quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020


“O ESCÂNDALO” (“BOMBSHELL”), 2019, EUA, 1h49m, direção de Jay Roach, com roteiro de Charles Randolph. A história é baseada em fatos reais, ou seja, nas denúncias de funcionárias da gigante Fox News, em 2016, contra o chefão Roger Ailes, fundador e CEO da empresa. O filme mostra que há muitos anos Ailes (John Lithgow) obrigava as mulheres a se submeter a seus caprichos sexuais. Caso contrário, não encontravam lugar na empresa. Entre elas, as principais âncoras, repórteres e jornalistas. Uma delas, porém, resolveu denunciar Ailes depois de ser demitida. Gretchen Carlson (Nicole Kidman) contratou advogados para processar o CEO da Fox. No vácuo dessa primeira denúncia, outras funcionárias da Fox News ingressaram com novos processos. Megyn Kelly (Charlize Theron) foi uma delas. Outra personagem importante no filme é a jornalista Kayla Pospisil (Margot Robbie), também vítima do tarado. Em meio a todo esse escândalo, que ocupou com destaque o noticiário norte-americano em 2016, o filme destaca a influência do partido republicano nos meios de comunicação. Na Fox News, por exemplo, não se podia falar mal de Donald Trump, então candidato à presidência. Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes do filme, que ainda conta no elenco com as presenças de Connie Britton, Allison Janney e Kate McKinnon. Mas o destaque principal, sem dúvida, é o trio das protagonistas principais, Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie, atrizes que, além de bonitas, são muito competentes. Theron, quase irreconhecível por causa da maquiagem, cabelo e lentes de contato, foi indicada ao Oscar 2020 como Melhor Atriz. A australiana Margot Robbie também foi indicada como Melhor Atriz Coadjuvante. Ela é, na minha opinião, a atriz mais bonita do cinema atual. E a também australiana Nicole Kidman está muito bem no papel da âncora que resolve fazer a primeira denúncia. Outra indicação recebida pelo filme para a disputa do Oscar 2020 é a de Melhor Cabelo e Maquiagem. Resumo da ópera: “O Escândalo” é um bom filme, mas poderia ser muito melhor. O que o valoriza, além do trio de atrizes, é o fato de ter sido baseado em acontecimentos reais.         

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020


“O FAROL” (“THE LIGHTHOUSE”), 2019, Estados Unidos, 1h50m, direção de Robert Eggers (“A Bruxa”), que também assina o roteiro com a colaboração de seu irmão Max Eggers. A história, ambientada no final do século XIX e inspirada em fatos reais, é centrada na relação entre o experiente faroleiro Thomas Wake (Willem Dafoe) e seu assistente Ephraim Winslow (Robert Pattinson). Os dois são enviados a um rochedo distante da costa para cuidar de um farol, Wake como faroleiro e Winslow como zelador do local. Enquanto cada um cuida de sua função específica, o confinamento e a solidão começam a afetar a dupla. Passam a se xingar, discutem por qualquer motivo e tomam bebedeiras homéricas. Winslow, em especial, tem alucinações sobrenaturais, evocando monstros marinhos e até uma sereia (a modelo Valeriya Karaman). A situação se complica ainda mais quando uma violenta tempestade no mar impede que o navio de suprimentos chegue ao rochedo. Filmado em preto e branco (a fotografia, de Jarin Blaschke, foi indicada para disputar o Oscar 2020), “O Farol” não é um filme de fácil digestão. É lúgubre, tenebroso, violento, escatológico, um misto de drama, suspense, terror e fantasia. E também verborrágico demais, com os diálogos e longos monólogos falados no inglês antigo, difícil de entender. A entonação utilizada pelos atores é bastante teatral, assim como o texto, que lembra as peças trágicas dos dramaturgos de antigamente. O filme estreou durante o 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes em maio de 2019, arrancando muitos elogios da crítica especializada. Recomendo assistir exclusivamente pela ótima atuação dos atores (principalmente Pattinson, o que para mim é surpresa, pois sempre o considerei um ator muito fraco; Dafoe está ótimo como sempre)  e também pela fotografia em p/b, claramente inspirada pelo cinema expressionista alemão da primeira metade do século passado.     

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020


Vencedor de dois prêmios no Globo de Ouro (Melhor Filme de Drama e Melhor Diretor) e indicado em 10 categorias para disputar o Oscar 2020, entre os quais Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia, 1917é mais um excelente filme da ótima safra 2019 do cinema mundial. Trata-se de um épico de guerra ambientado durante a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) e conta a história de dois jovens soldados ingleses, os cabos Schofield (George Mackay) e Blake (Dean-Charles Chapman), que recebem uma difícil e quase suicida missão. Eles serão obrigados a atravessar as linhas inimigas alemãs para levar uma mensagem ao comandante de um pelotão inglês de 1.600 soldados. A ordem do alto comando era suspender o avanço do batalhão, pois a retirada dos alemães da Linha Hindenburg, norte da França, era um subterfúgio para pegar os ingleses numa armadilha. O filme inteiro mostra o sacrifício e o ato heroico dos dois jovens soldados, que enfrentaram terríveis obstáculos para cumprir a difícil missão. Para escrever o roteiro, juntamente com Krysty Wilson-Cairns, o diretor britânico Sam Mendes se inspirou nas histórias da 1ª Guerra Mundial contadas por seu avô paterno Alfred Mendes, que lutou no conflito pelo exército inglês. Sam Mendes (Oscar de Melhor Diretor com “A Beleza Americana” em 2000, e diretor dos dois últimos 007, “Operação Skyfall” e “007 contra Spectre”) filmou tudo em apenas dois longos planos-sequência (sem cortes), com a câmera acompanhando a ação bem perto dos protagonistas, proporcionando ao espectador a sensação de estar em cena participando como protagonista. Para esse trabalho magistral, Mendes contou com a colaboração do fotógrafo Roger Diakins. Ainda estão no elenco Mark Strong, Andrew Scott, Colin Firth, Benedict Cumberbatch e Richard Madden. Muita adrenalina, ação e suspense, valorizados por cenas sensacionais, de tirar o fôlego. Realmente, um filmaço!    

terça-feira, 28 de janeiro de 2020


“BLACK ’47” (não deverá chegar por aqui, pois não tem nenhum apelo comercial; por isso, não foi traduzido), 2018, Irlanda, 1h40, roteiro e direção de Lance Daly. Trata-se de um drama histórico bastante pesado, ambientado em 1847 na Irlanda durante o período que se chamou A Grande Fome, que vitimou milhares de irlandeses. A história é centrada no mercenário Martin Feeney (o ator australiano James Frechville), que desertou do exército inglês que lutava no Afeganistão para rever sua família na Irlanda, mas encontrou todos mortos pela fome e pela omissão das autoridades inglesas. Feeney quer se vingar de todos os que fizeram tanto mal à sua família, desde o juiz que lhes tirou a casa até o empresário avarento que se negava a lhes dar comida. A série de assassinatos cometidos por Feeney chamaram a atenção das autoridades inglesas, que enviaram para capturá-lo um ex-colega de exército de Feeney, Hannah (Hugo Heaving). O filme acompanha a trajetória de Feeney e, em seu encalço Hannah, por uma Irlanda afundada na mais trágica crise econômica, durante a qual grande parte da população morria de fome e frio. Nos diálogos, além da língua inglesa, o roteirista e diretor Lance Daly fez questão de utilizar os dialetos dos irlandeses residentes em aldeias e vilarejos da zona rural. Reforçam o elenco atores ingleses bastante conhecidos, como Stephen Rea e Jim Broadbent. “Black ‘47” estreou, com elogios, durante o Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2018. O filme é muito interessante sob o ponto de vista histórico, mostrando um país devastado pela fome e dominado pela tirania inglesa, o que provocou a ira do povo e depois o surgimento de uma ira maior: o IRA.     

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020


“ENTRE FACAS E SEGREDOS” (“KNIVES OUT”), 2019, Estados Unidos, 2h10m, roteiro e direção de Rian Johnson. Mais um dos excelentes filmes que comprovam a qualidade da safra 2019 de Hollywood, que já nos presenteou com os magistrais “Coringa”, “O Irlandês”, “Era uma vez...em Hollywood” e outros tantos. “Knives Out” é um filme policial de mistério e foi escrito inspirado, segundo o próprio Rian Johnson, nas histórias da escritora inglesa Agatha Christie, principalmente “Assassinato no Expresso Oriente”. Ou seja, segue a fórmula de um assassinato, vários suspeitos, interrogatórios e o desfecho revelando o criminoso. O escritor de livros policiais Harlan Thrombey (Christopher Plummer) aparece morto com a garganta cortada depois de sua festa de 85º aniversário. Todos que estavam na festa tornam-se suspeitos: os filhos, genros, netos, empregados etc., cada um com uma motivação diferente para excluir Harlan da vida terrena. O tenente Elliott (Lakeith Stanfield) é o encarregado oficial das investigações, auxiliado pelo detetive Benoit Blanc (Daniel Craig, o atual 007), cujo método de interrogatório privilegia uma forte pressão psicológica e perguntas desconcertantes. Blanc escolhe como seu bode expiatório a enfermeira Marta Cabrera (a atriz cubana Ana De Armas, ótima), a imigrante latino-americana que cuidava da saúde do falecido, aplicando-lhe os remédios e injeções. A intuição de Blanc estava certa. Marta será a personagem que mais ajudará o detetive a solucionar o mistério da morte do escritor, a que mais se envolverá nos acontecimentos da investigação. O roteiro do filme é magistral, tanto que foi indicado ao Oscar 2020. Entre o suspense reativado a cada minuto e as várias e surpreendentes reviravoltas, o espectador estará se divertindo com uma trama bastante engenhosa e com um humor sutil e irônico. O elenco é um luxo só: além de Plummer, Craig e Ana De Armas, atuam Chris Evans (o Capitão América), Jamie Lee Curtis, Don Johnson (pai de Dakota, de “50 Tons de Cinza”), Michael Shannon, Toni Colette e Katherine Langforfd. Cinema de qualidade e diversão garantida.     

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020


“VELOZ COMO O VENTO” (“VELOCE COME IL VENTO”), 2016, Itália, 1h40m, direção de Matteo Rovere, que também assina o roteiro com a colaboração de Francesca Manieri e Filippo Gravino. A jovem Giulia De Martino (Matilda De Angelis) é uma jovem pilota de corridas que disputa o Campeonato Italiano de GT (Gran Turismo) por uma equipe modesta chefiada por Hélio De Martino, seu pai. Ela tinha grandes chances de conquistar o campeonato, mas durante uma das provas decisivas seu pai morre vítima de um infarto fulminante. No enterro, surge do nada o filho mais velho do falecido, Loris De Martino (Stefano Accorsi), sumido há 20 anos. Loris chegou a ser um piloto promissor na categoria GT e ficou conhecido pelo apelido de “Dançarino” por suas manobras ousadas nas pistas. Só que Loris se entregou às drogas – é viciado em heroína – e virou um sujeito fracassado. Quando soube da morte do pai, apareceu para tentar ganhar algum dinheiro de herança. Não seria tão simples assim. Seu pai hipotecou a casa para manter a equipe de corrida. Dessa forma, restava a Giulia conquistar o campeonato e resgatar as dívidas. Para isso, teve que aceitar seu irmão viciado como técnico. Um acidente, porém, tira Giulia das pistas, colocando um ponto final no seu sonho de conquistar o campeonato de GT. Numa última chance de ganhar algum dinheiro, Loris decide participar de uma prova chamada Corrida da Itália (Italian Race), um tipo de rallye muito perigoso que costuma provocar muitas mortes. Com a ajuda do mecânico Tonino (Paolo Graziosi), Loris resolve recuperar o velho Peugeot 205 Turbo 16, seu antigo companheiro de provas, e enfrentar os desafios da Italian Race. “Veloce Come Il Vento” conquistou 12 prêmios em festivais de cinema, um deles o “Davi Di Donatello”, da Academia do Cinema Italiano, como Melhor Filme. Não achei tão bom assim, embora as cenas nas pistas sejam bem filmadas. Só para amantes do automobilismo esportivo.          

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020


Depois de assistir “MINHA IRMÃ DE PARIS” (“NI UNE NI DEUX”), 2019, França, 1h38m, não entendi por que os materiais de divulgação trataram o filme como comédia. Até alguns críticos caíram nessa, provavelmente porque não o assistiram e apenas reproduziram a sinopse. Na verdade, trata-se de um drama familiar. Julie Varenne (Mathilde Seigner), uma atriz francesa de sucesso em filmes independentes de arte, aceita participar de uma comédia, na tentativa de alavancar uma carreira em decadência. Uns dias antes do início das filmagens, ela se submete a uma aplicação de botóx no lábio superior que não dá certo. Ela fica desfigurada. E agora, o que fazer? Auxiliada pelo seu empresário Jean-Pierre (François-Xavier Demaison), Julie acaba recorrendo a uma fã que um dia pediu seu autógrafo e é muito parecida com a atriz. Trata-se de Laurette (Seigner), uma cabeleireira dona de um salão de beleza. Laurette topa trabalhar como dublê de Julie e se sai muito bem. Quando a verdadeira atriz melhora e volta a filmar, a coisa se complica. No meio desse agito todo, Julie acabará descobrindo que Laurette é, na verdade, sua irmã gêmea. Como únicos trunfos de “Minha Irmã de Paris”, destaco a atuação de Mathilde Seigner nos dois papéis, assumindo as personalidades completamente diferentes das irmãs. Só para lembrar: Mathilde é irmã da também atriz Emmanuelle Seigner, esposa e musa do cineasta Roman Polanski desde os anos 80. Outro destaque do filme são os belos cenários da cidade de Aix-em-Provence, onde a personagem Laurette mantém seu salão de beleza. Resumo da ópera: entre um e outro sorriso amarelo, dá para assistir “Minha Irmã de Paris” numa sessão da tarde para adultos.      

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020


“DOR E GLÓRIA” (“DOLOR Y GLORIA”), 2019, Espanha, 1h53m, é o filme mais autobiográfico do roteirista e diretor Pedro Almodóvar. É o seu 21º longa-metragem e, na minha opinião, o mais genial. A história é centrada no cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas), que tem dificuldade de enfrentar a velhice que chega e, com ela, a depressão e a falta de inspiração. Tem problemas de saúde, dores pelo corpo e nenhuma vontade de socializar. Até que um dia resolvem prestar uma homenagem ao filme “Sabor”, que Mallo escreveu e dirigiu há 32 anos, um grande sucesso na época. Os preparativos para a homenagem fizeram com que Mallo reencontrasse Alberto Crespo (Azie Etxeandia), ator principal do filme e com o qual havia brigado. Mallo também terá a oportunidade de rever Federico (o ator argentino Leonardo Sbaraglia), seu antigo namorado. Em meio a esses encontros, Mallo começa a recordar de sua infância pobre (papel do menino Asier Flores) em Valência nos anos 60 e de sua relação com a dedicada mãe Jacinta (Penélope Cruz), além de mostrar como surgiu sua opção sexual. Antonio Banderas está ótimo no papel do diretor amargurado e, merecidamente, conquistou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes 2019, onde o filme teve a sua estreia mundial e a indicação para a Palma de Ouro. “Dor e Glória” também está representando a Espanha na disputa do Oscar 2020 de Melhor Filme Estrangeiro. Segundo a prestigiosa revista norte-americana Times, trata-se do melhor filme do ano. Almodóvar reconhece que Mallo tem tudo a ver com sua vida pessoal (reparem que o penteado do ator Banderas é igual ao do cineasta). Quem assistir poderá constatar que o Almodóvar colocou no roteiro uma série de memórias afetivas. “Dor e Glória” é um grande filme, melancólico e, ao mesmo tempo, bastante sensível. Na minha humilde opinião, um dos melhores de Almodóvar. Não perca!          

domingo, 19 de janeiro de 2020


“DEPOIS DO CASAMENTO” (“AFTER THE WEDDING”), 2019, Estados Unidos, 1h52m, roteiro e direção de Bart Freundlich. Trata-se do remake do filme dinamarquês “Efter Brylluppet”, de 2006, dirigido por Susanne Bier. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano seguinte, o filme de Susanne Bier tinha como protagonista principal o ator Mads Mikkelsen. No caso desta nova versão norte-americana, o papel de Middelsen foi substituído por de uma mulher. A história do drama recente é centrada em Isabel (Michelle Williams) que há muitos anos vive em Calcutá (Índia) prestando serviços humanitários num orfanato, agora como gerente. Ela não sabe como seguir adiante, pois não há ajuda financeira. Quando tudo parecia perdido, eis que chega a notícia de que uma alta executiva de uma renomada empresa de publicidade sediada em Nova Iorque está disposta a doar milhões de dólares para o orfanato. Isabel segue para Nova Iorque para conhecer a empresária Theresa (Jullianne Moore) e negociar os valores e as condições do contrato. Será preciso esperar alguns dias para essa reunião, pois Theresa está organizando o casamento de sua filha Grace (Abby Quinn). Isabel é convidada para a cerimônia sem saber que uma grande surpresa estará prestes a acontecer, envolvendo Oscar (Billy Crudup), justamente o marido de Theresa. Não dá para contar mais para não estragar as surpresas do roteiro, que são muitas até o desfecho. Quem for muito sensível pode comprar uma caixa de lenços, pois as lágrimas vão rolar. O grande trunfo dessa versão hollywoodiana, além da história bastante interessante, é contar com três ótimos atores: Julianne Moore (na vida real, esposa do diretor), Michelle Williams e Billy Crudup. No mais, nada de muito empolgante para merecer uma recomendação entusiasmada. Porém, trata-se de um bom programa para quem gosta de filmes lacrimosos.            

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020


“HEBE – A ESTRELA DO BRASIL”, 2019, direção de Maurício Farias, com roteiro de Carolina Kotscho. Trata-se da cinebiografia (incompleta) da apresentadora Hebe Camargo (1929-2012), que ficou no ar com seu programa de auditório durante 60 anos. Seja na Tupi, Record, Bandeirantes e SBT, seu programa de auditório bateu recordes de audiência, superando muitas vezes a poderosa Rede Globo. O filme acompanha a trajetória de Hebe durante a segunda metade dos anos 80, quando já era uma apresentadora consagrada em todo Brasil. Os enfoques principais são sua relação tumultuada com o diretor Walter Clark na TV Bandeirantes, seus desabafos ao vivo contra a censura, os políticos e a corrupção, o que quase lhe valeu uma prisão, e sua ida para o SBT. Mas é na sua vida particular que o filme dá maior destaque, as brigas violentas com o ciumento segundo marido Lélio Ravagnani, suas bebedeiras com as amigas Lolita Rodrigues e Nair Bello, além da sua extravagância em usar joias caríssimas e roupas exóticas e escandalosamente cheias de brilho. O fato da vida de Hebe ser retratada em apenas alguns anos da década de 80 restringiu em muito a história de Hebe, nascida em uma família pobre de Taubaté – no filme, ela dá a entender que tinha passado fome na infância. Faltou ainda abordar um aspecto importante na vida da apresentadora: sua participação no primeiro programa de televisão no Brasil, em 1950, na extinta TV Tupi. Também ficou faltando abordar seus últimos anos de vida, a doença e sua luta para sobreviver. Ou seja, como escrevi no início deste comentário, a cinebiografia de Hebe ficou incompleta, o que, na minha opinião, acabou prejudicando o resultado final – o filme virou minissérie em 10 episódios exibidos na programação Tela Quente da Rede Globo. Não assisti, mas dizem que é mais completa do que o filme. O elenco é o ponto alto do filme “Hebe – A Estrela do Brasil”: Andréa Beltrão (Hebe), Marco Ricca (Lélio Ravagnani), Danton Mello (Cláudio Pessutti, seu sobrinho e principal assessor), Caio Horowicz (Marcello, filho de Hebe), Daniel Ventura (Silvio santos), Felipe Rocha (Roberto Carlos), Stella Miranda (Dercy Gonçalves), Otávio Augusto (Chacrinha), Gabriel Braga Nunes (Décio Capuano, primeiro marido de Hebe), Danilo Grangheia (Walter Clark), Cláudia Missura (Nair Bello), Karine Teles (Lolita Rodrigues) e Renata Bastos (Roberta Close). Na mesma linha de cinebiografias de artistas brasileiros, recomendo as do Palhaço Bozo (“Bingo, o Rei das Manhãs”), Tim Maia, Chacrinha, Maysa, Elis Regina, Erasmo Carlos, Zezé de Camargo e Luciano “Os Dois Filhos de Francisco”) e Chacrinha.             

terça-feira, 14 de janeiro de 2020


“A PRECE” (“LA PRIÈRE”), 2018, França, 1h47m, direção de Cédric Kahn, que também assina o roteiro com a colaboração de Fanny Burdino e Samuel Doux. O filme tem como pano de fundo a religião, envolvendo questões como a fé, a devoção, o amor, a amizade, o sacrifício e a entrega. A história é centrada no jovem Thomas (Anthony Bajon), um viciado em heroína que aceita ser enviado a uma comunidade isolada nos Alpes franceses que trata de dependentes químicos. São dois tipos de acampamento, um para os rapazes e outro para as moças. Em ambos, a religião é a força motora para tentar a recuperação dos jovens. Desde que acordam, os jovens cumprem uma rotina bastante rigorosa e extenuante. Trabalham na horta, cortam lenha, rezam em conjunto e participam de sessões de terapia em grupo, durante a qual contam suas experiências e, alguns ex-internos, a sua vitória sobre o vício. Desde que chegou ao acampamento, Thomas sempre tem a seu lado um colega que serve de tutor ou orientador, no caso Pierre (Damien Chapelle), um ex-viciado que trabalha como voluntário. Após livrar-se das crises de abstinência, Thomas acaba descobrindo a fé e decide ir para o seminário. Quer ser padre. Ao mesmo tempo, porém, conhece a jovem Sybelle (Louise Grinberg), outra ex-viciada, pela qual se apaixona. Thomas viverá dias atormentados, devendo decidir pela Igreja ou pelo amor de uma jovem. Destaque para a participação especial da atriz alemã Hanna Schygulla como a Madre Myriam. Durante muitos anos - décadas de 70 e 80 -, Schygulla, dos clássicos “O Casamento de Maria Braun” (1978) e “Lili Marlene” (1981), foi uma das minhas musas do cinema. A atriz envelheceu e engordou. Está irreconhecível. Outro destaque de “A Prece” é o ator espanhol, de descendência alemã, Alex Brendemühl, do espetacular “The German Doctor” (2013), onde fez o papel do criminoso de guerra alemão Josef Mengele. “A Prece” estreou em fevereiro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Berlim e consagrou a excelente atuação de Antony Bajon com o Urso de Prata de Melhor Ator. Merecido. “A Prece” também foi exibido por aqui durante a programação oficial da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Cinema da melhor qualidade.           

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020


Sou fã de carteirinha de Woody Allen desde que utilizava a mesma para pagar meia-entrada como estudante. E faz tempo – década de 60. São mais de 50 anos curtindo os filmes de Allen. Todo ano ele lança um, seja escrevendo, dirigindo ou também atuando, e não perdi nenhum. Ele sempre foi um dos meus diretores preferidos, ao lado de Scola, Fellini, Tornatori, Scorcese e Monicelli. Hoje, aos 84 anos, Allen continua em pleno vigor criativo e artístico, como comprova seu filme mais recente, “UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK” (“A RAINY DAY IN NEW YORK"), que escreveu e dirigiu, mas não atuou. Nele, Allen conta a história das peripécias dos namorados Gatsby (Timothée Challamet) e Ashleigh Enright (Elle Fanning) em Nova York. Fanning escreve para o jornal da faculdade e seu objetivo na Big Apple é entrevistar o diretor de cinema Roland Pollard (Liev Schreiber). O combinado é que depois da entrevista Gatsby levará Ashleigh para um passeio noturno na cidade, incluindo jantar, piano ao vivo e um giro de charrete pelo Central Park. Só que o esperado programa dá muito errado, já que Ashleigh ainda consegue uma entrevista exclusiva com o famoso roteirista Ted Davidoff (Jude Law) e ainda com o ator latino Francisco Vega (Diego Luna), o galã do momento em Hollywood. Enquanto isso, Gatsby fica desesperado por não conseguir falar com a namorada e, passeando solitário pela cidade, reencontra casualmente Shannon Tyrell (Selena Gomez), a irmã mais nova de uma antiga namorada. Além disso, ainda vai a uma festa da sua família com uma garota de programa. E por aí vai a história, com muitos encontros e desencontros, com o habitual humor de Allen, repleto de diálogos e situações inteligentes e hilariantes. Como o título já entrega, Nova York é filmada debaixo de uma chuva incessante, mas em nenhum momento perde seu charme, principalmente graças à bela fotografia do consagrado mestre italiano Vittorio Storaro. Mais um saboroso filme com a assinatura de Woody Allen e, portanto, imperdível!   

sábado, 11 de janeiro de 2020


Bruce Willis continua duro de matar, mas seus últimos filmes são duros de aguentar, de engolir, de assistir. Em quase todos eles Willis aparece pouco, mas seu nome surge sempre em destaque nos materiais de divulgação, como se ele fosse o protagonista principal. Além do mais, Willis está nitidamente sem fôlego para atuar em filmes de ação. Fora que nunca foi um bom ator e agora piorou muito. Se alguém tiver alguma dúvida a respeito de tudo isso que escrevi, assista ao recente suspense policial “CENTRO DO TRAUMA” (“TRAUMA CENTER”), 2019, EUA, 1h26m, direção do cineasta iraniano radicado na América Matt Eskandari, com roteiro de Paul J. Da Silva. A história toda gira em torno de Madison Taylor (Nicky Whelan), que por um azar acaba testemunhando o assassinato de um policial. Embora não possa identificar os dois atiradores, ela recebeu um tiro na perna e a bala pode denunciar a quem pertence o revólver do assassino. Os dois vilões conseguem descobrir que Madison está internada num hospital. Como também são policiais – da Narcóticos -, acabam tendo livre acesso às dependências do hospital. Seu objetivo é retirar a bala da perna da moça. Enquanto isso, nada de Willis, cujo personagem é o tenente Steve Swake. Por um bom tempo, Madison consegue fugir dos vilões até a chegada da cavalaria, ou seja, o pangaré Willis. A ação transcorre à noite, o hospital no maior silêncio, enquanto em alguns andares Madison tenta se esconder dos bandidos. Muito barulho, inclusive tiros, mas nada chama a atenção nem dos seguranças do hospital e muito menos dos médicos e enfermeiras. Tenha dó! Os atores Tito Ortiz e Texas Battle, os vilões, são tão medíocres que chegam a ser cômicos. Posso apontar como únicos destaques a presença da bela atriz australiana Nicky Whelan e a aparição do ator Steve Guttenberg, que andava sumido das telas – pelo menos faz tempo que não o vejo. “Centro do Trauma” é um enorme abacaxi, daqueles que vem com a Carmem Miranda pendurada. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020


“A CAMAREIRA” (“LA CAMARISTA”), 2019, México, 1h42m, estreia no roteiro e direção da atriz Lila Avilés. O filme foi selecionado para representar o México na disputa do Oscar 2020 de Melhor Filme Estrangeiro (o México ganhou no ano passado por “Roma”, de Alfonso Cuarón). “A Camareira” é um filme simples, intimista, mas muito sensível. Utiliza apenas um personagem principal e outros dois ou três coadjuvantes, tem poucos diálogos e o cenário é único: o interior de um hotel de luxo na cidade do México. Mesmo assim, em nenhum momento torna-se entediante. A história acompanha o cotidiano de trabalho de Eve (Gabriela Cartol, ótima), camareira dos apartamentos vips do 21º andar. O tempo inteiro, ela aparece arrumando lençóis, travesseiros, limpando os banheiros e a sujeira deixada pelos hóspedes. Mostra Eve tomando conta do bebê de uma cliente argentina (Agustina Quinci), auxiliando um senhor judeu ortodoxo a apertar os botões do elevador no sabá, além de suas conversas, na hora de descanso, com a colega Minitoy (Teresa Sánchez). Eve é mãe solteira e trabalha duro para sustentar seu filho e pagar uma babá. Ela quer melhorar de vida e, por isso, participa de um programa de educação para adultos promovido para os empregados do hotel. Suas jornadas de trabalho, recheadas de plantões extras, a afastam vários dias do seu filho, deixando-a frustrada e triste. Enfim, a história toda gira em torno de Eve, que aparece em cena a cada segundo de projeção. Ou seja, leva o filme nas costas, realizando um excelente desempenho, o que lhe valeu uma indicação ao Prêmio Ariel (o Oscar mexicano concedido pela Academia Mexicana de Artes e Ciências Cinematográficas) de Melhor Atriz. “A Camareira” ganhou o Prêmio Ariel como Melhor Filme de Estreia. Resumo da ópera: o filme é muito bom, bastante sensível e agradável de assistir.    

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020


“O PINTASSILGO” (“THE GOLDFINCH”), 2019, Estados Unidos, 2h29m, direção do cineasta irlandês John Crowley (“Brooklyn”). O filme estreou no Festival de Cinema de Toronto em setembro de 2019. A história foi adaptada pelo roteirista Peter Straughan do romance “The Goldfinch”, que deu à escritora Donna Tartt o Prêmio Pulitzer de 2014. O personagem principal é Theodore Decker (Cakes Fegley na adolescência e Ansel Elgort na fase adulta). Aos 13 anos, Theo foi com a mãe visitar o Museu Metropolitano de Arte da Nova Iorque. Durante a visita acontece um atentado à bomba que mata sua mãe e outras pessoas. Theo sobrevive e recolhe dos escombros o quadro “O Pintassilgo”, do pintor holandês Carel Fabritius (1622-1654), justamente aquele que ele admirava quando a bomba explodiu. Como seu pai sumiu do mapa há tempos, Theo não tinha onde morar e acabou sendo acolhido na casa da sra. Barbour (Nicole Kidman, com a aparência meio esquisita, talvez excesso de botox), mãe de seu colega de escola. E por aí vai a história, acompanhando a trajetória de Theo pela vida afora, incluindo a amizade com o dono de um antiquário, envolvimento com o tráfico de drogas, o noivado com uma moça da alta sociedade novaiorquina, o reencontro com o pai irresponsável em Las Vegas e até uma viagem para a Europa na tentativa de recuperar o quadro que estava de posse de um mafioso russo. Não deve ter sido fácil para o roteirista Peter Straughan condensar tanta informação e as inúmeras situações vividas por Theo e descritas nas 700 páginas do livro de Donna Tartt. Ou seja, muita coisa para contar em apenas 2h29m de projeção. O elenco conta ainda com Jeffrey Wright, Luke Wilson, Sarah Paulson, Willa Fitzgerald, Aneurin Barnard, Hailey Wist, Finn Wolfhard e Aimee Lawrence. Vale uma visita pela história e pelo excelente elenco.     

domingo, 5 de janeiro de 2020


“JT LEROY”, 2018, coprodução Estados Unidos/Canadá, 1h48m, roteiro e direção de Justin Kelly. Baseada em fatos reais, a história relembra um caso de grande repercussão ocorrido nos Estados Unidos em meados da primeira década deste século. Sob o pseudônimo de JT Leroy, a escritora independente Laura Albert escreveu, em 2000, o livro “Sarah”, que logo virou best-seller ao retratar a vida sofrida, tumultuada e chocante de Jeremiah “Terminator” Leroy (o pseudônimo JT Leroy, que assinava o livro), que todo mundo acreditava ser um personagem real. Em 2001, saiu um novo livro de Laura Albert, também como JT Leroy: “O Coração é Enganoso Acima de Todas as Coisas”. Mas, afinal, quem é o JT Leroy na vida real? A curiosidade mexeu com os meios literários, com a mídia e com os milhões de leitores pelo mundo inteiro. Até com Hollywood, que queria fazer um filme com JT Leroy. Laura Albert (Laura Dern), a autora verdadeira, teve a ideia de transformar sua cunhada Savannah Knoop (Kristen Stewart) no tal JT Leroy, uma falsa jogada de marketing que durou até 2005, quando uma reportagem do Jornal The New York Times revelou a farsa. Com seu tipo andrógeno, a atriz Kristen Stewart, que, como o personagem JT Leroy, também é bissexual na vida real, é o grande destaque do filme, que teve sua estreia mundial no dia 15 de setembro de 2018 no Festival de Toronto. Lembro que o roteiro foi inspirado no livro “Girl Boy Girl: How I Became JT Leroy”, escrito pela própria Savannah Knoop, que também ajudou o diretor Justin Kelly a roteirizar a  história. Também estão no elenco, além de Kristen Stewart e Laura Dern, a atriz alemã Diane Kruger, Jim Sturgess e Courtney Love. Muita gente aqui no Brasil talvez nunca tenha ouvido falar no caso JL Leroy. Por isso mesmo, o filme pode ser bastante interessante, valorizado ainda mais pelo excelente elenco e o ótimo roteiro.       

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020


Discutir a relação no casamento. O assunto já foi abordado inúmeras vezes no cinema, sendo impossível não lembrar do clássico “Cenas de um Casamento” (1973), do sueco Ingmar Bergman, onde Liv Ullmann e Erland Josephson discutem a relação durante quase 3 horas de projeção. Em “Kramer vs. Kramer” (1979), a relação conjugal também foi discutida pelo casal vivido por Meryl Streep e Dustin Hoffman, culminando numa disputa judicial pela guarda do filho. Esses dois aspectos – discutir o relacionamento e disputa judicial – foram incorporados ao drama “HISTÓRIA DE UM CASAMENTO” (“MARRIAGE STORY”), 2019, Estados Unidos, 2h17m, roteiro e direção de Noah Baumbach. No início, tudo parece correr às mil maravilhas com Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson). Depois de dez anos de casados, que resultaram no filho Henry (Azhy Robertson), a relação começa a azedar a partir do momento em que Nicole, uma atriz de teatro, resolve sair de Nova Iorque para tentar o cinema em Hollywood, levando o filho a tiracolo. Charlie, diretor de teatro, não se conforma com a situação e parte para Los Angeles com o objetivo de tentar um acordo. Só que Nicole contrata a advogada Nora Fanshaw (Laura Dern) e entra com uma ação na justiça para preservar a guarda do menino e ainda exigir uma grana de Charlie. E por aí vai a “História de um Casamento”, com muito blá, blá, blá – é verborrágico ao extremo, como é o estilo do roteirista e diretor Noah Baumbach (dos chatérrimos “Frances Ha” e “Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe”). Para escrever o roteiro de “História de um Casamento”, Noah confirmou em entrevista que inseriu muitos momentos de seu tumultuado casamento com a atriz Jennifer Jason Leigh, com a qual viveu de 2005 até 2012. Também estão no elenco Alan Alda, Ray Liotta e Julie Hagerty. Dizem que existe uma grande chance de Adam Driver e Scarlett Johansson serem indicados ao Oscar 2020. Pode ser, mas o filme em si não chega a ser uma maravilha. Achei a situação forçada demais e a verborragia reinante chega a incomodar. Em todo caso, vale uma visita para conferir.      

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019


“ATLANTIQUE”, 2019, coprodução França/Senegal/Bélgica, com distribuição da Netflix (foi lançado mundialmente em 29 de novembro de 2019), 1h47m, marca a estreia da atriz francesa Mati Diop como roteirista e diretora de longa-metragens. A história reúne ingredientes de vários gêneros: drama, romance, policial, mistério, suspense e fantasia. É ambientado em Dakar, capital do Senegal, e totalmente falado em Wolof, a língua oficial do país. A jovem Ada (a atriz estreante Mame Bineta Sane), de 17 anos, de uma família humilde da periferia de Dakar, é prometida em casamento para Omar (Babacar Sylla), herdeiro de uma família rica. Só que ela ama Suleiman (Ibrahima Traoré), um jovem operário que trabalha no canteiro de obras de um edifício futurista em Dakar. Como não recebem salário há meses, Suleiman e alguns companheiros decidem embarcar clandestinamente para a Espanha, mas o barco desaparece misteriosamente. Enquanto isso, durante os preparativos para o casamento de Ada, acontece um incêndio na casa de Omar, iniciado no leito nupcial destinado ao casal. A polícia entra em ação para investigar o fato e começa a desconfiar que o incêndio não foi simplesmente um acidente e sim uma vingança de Suleiman, que, embora desaparecido, teria sido visto andando pelas ruas de Dakar. Ao mesmo tempo, os espíritos dos homens desaparecidos no mar assumem o corpo de várias jovens, que vão até o empresário Nidaye (Diankou Sembene) cobrar os salários devidos pelo trabalho na construção. O mar – no caso, o Oceano Atlântico (daí o “Atlantique”) - aparece em várias cenas do filme, com a câmera estática, uma ideia da diretora para destacar sua importância na história. “Atlantique” foi selecionado para disputar a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2019, conquistando o também importante “Grand Prix Spécial Du Jury”. Em Cannes, Mati Dopi também se destacou como a primeira diretora negra a competir pela Palma de Ouro. O filme é muito interessante, merece ser visto. 

sábado, 28 de dezembro de 2019


“MAMÃE SAIU DE FÉRIAS” (“MAMÁ SE FUE DE VIAJE”), 2019, México, 1h40m, roteiro e direção de Fernando Sariñana. Trata-se de um remake do filme argentino “Mamá se Fue de Viaje”, de 2017, que também teve uma versão italiana este ano, “10 Giorni Senza Mamma”. A versão mexicana, tema deste comentário, é muito divertida. Cassandra (Andrea Legarreta), a dona da casa, resolve tirar umas férias para fazer um curso de Ioga. Deixou os quatro filhos aos cuidados do pai, completamente inexperiente na função, pois dedica-se integralmente à empresa onde trabalha como gerente. Ah, ainda sobrou o cachorro da família, “Canabis”. Aquelas confusões de sempre: acordar cedo para fazer o café para a criançada, cuidar das roupas de cada um, deixar comida com o cachorro, levar e buscar no colégio etc. E ainda ter que cuidar de contratar uma faxineira, pois a antiga sofreu um acidente e está de licença. Como toda a desgraça não vem sozinha, Gabriel tem de mostrar serviço na empresa, já que haverá uma promoção para um cargo mais alto e ele é cotado como favorito. Sua maior chance de conquistar o cargo pode estar no Dia da Família, um evento anual organizado pela empresa no qual os funcionários levam suas famílias para participar de brincadeiras, jogos e muitas diversões. As cenas dessa festa são as mais engraçadas do filme. “Mamãe Saiu de Férias” é uma ótima dica para uma sessão da tarde com a família. Para rir à vontade!    

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019


“AS GOLPISTAS” (“HUSTLERS”), 2019, Estados Unidos, 1h49m, roteiro e direção de Lorene Scafaria, que adaptou a história, baseada em fatos reais, inspirada no artigo “The Hustlers at Scores”, da jornalista investigativa Jessica Pressler, publicada com exclusividade em 2016 na Revista New York Magazine (no filme, Jessica é interpretada por Julia Stiles). Os fatos se referem a um grupo de dançarinas, ex-strippers, que aplicavam golpes contra seus clientes, a maioria dos quais empresários, altos executivos e gente com a conta bancária recheada. O golpe era simples: elas chamavam o cliente para um programa, colocavam um remédio em sua bebida – tipo “boa noite, Cinderela” - e depois surrupiavam seus cartões de crédito, esvaziavam suas contas e transferiam o dinheiro para uma conta conjunta das “meninas”. A chefona do esquema era Ramona (Jennifer Lopez), com a cumplicidade de Destiny (Constance Wu), Mercedes (Keke Palmer) e a loiraça Annabelle (Lili Reinhart). O filme conta a história das moças desde o começo, 2007, quanto atuavam como strippers num clube frequentado por altos executivos de Wall Street. Em 2008, com a crise econômica, o clube perdeu os clientes e os negócios caíram ladeira abaixo. Cada uma das moças foi se virar de alguma forma, até trabalhando como vendedoras em lojas de roupas. Alguns depois, elas se reencontraram e tiveram a ideia dos golpes. Confesso que fiquei em dúvida se assistia ou não, mas não me arrependi, pois o filme é bastante interessante, principalmente por ser baseado em fatos reais que, se eu não estiver enganado, passaram em branco por aqui. Embora seja de Constance Wu a personagem condutora da história, é a diva Jennifer Lopez que se destaca pelo visual “mulherão” e até com uma atuação bastante convincente. Dizem até que deve ser indicada ao Oscar. O filme estreou no dia 7 de setembro de 2019 no Festival Internacional de Cinema de Toronto.   

terça-feira, 24 de dezembro de 2019


“CORINGA” (“Joker”), 2019, EUA, 2h2m, direção de Todd Philips, que também assina o roteiro com a colaboração de Scott Silver. Como todo mundo sabe, “Coringa” é aquele personagem assustador dos filmes de Batman e um de seus principais inimigos. O filme volta no tempo para 1981, quando “Coringa” era apenas Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um palhaço que durante o dia trabalhava na porta de comércios de rua em Gotham City e à noite tentava fazer sucesso como comediante de stand-up. Ainda não havia Batman (ele não aparece e nem mesmo é mencionado). A história é toda centrada em Arthur Fleck, um sujeito com graves distúrbios mentais controlados apenas com remédios que recebe da assistência social, que também é encarregada do seu acompanhamento psicológico. Até que um dia o governo municipal, para reduzir custos, cancela os remédios e o tratamento psicológico. Sem essa assistência, Fleck passa a ter surtos psicóticos violentos. Vestido de palhaço, ele mata três executivos de uma importante empresa de Gotham City dentro de um vagão do metrô. A notícia se espalha pela cidade e o tal palhaço assassino não identificado transforma-se no herói das classes menos favorecidas, provocando um movimento popular violento contra a elite da cidade. Enquanto sua identidade não é descoberta, Fleck, por causa de um vídeo onde aparece fazendo stand-up, é convidado a participar do programa televisivo de auditório comandado por Murray Franklin (Robert De Niro) e logo vira celebridade, exigindo que seja chamado de “Coringa”. Este é apenas um resumo da história, mas tem muito mais até o desfecho. Na verdade, o roteiro apresenta como pano de fundo um estudo psicológico de uma mente doentia, que gradualmente se transforma num psicopata dos mais violentos. O filme tem todos os ingredientes para receber um grande número de indicações ao Oscar 2020, a começar pela impressionante atuação de Joaquin Phoenix. Seus olhares, seus gestos e suas risadas provocam calafrios. Para fazer o papel, o ator perdeu 24 quilos, aspecto que tem bastante efeito na premiação. Também é destaque a direção de arte, especialmente os cenários, figurinos e uma fotografia deslumbrante, além do restante do elenco, com Zazie Beetz, Frances Conroy e Brett Cullen. Outro trunfo do filme é sua trilha sonora, criada pela compositora islandesa Hildur Guonadóttir, que fortalece, valoriza e aumenta a tensão de cada uma das cenas impactantes, que são muitas. O filme estreou em agosto de 2019 durante o 76º Festival Internacional de Cinema de Veneza e ganhou o "Leão de Ouro", principal premiação do evento. “Coringa” é um filme perturbador, tenso, assustador. E genial. Um dos grandes filmes do ano. Imperdível!   



quarta-feira, 18 de dezembro de 2019


“EL REINO”, 2018, Espanha, 2h12m, roteiro e direção de Rodrigo Sorogoyen (“Que Dios nos Perdone”). Um filme poderoso e impactante, onde os bastidores sujos da política – corrupção, traições, negociatas etc. – são expostos de forma crua e impiedosa. A história é inspirada num dos mais famosos esquemas de corrupção da Espanha, o “Caso Gürtel”, descoberto em novembro de 2007 e que levou gente graúda do Partido Popular (PP) para a cadeia. No filme, o personagem principal é Manuel López-Vidal (Antonio de la Torre, ótimo), vice-secretário de um governo regional que está sendo cotado para ser candidato de seu partido a um alto cargo no governo espanhol. A turma partidária de Manuel inclui políticos importantes (é nesse grupo que se baseou o título original do filme). São os chamados “caciques” do partido. Eles se reúnem constantemente em restaurantes e hotéis luxuosos e até no iate de um deles, além de festinhas tipo Sérgio Cabral e quadrilha em Paris. O objetivo dessas reuniões é o de sempre: festejar alguma maracutaia bem-sucedida, derrubar algum inimigo (ou até um amigo) político e planejar o próximo golpe. Enfim, gente da pior qualidade e sempre com a pior das intenções (lembram políticos de algum país que você conhece?). Até que um dia Paco (Nacho Fresnada), um dos políticos da turma de Manuel, acaba denunciado e preso acusado de conceder contratos públicos a empresas em troca de dinheiro. As acusações recaem também sobre Manuel, que, ao ver sua carreira política praticamente arruinada, decide que não vai “cair” sozinho. O elenco conta ainda com Bárbara Lennie (excelente), Josep Maria Pou, Mónica López, Luis Zahera e Ana Wagener. “El Reino” foi o grande vencedor do 33º Prêmio Goya de Cinema (o Oscar espanhol), recebendo nada menos do que 13 indicações. Ganhou em sete categorias, entre as quais Melhor Diretor, Melhor Ator (Antonio de La Torre) e Melhor Roteiro Original. Também arrancou elogios entusiasmados quando foi exibido no 66º Festival de San Sebastian e ainda na Seção “Contemporany World Cinema” do Toronto International Film Festival/2018. Sem dúvida, um grande filme. Imperdível!