quarta-feira, 25 de março de 2015

O drama norueguês “UMA NOITE EM OSLO” (“Natt Til 17” no original e “One Night in Oslo” no inglês), 2014, direção de Eirik Svensson, é como se fosse um episódio de longa duração de “Malhação”. Claro que muito mais bem elaborado, mas o enfoque é o mesmo: os problemas, os amores e as inconsequências de jovens na faixa dos 14/17 anos. A história envolve um grupo de jovens amigos de escola, entre os quais os inseparáveis Sam (Samakab Omar) e Amir (Mohammed Alghoul). Em comum, eles têm o fato de pertencerem a famílias de refugiados e de gostarem da mesma garota, Thea (Thea Sofia Loch Naess). É claro que a disputa por Thea afetará a amizade dos dois. O retrato da juventude norueguesa não é muito diferente da do resto do mundo. Eles também são revoltados, curtem festas com muita bebedeira, maconha, “pegação” livre e desenfreada, brigas de gangues, enfim, a irresponsabilidade universal que caracteriza essa faixa etária. Fica difícil para os mais velhos acreditar que esses jovens tomarão um rumo na vida. De qualquer forma, o filme é muito bom e esclarecedor, podendo ser visto por jovens e adultos. Seja num país de primeiro mundo como a Noruega, ou do terceiro como o nosso e outros tantos, a verdade é uma só: a juventude anda mais perdida como nunca foi. Tristes tempos.  

sexta-feira, 20 de março de 2015

A bela e competente atriz francesa Mélanie Laurent prova que é talentosa também atrás das câmeras. Em sua estreia como diretora no drama francês “RESPIRA” (“Respire”), 2014, Mélanie encontrou a receita certa para fazer um suspense psicológico de primeira. A história é baseada no livro “A Minha Melhor Amiga”, de Anne Sophie Brasme. A jovem Charlie (Joséphine Japy), de 17 anos, faz amizade com a recém-chegada colega de colégio Sarah (Lou de Laage). Charlie é retraída, solitária, introvertida e, além de tudo isso, asmática (condição que resultou no título do filme). Sarah, pelo contrário, é expansiva, ousada, faz e diz o que bem entende. Enfim, personalidades totalmente diferentes. A amizade entre as duas redundará num clima de alta tensão a partir do momento em que a relação começa a se tornar obsessiva. A trama se desenrola num suspense que leva o espectador a acreditar que algo de ruim vai acontecer. O suspense também gera a expectativa das duas acabarem entre os lençóis, como aconteceu com as principais personagens do ótimo “La Vie D’Adèle”. Mélanie encontrou as atrizes certas para protagonizar as duas amigas. Joséphine e Lou de Laage estão fenomenais. O filme estreou no Festival de Cannes 2014, com excelentes críticas. Muito merecidas, aliás. Aproveito para indicar - novamente - um filme maravilhoso estrelado por Mélanie Laurent: "Le Concert". Se puder, não perca!  
“TWO MEN IN TOWN" (no original francês, "LA VOTE DE L’ENNEMI” - ainda sem tradução por aqui), 2014, é uma co-produção França/EUA que tem como um de seus destaques o elenco de veteranos: Forest Whitaker, Brenda Blethyn, Harvey Keitel, Ellen Burstyn e Luis Guzman. A história é toda ambientada numa pequena e árida cidade no meio do deserto do Novo México. William Garnet (Whitaker) sai em condicional após cumprir 18 anos de prisão pelo assassinato do auxiliar do xerife Bill Agati (Keitel). A policial Emily Smith (Blethyn) é indicada como agente da condicional de Garnet, ou seja, vai fiscalizar suas andanças. Na prisão, Garnet se converteu ao islamismo e adotou um comportamento exemplar. Quando sai da prisão e tenta se recuperar trabalhando numa fazenda de gado, ele começa a ser pressionado de todos os lados. De um, o xerife Agati, que não se conforma de ver o assassino de seu ajudante em liberdade. De outro, a vigilância implacável da sua agente condicional. Como se não bastasse, ainda surge Terrence (Guzman), um sujeito envolvido com o tráfico de drogas que insiste para que Garnet trabalhe com ele. E ainda aparece sua mãe adotiva, Mère (Burstyn), a qual não perdoa por nunca tê-lo visitado na cadeia. Será que o ex-presidiário aguentará tanta pressão? Para aliviar, ainda bem que aparece Teresa (Dolores Heredia), com a qual Garnet pretende casar e viver feliz para sempre. Além do ótimo elenco, outro trunfo do filme é o diretor francês Rachid Bouchareb, que tem em seu currículo excelentes produções europeias como “London River”, “O Pecado de Hadewijch” e “O Atentado”. Não dá para não mencionar também o desempenho de Whitaker, surpreendentemente mais magro, e da maravilhosa atriz inglesa Brenda Blethyn, num papel que comprova toda a sua versatilidade. Entretenimento com qualidade.                                                                                                                                       

quinta-feira, 19 de março de 2015

“MARCELLO, UMA VIDA DOCE” (“Marcello, una Vita Dolce”) é um documentário sobre o grande ator italiano Marcello Mastroianni. Ele foi produzido em 2006 e exibido no mesmo ano no Festival de Cannes como uma homenagem aos 10 anos da morte de Mastroianni. O título do documentário, dirigido por Mario Canale e AnnaRosa Morri, está associado, claro, ao grande clássico “La Dolce Vita”, que Federico Fellini dirigiu em 1960 e que catapultou Mastroianni ao estrelato. O documentário tem depoimentos de Barbara e Chiara, filhas do ator, das atrizes Sofia Loren, Anouk Aimee e Claudia Cardinale, dos atores e amigos Jean Sorel e Philippe Noiret e ainda de grandes diretores como Ettore Scola, Pietro Germi e Lina Wertmüller, além de outras personalidades que conviveram e trabalharam com o ator que melhor representou o amante latino. Causa certa estranheza a ausência da atriz francesa Catherine Deneuve, mãe de Chiara. O documentário também reproduz cenas de alguns dos mais importantes filmes de que ator participou. O talento de Mastroianni era indiscutível, realçado ainda mais pela facilidade com que representava em comédias, em dramas ou qualquer outro gênero. Um ator completo, que numa carreira de quase 49 anos participou de 150 filmes, em sua grande maioria como protagonista principal. Para quem nunca ouviu falar no ator, este documentário oferece uma ótima oportunidade para conhecê-lo e, para os fãs como eu, uma chance e tanto para reverenciá-lo. Quem curte cinema não deve perder.                                                                                                                                      

terça-feira, 17 de março de 2015

O drama “AS HORAS MORTAS” (“Las Horas Muertas”), co-produção México/Espanha, 2013, é um filme bastante simples, não apenas pelo seu enredo como também pela sua produção, mas não deixa de ser interessante. A história é quase toda ambientada num motel à beira-mar, no litoral de Veracruz (México). O estabelecimento está sendo administrado, provisoriamente, pelo jovem Sebastián (Kristyan Ferrer), de 17 anos, enquanto o proprietário, seu tio, estiver de licença médica. Miranda logo percebe que a rotina do lugar é tediosa, feita de muitas "horas mortas". Ele recebe os – raros – clientes, encaminha-os para os quartos e depois fica à espera da saída deles para então providenciar a limpeza. Miranda (Adriana Paz), uma corretora de imóveis de 35 anos, é cliente habitual do motel, junto com o amante casado. Miranda muitas vezes fica esperando o amante por horas, até que ele começa a não aparecer mais. No tempo ocioso em que passam conversando, juntando suas solidões, o jovem Sebastián e Miranda acabam ficando amigos. E é justamente essa amizade que o diretor Aarón Fernandez fará com que seja o fio condutor de toda a história. O filme foi selecionado para exibição nos festivais de Locarno, Zurique, Biarritz, San Sebastian e Tóquio, além da 37º Mostra Internacional de São Paulo (2013). Não é pouco para uma produção tão simples.            

segunda-feira, 16 de março de 2015

Se você está entrosado com o mundo da arte e curte a pintura e, principalmente, quadros acadêmicos, o drama inglês “MR. TURNER” pode ser um programão. Literalmente um programão, pois o filme tem duas horas e meia de duração. Trata-se da história biográfica dos últimos 15 anos do pintor inglês impressionista J.M.W. Turner (Timothy Spall), um artista excêntrico que pintava quadros que realçavam os efeitos da luz sobre as paisagens. Em seu leito de morte, olhando para a claridade que vinha da janela, o pintor exclamou: “Deus é luz”. Foram suas últimas palavras. Suas marinhas (cenas marítimas) ficaram famosas e eram objeto de grande admiração pelos membros da Royal Academy of Arts, onde o pintor expunha os seus trabalhos.  O filme, ambientado na primeira metade do Século 19, também coloca em exposição a vida pessoal de Turner, sua forte ligação com o pai, sua estranha relação com a empregada, seu casamento e a doença que o levou à morte. O diretor Mike Leigh (de “Segredos e Mentiras” e “O Segredo de Vera Drake”) caprichou na qualidade estética do filme. Houve uma grande preocupação em destacar as cenas como se cada uma fosse um quadro. O filme é visualmente muito bonito. E até didático, quando cada tela de Turner é mostrada logo depois dele manifestar a ideia para concebê-la. O filme concorreu a quatro categorias no Oscar 2015 (Fotografia, Design, Figurino e Trilha Sonora). Não ganhou nenhuma. Timothy Spall, porém, conquistou o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes 2014. Não é filme para o grande público. É indicado especialmente para os amantes da pintura, estudantes de arte e fotografia.

domingo, 15 de março de 2015

O argentino “RELATOS SELVAGENS” (“Relatos Salvajes”) era apontado pelos críticos como o maior favorito a conquistar o Oscar 2015 de Melhor Filme Estrangeiro. O filme é ótimo, mas longe da qualidade do drama polonês “IDA”, vencedor do prêmio com toda justiça. O filme argentino é constituído por seis episódios, cada um independente do outro, mostrando situações estressantes ao limite, perto do trágico, mas com muito bom humor. Entre as histórias, tem aquela que se passa dentro de um avião, onde todo mundo conhece um personagem citado por um dos passageiros; tem o sujeito que tenta chegar em casa com um bolo para o aniversário da filha e tem o carro guinchado; a história de um jovem milionário que atropela e mata uma mulher grávida e seu filho; motoristas que entram em guerra na estrada; a noiva que descobre a infidelidade do noivo durante a festa de casamento. Enfim, pequenas histórias cujos personagens estão sempre à beira de um ataque de nervos. Um retrato cruel e realista dos nossos dias atuais. Dirigido por Damián Szifron, o filme foi exibido e aclamado em vários festivais pelo mundo afora em 2014, sendo aplaudido de pé no Festival de Cannes. No elenco, os nomes mais conhecidos são Ricardo Darín, Oscar Martinez, Érica Rivas e Leonardo Sbaraglia. Imperdível!
No final dos anos 50, até grande parte da década de 60, os quadros da pintora norte-americana Margaret Ulbrich agitaram o mercado de arte nos EUA, fazendo com que ela e o marido, Walter Keane, ficassem milionários. Só que era Walter quem assinava a autoria dos trabalhos e aparecia para o mundo das artes como um grande artista. Até que um dia Margaret resolveu dar um basta e contar toda a verdade, desmascarando o pilantra. Tudo isso está contado no drama “GRANDES OLHOS” (“Big Eyes”), 2014, dirigido por Tim Burton. Margaret retratava crianças com os olhos arregalados, que expressavam tristeza. Esses olhares incomodavam e emocionavam as pessoas que iam às exposições, ainda mais quando Keane dizia, na maior cara de pau, que eram inspiradas em crianças famintas na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. O estilo e a qualidade artística dos quadros conseguiram grande divulgação na mídia e consagraram Walter Keane. Como o dinheiro entrava em cascatas, Margaret permaneceu quieta e concordou com a trapaça. Quando se separaram e Margaret foi morar com a filha no Havaí, a verdade viria à tona por intermédio de um processo judicial que acabou no Tribunal local. O elenco é ótimo: Amy Adams como a pintora está excelente, assim como o ator austríaco Christoph Waltz interpretando Walter Keane. Também estão no filme Danny Huston (filho de John Huston e, portanto, irmão de Angelica) e Terence Stamp, como sempre dando show. A cena do julgamento talvez tenha ficado cômica demais. Duvido que tenha sido assim na realidade. Em todo caso, o filme é muito bom, valorizado pelo ótimo desempenho de Amy Adams e, principalmente, Christoph Waltz.                          

sexta-feira, 13 de março de 2015

O suspense norte-americano “FREQUÊNCIA MORTAL” (“Dead in a Heartbeat”), de 2002, garante momentos de muita tensão e aflição. Nem pense em assistir se você tem instalado um marca-passo. A história é realmente sinistra. A fim de se vingar da renomada cirurgiã dra. Gillian Hayes (Penelope Ann Miller), a quem acusa de ser a responsável pela morte do filho alguns anos atrás, um especialista em explosivos começa a colocar microbombas nos aparelhos de marca-passo que a médica implanta em seus pacientes. Um dia, é claro, eles começam a explodir – talvez implodir fosse o termo mais adequado. Para investigar as mortes e tentar pegar o psicopata, entra em ação o tenente Tom Royko (o sumido Judge Reinhold), chefe do Esquadrão Antibombas de Seattle. Antes das vítimas irem para os ares, o maníaco avisa a polícia, que corre contra o relógio para tentar salvá-las. É nessa correria toda, SWAT no meio, que está o melhor do suspense. O psicopata (Timothy Busfield) não sossega enquanto não colocar as mãos na própria médica e aí também vai sobrar para o filho do tenente. Dirigido por Paul Antier, o filme, na verdade um telefilme, não nega ação do começa ao fim. Um bom programa para quem gosta de sofrer em frente à telinha. Um verdadeiro teste para cardíacos. 

quinta-feira, 12 de março de 2015

“COLT 45”, 2014, prova que o cinema francês achou a fórmula certa para fazer bons filmes policiais. Desta vez, a história envolve o jovem agente Vincent Milès (Ymanol Perset), encarregado do almoxarifado e da manutenção das armas do pelotão de polícia. Ele também é um exímio atirador. Tanto que vence todas as competições de tiro do seu esquadrão, incluindo aquelas provas de ação simulada. Embora convidado para ser um verdadeiro policial de rua, ele sempre preferiu ficar no posto em que está. Na oficina de sua casa, nas horas vagas, ele cria armas e munições especiais, como um cartucho que penetra no mais seguro colete à prova de balas. As habilidades de Milès chamam a atenção do misterioso policial Milo Cardena (Joey Starr). Depois de cometer um crime em legítima defesa, Milès será chantageado por Cardena, que na verdade é um policial corrupto e envolvido com uma gangue de traficantes e assaltantes. Para não denunciá-lo, Cardena exige que Milès forneça a ele e seu bando os seus poderosos cartuchos. A coisa toda foge ao controle e começam os assassinatos, inclusive de policiais. Com a ajuda do comandante Christian Chavez (Gérard Lanvin), a quem confessa sua ligação com Cardena, o jovem policial deixa a passividade de lado e parte para a ação. O filme tem a direção do belga Fabrice Du Welz e conta ainda no elenco com a bela Alice Taglioni (de “Paris-Manhattan”). O filme tem muita ação e suspense, além dos habituais clichês do gênero. Para quem curte filmes policiais, um programão. Sem dúvida, um filme de alto calibre.              

terça-feira, 10 de março de 2015


Sinistro, esquisito e perturbador. Não há maneira mais precisa para definir “QUANDO OS ANIMAIS SONHAM” (“Når Dyrene Drømmer”), Dinamarca, 2014. Trata-se de um drama de suspense e terror fantástico. Numa pequena comunidade costeira, a jovem Marie (Sonia Suhl) é discriminada por causa do que falam sobre a doença misteriosa da mãe, Mor (Sonja Richter), entrevada há anos numa cadeira de rodas. O pessoal da comunidade tem um pouco de medo dela. Marie trabalha numa pequena indústria de pescados e quase que diariamente é vítima de algum bullying violento por parte dos seus “colegas”. Com o tempo, Marie começa a sentir os mesmos sintomas da doença de sua mãe, como, por exemplo, crescimento de pelos em várias partes do corpo e sangue saindo  pelas unhas das mãos. Claro que boa coisa não vai sair daí. Far (Lars Mikkelsen), o pai de Marie, sabe exatamente o que vai acontecer, pois viveu o dilema que sua esposa enfrentou durante muitos anos. O filme marca a estreia em longas do diretor Jonas Alexander Arnby, que já trabalhou como assistente de Lars Von Trier. Estreou na Semana da Crítica do Festival de Cannes/2014 e também foi exibido na 38ª Mostra Internacional de São Paulo, sendo bem recebido tanto pela crítica como pelo público. Não deixa de ser um filme interessante.                                                            

segunda-feira, 9 de março de 2015


Quando a gente menos espera de um filme, aí é que ele surpreende. É o caso de “JULHO SANGRENTO” (“Cold in July”), EUA, 2014, direção de Jim Mickle. Com exceção de alguns atores conhecidos e a informação de que a história é baseada num livro escrito por Joe Lansdale, não há muitas referências. E não é que foi exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2014? O filme começa num suspense eletrizante, quando um homem desconhecido invade a casa de Richard Dane (Michael C. Hall) de madrugada. Dane apaga o bandido com um tiro, a polícia chega e encerra o caso como legítima defesa. Russel (Sam Sheppard), o pai do morto, sai da prisão em regime condicional e vai atrás da vingança pelo filho morto, ameaçando a família de Dane. Quando o chefe da polícia local Ray Price (Nick Damici) prende Russel, o filme dá uma reviravolta surpreendente, acrescentando ao suspense um pouco de policial noir e humor negro, com muita ação e violência. Não dá para entrar em detalhes para não estragar a surpresa. Só dá para dizer que a história vai envolver a máfia, policiais desonestos e até uma produtora de filmes pornográficos. Também só dá pra dizer que Dane, até então um pacato cidadão do bem e pai de família dedicado, acaba gostando da adrenalina de enfrentar bandidos e vai se divertir dando tiros. O filme também tem a presença do veterano ator Don Johnson, ótimo como Jim Bob, um investigador particular excêntrico. Entretenimento garantido!                                                                       

domingo, 8 de março de 2015

“THE BETTER ANGELS” (ainda sem tradução), 2014, é daqueles filmes que, aos 20 minutos do primeiro tempo, já tem gente abandonando a plateia. O primeiro sinal de que vem um filme esquisito está na menção, nos créditos, do nome do diretor Terrence Malick, que desta vez atuou como produtor. Mas dá na mesma, pois o diretor A. J. Edwards é tão pretensioso quanto. Na verdade, um discípulo do estilo de Malick (dos abomináveis “A Árvore da Vida” e “Amor Pleno”). Em "Amor Pleno", aliás, Malick contou com a ajuda de Edwards. “The Better Angels” é ambientado no início do século 19 no interior de Indiana e narra um período da infância de Abraham Lincoln. Apresenta Thomas Lincoln (Jason Clarke), o pai, como um homem severo e muitas vezes violento. O filme também aborda a doença e o falecimento da mãe biológica, Nancy Lincoln (Brit Marling), e o surgimento de Sarah Bush (Diane Kruger) como a segunda mãe de Ben (Braydon Denney). O filme é todo em P/B, tem poucos diálogos e a história é narrada in off por um primo que conviveu com Abraham Lincoln até este completar 21 anos de idade, quando saiu de casa e entrou para a história dos EUA. O filme é muito chato. Eu não marquei no relógio, mas a duração do filme é bem maior do que a 1h35 que vem nos créditos. A sensação, então, é que dura umas dez horas. Uma verdadeira bomba atômica. Perto desta, a de Hiroshima é um estalinho. De qualquer forma, os críticos mais afetados vão gostar e os estudantes de Cinema vão achar obra-prima. Nesse mundo, tem gosto pra tudo.                                                                                                                                 
“O MELHOR DE MIM” (“The Best of Me”), 2014, é mais um drama romântico adaptado de um livro do escritor Nicholas Sparks. Apesar da dosagem altíssima de água com açúcar, como todos os livros do glicêmico Spars, a história até que é bem elaborada e não tem lances muito fantasiosos. Quando eram jovens, Amanda Collier (Liana Liberato) e Dawson Cole (Luke Bracey) viveram uma intensa paixão, com direito à primeira vez dela. Vinte e um anos depois, os dois se reencontram na antiga cidade, Amanda vivida agora por Michelle Monaghan e Dawson por James Marsden. Entre idas e ao passado e vindas ao presente, o filme vai contar o drama de Dawson, criado por um pai violento e depois acolhido na casa de um senhor bonachão dono de uma oficina mecânica, Tuck (Gerald McRaney). Dawson tinha planos de casar com Amanda, cujo pai, um ricaço, foi totalmente contra e fez de tudo para impedir o relacionamento. Um acontecimento trágico, porém, levará Dawson a cumprir pena na prisão, o que o afastará de Amanda por um longo tempo. Com relação aos atores, o diretor Michael Hoffman pisou na bola ao escalar o ator australiano Luke Bracey para viver o jovem Dawson e James Marsden para o Dawson mais velho. Os traços de um e do outro são completamente diferentes. Nem uma plástica os tornaria parecidos. O ator Luke Bracey, aliás, parece muito mais velho do que Liana. Mas a escolha das duas atrizes foi um gol de placa: a bela e competente Michelle Monaghan realmente parece Liana mais velha. Um filme ideal para espectadores românticos crônicos.                                                                                                                              

sexta-feira, 6 de março de 2015

O drama francês “A PEQUENA JERUSALÉM” (“La Petite Jérusalem”) é bastante esclarecedor com relação à condição da mulher diante dos preceitos da religião judaica ortodoxa. Para isso, coloca em discussão temas como religião, claro, e também  filosofia e sexo. Produzido em 2005 e dirigido pela então estreante diretora francesa Karin Albou, o filme centra a história na família de Laura (Fanny Valette), de 18 anos, estudante de Filosofia. Ela vive com a irmã Mathilde (Elsa Zylberstein), o cunhado Ariel (Bruno Todeschini), os filhos do casal e a mãe. A família mora no bairro chamado “A Pequena Jerusalém”, em virtude da presença de um grande número de judeus, na periferia de Paris. Laura gosta de um colega de trabalho, Djamel (Hédi Tillette de Clermont-Tonnerre), um imigrante ilegal argelino muçulmano. Na verdade, uma paixão proibida. Sua irmã, Mathilde, descobre que Ariel, um fervoroso judeu ortodoxo, estava tendo um caso e então coloca em xeque sua condição de amante recatada, à qual atribui a traição do marido. Ela, então, vai procurar aconselhamento para reverter a situação. O filme é bastante interessante justamente por abordar esses aspectos que cercam o cotidiano das mulheres pertencentes a famílias judaicas ortodoxas. Um filme adulto, sério, que merece ser visto. 

quarta-feira, 4 de março de 2015

“GET ON UP” (ainda sem tradução por aqui), EUA, 2014, é o filme biográfico do cantor James Brown, um dos maiores fenômenos da música norte-americana e mundial, o “Rei do Soul” e o inventor do Funk. Para se ter uma ideia de quem foi James Brown (1933-2006) , basta dizer que vendeu, em sua carreira, mais de 500 milhões de discos. Outro sinal de sua importância musical: Mike Jagger é um dos produtores do filme e um de seus maiores admiradores. Brown viveu uma infância pobre, quase miserável, na Carolina do Sul. Abandonado pela mãe ainda pequeno, viveu um tempo com o pai violento, que depois foi para o exército e o deixou aos cuidados de uma tia. Brown começou a cantar na cadeia, onde cumpriu pena por roubo. Saiu e fundou o grupo “The Famous Flames”. Aí foi um sucesso atrás do outro, até se transformar num dos maiores cantores do século XX. O filme é ótimo, apesar da longa duração (139 minutos). O elenco é excelente, tendo à frente Chadwick Boseman (Brown), Viola Davis (Susie Brown, a mãe), Octavia Spencer (tia Honey), Dan Aykroyd (o empresário Ben Bart) e Nelson Ellis (Bobby Byrd, o melhor amigo). A direção é de Tate Taylor (“Histórias Cruzadas”). Os números musicais são um primor, mostrando como Brown, além de ótimo cantor e compositor, era um showman espetacular. O filme mostra que Brown tinha um ego maior até do que o seu talento, que já era enorme. Prepare-se para balançar na poltrona e conhecer um dos maiores gênios da música pop.  Imperdível!                                                                                                               
A comédia nacional “MADE IN CHINA”, 2014, é simpática e divertida. O apelo é bem popular, como a maioria das comédias feitas por aqui, mas esta, pelo menos, não parte para a baixaria. A história é ambientada no Saara, o maior centro comercial do Rio de Janeiro, uma espécia de Rua 25 de Março carioca. A Casa São Jorge, do libanês Nazir (Otávio Augusto), enfrenta a forte concorrência dos recém-chegados chineses, que abriram a Casa do Dragão bem em frente. Os artigos da Casa São Jorge, em sua maioria, vêm do Paraguai, e da concorrente, claro, da China, muito mais baratos. Francis (Regina Casé) e Andressa (Juliana Alves), vendedoras da São Jorge, tentam descobrir por que os chineses vendem suas mercadorias muito mais barato. Elas atravessam a rua e tentam dialogar com Chao (Tony Lee), sua mulher e sua filha, que não falam nossa língua. A dificuldade de comunicação gera alguns momentos bastante engraçados, ainda mais quando entra em cena Carlos Eduardo (Xande de Pilares), um malandro que namora Francis e não pode ver rabo de saia. Apesar do título, o filme é bem carioca, utilizando  linguagem típica da periferia de lá, repleta de gírias e de termos utilizados pela malandragem. O filme tem a direção de Estevão Ciavatta, marido de Regina Casé. Esta, por sinal, está bastante engraçada e menos chata do que o habitual. Otávio Augusto, como sempre, está ótimo. Mas os destaques mesmo são a morenaça Juliana Alves e Xande de Pilares como o típico malandro carioca. Enfim, um filme para quem quiser se divertir sem exigir muito.  

terça-feira, 3 de março de 2015

Deborah Secco já provou – tanto em novelas, em filmes e em peças de teatro – que é uma boa atriz. No cinema, sua melhor atuação foi, sem dúvida, em “Bruna Surfistinha”. No drama “BOA SORTE”, 2014, ela faz o papel de Judite, uma ex-drogada com HIV e graves problemas hepáticos Ela está internada numa clínica psiquiátrica e não tem muito tempo de vida. Enfim, uma paciente em estado terminal, que se mantém viva no automático e graças às doses de maconha levadas pela avó Célia (a sempre ótima Fernanda Montenegro). Recém-chegado à clínica, com problemas de depressão, o jovem João (João Pedro Zappa) logo faz amizade com Judite. Os dois não se desgrudam e João, sexo depois, acaba se apaixonando. Só que Judite, sabendo do histórico depressivo do rapaz, decide não alimentar essa paixão. Como não tem muito tempo de vida, ela teme que João faça alguma besteira após sua morte. O filme até comove, mas não deixa de ser arrastado, um tanto lento. Embora tenha emagrecido 11 quilos para o papel, Deborah não está assim tão convincente. Sua atuação chega a ser forçada em algumas cenas. O filme marca a estreia de Carolina Jabor (filha do próprio, Arnaldo) na ficção. Complementando as informações, a história foi baseada no conto “Frontal com Fanta”, de Jorge Furtado, que também assina o roteiro. Também estão no elenco Cassia Kis Magro (a antiga Kiss), Felipe Camargo e Gisele Fróes.

domingo, 1 de março de 2015

“BY THE GUN”, 2014, EUA, direção de James Mottern, é um drama que explora as consequências de se ingressar na Máfia, principalmente a fidelidade. No caso deste filme, a Máfia de Boston. Filho de italianos, Nick Tortano (o ator inglês Ben Barnes, o Caspian de “As Crônicas de Nárnia”), chegou garoto em Boston e logo passou a frequentar gangues. Cresceu e caiu nas graças do chefão mafioso Salvatore Vitaglia (Harvey Keitel). Nick é recomendado a ingressar na “Família”, com direito a padrinho, Jerry (Toby Jones), e a uma cerimônia formal com a presença de importantes chefões. Nick não sabe a fria em que está se metendo. Quando recebe a primeira missão – assassinar um advogado -, ele percebe que não coragem para tanto. Para piorar, acaba se apaixonando pela jovem Ali Matazano (a belezinha Leighton Meester), que nada mais é do que a filha de um violento chefão mafioso. Nick só fica valente mesmo e sai para a vingança quando a violência chega em sua família e na namorada. Aí o sangue vai jorrar de verdade. É claro que o filme passa longe – na verdade, a anos-luz – de inúmeros outros filmes do gênero, como “Os Bons Companheiros”, por exemplo, na minha opinião o melhor de todos. Vai gostar deste quem curte o tema Máfia sem se importar se a história é fraca ou se tem pouca ação e violência. Aliás, não há muitos motivos para tornar esse filme recomendável. Mediano já é um grande elogio.       
“SELMA – UMA LUTA PELA IGUALDADE” (“Selma”), 2014, direção de Ava DuVernay, é um dos melhores – senão o melhor – filmes já feitos sobre a questão racial nos EUA. A história é ambientada em 1965, ano em que o pastor protestante Martin Luther King (David Oyelowo) liderou marchas pacifistas entre a cidade de Selma e Montgomery, capital do Estado do Alabama. Seu objetivo: garantir o direito de voto aos negros. O filme mostra os bastidores dessas marchas e como elas foram planejadas, as conversas de Luther King com o então presidente Lyndon B. Johnson (Tom Wilkinson) na Casa Branca, o exacerbado racismo do governador George Wallace (Tim Roth), do Alabama, e a violência sem freios utilizada pelos policiais contra os manifestantes. Os discursos memoráveis de King também são destacados. Em um deles, ele afirma que é inconcebível que o presidente Johnson envie tropas para o Vietnam e se recuse a enviar soldados dar proteção aos participantes das marchas, afinal cidadãos norte-americanos em seu próprio país. É um filme poderoso, emocionante, uma verdadeira aula de história. Era um dos grandes favoritos a ser o destaque do Oscar 2015, mas foi claramente esnobado pela Academia. Recebeu somente duas indicações: Melhor Filme (perdeu) e Melhor Canção Original (ganhou, com “Glory”). Injusto, pois o filme é ótimo, simplesmente imperdível!  

sábado, 28 de fevereiro de 2015

“SONG ONE”, 2014, roteiro e direção de Kate Barker-Froyland, é um drama romântico com um altíssimo nível de água com açúcar. A história: enquanto estudava tribos nômades no Marrocos para um trabalho de doutorado, a antropóloga Franny (Anne Hathaway) recebe um telefonema da mãe Karen (Mary Steenburgen) com a notícia de que seu irmão mais novo Henry (Ben Rosenfield) tinha sido atropelado e está internado em coma. Franny retorna imediatamente para casa. Numa espiada no quarto de Ben, ela acha um diário e ainda vários cartazes e CD’s de um cantor chamado James Forester, o ídolo musical do irmão. Além de peregrinar pelos locais preferidos de Ben descritos no diário, Franny resolve também conhecer o tal James Forester (o ator sul-africano Johnny Flynn), que, por coincidência, estava fazendo uns shows na cidade. Ela acha um ingresso dentro do diário de Ben e vai assistir ao show com o intuito de conhecê-lo. É fácil adivinhar o que vai acontecer entre os dois. O filme é recheado de números musicais, grande parte deles do chamado “Folk Music” ou “Folk Rock”. Qualquer que seja a denominação certa, as músicas são chatérrimas, violão e voz, incluindo de vez em quando, para piorar, aqueles falsetes irritantes. Na parte musical, de interessante mesmo só a apresentação de um cantor barbudo interpretando “O Leãozinho” (Caetano Veloso) em português. O filme é indicado apenas para aqueles românticos incuráveis que não tenham problemas com diabete, pois é açucarado demais.                                                                                                                     

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

“O REI ELEFANTE” (“The Elephant King”), co-produção EUA/Tailândia de 2006, direção de Seth Grossman. Que eu me lembre, passou em branco por aqui esse drama ambientado quase que inteiramente na Tailândia. O jovem Jake (Jonno Roberts) enfrenta problemas com a justiça norte-americana e consegue fugir – o filme não explica como - para a Tailândia. Sua mãe, Diana Hunt (Ellen Burstyn), quer que o filho volte para casa, mesmo correndo o risco de ser preso. Jake está feliz na Tailândia, ganhando um troco nas lutas vale-tudo e vendendo – e consumindo também - maconha. Ele mora numa espécie de pousada com piscina olímpica (???) e namora uma bela nativa, Lek (Florence Faivre). Diana envia o filho mais novo, o tímido Oliver (Tate Ellington), para o país asiático com o intuito de convencer o irmão a retornar para casa. Quando chega à Tailândia, porém, Oliver deixa a timidez de lado e, levado pelo irmão, cai na gandaia. Durante uma farra, Jake compra um elefante e o leva para a pousada. Trata-se da única, infeliz e inexplicável associação com o título do filme. Oliver se apaixona por Lek, e vice-versa, e Jake fica transtornado. A situação abala a relação entre os irmãos. Como já dá para perceber, a história é fraca e o filme desanda de vez em sua segunda metade, culminando com um final trágico e, ao mesmo tempo, constrangedor. Embora apareça com destaque no material de divulgação do filme, Ellen Burstyn tem uma participação mínima, quase uma ponta. A grande atriz, de tantos papeis memoráveis em ótimos filmes como “Réquiem para um Sonho”, “Alice não Mora mais Aqui” e “O Exorcista”, entre tantos outros, não merecia estar associada a um filme tão medíocre. Dessa forma, mesmo com a presença de Ellen, fica difícil recomendar.