sábado, 20 de fevereiro de 2021

 

“EU ME IMPORTO” (“I CARE A LOT”), 2020, Estados Unidos, 1h59m, disponível na Netflix, roteiro e direção do cineasta inglês J. Blakeson (“A 5ª Onda” e “O Desaparecimento de Alice Creed”). “Eu Me Importo” acompanha a trajetória de Marla Grayson (Rosamund Pike), responsável por um escritório especializado em curadoria de incapazes. Um lucrativo negócio, mas o esquema que ela coloca em prática não é nada honesto. Ela e sua sócia e namorada Fran (Eiza González) vão atrás de idosos geralmente sem filhos ou parentes, pagam uma propina para uma médica declarar a incapacidade deles e sugerir sua internação num asilo. Com o laudo médico, Marla entra com uma ação na justiça para ganhar a curadoria do idoso. Depois que o mesmo é internado, Marla e Fran se apropriam de todos os bens da vítima, incluindo contas bancárias, imóveis, joias e quadros de valor. Enfim, depenam os coitados dos velhinhos. Tudo vai indo bem, muito dinheiro entrando fácil, até que elas chegam até uma viúva rica e solitária, Jennifer Peterson (Diane Wiest), dona de um patrimônio que inclui até diamantes valiosos. Uma verdadeira mina de ouro. Só que há um porém. Jennifer não é tão solitária quanto parece e muito menos indefesa. Como descobrirão mais tarde, por trás dos negócios da idosa está uma gangue de poderosos mafiosos russos, chefiada por Roman Lunyov (Peter Dinklage). Até o desfecho, as sócias golpistas não terão sossego e terão que lutar muito para sobreviver. O filme é todo da inglesa Rosamund Pike, atriz que já comprovou seu talento em vários filmes, inclusive em “Garota Exemplar”, pelo qual foi indicada para o Oscar 2015 de Melhor Atriz. Ela está ótima como a empresária fria e calculista que explora velhinhos indefesos. Por esse papel, Rosamund foi indicada ao Globo de Ouro 2021 de Melhor Atriz e, quem sabe, obter mais uma indicação ao Oscar. “Eu Me Importo” é um misto de suspense e comédia, com ritmo ágil e muitas surpreendentes reviravoltas que valorizam ainda mais o filme como um entretenimento de primeira. Diversão e suspense garantidos.      

 

              

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

 

“A VÍTIMA NÚMERO 8” (“LA VÍCTIMA NÚMERO OCHO”), 2019, minissérie espanhola em oito capítulos, produção original Netflix, direção de Alejandro Bazzano e Menna Fité, com roteiro de Sara Antuña, Marc Cistaré, Esther Morales, Abraham Sastre e David Bermejo. A história foi inspirada no atentado ocorrido em Barcelona em 2017, quando uma van atropelou e matou 13 pessoas, sendo considerado um ataque terrorista. O ponto de partida da minissérie (ficcional) é justamente um atentado semelhante ocorrido na cidade de Bilbao, quando 7 pessoas morrem atropeladas por uma van. A oitava vítima, que morreu logo depois no hospital, era o importante empresário Gorka Azcarate, diretor de uma grande empresa de Bilbao. Nas imagens captadas por uma câmera na rua, é possível ver a fuga do motorista da van depois do atentado. Os policiais o identificam como o jovem muçulmano Omar Jamaal (César Mateo), que então passa a ser caçado por toda a Espanha. A detetive Koro (Verónika Moral), da polícia de Bilbao, é encarregada das investigações. Mesmo grávida de 8 meses, com um barrigão enorme, Koro dispensa uma licença médica para continuar no caso. A trama envolverá vários personagens que terão papéis importantes durante o desenrolar da história, como a jovem Edurne (María de Nati), namorada de Omar, o jornalista Eche (Marciel Álvarez), Gaizka (Iñaki Ardanaz), irmão do falecido Gorka, a fogosa viúva Almodena (Lisi Linder), José María, o patriarca da família Azcarate, e os familiares de Omar. Outros personagens que terão importância na trama são o comissário Muguruza, chefe de Koro, e o agente federal Gorostiza (Óscar Zafra). Do começo ao desfecho, a minissérie destaca a caçada a Omar, embora haja indícios de que uma conspiração ainda maior possa estar por trás do atentado. Enfim, a série segue com muitas reviravoltas, pouca ação, muita enrolação e tramas paralelas, além de algumas forçadas de barra do roteiro e erros evidentes de continuidade. O pior deles é aquele em que dois árabes estão nus, encapuçados, amarrados e sentados numa cadeira. Poucos segundos depois, um deles aparece totalmente vestido. Não é uma falha que interfira no resultado final, mas soma-se a tantos detalhes que não convencem. A história não precisava ser tão arrastada. Talvez funcionasse melhor em apenas um filme com duração normal. Não há motivos, portanto, para uma recomendação, a não ser o bom elenco e as imagens da bonita cidade de Bilbao. Quando foi lançada, esperava-se uma segunda temporada para a minissérie, o que ainda não aconteceu, comprovando que a aceitação da primeira não foi das melhores.                

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

          

"ATÉ QUE O CASAMENTO NOS SEPARE" (9"JOUR J"), 2017, França, 1h34m, comédia romântica disponível na Netfflix, segundo filme escrito e dirigido pela atriz Reem Kherici (o primeiro foi "Paris a Qualquer Preço", de 2013), que também atua no papel da personagem principal, Juliette. gerente de uma empresa organizadora de casamentos. Numa dessas festas, todos vestidos com fantasia, ela conhece Mathias (Nicolas Duvauchelle), um designer de móveis. Ela fantasiada de Mulher Maravilha e ele de Super-Homem. Papo vai, papo vem, depois de umas doses de bebida a mais, eles acabam fazendo sexo, o famoso sexo casual. Ela entrega um cartão da empresa com seu nome para Mathias, que ela imaginar ser solteiro. Só que não. Mathias é noivo de Alexia (Julia Piaton), que no dia seguinte descobre o cartão com o nome de Juliette e o logotipo de sua empresa de casamentos. Ela fica furiosa e Mathias não tem alternativa senão dizer que estava tratando do casamento deles. Claro que Alexia vai procurar Juliette para organizar a cerimônia e a festa. A confusão está formada, a começar do fato de que Juliette vai reconhecer Alexia como aquela menina que a maltratava no colégio. Também tem o lance do sexo casual que Mathias e Juliette tentarão esconder de qualquer forma. A situação dá margem a uma série de situações hilariantes, como as peripécias de Marie (Chantal Lauby), a mãe alcóolatra de Juliette, e a destruição da adega de vinhos raros do pai de Alexia. A comédia é bem divertida e, em tempos tenebrosos de pandemia, obrigatória, pois rir ainda é o melhor remédio. Importante destacar a química perfeita entre os atores, que parecem estar se divertindo muito durante o trabalho. Lembrete final: nos créditos finais, você ainda pode curtir algumas cenas com erros de gravação, mais um bom motivo para curtir esta deliciosa comédia francesa. 



          

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

 

“BURACO NA PAREDE” (“GAT IN DIE MUUR”), 2020, África do Sul, 1h44m, direção de Andre Odendaal, que também assina o roteiro com a colaboração de Susan Coetzer. Trata-se de uma verdadeira pérola do pouco conhecido cinema sul-africano. Além de dirigir, Odendaal atua como o principal protagonista, Rian, um homem diagnosticado com câncer de cólon no estágio 4. Para aproveitar o pouco tempo que lhe resta, semanas talvez, ele convida o filho Ben (Nick Campbell), que mora na Europa e não vê há três anos, e a amiga Ava (Tinarie Van Wyk Loots), que servirá como uma espécie de sua cuidadora/enfermeira, para uma viagem pela África do Sul com o objetivo de rever amigos, antigos amores e lugares que um dia foram importantes em sua vida. O road-movie começa com uma visita à sua ex-esposa, mãe de Ben, da qual está divorciado há 15 anos. A última visita é à sua fazenda de café e ao seu amigo e administrador Tony. Durante toda a viagem, Rian terá dores horríveis, enjoos e hemorragias, um sofrimento que o espectador acompanha angustiado. Para aliviar as dores, a amiga Ava fornece cigarros de maconha a Rian, seu unico “remédio” durante toda a viagem. Odendaal dirige o filme com grande sensibilidade, criando uma viagem comovente de autoconhecimento e de reflexões sobre a vida e a expectativa da morte iminente. Outro grande destaque do filme são as paisagens litorâneas de Transkei e Kwzulu-Natal, realmente espetaculares. O filme, disponível na plataforma Netflix, é todo falado em africâner, língua de origem holandesa ainda muito utilizada na África do Sul e na Namíbia. “Buraco na Parede” fez sucesso em vários festivais pelo mundo, sendo que Andre Odendaal conquistou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cinema de South Hampton (EUA). Enfim, um belo filme. Imperdível!    

sábado, 13 de fevereiro de 2021

 

“TEMPO COMPARTILHADO” (“TIEMPO COMPARTIDO”), 2018, México, produção original Netflix, 1h36m, direção de Sebastian Hofmann, que também assina o roteiro com a colaboração de Julio Chavezmontes. Difícil definir o gênero. Tem um pouco de comédia, crítica social e abordagem anticapitalista. De qualquer forma, trata-se de um filme bastante interessante e original. Para comemorar sua promoção no trabalho, Pedro (Luis Gerardo Méndez) leva a esposa Eva (Cassandra Ciangherotti) e o filho “Raton” para passar uma semana de férias no chique Everfields Resorts. Ele fez a reserva antecipada para um apartamento, mas ao chegar tem a primeira decepção. O mesmo apartamento foi reservado para outra família. Aqui vai a primeira crítica, denunciando a ganância do grupo empresarial norte-americano que recentemente assumiu a empresa. Para mostrar serviço para os novos patrões, o departamento de vendas fez mais reservas do que as instalações disponíveis. Não teve jeito, Pedro teve que dividir o apartamento com outra família de quatro pessoas. Adeus privacidade, adeus descanso e adeus intimidade com a patroa. Em paralelo, o filme também destaca a história de Andres (Miguel Rodarte) e sua esposa Gloria (Montserrat Marañón), funcionários há vários anos do resort. Antes da nova empresa assumir o comando do resort, Andres era responsável pela parte recreativa dos hóspedes. Com a chegada do grupo norte-americano e a consequente política de redução de gastos, Andres passou a atuar no departamento de lavanderia, sendo o responsável pelo recolhimento de roupas sujas dos apartamentos. Enquanto isso, sua esposa caiu nas graças dos novos donos e logo estava trabalhando no setor de relações-públicas do resort. Não há dúvidas de que “Tempo Compartilhado” é um projeto cinematográfico ambicioso, para não dizer pretensioso em virtude de sua estética um tanto enigmática. O filme estreou no Festival Sundance de Cinema (EUA), famoso por exibir filmes independentes. O filme mexicano recebeu o Prêmio de Melhor Roteiro, além de muitos elogios da crítica especializada. Vale a pena conferir.                            

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

 

“ACRIMÔNIA - ELA QUER VINGANÇA” (“ACRIMONY”), 2018, Estados Unidos, disponível na Netflix, 120 minutos, roteiro e direção de Tyler Perry. Só para esclarecer: a palavra Acrimônia quer dizer “sabor amargo; azedume; aspereza e severidade". A história é centrada em Melinda (Taraji P. Henson), uma mulher que foi explorada durante anos por seu namorado e depois marido Robert (Lyriq Bent). Desde muito jovem, Melinda tinha ataques de raiva, explosões de fúria, não levava desaforo para casa e logo partia para briga. Os dois se conheceram na universidade, Melinda então interpretada por Ajiona Alexus e Robert por Antonio Madson. No começo do casamento, os dois passam por enormes dificuldades financeiras, pois Robert não trabalhava, vivia em casa desenvolvendo um projeto de uma bateria que iria revolucionar o fornecimento de energia. Por muitos anos, Melinda é que bancava as despesas da casa, muitas vezes trabalhando em dois empregos. Depois da morte da mãe, Melinda recebeu, juntamente com as duas irmãs, uma bolada de herança e ainda a casa onde moravam. Mas todo o dinheiro de Melinda seria aplicado no projeto de Robert e, pior, ela hipotecou a casa para sustentar o sonho do marido. Melinda perdeu tudo, inclusive a amizade das irmãs, que, desde o início, sempre foram contra Robert. O casamento acabou em divórcio e cada um partiu para o seu lado. Nesse meio tempo, Robert consegue vender a patente de sua invenção e fica milionário. E prestes a casar com uma antiga namorada. Quando soube disso, Melinda não teve dúvidas: ingressou na justiça para pedir metade do dinheiro obtido por Robert, alegando que perdeu todo o seu dinheiro e a casa para patrocinar o projeto da bateria. Perdeu, claro, e então resolveu partir para a justiça com as próprias mãos. Até aí, o filme transcorre normalmente, embora repleto de clichês. Ao chegar ao desfecho, porém, naufraga de forma lamentável. A sequência final é digna de um pastelão, tão ridícula a ponto de estragar todo o filme, que já não era muito bom. Embora seja uma ótima atriz, como já demonstrou em filmes como “Estrelas Além do Tempo”, além de tantos outros, Taraji P. Henson errou feio ao optar em atuar num filme tão fraco. Nenhuma surpresa em se tratando do roteirista e diretor Tyler Perry, responsável por outras bombas como “O Limite da Traição” e “Um Funeral em Família”.                           

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021


BOI, 2019, Espanha, 1h51m, roteiro e direção de Jorge M. Fontana (seu filme de estreia). É um suspense ambientado em Barcelona, cujo enredo acompanha a trajetória do jovem Boi (Bernat Quintana) em seus primeiros dias como motorista de aplicativo destinado a atender passageiros VIPs, enquanto sua carreira como escritor não decola. Sua vida particular está um caos. Ele mora com a tia que tem problemas mentais, com a cadela de estimação Matilda e com a namorada Anna (Miranda Gas), que, quando descobriu que estava grávida, simplesmente desapareceu. Tudo isso ficou em segundo plano a partir do momento em que Boi é enviado ao aeroporto para pegar dois empresários chineses, Gordon (Adrian Pang) e Michael (Andrew Lua). Aqui vale destacar a tendência do roteirista e diretor em colocar nomes estranhos em seus personagens, a começar pelo principal. Em segundo lugar, os nomes ocidentais escolhidos para os chineses. Com suas idas e vindas transportando os asiáticos por vários locais de Barcelona, Boi começa a desconfiar de que algo muito perigoso envolvia os negócios dos empresários. Não pense que o filme dará explicação do que aconteceu ou que está acontecendo. Você terá que adivinhar, e duvido que consiga chegar a alguma conclusão, como eu também não cheguei. Isso tudo é fruto da pretensão do roteirista e diretor Jorge M. Fontana em transformar “Boi” num filme cult, original e diferente. Mas não conseguiu, principalmente por causa de um roteiro confuso e incoerente. Piorou ainda mais quando acrescentou alguns diálogos filosóficos e reflexões tão profundas quanto um pires. O filme foi lançado nos cinemas da Espanha em março de 2019 e logo depois estreou na Netflix, onde permanece disponível. Com relação aos críticos, o filme dividiu opiniões. Alguns escreveram que “Boi” não passa de um exercício intelectual mal sucedido – o que também é minha opinião. Para outros críticos, o filme é esteticamente interessante e original. Ou seja, não é para qualquer público, o que também concordo.                            





terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

 

O MEDIADOR (BLACK BEACH), 2020, Espanha, 1h55m, direção de Esteban Crespo, que também assina o roteiro com David Moreno. Disponível na Netflix desde o dia 3 de fevereiro de 2021, o filme é um thriller de fundo político. A história é centrada no advogado Carlos (Raúl Arévalo), que trabalha para uma empresa petrolífera. Ele mora na Bélgica com a esposa Susan (Melina Matthews), que está grávida de oito meses. Quando um engenheiro norte-americano a serviço de sua empresa é sequestrado em um país da África – esse país não é nomeado -, onde a empresa mantém uma unidade de extração de petróleo, Carlos é convocado para servir de mediador com os sequestradores, membros de uma organização rebelde que luta para derrubar o governo local. Carlos já havia trabalhado naquele país africano a serviço das Nações Unidas (ONU), período em que fez amizade com aquele que hoje lidera a guerrilha. Com a promessa de que se a sua missão for bem sucedida ele será indicado para ocupar um cargo importante em Nova Iorque, Carlos parte para o país africano com a certeza de que conseguirá negociar facilmente a libertação do engenheiro. Ledo engano. Sua missão será muito mais difícil e bastante perigosa, pois enfrentará traições inesperadas que colocarão sua vida em perigo. Ainda estão no elenco Candela Peña e a atriz chilena Paulina García, de “Glória”. Só para esclarecer: o título original, “Black Beach”, refere-se ao local onde está localizado o QG dos rebeldes. Não dá para eleger o filme como bom, apenas mediano, principalmente em razão de um roteiro complicado que dificulta o entendimento por parte do espectador do que está acontecendo na tela, o que inclui a sequência do desfecho. Antes de chegar à plataforma Netflix, “O Mediador” estreou no Festival de Cinema de Málaga (Espanha), sem conquistar muitos elogios.                    

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

 

O ÚLTIMO PARAÍSO (L’ULTIMO PARADISO), 2020, Itália, 1h47m, direção de Rocio Ricciardulli e roteiro de Riccardo Scamarcio, que também atua no papel do principal protagonista. É um drama romântico que remete ao movimento neorrealista que marcou o cinema italiano logo após a Segunda Guerra Mundial, cujo tema de fundo era voltado para a luta de classes e os desajustes sociais. “O Último Paraíso” é ambientado na zona rural da comuna de Gravina de Puglia, sul da Itália. A história, baseada em fatos reais, é centrada em Ciccio Paradiso (Scamarcio), o galã do vilarejo. Embora casado e com um filho, ele está sempre pulando a cerca. Ele também defende os trabalhadores explorados pelos fazendeiros locais. Uma espécie de sindicalista. Um dia, porém, ele conhece Bianca (Gaia Bermani Amaral) e se apaixona, prometendo que fugirá com ela para o norte da Itália, onde havia maiores oportunidades de trabalho. O romance chega ao conhecimento do pai de Bianca, o poderoso latifundiário Cumpa Schettino (Antonio Gerardi), temido em toda a região. Imagina naquela época um pai ultraconservador como Schettino descobrir que a filha está sendo seduzida por um homem casado. Tragédia anunciada, claro. Para escrever o roteiro, o ator Riccardo Scamarcio – que também faz o papel de Antonio, irmão de Ciccio - se inspirou num caso ocorrido na comuna à qual pertencia sua cidade natal, Trani. De tanto ouvir a história, Scamarcio resolveu adaptá-la ao cinema. Outra curiosidade é que alguns diálogos do filme são falados em dialeto pugliese – confesso que em nenhum momento eu percebi a mudança. “O Último Paraíso” também reserva um fato interessante, principalmente para os espectadores brasileiros. A atriz Gaia Germani Amaral, filha de um fotógrafo brasileiro e de uma italiana, nasceu em São Paulo e ainda jovem foi para Milão trabalhar como modelo de passarela. Logo acabaria no cinema, estreando no filme “Giomi Dell’Abbandono”, em 2005, e agora atuando com grande destaque em “O Último Paraíso”. Resumo da ópera: o filme é muito bom, um drama de primeira.                  

sábado, 6 de fevereiro de 2021

 

TODOS OS MEUS AMIGOS ESTÃO MORTOS (“WSZYSCY MOI PRZYJACIELE NIE ZYJA”), 2020, Polônia, 1h36m, produção original Netflix, filme de estreia no roteiro e direção de Jan Belcl. E que estreia sensacional desse jovem cineasta polonês, de apenas 28 anos. O filme é uma comédia maluca e muito divertida, repleta de situações hilariantes e diálogos espertos, um misto de humor negro e besteirol. O ritmo é alucinante, do começo ao fim. O filme tem seu início - e o humor também - quando dois detetives chegam a um casarão para investigar um verdadeiro massacre. Dezenas de cadáveres estão espalhados por todos os cômodos. O que teria acontecido? O filme volta à noite anterior e tem início um longo flashback que vai mostrar tudo o que aconteceu, desde a chegada dos convidados até o trágico desfecho. Era a festa de réveillon e a ordem é liberar geral, com muita bebida, drogas e, principalmente, sexo à vontade. Todos são muito jovens, com exceção de uma fogosa “coroa” de 40 anos que namora um rapaz com metade de sua idade. O filme destaca alguns personagens em especial, como é o caso do jovem que pretende pedir a namorada em casamento, duas irmãs ninfomaníacas, uma maluquete metida a vidente, um francês católico que tem visões de Jesus no meio dos convidados, um entregador de pizza que invade a festa para cobrar a encomenda, casais gays e lésbicas, entre tantos outros. Dois rapazes sentados num banco, fora da casa, observam tudo, mas não entendem nada, já que estão pra lá de Bagdá, totalmente chapados de maconha. A carnificina começa a partir de um tiro acidental  de pistola que mata o dono da casa. Aí ninguém segura ninguém. O sangue jorra por tudo que é lado, inclusive num quadro no corredor. Um jovem passa por ele e vê todo aquele sangue respingado, acreditando que é obra do pintor norte-americano Jackson Pollock. Outro destaque do filme é a deliciosa trilha sonora, recheada com hits norte-americanos da época das discotecas. A maioria dos críticos fez elogios ao filme, alguns comparando-o a “American Pie” e "Pulp Fiction”. Discordo. O filme polonês é único, ainda mais irreverente e criativo. Imperdível!           

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

O POÇO (EL HOYO), 2019, Espanha, 1h34m, filme de estreia na direção de Galer Gaztelu-Urrutia, com roteiro de David Desola e Pedro Rivero. Pense no filme mais desagradável e repugnante que você já assistiu. Pois não chegará nem perto dessa produção espanhola, disponível na Netflix desde o dia 20 de março de 2020. Realmente, “O Poço” é muito perturbador. É preciso ter estômago forte para chegar ao final. Do jeito que estou escrevendo, parece que o filme é péssimo. Pelo contrário, é muito bom, principalmente pela forma criativa e inusitada encontrada por seus autores para descreverem a desigualdade social que impera em nossa sociedade capitalista. Toda a história é ambientada numa prisão vertical com centenas de andares, cada um ocupado por dois presos. No meio das celas foi aberto um buraco por onde passa uma mesa repleta de comida. Ela vai descendo e os presos de cada andar tem apenas dois minutos para comer o que puderem. Claro que o pessoal dos últimos andares só encontrará os restos e, muitas vezes, nem isso. Para sobreviverem, os presos dos últimos andares são obrigados a matar o companheiro e comer seus pedaços. Vale aqui a lei do mais forte e o canibalismo. O principal personagem do filme é Goreng (Iván Massagué), que resolveu ingressar na prisão não porque cometeu algum crime, mas sim para parar de fumar. Vá entender! Seu primeiro companheiro de cela é Trimagasi (Zorion Eguileor), que explica todo o funcionamento da prisão e o que fazer para sobreviver. A cada mês, por exemplo, é efetuada a mudança de andar dos prisioneiros, cujo critério não é explicado, mas fica parecendo uma espécie de rodízio. O segundo parceiro de Goreng é uma mulher com um cachorrinho de estimação. O terceiro é Buharati (Emilio Buale), um negro fanático religioso. Ele e Goreng têm a ideia de realizar um ato de solidariedade, ou seja, evitar que os presos dos andares inferiores não comam a comida até que esta chegue a quem está mais para baixo. É sangue jorrando o tempo inteiro, misturado com a comida. Haja estômago! Realmente, o filme é muito perturbador, uma fábula sádica mostrando o que o ser humano tem de pior. De qualquer forma, “O Poço” merece ser visto por sua originalidade, tão em falta no cinema atual. Porém, repito, não é filme para fracos.           

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

 

“ABAIXO DE ZERO” (“BAJOCERO”), 2020, Espanha, 1h45m, disponível na Netflix desde 29 de janeiro de 2021. É o segundo longa-metragem dirigido por Lluís Quílez, com roteiro de Fernando Navarro. Trata-se de um suspense policial com muita tensão do começo ao fim. Vamos à sinopse: policiais de uma penitenciária são encarregados de levar um grupo de presos para outra instituição. Martín (Javier Gutierrez) é o motorista da perua blindada que levará os presos, tendo a companhia do truculento Montesinos (Isak Férriz) e a escolta de um veículo com mais dois policiais. Não dá para entender porque escolheram o período da noite, o que torna a tarefa muito mais perigosa. Não deu outra: escolta e a perua sofrem uma emboscada no meio do caminho, numa estrada deserta. De início, a desconfiança é de que a quadrilha de Mihai (Florin Opritescu), um mafioso, tenha vindo resgatá-lo. Lá fora, o frio é intenso, a temperatura abaixo de zero, como ressalta o título. Difícil comentar muito mais para não adiantar as surpresas e as reviravoltas. Só dá para dizer que Martín fica confinado na perua com os outros presos durante muitas horas, até o amanhecer. Aí vai mais um furo do roteiro: será que ninguém percebe o sumiço da perua para enviar reforços? A situação do pessoal preso na perua é desesperadora, claustrofóbica. A melhor sequência do filme é aquela em que o caminhão é levado para o meio de um lago congelado. Aí a coisa pega de vez. Resumindo, “Abaixo de Zero” é um bom suspense, tem ação, tensão e muita aflição, o que garante um ótimo entretenimento. Mais um filme espanhol que merece ser visto.      

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Mais um bom filme que chega à Netfix: “A ESCAVAÇÃO” (“THE DIG”), 2020, Inglaterra, 1h52m, direção de Simon Stone, seguindo roteiro de Moira Buffini. A história é baseada em fatos reais revelados no livro “The Dig”, escrito pelo jornalista inglês John Preston e lançado em 2007. Conta um fato de muita importância arqueológica para os ingleses, ou seja, a descoberta de um barco funerário e de peças de ouro datadas dos séculos VI e VII encontradas numa escavação realizada nas terras de Sutton Hoo, comunidade do Condado de Suffolk. De início, pensavam que o barco teria pertencido aos vikings, mas logo depois, com a análise das peças de ouro, chegou-se à conclusão que o material todo era anglo-saxão. A façanha, ocorrida em 1939, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, deve-se aos esforços da viúva Edith Pretty (Carey Mulligan), dona de uma grande propriedade na zona rural de Sutton Hoo. Ela sempre teve interesse em investigar o terreno próximo à sua residência. Para isso, contratou o arqueólogo amador Basil Brown (Ralph Fiennes), responsável pela grande descoberta. O filme mostra como Basil, com a ajuda de dois assistentes, conseguiu escavar o terreno e chegar primeiro à carcaça do barco e, logo depois, achar várias peças de ouro. O achado mobilizou os jornais da época, os arqueólogos e as autoridades inglesas. No final, a viúva decide doar as peças de ouro para o Britsh Museum, onde estão até hoje em exposição. Embora tenha sido o responsável pelo achado, Basil Brown só teve seu nome associado à descoberta no livro de John Preston, agora adaptado ao cinema. O elenco do filme é um luxo. Além de Fiennes e Mulligan, trabalham Lily James, Ben Chaplin, Johnny Flynn, Monica Dolan, Archi Barnes, Ken Scott, Arsher Ali, Danny Webb, Jane Fowler e Ellie Piercy. Um time de primeira para valorizar ainda mais este bom filme inglês. A história é realmente muito interessante. Vale a pena conferir.     

sábado, 30 de janeiro de 2021

 

“O TIGRE BRANCO” (“THE WHITE TIGER”), 2020, coprodução Estados Unidos/Índia, 2h8m, disponível na plataforma Netflix, roteiro e direção do cineasta norte-americano Ramin Bahrani. A história é baseada no livro homônimo escrito em 2008 pelo romancista e jornalista indiano Aravind Adiga, um grande best-seller não só na Índia como em toda a Europa. “O Tigre Branco” talvez seja o filme de maior impacto realizado em 2020. O drama trata de vários temas, como ascensão social, luta de classes, desigualdade, pobreza extrema, corrupção governamental, discriminação de castas e muitos outros aspectos importantes que fazem da Índia um país de enormes contrastes e injustiças.  A história toda é centrada em Balram Halwai (Adarsh Gourav), um jovem camponês que vive com sua numerosa família em condições miseráveis. Um dia tudo isso vai mudar, eu serei alguém importante, pensava ele. Numa narrativa em off que acompanha o filme do começo ao seu final, o personagem de Balram descreve sua história de vida e ainda faz reflexões sobre as questões econômicas e sociais que afligem o seu país. Numa delas, ele diz: “Os pobres só têm duas formas de chegar ao topo: política ou crime. Não é a mesma coisa no seu país?”, pergunta que faz diretamente ao espectador. Ele descreve sua ascensão começando por conseguir um emprego de motorista para o filho de um sujeito rico que ganha dinheiro explorando as populações mais pobres. Ele logo ganha a confiança do filho do seu patrão, Ashok (Raukummar Rao), e da esposa Pinky (Pryanka Chopra), não se importando de receber uns tapas na cara de vez em quando. Sua submissão é total. Ao assumir uma culpa que não é sua, e sim de Pinky, que dirigia bêbada, Balram recebe um dinheiro extra e resolve criar uma empresa de motoristas e, bem sucedido, logo se torna um empresário respeitado. De simples serviçal a patrão. Esse fato explica o título do filme. O tigre branco é muito raro, assim como é uma raridade um camponês indiano miserável ser bem sucedido na vida. O filme é muito reflexivo. Durante sua ascensão, por exemplo, Balram ensaia escrever um e-mail para o premiê da China. No primeiro parágrafo ele afirma: “Ofereço, sem custos, a verdade sobre a Índia, contando a história da minha vida”. Ainda no e-mail, Balram sugere uma parceria comercial, justificando-a pelo fato dos Estados Unidos estar em decadência, e afirmando que os países do futuro serão a China e a Índia. Enfim, um filme muito interessante que não deixa a gente piscar os olhos para não perder uma frase ou uma cena sequer. Por sua temática, “O Tigre Branco” já está sendo comparado com o sul-coreano “Parasita”, Oscar de Melhor Filme em 2020, cujo pano de fundo é a luta de classes. Por falar em Oscar, as indicações à versão 2021 deverão ocorrer no dia 15 de março. Duvido que “O Tigre Branco” não apareça na lista. Imperdível!           

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

 

“MILAGRE NA CELA 7” (“7. KOGUSTAKI MUCIZE”), 2019, Turquia, 2h12m, direção de Mehmet Ada Öztekin, seguindo roteiro de Özge Efendioglu e Kubilay Tat. Trata-se de um dramalhão feito para emocionar e fazer chorar os espectadores mais sensíveis. Portanto, separe uma caixa de lenços de papel antes de sentar na poltrona. A história não é original. Foi adaptada de um filme sul-coreano de 2013, com algumas alterações no roteiro. Memo (Aras Bulut Iynemli), um rapaz com deficiência intelectual, cuida da filha Ova (Misa Sofiya Aksongur) com a ajuda da avó Fatma (Celile Toyon Uysal). Devido a um acidente fatal ocorrido com uma colega de escola de Ova, Memo é acusado do crime, acaba preso e condenado à morte. Na verdade, sem um julgamento justo, já que a vítima é filha de um oficial de alta patente do exército que quer vingança a qualquer custo. Na cela onde espera sua execução, ele convive com outros oito presos de alta periculosidade, que, sabendo o que Memo fez, o recebem na base do espancamento. Aos poucos, devido à sua deficiência, Memo começa a ser bem tratado mesmo por aqueles que o espancaram. Enquanto ele cumpre pena, Ova fica sob os cuidados da avó. Graças à interferência dos colegas de cela de Memo, Ova é introduzida clandestinamente na cela para visitar o pai, numa das sequências mais comoventes do filme. A gente logo imagina que o milagre do título seja algum fato que ocorra para provar a inocência de Memo e livrá-lo da execução, no caso, a forca. Realmente, é isso que acontece, só que não por um milagre, e sim por uma estratégia criada pelos seus companheiros de cela, com a cumplicidade dos guardas, do próprio diretor da penitenciária e do sacrifício de um dos colegas de cela de Memo. Além da história de derramar lágrimas, impossível não destacar o desempenho espetacular do ator Aras Bulut Iynemli como Memo. Sua atuação é tão impressionante que é difícil acreditar que ele seja normal na vida real. Por esse papel, Aras recebeu o prêmio de “Melhor Ator” no Turkey Youth Awards (o Oscar turco). Depois de lançado em vários países da Europa em 2019, “Milagre na Cela 7” chegou à Netflix em abril de 2020, sendo desde então um dos dez filmes mais vistos da plataforma. Realmente, é um filme bastante sensível e com uma bela mensagem de amor e solidariedade.        

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

 

“VOVÓ SAIU DO ARMÁRIO” (“SALIR DEL ROPERO”), 2019, Espanha, produção original da Netflix, 1h34m, roteiro e direção da cineasta estreante Ángeles Reiné. Trata-se de uma comédia cuja temática principal é o amor lésbico na Terceira Idade e as reações das famílias respectivas, da sociedade e das autoridades religiosas, ainda numa Espanha que sempre tendeu pelo conservadorismo. O filme começa em Edimburgo, capital da Escócia, durante a comemoração do noivado da advogada espanhola Eva (Ingrid García-Jonsson) com Stuart MacDonald (Leander Vyvey), herdeiro de uma família milionária escocesa. Quando os preparativos para o casamento estão prestes a se iniciar, Eva recebe um telefonema surpreendente: sua avó Sofía (Verónica Forqué) vai casar com Célia (Rosa Maria Sarà), ambas na faixa dos 70 anos e amigas de longa data. As duas resolveram sair do “guarda-roupa”, termo que preferem ao invés de “armário”, que acham masculino demais. Eva fica chocada com a notícia, ainda mais pela repercussão negativa diante da família ultraconservadora do seu noivo. Eva decide viajar imediatamente de volta para a Espanha com o objetivo de impedir o casamento das duas. No vilarejo onde moram (as filmagens aconteceram na cidade de Lanzarote, Ilhas Canárias, proporcionando belíssimas imagens), a notícia correu como um verdadeiro tsunami, causando o maior escândalo. As duas idosas, porém, estavam decididas, ainda mais depois que Célia revela que conseguiu falar pelo telefone com o Papa “Paco” (Francisco), que, segundo ela, abençoou a união. Quando ela alardeou que falou com o Papa, todo mundo achou que ela estava ficando louca. Em meio à chegada tumultuada dos familiares das noivas idosas, as surpresas continuaram, como, por exemplo, o outro filho de Célia, que logo anunciou que havia se convertido ao islamismo. Além disso, Eva reencontra um antigo amor da juventude, Jorge (David Verdaguer), que vai balançar o coração da moça. A confusão está formada e assim vai até o desfecho, com sequências bastante hilariantes. O filme não é nenhuma Brastemp, mas é preciso relevar o fato de que foi realizado apenas para divertir, sem qualquer outra pretensão. Discordo, portanto, dos críticos que o atacaram em seus comentários, pois o filme é bastante engraçado e divertido, um ótimo entretenimento. Para concluir o comentário, uma notícia triste, que foi a morte da veterana atriz Rosa Maria Sardà, a Célia do filme, morta em decorrência de um câncer em junho de 2020. Ela nem chegou a ver o filme pronto.   

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

 

“RESGATE DO CORAÇÃO” (“HOLIDAY IN THE WILD”), 2019, Estados Unidos, disponível na Netflix, 1h26m, direção de Ernie Barbarash, seguindo roteiro escrito pelos irmãos Tippi e Neal Dobrofsky. A grande sacada foi reunir dois veteranos astros do cinema norte-americano para compor o par romântico: Rob Lowe, galã de tantos filmes de Hollywood, e Kristin Davis, mais conhecida depois de atuar na série “Sex and the City”. Ele aos 56 anos de idade e ela aos 55 ainda continuam esbanjando charme e simpatia. Vamos à história. Kate Conrad (Kristin) deixou a profissão de veterinária para cuidar da casa e do filho Luke (John Owen Lowe, filho de Rob na vida real). Ela é casada com um rico empresário, Drew Conrad (Colin Moss), que só pensa no trabalho. Quando Luke parte para a faculdade, no mesmo dia Drew anuncia a Kate que deseja a separação, pois não está feliz com ela. E então sai de casa. Drew mal sabia que Kate havia programado uma viagem para a segunda lua de mel na África. Ela não se dá por vencida e decide viajar sozinha. Seu destino: Zâmbia, com safári incluído no programa. Quando está almoçando no hotel, ela conhece Derek Hollistan (Lowe) e esse primeiro encontro é um desastre, mas já dá a dica ao espectador de que um previsível romance está prestes a começar. Quando Kate aluga um pequeno avião para chegar ao local do safári, adivinhe quem é o piloto? Derek, é claro. No meio da viagem, ele faz um pouso forçado depois de ver um filhote de elefante do lado da mãe, morta por caçadores. É uma cena triste que comove Kate. Derek providencia que o filhote seja levado para uma reserva que funciona como um orfanato de filhotes de elefantes, do qual ele é gerente. Kate desiste do safári para ficar no acampamento e, como veterinária, cuidar dos elefantes. Papo vai, papo vem, e ela e Derek começam um romance. Sem dúvida, o grande trunfo do filme é a química entre o casal, mas o principal pano de fundo é a conscientização sobre a matança desenfreada dos elefantes na África por caçadores que querem marfim. O filme serve como denúncia dessa caça predatória que, se não for impedida, poderá contribuir para a extinção desses animais. Outro destaque do filme é a fotografia, responsável por belíssimas imagens do mundo selvagem. Resumo da ópera: “Resgate do Coração” surpreende por oferecer romance aliado a um tema ambiental dos mais sérios. Por isso, vale a pena assistir.           

domingo, 24 de janeiro de 2021

 

“ENCONTRO FATAL” (“FATAL AFFAIR”), 2020, Estados Unidos, produção e distribuição Netflix, 1h29m, direção de Peter Sullivan ("Obsessão Secreta"), que também assina o roteiro com Rasheeda Garner. Trata-se de um suspense na linha de “Atração Fatal”, de 1987, no qual Glenn Glose pega no pé de Michael Douglas. Neste “Encontro Fatal”, o vilão é um homem, o advogado David Hammond (Omar Epps). Sua vítima é uma ex-colega da faculdade de Direito, Ellie Warren (Nia Long). Depois de mais de 20 anos, David e Ellie se reencontram e começam a relembrar os tempos de universidade, quando ele era apaixonado por ela. Só que agora Ellie está bem casada com Marcus Warren (Stephen Bishop) e tem uma filha, Brittany (Aubrey Cleland). Numa festa de despedida do escritório de advocacia em que trabalhou durante alguns anos, Ellie bebe um pouco a mais e acaba aos beijos com David. Não passou disso, porém, mas foi o suficiente para David ficar obcecado por Ellie. Ele começa a chantageá-la, ameaçando mostrar os vídeos reveladores para o seu marido. A obsessão de David começa a atingir níveis psicóticos, a ponto de se envolver com uma colega de trabalho de Ellie só para se aproximar da família dela. Até o desfecho, com uma cena que lembra o estilo Hitchcock, o obcecado David deixará algumas mortes pelo caminho. Não que seja ruim, mas “Encontro Fatal” pode ser visto como um filme que você já viu, tal a quantidade de clichês característicos dos filmes do gênero, entre os quais “Atração Fatal” ainda é o melhor.        

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

 

Se você gosta de um bom suspense, daqueles de tirar o fôlego e eriçar os pelos da nuca, não perca de jeito nenhum “FRATURA” (“FRACTURED”), 2019, Estados Unidos, 1h40m, disponível na Netflix, direção de Brad Anderson, seguindo roteiro de Alan B. McElroy. Começa o filme e você já começa a se contorcer na poltrona. A caminho da casa de parentes para passar o Dia de Ação de Graças, Ray Monroe (Sam Worthington), sua esposa Joanne (Lily Rabe) e filha Peri (Lucy Capri) param num posto para comprar pilhas. A menina desce do carro para brincar quando aparece um cachorro que a ameaça. Assustada, ela perde o equilíbrio e cai num buraco, assim como o pai ao tentar segurá-la. Aparentemente nada de grave aconteceu, mas Peri se queixa de dor no braço. Os pais a levam ao hospital mais próximo. Aí sim que a situação vai virar um verdadeiro inferno, a começar pelo péssimo atendimento na recepção. Enquanto a menina, acompanhada pela mãe, é encaminhada ao setor de tomografia, Ray pega no sono na sala de espera e quando acorda, horas depois, volta à recepção para saber notícias da filha e da esposa. Ninguém sabe informar. Ray se revolta com a situação, fica agressivo e acaba detido pelo segurança do hospital. Médicos, enfermeiras e até uma psiquiatra são mobilizados para cuidar do caso. E todos acreditam que o rapaz está louco, pois não encontraram nenhuma ficha referente à entrada da sua esposa e da filha. E por aí vai o martírio de Ray até o desfecho surpreendente, mas até lá muita coisa vai acontecer, inclusive várias reviravoltas. O ritmo do filme é intenso, alucinante, não dá tempo de respirar. Méritos para o diretor Brad Anderson, especialista no gênero suspense, como provou em “Refúgio do Medo”, “Beirute” e no ótimo “Chamada de Emergência”, entre tantos outros. Portanto, recomendo que você não perca “Fratura”, outro filmaço.    

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

 

“CASCAVEL” (“RATTLESNAKE”), 2019, Estados Unidos, 1h25m, roteiro e direção do australiano Zak Hilditch (“1922”), produção original Netflix. É um suspense cheio de mistério e com muitas pitadas de sobrenatural. A história começa com Katrina Rodgeway (a atriz inglesa Carmen Ejogo) dirigindo seu carro em companhia da filha de seis anos Clara (Apollonia Pratt). Elas saíram de Phoenix em direção a Oklahoma, provavelmente para tentar uma vida nova – o filme não explica o motivo. Diante de um engarrafamento na estrada, Katrina resolve pegar um desvio e acaba se perdendo no meio de um deserto no Texas. Como desgraça pouca é bobagem, um pneu fura e Katrina é obrigada a parar. Enquanto a mãe troca o pneu, Clara resolve brincar entre a vegetação e toma uma picada de cascavel. Desesperada, Katrina leva a filha para um trailer estacionado nas proximidades e pede ajuda. Uma mulher misteriosa as recebe e presta os primeiros socorros. Depois disso, Clara resolve levar a filha para Tulia, a cidade mais próxima, ainda no Texas. Enquanto a filha se recupera no hospital, um homem sinistro entra em contato com Katrina e diz que ela está em dívida pela cura da menina. Para saldá-la, ele diz que Katrina terá que oferecer uma alma, ou seja, matar alguém. Caso contrário, a filha voltará a ficar doente. Ao invés de procurar a polícia, Katrina resolve investigar sozinha o que está acontecendo, o que a obrigará a se defrontar com pessoas esquisitas e misteriosas. Será tudo alucinação? Será que ela terá mesmo que assassinar alguém para salvar a filha? E a coragem? E por aí vai o sofrimento dela em busca de uma vítima. Até o desfecho, Katrina terá que enfrentar inúmeros desafios, o que a levará por caminhos tortuosos e perigosos. A partir da segunda metade da projeção, “Cascavel” perde um pouco do seu ritmo inicial e acaba entrando num marasmo que oscila entre o tédio e o sonífero. Com exceção da ótima atuação da boa atriz Carmen Ejogo, nada mais há para se elogiar. Uma história sem pé nem cabeça. Resumindo: o filme é bizarro.   

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

 

“NA SOLIDÃO DA NOITE” (“RAAT AKELI HAI”), 2020, Índia, produção original Netflix, direção do diretor Holey Trehan, cineasta veterano de Bollywood, com 45 filmes no currículo, e roteiro de Smita Singh. Trata-se de um filme policial envolvendo a investigação do assassinato do milionário Raghubeer Singh (Khalid Tyabji), na noite do seu casamento. O inspetor Jatil Yadav (Nawazuddin Siddiqui) é o encarregado do caso, envolto em um grande mistério. São muitos os suspeitos que estavam na mansão da vítima naquela noite durante a festa. Parentes, amigos, empregados, todo mundo é suspeito. Cabe ao policial determinar o motivo e, mais uma vez, muita gente é suspeita. O falecido era um homem poderoso, amigo de políticos influentes e da cúpula policial, e era conhecido por todos o seu envolvimento com a prostituição e tráfico de mulheres. De início, Jatil descobre que a jovem noiva/viúva Radha (Radhika Apte) é amante de um sobrinho da vítima, o que torna ambos os principais suspeitos. Mas muita água vai rolar até o policial conseguir desvendar todo o mistério. E, no desfecho, tem aquela cena clichê de tantos filmes policiais: a família e empregados reunidos com o detetive, que enfim revelará o verdadeiro assassino. O filme até que prende a atenção, mas não precisava ser tão longo (2h29m) e muito menos ter uma trilha sonora repleta de cantorias, provocando uma quebra de ritmo e irritação a quem está assistindo, como foi meu caso. Também achei um exagero o inspetor Jatil trabalhar no caso praticamente sozinho, sem apoio de sua chefia. Ele vai aos lugares com sua própria moto e, quando precisa consultar os arquivos da polícia, encontra uma bagunça generalizada, o que prova que a polícia de lá tem muito a ver com a polícia de cá. Além de tudo isso, com seu corpo franzino, ele não impõe respeito a ninguém. “Na Solidão da Noite” comprova que o gênero policial não é muito a praia de Bollywood, ficando a anos-luz dos franceses, americanos, italianos, sul-coreanos e outros mais. Se for assistir, releve o estilo indiano de fazer cinema, para nós um tanto difícil de assimilar. Acrescento, porém, que já assisti a muitos filmes indianos muito bons. Não é o caso de “Na Solidão da Noite”, que fica na categoria do razoável.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

 

“A MULHER MAIS ASSASSINADA DO MUNDO” (“LA FEMME LA PLUS ASSASSINÉE DU MUNDE”), 2018, França, 1h42m, disponível na Netflix, primeiro longa-metragem escrito e dirigido por Franck Ribière, mais conhecido como diretor de documentários. Para escrever o roteiro, ele contou com a colaboração de James Charkow, Vérane Frédiani e David Murdoch. A história foi inspirada num personagem real, a atriz Marie-Thérèse Beau (1898-1970), mais conhecida pelo nome artístico de Maria Maxa. De 1917 a 1933, ela atuou em centenas de peças macabras de terror encenadas no famoso Teatro Grand Guignol, de Paris. Durante esse período, calcula-se que as personagens de Maxa foram assassinadas no palco mais de 10 mil vezes de centenas de formas diferentes. Ao mesmo tempo em que se assustava aos gritos, o público vibrava com as histórias encenadas e sofria com as mortes de Maxa. Por intermédio de truques muito bem feitos, as cenas eram bastante realistas. Principalmente por causa da atriz, o Grand Guignol arrastava multidões. Estes são os fatos, o registro histórico. O filme retrata tudo isso e acrescenta elementos fictícios, como o assassinato de pessoas para estocar sangue a ser utilizado nas peças. E, ainda, o romance entre a atriz e um jovem jornalista. O filme tem um clima noir que retrata uma Paris obscura dos anos 30, graças a uma primorosa fotografia. As cenas de maior impacto são as das encenações das peças, destacando os truques e a reação do público ao ver tanto sangue jorrando, às vezes respingando na plateia. O humor negro também marca presença. O elenco é encabeçado por Anna Mouglalis como Paula Maxa, além de Jean-Michel Balthazar, Michel Fau e André Wilms. Resumindo: um filme muito interessante que merece ser conferido.