanhando a trajetória de Theo pela vida afora, incluindo a amizade
com o dono de um antiquário, envolvimento com o tráfico de drogas, o noivado
com uma moça da alta sociedade novaiorquina, o reencontro com o pai
irresponsável em Las Vegas e até uma viagem para a Europa na tentativa de
recuperar o quadro que estava de posse de um mafioso russo. Não deve ter sido
fácil para o roteirista Peter Straughan condensar tanta informação e as inúmeras
situações vividas por Theo e descritas nas 700 páginas do livro de Donna Tartt.
Ou seja, muita coisa para contar em apenas 2h29m de projeção. O elenco conta
ainda com Jeffrey Wright, Luke Wilson, Sarah Paulson, Willa Fitzgerald, Aneurin
Barnard, Hailey Wist, Finn Wolfhard e Aimee Lawrence. Vale uma visita pela
história e pelo excelente elenco. domingo, 5 de janeiro de 2020
“JT LEROY”, 2018,
coprodução Estados Unidos/Canadá, 1h48m, roteiro e direção de Justin Kelly.
Baseada em fatos reais, a história relembra um caso de grande repercussão
ocorrido nos Estados Unidos em meados da primeira década deste século. Sob o pseudônimo
de JT Leroy, a escritora independente Laura Albert escreveu, em 2000, o livro “Sarah”,
que logo virou best-seller ao retratar a vida sofrida, tumultuada e chocante de
Jeremiah “Terminator” Leroy (o pseudônimo JT Leroy, que assinava o livro), que
todo mundo acreditava ser um personagem real. Em 2001, saiu um novo livro de
Laura Albert, também como JT Leroy: “O Coração é Enganoso Acima de Todas as
Coisas”. Mas, afinal, quem é o JT Leroy na vida real? A curiosidade mexeu com
os meios literários, com a mídia e com os milhões de leitores pelo mundo
inteiro. Até com Hollywood, que queria fazer um filme com JT Leroy. Laura Albert (Laura Dern), a autora verdadeira, teve a ideia de
transformar sua cunhada Savannah Knoop (Kristen Stewart) no tal JT Leroy, uma
falsa jogada de marketing que durou até 2005, quando uma reportagem do Jornal
The New York Times revelou a farsa. Com seu tipo andrógeno, a atriz Kristen Stewart,
que, como o personagem JT Leroy, também é bissexual na vida real, é o grande
destaque do filme, que teve sua estreia mundial no dia 15 de setembro de 2018
no Festival de Toronto. Lembro que o roteiro foi inspirado no livro “Girl Boy
Girl: How I Became JT Leroy”, escrito pela própria Savannah Knoop, que também
ajudou o diretor Justin Kelly a roteirizar a história. Também estão no elenco,
além de Kristen Stewart e Laura Dern, a atriz alemã Diane Kruger, Jim Sturgess
e Courtney Love. Muita gente aqui no Brasil talvez nunca tenha ouvido falar no
caso JL Leroy. Por isso mesmo, o filme pode ser bastante interessante,
valorizado ainda mais pelo excelente elenco e o ótimo roteiro.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
Discutir a relação no
casamento. O assunto já foi abordado inúmeras vezes no cinema, sendo impossível não lembrar do clássico
“Cenas de um Casamento” (1973), do sueco Ingmar Bergman, onde Liv Ullmann e
Erland Josephson discutem a relação durante quase 3 horas de projeção. Em “Kramer
vs. Kramer” (1979), a relação conjugal também foi discutida pelo casal vivido
por Meryl Streep e Dustin Hoffman, culminando numa disputa judicial pela guarda
do filho. Esses dois aspectos – discutir o relacionamento e disputa judicial –
foram incorporados ao drama “HISTÓRIA DE UM CASAMENTO” (“MARRIAGE STORY”),
2019, Estados Unidos, 2h17m, roteiro e direção de Noah Baumbach. No início,
tudo parece correr às mil maravilhas com Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett
Johansson). Depois de dez anos de casados, que resultaram no filho Henry (Azhy
Robertson), a relação começa a azedar a partir do momento em que Nicole, uma
atriz de teatro, resolve sair de Nova Iorque para tentar o cinema em Hollywood,
levando o filho a tiracolo. Charlie, diretor de teatro, não se conforma com a
situação e parte para Los Angeles com o objetivo de tentar um acordo. Só que
Nicole contrata a advogada Nora Fanshaw (Laura Dern) e entra com uma ação na justiça
para preservar a guarda do menino e ainda exigir uma grana de Charlie. E por aí
vai a “História de um Casamento”, com muito blá, blá, blá – é verborrágico ao
extremo, como é o estilo do roteirista e diretor Noah Baumbach (dos chatérrimos
“Frances Ha” e “Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe”). Para escrever o
roteiro de “História de um Casamento”, Noah confirmou em entrevista que inseriu
muitos momentos de seu tumultuado casamento com a atriz Jennifer Jason Leigh,
com a qual viveu de 2005 até 2012. Também estão no elenco Alan Alda, Ray Liotta
e Julie Hagerty. Dizem que existe uma grande chance de Adam Driver e Scarlett
Johansson serem indicados ao Oscar 2020. Pode ser, mas o filme em si não chega
a ser uma maravilha. Achei a situação forçada demais e a verborragia reinante chega
a incomodar. Em todo caso, vale uma visita para conferir.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
“ATLANTIQUE”, 2019,
coprodução França/Senegal/Bélgica, com distribuição da Netflix (foi lançado
mundialmente em 29 de novembro de 2019), 1h47m, marca a estreia da atriz
francesa Mati Diop como roteirista e diretora de longa-metragens. A história
reúne ingredientes de vários gêneros: drama, romance, policial, mistério, suspense
e fantasia. É ambientado em Dakar, capital do Senegal, e totalmente falado em
Wolof, a língua oficial do país. A jovem Ada (a atriz estreante Mame Bineta Sane), de 17 anos, de
uma família humilde da periferia de Dakar, é prometida em casamento para Omar
(Babacar Sylla), herdeiro de uma família rica. Só que ela ama Suleiman (Ibrahima
Traoré), um jovem operário que trabalha no canteiro de obras de um edifício
futurista em Dakar. Como não recebem salário há meses, Suleiman e alguns
companheiros decidem embarcar clandestinamente para a Espanha, mas o barco
desaparece misteriosamente. Enquanto isso, durante os preparativos para o casamento
de Ada, acontece um incêndio na casa de Omar, iniciado no leito nupcial
destinado ao casal. A polícia entra em ação para investigar o fato e começa a
desconfiar que o incêndio não foi simplesmente um acidente e sim uma vingança
de Suleiman, que, embora desaparecido, teria sido visto andando pelas ruas de
Dakar. Ao mesmo tempo, os espíritos dos homens desaparecidos no mar assumem o
corpo de várias jovens, que vão até o empresário Nidaye (Diankou
Sembene) cobrar os salários devidos pelo trabalho na construção. O mar – no caso,
o Oceano Atlântico (daí o “Atlantique”) - aparece em várias cenas do filme, com
a câmera estática, uma ideia da diretora para destacar sua importância na
história. “Atlantique” foi selecionado para disputar a Palma de Ouro no
Festival de Cannes 2019, conquistando o também importante “Grand Prix Spécial Du
Jury”. Em Cannes, Mati Dopi também se destacou como a primeira diretora negra a
competir pela Palma de Ouro. O filme é muito interessante, merece ser visto. sábado, 28 de dezembro de 2019
“MAMÃE SAIU DE FÉRIAS” (“MAMÁ
SE FUE DE VIAJE”), 2019, México, 1h40m, roteiro e direção de
Fernando Sariñana. Trata-se de um remake do filme argentino “Mamá se Fue
de Viaje”, de 2017, que também teve uma versão italiana este ano, “10 Giorni
Senza Mamma”. A versão mexicana, tema deste comentário, é muito divertida.
Cassandra (Andrea Legarreta), a dona da casa, resolve tirar umas férias para
fazer um curso de Ioga. Deixou os quatro filhos aos cuidados do pai,
completamente inexperiente na função, pois dedica-se integralmente à empresa
onde trabalha como gerente. Ah, ainda sobrou o cachorro da família, “Canabis”.
Aquelas confusões de sempre: acordar cedo para fazer o café para a criançada, cuidar
das roupas de cada um, deixar comida com o cachorro, levar e buscar no colégio
etc. E ainda ter que cuidar de contratar uma faxineira, pois a antiga sofreu um
acidente e está de licença. Como toda a desgraça não vem sozinha, Gabriel tem
de mostrar serviço na empresa, já que haverá uma promoção para um cargo mais
alto e ele é cotado como favorito. Sua maior chance de conquistar o cargo pode
estar no Dia da Família, um evento anual organizado pela empresa no qual os
funcionários levam suas famílias para participar de brincadeiras, jogos e
muitas diversões. As cenas dessa festa são as mais engraçadas do filme. “Mamãe Saiu
de Férias” é uma ótima dica para uma sessão da tarde com a família. Para rir à
vontade!
quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
“AS GOLPISTAS” (“HUSTLERS”),
2019, Estados Unidos, 1h49m, roteiro e direção de Lorene Scafaria, que adaptou
a história, baseada em fatos reais, inspirada no artigo “The Hustlers at Scores”,
da jornalista investigativa Jessica Pressler, publicada com exclusividade em 2016 na Revista New
York Magazine (no filme, Jessica é interpretada por Julia Stiles). Os fatos se referem a um grupo de dançarinas, ex-strippers, que aplicavam golpes contra seus clientes, a maioria dos quais empresários, altos
executivos e gente com a conta bancária recheada. O golpe era simples: elas
chamavam o cliente para um programa, colocavam um remédio em sua bebida – tipo “boa
noite, Cinderela” - e depois surrupiavam seus cartões de crédito, esvaziavam
suas contas e transferiam o dinheiro para uma conta conjunta das “meninas”. A
chefona do esquema era Ramona (Jennifer Lopez), com a cumplicidade de Destiny
(Constance Wu), Mercedes (Keke Palmer) e a loiraça Annabelle (Lili Reinhart). O
filme conta a história das moças desde o começo, 2007, quanto atuavam como
strippers num clube frequentado por altos executivos de Wall Street. Em 2008,
com a crise econômica, o clube perdeu os clientes e os negócios caíram ladeira
abaixo. Cada uma das moças foi se virar de alguma forma, até trabalhando como
vendedoras em lojas de roupas. Alguns depois, elas se reencontraram e tiveram a
ideia dos golpes. Confesso que fiquei em dúvida se assistia ou não, mas não me
arrependi, pois o filme é bastante interessante, principalmente por ser baseado
em fatos reais que, se eu não estiver enganado, passaram em branco por aqui. Embora
seja de Constance Wu a personagem condutora da história, é a diva Jennifer
Lopez que se destaca pelo visual “mulherão” e até com uma atuação bastante
convincente. Dizem até que deve ser indicada ao Oscar. O filme estreou no dia 7
de setembro de 2019 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. terça-feira, 24 de dezembro de 2019
“CORINGA”
(“Joker”), 2019, EUA, 2h2m, direção de Todd Philips, que também assina
o roteiro com a colaboração de Scott Silver. Como todo mundo sabe, “Coringa” é
aquele personagem assustador dos filmes de Batman e um de seus principais
inimigos. O filme volta no tempo para 1981, quando “Coringa” era apenas Arthur
Fleck (Joaquin Phoenix), um palhaço que durante o dia trabalhava na porta de
comércios de rua em Gotham City e à noite tentava fazer sucesso como comediante
de stand-up. Ainda não havia Batman (ele não aparece e nem mesmo é mencionado).
A história é toda centrada em Arthur Fleck, um sujeito com graves distúrbios
mentais controlados apenas com remédios que recebe da assistência social, que
também é encarregada do seu acompanhamento psicológico. Até que um dia o
governo municipal, para reduzir custos, cancela os remédios e o tratamento
psicológico. Sem essa assistência, Fleck passa a ter surtos psicóticos
violentos. Vestido de palhaço, ele mata três executivos de uma importante empresa
de Gotham City dentro de um vagão do metrô. A notícia se espalha pela cidade e o
tal palhaço assassino não identificado transforma-se no herói das classes menos
favorecidas, provocando um movimento popular violento contra a elite da cidade.
Enquanto sua identidade não é descoberta, Fleck, por causa de um vídeo onde
aparece fazendo stand-up, é convidado a participar do programa televisivo
de auditório comandado por Murray Franklin (Robert De Niro) e logo vira
celebridade, exigindo que seja chamado de “Coringa”. Este é apenas um resumo da história, mas tem muito mais até o desfecho.
Na verdade, o roteiro apresenta como pano de fundo um estudo psicológico de uma mente
doentia, que gradualmente se transforma num psicopata dos mais violentos. O
filme tem todos os ingredientes para receber um grande número de indicações ao
Oscar 2020, a começar pela impressionante atuação de Joaquin Phoenix. Seus
olhares, seus gestos e suas risadas provocam calafrios. Para fazer o papel, o ator perdeu 24
quilos, aspecto que tem bastante efeito na premiação. Também é destaque a
direção de arte, especialmente os cenários, figurinos e uma fotografia
deslumbrante, além do restante do elenco, com Zazie Beetz, Frances Conroy e Brett Cullen. Outro trunfo do filme é sua trilha sonora, criada pela
compositora islandesa Hildur Guonadóttir, que fortalece, valoriza e aumenta a
tensão de cada uma das cenas impactantes, que são muitas. O filme estreou em agosto de 2019 durante o 76º Festival Internacional de Cinema de Veneza e ganhou o "Leão de Ouro", principal premiação do evento. “Coringa” é um filme
perturbador, tenso, assustador. E genial. Um dos grandes filmes do ano.
Imperdível! quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
“EL REINO”, 2018,
Espanha, 2h12m, roteiro e direção de Rodrigo Sorogoyen (“Que Dios nos Perdone”).
Um filme poderoso e impactante, onde os bastidores sujos da política – corrupção,
traições, negociatas etc. – são expostos de forma crua e impiedosa. A história
é inspirada num dos mais famosos esquemas de corrupção da Espanha, o “Caso Gürtel”,
descoberto em novembro de 2007 e que levou gente graúda do Partido Popular (PP)
para a cadeia. No filme, o personagem principal é Manuel López-Vidal (Antonio
de la Torre, ótimo), vice-secretário de um governo regional que está sendo cotado para
ser candidato de seu partido a um alto cargo no governo espanhol. A turma partidária
de Manuel inclui políticos importantes (é nesse grupo que se baseou o título
original do filme). São os chamados “caciques” do partido. Eles se reúnem constantemente
em restaurantes e hotéis luxuosos e até no iate de um deles, além de festinhas
tipo Sérgio Cabral e quadrilha em Paris. O objetivo dessas reuniões é o de
sempre: festejar alguma maracutaia bem-sucedida, derrubar algum inimigo (ou até
um amigo) político e planejar o próximo golpe. Enfim, gente da pior qualidade e
sempre com a pior das intenções (lembram políticos de algum país que você conhece?).
Até que um dia Paco (Nacho Fresnada), um dos políticos da turma de Manuel,
acaba denunciado e preso acusado de conceder contratos públicos a empresas em
troca de dinheiro. As acusações recaem também sobre Manuel, que, ao ver sua
carreira política praticamente arruinada, decide que não vai “cair” sozinho. O elenco
conta ainda com Bárbara Lennie (excelente), Josep Maria Pou, Mónica López, Luis
Zahera e Ana Wagener. “El Reino” foi o grande vencedor do 33º Prêmio Goya de
Cinema (o Oscar espanhol), recebendo nada menos do que 13 indicações. Ganhou em
sete categorias, entre as quais Melhor Diretor, Melhor Ator (Antonio de La
Torre) e Melhor Roteiro Original. Também arrancou elogios entusiasmados quando
foi exibido no 66º Festival de San Sebastian e ainda na Seção “Contemporany
World Cinema” do Toronto International Film Festival/2018. Sem dúvida, um
grande filme. Imperdível!
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