sábado, 20 de junho de 2020


Sempre gostei muito de filmes que envolvem a Máfia. Sejam norte-americanos, franceses, ingleses ou de outro país qualquer. Melhor ainda se forem italianos e baseados em fatos reais, como “SUBURRA”, 2015, roteiro e direção de Stefano Sollima, 2h15m. A história foi inspirada no romance do mesmo nome escrito em 2013 por Carlo Bonini e Giancarlo de Cataldo, cujo enredo remete a 2011, ano quem que os fatos aconteceram. Naquele ano, um projeto milionário estava mobilizando a política de Roma. A criação de um polo turístico com cassinos e hotéis de luxo na cidade litorânea de Óstia com a intenção de transformá-la numa Las Vegas italiana. Nos bastidores, porém, o negócio envolvia gangues de mafiosos, políticos, empresários e até um importante cardeal do Vaticano. A região escolhida também era disputada pelas máfias do sul da Itália, que pretendiam implantar um porto que seria utilizado para o tráfico de drogas. A tensão vai crescendo pouco a pouco, o que faz o espectador esperar um desfecho com banho de sangue, o que de fato acontece. “Suburra” destaca como principais protagonistas o deputado corrupto Filippo Malgradi (Perfrancesco Favino),  chegado a festas íntimas com prostitutas regadas a cocaína, um temido mafioso conhecido por “Samurai” (Claudio Amendola), o violento Manfredi Anacleti (Adamo Dionisi), chefe de uma gangue de imigrantes romenos, o delinquente conhecido pelo apelido de “Número 8” (Alessandro Borghi), que se acha dono de Óstia e exige participação no negócio, e sua namorada Viola (Greta Scarano), uma jovem drogada que, no desfecho, assumirá um papel importante na história. Para complementar o comentário, lembro que o nome Suburra diz respeito a um populoso bairro da periferia de Roma, onde a pobreza ainda é a principal característica. Como não poderia deixar de ser, “Suburra” é bastante violento, tenso ao limite, mas muito bem feito. Imperdível!      

sexta-feira, 19 de junho de 2020


“O APÓSTATA” (“EL APÓSTATA”), 2015, coprodução Espanha/Uruguai, 1h20m, disponível na plataforma Netflix, roteiro e direção do uruguaio Federico Veiroj. Antes de entrar no mérito do comentário, achei melhor explicar o significado do título. Apóstata: pessoa que cometeu apostasia, ou seja, abandonou sua religião para ingressar, ou não, em outra. Apostasia:  deserção da fé. Apostatar: desertar, mudar de religião ou de partido. Esclarecimento feito, apresento a história do filme. Gonzalo Tamayo (Álvaro Ogalla) chegou aos 30 anos completamente imaturo. Não sabe o que quer da vida, anda vestido como um morador de rua (fica com a mesma roupa surrada do começo ao fim do filme), cabelos e barba desgrenhados. É um desgosto para os pais religiosos e conservadores, que a toda hora cobram dele uma mudança de atitude. Para piorar, fica obcecado por dúvidas sobre a fé religiosa, culpa e desejo, até chegar ao ponto de querer renunciar ao catolicismo, exigindo que a Igreja elimine os seus registros de batismo. “Não quero fazer parte das estatísticas da Igreja Católica”, diz ele ao justificar sua intenção de ingressar com o processo junto ao bispo local. A burocracia emperra o intento de Gonzalo, que continuará, até o desfecho, a sua luta para renunciar ao catolicismo. Além de Álvaro Ogalla, estão no elenco Marta Larralde (Pilar), Bárbara Lennie (Maite), Vicky Peña (padre) e Juan Calot (bispo). Em seu terceiro longa-metragem, o roteirista e diretor Federico Veiroj conseguiu realizar um filme bastante interessante e inovador sob o ponto de vista estético, alternando as perambulações de Gonzalo com alguns momentos oníricos e surreais. A estreia mundial do filme aconteceu na Seção Contemporary World Cinema do Festival Internacional de Cinema de Toronto 2015 e, por aqui, foi exibido durante a programação oficial da 43ª Mostra Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. “O Apóstata” prende a atenção até o seu final e faz refletir sobre muitas questões religiosas. Vale uma visita.

quarta-feira, 17 de junho de 2020


“DESTACAMENTO BLOOD” (“DA 5 BLOODS”), 2020, Estados Unidos, 2h34m, roteiro e direção de Spike Lee, que contou com a colaboração dos roteiristas Kevin Willmott, Danny Bilson e Paul de Meo. O filme foi lançado mundialmente na plataforma Netflix no dia 12 de junho de 2020, em meio às manifestações antirracistas ocorridas nos Estados Unidos e outros países do mundo em protesto contra o assassinato do negro George Floyd, no dia 25 de maio. Resultado: o filme de Spike Lee teve uma das maiores audiências já registradas pela plataforma. Realmente, “Destacamento Blood” tem tudo a ver com o momento – aparece até uma faixa com os dizeres “Vidas Negras Importam”. Tendo como ponto de partida a Guerra do Vietnã, Lee faz uma longa reflexão sobre o racismo ontem e hoje, politizando a discussão ao atacar os governos norte-americanos pelo tratamento dado aos afrodescendentes e filosofando sobre o tema. A história de “Destacamento Blood” é centrada em quatro ex-combatentes negros que, 50 anos depois, voltam ao Vietnã com o objetivo de resgatar os restos mortais de Norman (Chadwick Boseman), o idolatrado comandante do grupo, além de tentar recuperar uma grande quantidade de barras de ouro que esconderam por lá na época da guerra. Em meio à história, Spike apresenta vários vídeos da época das manifestações antirracistas dos anos 60, com depoimentos do líder Martin Luther King Jr., da ativista Angela Davis e do lutador de boxe Muhammad Ali, entre outros. Além disso, Spike faz referências explícitas a “Apocalypse Now” (1979), o grande clássico de Francis Ford Coppola. Estão lá a viagem de barco pelos rios do Vietnã, o helicóptero chegando ao som de “A Cavalgada das Valquírias” e até o nome da boate da capital atual Ho Chi Minh onde os veteranos vão tomar umas e outras, justamente “Apocalypse Now”. Paul (Delroy Lindo), Eddie (Norm Lewis), Otis (Clarke Peters) e Melvin (Isiah Whitlock Jr.), como fizeram durante a guerra, se embrenharão nas selvas do Vietnã numa aventura cheia de riscos e muita ação. Spike Lee já fez filmes melhores, como “Infiltrado na Klan” (Oscar 2019 de Melhor Roteiro Adaptado), “Malcolm X”, de 1992, e “Faça a Coisa Certa”, de 1989, mas “Destacamento Blood” também é ótimo e certamente ganhará algumas indicações ao Oscar 2021 (cerimônia da premiação foi adiada para abril). Aposto todas as minhas fichas de que Delroy Lindo será indicado para Melhor Ator. Sua atuação é espetacular. Também estão no elenco Jonathan Majors e os franceses Jean Reno e Mélanie Thierry. Resumo da ópera: mais um filme polêmico e impactante de Spike Lee, já sendo considerado por alguns críticos como o filme do ano. Assista e forme sua opinião.      

segunda-feira, 15 de junho de 2020


“MENASHE”, 2017, Estados Unidos, 1h22m, filme de estreia na direção de Joshua Weinstein, mais conhecido como diretor de fotografia e documentarista. O roteiro também leva a assinatura de Weinstein, com a colaboração de Alex Lipschultz e Musa Syeedm. A história é ambientada no bairro Boro Park (Brooklyn), em Nova Iorque, onde está localizada uma das comunidades mais populosas de judeus ultra-ortodoxos do mundo. Aqui vive e trabalha o quarentão Menashe (Menashe Lustig), que ficou viúvo e precisa cuidar sozinho do filho Rieven (Ruben Niborski), o que contraria a lei judaica, pois, segundo o Talmude (coletânea de livros sagrados dos judeus), “Para criar os filhos, o homem deve ter em casa uma mulher que limpe tudo, que cozinhe e que cuide da casa”. Menashe trabalha como empregado num supermercado do bairro, ganha pouco e é obrigado pelo patrão autoritário a fazer muitas horas extras, o que o impede de dedicar mais tempo ao filho. Dessa forma, a questão foi decidida pelo rabino da comunidade (Meyer Schwrtz), que colocou o garoto sob a guarda de Eizik (Yoel Weisshaus), cunhado de Menashe e irmão da falecida, que tem família e condições financeiras de sustentar mais uma “boca”. Segundo o rabino, Rieven só voltará para a guarda de Menashe se ele casar. O filme acompanha o dilema de Menashe e suas tentativas de recuperar a guarda do filho, o que gera algumas cenas tocantes e sensíveis, principalmente pelo fato de Menashe ser um sujeito bonachão, inocente e puro, a ponto de não se incomodar de ser chamado de “Gordito” pelos seus colegas latinos no supermercado. Esta produção independente apresenta algumas curiosidades muito interessantes, a começar pelo elenco, todo ele constituído de atores que nunca participaram de uma filmagem. Por falar nisso, ao tentar mostrar as ruas do bairro e a movimentação das pessoas, a equipe técnica foi obrigada a filmar escondida, pois a comunidade judaica, fechada, não permite esse tipo de exposição. Além disso, o roteiro foi inspirado na própria experiência de vida do "ator" Menashe Lustig, que também perdeu a guarda do filho. Vale destacar ainda que, na vida real, Menashe nunca tinha entrado num cinema, o que só aconteceu porque foi convidado para a exibição de estreia. Segundo seu material de divulgação, “Menashe” é o primeiro filme norte-americano totalmente falado em Iídiche Todos esses aspectos somados, mais a competência mostrada pelo diretor Joshua Weinstein, resultaram em mais uma joia do cinema independente norte-americano, à disposição na plataforma Netflix. Imperdível!


sábado, 13 de junho de 2020



“ESTÁ TUDO CERTO” (“ALLES IST GUT”), 2018, Alemanha, 1h33m, disponível na plataforma Netflix, filme de estreia de Eva Trobisch como roteirista e diretora. O drama é centrado na editora de livros Janne (Aenne Schwarz), que depois de uma festa de confraternização no escritório acaba sendo estuprada por Martin (Hans Löw), seu colega de trabalho e cunhado do seu chefe Robert (Tilo Nest). Acompanhei a cena e não vi violência por parte de Martin, mas, sem dúvida, foi estupro, embora tenha parecido sexo não consentido - o que é mesma coisa segundo a lei. Para a vítima, porém, será sempre um estupro. Ao invés de denunciar o fato, Janne resolve tocar sua vida normalmente, como se nada tivesse acontecido. Aliás, aceitar as coisas como elas são é uma das características de sua personalidade. Exemplo disso é a cena da lanchonete, quando ela pede um determinado sanduíche e acaba vindo outro. Ao invés de exigir a troca do sanduíche, ela diz à atendente que “está tudo certo”, o que justifica o título. Janne continua sua rotina diária sem comentar o caso com ninguém, muito menos com o namorado Piet (Andreas Döhler), com quem tem uma relação bastante tumultuada. Como diz o velho ditado, “Na prática, a teoria é outra”, pois no fundo Janne continua traumatizada, o que, aos poucos, vai abalando o seu lado psicológico. Ainda mais quando é obrigada a conviver no ambiente de trabalho com seu estuprador. Embora caminhe num ritmo bastante lento, uma escolha da diretora para explorar os sentimentos de Janne, “Está Tudo Certo” é um drama bastante consistente ao tratar de um tema bastante polêmico e atual. A excelente atriz Aenne Schwarz arrasa no papel da vítima do estupro, alternando expressões de tristeza e revolta. Enfim, um bom drama alemão que merece ser visto.   

quinta-feira, 11 de junho de 2020


“JÁ NÃO ME SINTO EM CASA NESSE MUNDO” (“I DON’T FEEL AT HOME IN THIS WORLD”), 2017, Estados Unidos, produção Netflix, 1h36m, estreia no roteiro e direção de Macon Blair. E que ótima estreia. Uma pequena joia do cinema independente norte-americano, tanto que foi o vencedor do júri do Festival de Cinema de Sundance 2017. O filme é um misto de drama, policial, suspense e comédia, com pitadas de humor negro. A trama é toda centrada na trintona Ruth Kimke (Melanie Lynskey, a Rose de “Two and a Half Men”), uma mulher solitária, amargurada, que não é dada a socializar por considerar as pessoas mal-educadas e sem noção de cidadania. Ela vive revoltada com as injustiças do cotidiano, principalmente aqueles ligadas à má educação, como um vizinho que não recolhe as fezes do cachorro, alguém que deixa cair uma mercadoria no chão e não repõe na prateleira ou então aquele cara que no balcão de um bar conta o final do livro que ela está lendo. Um dia, ao voltar do trabalho, ela percebe que sua casa foi assaltada. Roubaram seu computador e os talheres de prata que ganhou da avó. Mais do que o produto do roubo, o que mais indigna Ruth é o fato de terem invadido sua casa sem permissão. De nada adiantou chamar a polícia, pois não deram muita bola para o caso e nem se esforçaram para investigar. Aí foi a gota d’água. Ao lado de Tony (Elijah Wood, o Frodo de “O Senhor dos Anéis”), um vizinho esquisito que pensa como ela, Ruth vai tentar achar os ladrões por conta própria, recheando o filme com muitas situações de perigo a reforçar o suspense, mas sem nunca deixar de lado o bom humor. Completam o elenco David Yow, Jane Levy, Macon Blair, Devon Graye, Christine Woods e Gary Anthony Williams. Sem dúvida, um filme surpreendente e muito criativo, garantindo um ótimo entretenimento. Imperdível!  

quarta-feira, 10 de junho de 2020


“A RAINHA DA ESPANHA” (“LA REINA DE ESPAÑA”), 2016, Espanha, disponível na plataforma Netflix, 2h08m, roteiro e direção do veterano cineasta Fernando Trueba. A história é ambientada nos anos 50 e tem como figura central Macarena Granada (Penélope Cruz), atriz espanhola que faz maior sucesso em Hollywood. Na época, havia um grande esforço de estreitar o relacionamento diplomático entre os Estados Unidos e a Espanha franquista. Para colaborar com esse esforço, um estúdio de Hollywood resolveu investir numa superprodução a ser filmada na Espanha: “La Reina de España”, sobre a Rainha Isabel I de Castela, a “Católica”. Para o papel principal foi escalada justamente Macarena Granada, assim como o diretor John Scott (Clive Revill), uma clara referência ao famoso cineasta austríaco Fritz Lang, que fez grande sucesso em Hollywood com seu famoso tapa-olho. Durante as filmagens, John Scott dormia o tempo inteiro e só era acordado para gritar “Ação!” e “Corta!”, em cenas muito divertidas. Para agradar os espanhóis, a produção resolveu dividir a direção com o cineasta espanhol Blas Fontiveros (Antonio Resines). A história toda de “A Rainha da Espanha” se desenvolve nos bastidores das filmagens, mostrando as dificuldades de se adaptar o roteiro ao gosto do governo franquista. Ainda nos bastidores, o filme destaca o fogo sexual de Macarena, que logo no início das filmagens começa um caso com o jovem Leo (o ator argentino Chino Darín, filho do astro Ricardo Darín), um simples assistente de produção. Em meio às filmagens, o diretor Fontiveros é sequestrado pela polícia secreta de Franco e vai parar num campo de trabalhos forçados. O elenco resolve resgatá-lo, utilizando para isso dezenas de figurantes do exército da Rainha. Como se isso tudo não bastasse, o set de filmagens ainda será visitado pelo próprio generalíssimo Francisco Franco (Carlos Areces). Haja fôlego para acompanhar isso tudo, realizado num ritmo alucinante e muito divertido. Completam o elenco Jorge Sanz, Mandy Patinkin e Javier Cámara. Enfim,  “A Rainha da Espanha” é uma ótima comédia, além de fazer uma singela homenagem ao mundo do Cinema. Imperdível!     

terça-feira, 9 de junho de 2020


“THI MAI: RUMO AO VIETNAM” (“THI MAI, RUMBO A VIETNAM”), 2017, Espanha, distribuição Netflix, 1h39m, direção de Patrícia Ferreira, com roteiro de Marta Sánchez. Trata-se de uma comédia bastante simpática e divertida para assistir com toda a família. Depois da morte da filha em um acidente de carro, Carmen (Carmen Machi) descobre que ela dera entrada numa papelada para a adoção de uma criança órfã do Vietnã, a Thi Mai do título. Na companhia das amigas Rosa (Adriana Ozores) e Elvira (Aitana Sánches-Gijón), Carmen viaja para Hanói (capital do Vietnam), onde fica o orfanato de Thi Mai. Na verdade, as amigas embarcam numa grande e divertida aventura, repleta de situações hilariantes, principalmente no que se refere aos costumes dos vietnamitas,  muito diferentes do mundo ocidental. Nas suas peripécias em Hanói, Carmen, Elvira e Rosa conhecerão Andrés (Dani Rovira), um espanhol que tinha viajado para a capital do Vietnam com o objetivo de encontrar o ex-namorado. A turma vira um quarteto e, juntos, tentarão convencer as autoridades vietnamitas a liberar a papelada exigida para concretizar a adoção de Thi Mai, para a qual contarão com a ajuda de Dan (Eric Nguyen), um simpático guia turístico de Hanói. O grande trunfo do filme é, sem dúvida, o trio principal de protagonistas: Carmen Machi é mais conhecida por ser uma das atrizes preferidas do diretor Pedro Almodóvar; Adriana Ozores, uma das mais importantes atrizes de teatro e cinema da Espanha; e a italiana Aitana Sánches-Gijón, cuja beleza e competência eu já conhecia desde que a vi pela primeira vez atuando em “Caminhando nas Nuvens”, de 1995, no qual contracenou com Anthony Quinn e fez par romântico com Keanu Reeves. Aos 51 anos, Aitana continua linda, charmosa e competente. É a atuação destas três grandes atrizes – e a química entre elas - que faz com que “Thi Mai” seja uma comédia bastante agradável e divertida. Imperdível!  

segunda-feira, 8 de junho de 2020


“ALELÍ”, 2019, coprodução Uruguai/Argentina, 1h30, segundo longa-metragem escrito e dirigido pela cineasta uruguaia Letícia Jorge Romero, com a colaboração de Ana Guevara Pose. Trata-se de uma comédia familiar bastante divertida que comprova um velho ditado: “Toda família é igual. Só muda o endereço”. Após a morte de Alfredo, o patriarca da família, a viúva Alba (Cristina Morán) e os três filhos Ernesto (Nestor Guzzini), Lilián (Mirella Pascual) e Silvana (Romina Peluffo) convocam uma reunião para decidir o que fazer com a antiga casa de praia, carinhosamente chamada de “ALELÍ”, cujas iniciais significam os nomes do pessoal: “AL” de Alba e o falecido Alfredo; “E” de Ernesto e “LÍ” de Lílian (Silvana, a mais nova, ainda não havia nascido). Uma série de confusões, discussões e lavagem de roupa suja acontecem durante a reunião, como em qualquer família. Um dos assuntos foi, inclusive, a possibilidade de internar a mãe num asilo. Os diálogos são hilariantes. Silvana foi um dos alvos das críticas da mãe e dos irmãos, pois vive uma separação atrás da outra, não consegue segurar um casamento. Ela ficou tão chateada  por ser criticada que acabou indo afogar as mágoas na velha casa de praia. Logo depois chega também seu irmão Ernesto, preocupado com a irmã mais nova. Aqui, na velha casa, surgem as situações mais engraçadas, principalmente aquelas que envolvem os velhos vizinhos. Enfim, “Alelí” é aquele tipo de filme feito para garantir um ótimo entretenimento.  Como afirmou a diretora Letícia Jorge Romero, "Alelí é uma comédia farsesca sobre a família". O filme, já disponível na plataforma Netflix, foi exibido por aqui na Mostra Première Latina do Festival Internacional de Cinema do Rio/2019. Diversão garantida!

sábado, 6 de junho de 2020


“ASSASSINOS MÚLTIPLOS” (“ACTS OF VENGEANCE”), 2017, Estados Unidos, disponível na plataforma Netflix, 1h27m, direção de Isaac Florentine (“Assalto à Casa Branca”), seguindo roteiro escrito por Matt Venne. A história repete um dos clichês mais utilizados em dezenas de filmes. Esposa e filha são assassinadas, a polícia não se esforça e o pai parte para a vingança, fazendo justiça com as próprias mãos. Ao chegar atrasado para a apresentação teatral da filha na escola, o advogado criminalista Frank Varela (Antonio Banderas) se desencontra da esposa Sue (Cristina Serafini) e da filha Olivia (Lilian Blankenship). Ele vai para casa e fica esperando as duas, mas quem chega é a polícia para avisar que elas foram assassinadas. Daí para a frente o roteiro viaja na maionese. Cheio de culpa, Frank ingressa nas lutas de MMA, apanha pra valer e vê esse sacrifício como forma de punição. Numa briga de rua, ele recebe uma facada na perna e tenta estancar o sangue com um livro que estava no lixo. Trata-se de “Meditações”, escritos pessoais e reflexões do imperador romano Marco Aurélio (121 d.C./180 d.C.), que ele adota como livro de cabeceira enquanto se recupera. Ao mesmo tempo, lê também “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu. As duas leituras o convencem a partir para a vingança, incentivando-o a se preparar física e mentalmente. Ele ingressa numa academia de artes marciais e resolve também fazer um voto de silêncio para apurar os outros sentidos.  Enquanto isso, Frank continua a investigar por conta própria até chegar aos criminosos. Exageros à parte, “Assassinos Múltiplos” funciona bem como filme de ação. Tem pancadaria, suspense e muito sangue jorrando. Também estão no elenco a atriz espanhola Paz Veja, grande amiga de Banderas na vida pessoal, Karl Urban, Lilian Blankenship, Robert Forster e Cristina Serafini. O que me surpreendeu favoravelmente foi a excelente forma física de Banderas aos 56 anos, idade que tinha quando atuou no filme. Segundo o material de divulgação, o ator espanhol treinou artes marciais durante meses para o papel. Antes de encerrar o comentário, faço meu protesto quando ao título em português, que não condiz muito com a história. Melhor seria a tradução literal: “Atos de Vingança”. Resumo da ópera: o filme prende a atenção e não economiza nas cenas de ação, garantindo um ótimo entretenimento.

quinta-feira, 4 de junho de 2020


“MY HAPPY FAMILY” (“Chemi Bednieri Ojakhi”), 2017, Geórgia (antiga república soviética), 120 minutos, produção Netflix, direção e roteiro de Nana Ekvtimishvili e Simon Gross. Trata-se de um drama familiar centrado em Manana (a ótima Ia Shugliashvili), uma professora de 52 anos que está em crise existencial por conta da rotina diária com a família conservadora. Ela, o marido, os dois filhos e os pais dela moram todos juntos num apartamento simples e apertado. Logo no café da manhã começam as discussões, que continuam durante o almoço e o jantar. Ou seja, não existe um momento de sossego, que é o que Manana sempre desejou. O marido é ausente, não tem opinião sobre nada, o filho mais velho não trabalha, só fica no computador, e tem ainda o crônico mau humor da matriarca, dona Lamara (Bertha Khapava) que reclama de tudo e pega no pé de todo mundo, inclusive de Manana. No dia de seu aniversário, Manana logo avisa: “não quero festa, não quero bolo, não quero nenhum convidado”, como quem diz “Quero sossego!”. Para o seu desespero, acontece justamente o contrário. A casa enche de parentes, tem bolo, velinhas e cantorias – o povo georgiano deve gostar de música, pois a cada reunião, seja familiar ou com amigos, logo aparece alguém tocando violão e todo mundo canta junto. Manana fica alheia à comemoração, deixando os convidados aos cuidados do seu marido. Como era de se esperar, logo depois Manana avisa que vai sair de casa, alugar um apartamento e morar sozinha. A notícia se espalha pela família e logo em seguida aparecem seu irmão Rezo (Dimitri Oraguelidze) e outros parentes, todos tentando fazer Manana mudar de ideia. A pergunta que todos fazem é por que ela que ir embora, abandonar a família. Ela nunca responde a verdadeira razão, mas quem entende um pouco de psicologia vai saber o por quê, principalmente as mulheres que estão na mesma situação com suas famílias. O filme parece um episódio do seriado da TV Globo “A Grande Família”, mas foge bastante do seu humor. “My Happy Family”, título que representa uma grande ironia, é muito interessante não apenas pela história em si, mas por destacar os costumes, os valores e o comportamento do povo georgiano. É um belo filme, com uma atriz excepcional (Ia Shugliashvili) e um ótimo elenco, embora seja formado, em sua maioria, por atores amadores. O filme estreou na Seção Fórum do 67º Festival Internacional de Cinema de Berlim e depois foi exibido em vários outros festivais mundo afora, conquistando nada menos do que 12 prêmios e outras tantas indicações. O filme é realmente muito bom.      

terça-feira, 2 de junho de 2020


“A SOMBRA DA LEI” (“LA SOMBRA DE LA LEY”), 2018, Espanha, produção da Netflix, 2h06m, roteiro de Patxi Amexcua e direção de Dani de La Torre. A história é ambientada em 1921 numa Barcelona agitada por conflitos entre a polícia e integrantes do movimento anarco-sindicalista, responsáveis por greves e tumultos nas portas das fábricas. Em meio a esse ambiente de alta combustão acontece um assalto a um trem carregado com armamento militar destinado à polícia de Barcelona e ao exército. Claro que as suspeitas recaíram sobre os anarquistas. Para ajudar a polícia local nas investigações, o Ministério da Justiça Federal desloca de Madrid o detetive Aníbal Uriarte (Luis Tosar). Ele é integrado à equipe chefiada pelo inspetor Rediú (Vicente Romero) e logo cai na graça dos novos companheiros por ser bom de briga. Uriarte logo percebe que os policiais de Rediú, assim como o próprio, são bastante desonestos e envolvidos com corrupção, assim como protegem o poderoso chefão mafioso El Barón (Manolo Solo), dono de uma casa de espetáculos de luxo e de outros negócios ilícitos. A captura dos assaltantes do trem transformou-se em ponto de honra para a polícia de Barcelona, que vai atrás dos primeiros suspeitos, justamente os anarquistas/sindicalistas, que, segundo o serviço de inteligência da polícia, estariam se preparando para uma luta armada. O filme conta toda a história dessa investigação, que ocorrerá na base de muita violência, torturas e intimidação psicológica. Merecem destaque como foram reproduzidos os cenários da cidade de Barcelona daquela época, naturalmente à base de computação gráfica, mas você assiste e não percebe, de tão perfeita. Apenas fica deslumbrado pela qualidade da cenografia. Além da história em si, outro fator que torna “A Sombra da Lei” um grande filme é a presença sempre marcante de Luis Tosar, ator que passei a admirar depois de suas memoráveis atuações em filmes como “Cela 211”, “Quem com Ferro Fere”, “Enquanto Você Dorme”, “El Descoñecido” e “Segunda-Feira ao Sol”, entre tantos outros. Completam o elenco Michelle Jenner, Paco Tous, Adriana Torrebejano e o ator argentino Ernesto Alterio. Resumindo: “A Sombra da Lei” é um filmaço!   

segunda-feira, 1 de junho de 2020


“CONTOS DE GUERRA” (“ÁPRÓ MESÉK”) – “Tall Tales” nos países de língua inglesa –, 2019, Hungria, 1h52m, direção de Attila Szász e roteiro de Norbert Köbli. Um filme bastante interessante, um misto de drama de guerra e suspense noir, lembrando os policiais de Hollywood dos anos 40/50. Mas a grande influência parece ter vindo mesmo dos filmes do diretor inglês Alfred Hitchcock, principalmente a utilização da trilha sonora para acentuar as cenas de maior tensão. A história de “Contos de Guerra” é ambientada na Hungria logo após o final de Segunda Guerra Mundial. O ex-combatente Hankó (Tamás Szabó Kimmel), aparentemente um desertor, retorna a Budapeste e, ao ler um jornal local, vê vários classificados de famílias pedindo informações sobre o paradeiro de seus entes queridos que foram para o front. Hankó decide visitar essas pessoas dizendo que foi companheiro de trincheira do tal soldado. Confesso que não entendi muito bem qual era a sua verdadeira intenção: consolar as famílias dizendo que o ente querido foi um herói ou se aproveitar da situação para conseguir alguma vantagem. Quando descobrem sua maracutaia, Hankó foge e se esconde na zona rural, onde conhece Judit (Vica Kerekes) e seu filho Virgil (Bercel Tóth). Bérces, marido de Judit, não voltou da guerra e é dado como desaparecido. Enquanto isso, Hankó e Judit se apaixonam e tudo vai às mil maravilhas até Bérces (Levente Molnár) surgir inesperadamente. A partir daí é que o suspense entra em jogo pra valer, pois Bérces, um sujeito violento, não vai deixar em paz a esposa e o amante, garantindo muita tensão até o desfecho do filme. “Contos de Guerra”, repito, é um filme bastante interessante e que merece ser visto.   

sábado, 30 de maio de 2020


“RIPHAGEN”, 2016, Holanda, disponível na plataforma Netflix, 2h11m, direção de Pieter Kuijpers, com roteiro de Paul Jan Nelissen e Thomas van der Ree. O filme é baseado em fatos reais ocorridos na Holanda durante a 2ª Guerra Mundial. Bernardus Andries Riphagen (Jeroen van Konings Brugge) foi um grande colaborador dos nazistas invasores, denunciando pelo menos 200 judeus , principalmente em Amsterdam. Antes, porém,  chantageava as vítimas, sequestrando os seus pertences – dinheiro, joias, objetos de arte e até imóveis. Ele prometia às famílias judias que assim que a guerra terminasse devolveria tudo aos proprietários. Em seguida, porém, dava os endereços de suas vítimas aos nazistas, que as enviavam para os campos de concentração na Polônia. Quando a guerra acabou, Riphagen foi considerado traidor e maior criminoso de guerra da Holanda. Para não ser preso, conseguiu fugir para a Espanha e depois para a Argentina, onde fez amizade com Juan e Evita Peron, que conseguiram evitar sua extradição para a Holanda. O filme conta toda a essa história e ainda revela os bastidores da vida de Riphagen, como seu casamento com Greetje (Lisa Zeerman), sua ligação com os alemães e como chantageava suas vítimas. Enfim, Riphagen foi um verdadeiro monstro. O filme é excelente e o elenco é ótimo (atuam também Kay Greidanus, Anna Raadsveld e Sigrid Ten Napel), além de uma primorosa reconstituição de época, destacando-se os cenários e figurinos. Filmaço!   

sexta-feira, 29 de maio de 2020


“NA PRÓPRIA PELE: O CASO STEFANO CUCCHI” (“SULLA MIA PELLE”), 2018, Itália, disponível na plataforma Netflix, 1h40m, direção de Alessio Cremonini, que também assina o roteiro com a colaboração de Lisa Nur Sultan. O filme é baseado num fato verídico ocorrido na Itália em 2009 e que chocou a opinião pública do país e de toda a Europa. Por aqui, foi pouco divulgado. Desde jovem, Stefano Cucchi (Alessandro Borghi), sempre esteve envolvido em problemas, principalmente por causa do consumo e tráfico de drogas. Ele morava em Roma com uma família bem estruturada, o pai Giovanni (Giovanni Gucci), engenheiro e construtor, a mãe Rita (Milvia Marigliano) e a irmã Ilaria (Jasmine Trinca), com a qual sempre foi ligado. Enquanto estagiava numa das obras do pai, Stefano saiu à noite com um amigo e foi detido pela polícia, que descobriu em sua posse 20 gramas de haxixe e duas gramas de cocaína. Estava começando um de seus priores pesadelos. Ele passou a madrugada sendo espancado por dois violentos policiais que queriam obrigá-lo a confessar o nome do traficante que lhe vende as drogas. Gravemente ferido, foi colocado numa cela gelada e depois medicado, sempre dizendo que havia caído da escada, com medo de uma retaliação dos policiais. Sua condição médica piorava cada vez mais e, enquanto a família buscava informações, Stefano acabaria morrendo no sétimo dia de detenção. Ninguém investigou o que aconteceu, revoltando ainda mais a família de Stefano. Nos meses seguintes, sua irmã Ilaria exigiria uma resposta da justiça italiana. Só assim o processo teve andamento até a identificação e prisão dos policiais envolvidos. Por focalizar o tempo inteiro o sofrimento físico do rapaz com bastante realismo, o filme incomoda e chega a ser bastante desconfortável. Mas é muito bom como denúncia de um crime que abalou o sistema judicial e carcerário da Itália. Destaque especial para o desempenho do ator Alessandro Borghi na pele de Stefano Cucchi. Um show! “Na Própria Pele” estreou simultaneamente na plataforma Netflix e no Festival de Cinema de Veneza 2018, arrancando elogios tanto dos críticos quanto do público. Tal qual a história, trata-se de um filme bastante impactante. Vale a pena assistir!   

quinta-feira, 28 de maio de 2020



“A MULHER MAIS ODIADA DOS ESTADOS UNIDOS” (“THE MOST HATED WOMAN IN AMERICA”), 2017, Estados Unidos, 1h31m – está no catálogo da Netflix. O roteiro e a direção são assinados por Tommy O’Haver. Trata-se do filme biográfico de Madalyn Murray O’Hair, uma dona de casa que nos anos 60 do século passado conseguiu que a Suprema Corte dos EUA derrubasse a obrigatoriedade da leitura da Bíblia nas escolas públicas. Madalyn defendia sua causa afirmando que “A religião é uma questão privada e só deveria ser celebrada dentro de casa ou das igrejas”. Madalyn também questionou a realização de cerimônias religiosas semanais na Casa Branca e contestou a inclusão da frase “In God We Trust” (“Em Deus Nós Confiamos”) nas moedas e notas de dólar. Não bastasse tudo isso, ainda conseguiu que a Constituição do Estado do Texas eliminasse a exigência de acreditar em Deus para os candidatos a cargos públicos. Além disso, ainda participava de debates com padres e pastores, transmitidos pela TV, durante os quais falava um monte de palavrões, ofendia Deus, o Papa e os santos, como também rasgava as Bíblias que estivessem ao seu alcance. Imaginem a repercussão negativa que isso causou num país onde 70% da população segue a religião cristã. Tanto é que, em 1964, ganhou capa na famosa revista Life com o título “The Most Hated Woman in America” ao lado de sua foto. Ao mesmo tempo, fundou a associação “Ateístas da América”, que durante muitos anos arrecadou tantas doações que Madalyn ficou milionária, o que seria motivo para o seu fim trágico, em 1995, quando foi sequestrada, juntamente com seu filho e neta. O filme conta isso e mais um pouco, como as maracutaias de Madalyn (Melissa Leo) para ganhar dinheiro e enganar o fisco. Ela chegou até mesmo a encenar uma farsa com um pastor da igreja cristã – papel vivido por Peter Fonda num de seus últimos filmes antes de morrer, em 2019 – para lucrar ainda mais. Além de Melissa Leo e Peter Fonda, estão no elenco Juno Temple, Adam Scott, Josh Lucas e Machel Chernus. Mas quem carrega o filme nas costas é mesmo Melissa Leo, atriz norte-americana de 59 anos que já tem um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “The Fighter” (2011). “A Mulher mais Odiada dos Estados Unidos” é muito bom, tem um roteiro bem elaborado e atuações bastante competentes.

quarta-feira, 27 de maio de 2020



“CONSPIRAÇÃO TERRORISTA” (“UNLOCKED”), 2017, Inglaterra, produção Netflix, 1h43m, direção de Michael Apted (“Tudo por um Sonho”), seguindo roteiro assinado por Peter O’Brien. O elenco é de primeira: Noomi Rapace, John Malkovich, Michael Douglas, Toni Collette e Orlando Bloom. Mas o filme nem tanto. Não que seja ruim. Como filme de ação até que funciona. Trata-se de um thriller de espionagem centrado na ex-agente da CIA Alice Racine (Rapace), especialista em interrogar suspeitos de terrorismo, mas que agora trabalha numa Ong dedicada a atender refugiados que chegam à Europa. Quando ela recebe o convite de seu antigo chefe na CIA, requisitando-a para ajudá-lo a interrogar um árabe suspeito de planejar um futuro atentado com armas químicas em Londres, Alice acabará se envolvendo num emaranhado de situações de perigo, envolvendo agentes de organizações governamentais como a CIA, M15 e M16, estes dois últimos pertencentes ao serviço secreto da Inglaterra. E dá-lhe tiros, pancadarias, perseguições e muita ação. A atriz sueca Noomi Rapace, revelada nos filmes da Série Millennium (o primeiro foi “Os Homens que não Gostavam de Mulheres"), dá conta do recado com muita competência. Ela é boa de briga e não usa dublê para as cenas mais perigosas, tanto que quebrou o nariz durante as filmagens. Rapace também é boa de língua: fala nada menos do que seis, contando o sueco nativo - islandês, norueguês, dinamarquês, inglês e francês. Além de boa atriz, Rapace também é bonita e muito simpática, conforme pude constatar numa de suas entrevistas à televisão inglesa. Resumo da ópera: apesar de alguns defeitos de roteiro e situações inverossímeis, “Conspiração Terrorista” é um ótimo entretenimento.   

terça-feira, 26 de maio de 2020


Atenção, colegas e amigos cinéfilos, críticos e estudantes de cinema e amantes da Sétima Arte em geral. Não dá para perder “FILMANDO CASABLANCA” (“CURTIZ”), 2018, Hungria, 1h38m, produção Netflix (estreou dia 20 de março de 2020), direção de Tamás Yvan Topolánszky, que também assina o roteiro juntamente com Zsuzsanna Bak e Ward Parry. O filme é todo centrado no consagrado diretor húngaro Michael Curtiz (1886-1962), responsável por “Casablanca”, talvez o filme mais elogiado e badalado do século 20. Falado em inglês e húngaro e ambientado nos primeiros meses de 1942, “Filmando Casablanca” acompanha os bastidores das filmagens do clássico norte-americano, mas o foco central é sempre Curtiz, apresentado como um homem arrogante, autoritário (humilhava aos berros o pessoal da sua equipe, atores e figurantes) e mulherengo ao extremo, mas um gênio da Sétima Arte. Todo em preto e branco, com uma fotografia exuberante de Zoltán Dévényi, o set das filmagens de “Filmando Casablanca” foi construído como uma verdadeira réplica do cenário original, criado nos estúdios da Warner Bros. O filme mostra o alto nível de estresse que tomou conta das filmagens, a começar pelas reuniões entre Jack L. Warner (Andrew Hefler), o produtor Hal B. Wallis (Scott Alexander Young)o chefão do estúdio, e Michael Curtiz, que contavam ainda com a presença do representante (censor) do governo norte-americano, Johnson (Declan Hannigan), que insistia toda hora em interferir no roteiro – as filmagens começaram logo após o ataque dos japoneses a Pearl Harbor, o que resultou na entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial. Johnson insistia para que o filme servisse como propaganda patriótica em tempos de guerra. Não bastasse isso, Curtiz teria de lidar com a visita inesperada de sua filha Kitty (Evelin Dobos), que não via há muitos anos. Outro fator que atormentava Curtiz eram os pedidos desesperados de sua irmã que tentava fugir da Hungria para não ser mandada para algum campo de concentração (a família de Curtiz era judia). Para aumentar ainda mais a alegria dos cinéfilos, o filme mostra ainda como as gravações foram feitas, as inesperadas mudanças no roteiro e o surpreendente detalhe sobre o avião ao fundo na cena final, construído de papelão sobre uma armação de madeira. Os atores que representam Humphrey Bogard e Ingrid Bergman aparecem sempre de relance, desfocados, uma maneira que o jovem diretor Topolánszky, de apenas 33 anos, encontrou para enfatizar que o astro do seu filme é o diretor Michael Curtiz. Enfim, um filme delicioso que os amantes de cinema terão - como eu tive - o privilégio de saborear. IMPERDÍVEL com letra maiúscula!       


domingo, 24 de maio de 2020


“A PRIMEIRA LINHA” (“PROMAKHOS”, título original em grego, ou “The First Line” nos países de língua inglesa – a tradução para o português é minha, baseado no título em inglês), 2014, coprodução Estados Unidos/Grécia/Inglaterra, 1h43m, disponível na plataforma Netflix. Roteiro e direção são assinados pelos irmãos John e Coertes Voorhees. Para entrar no comentário do filme propriamente dito, vamos aos fatos históricos que serviram de base ao roteiro. No início do século XIX, Lord Elgin, embaixador inglês junto ao império otomano (na época, a Grécia era dominada pelo império otomano), surrupiou do Parthenon, em Atenas, várias esculturas de mármore e levou tudo para a Inglaterra (ficariam conhecidas como “Os Mármores do Parthenon"). Alguns anos depois, Lord Elgin ficou sem dinheiro e vendeu as peças para o British Museum, em Londres. Muitos anos depois, em 2009, a direção do recém-inaugurado Museu da Acrópole de Atenas resolveu contratar dois advogados atenienses para entrar com um processo contra o Britsh Museum com o objetivo de resgatar as peças e devolvê-las à Grécia. Vamos agora ao filme. Os advogados Andreas (Pantelis Kodogiannis) e Eleni (Kassandra Voyagis), representando o Museu de Acrópole, preparam a acusação baseados, principalmente, no valor inestimável que as peças representam para a própria história do povo grego. Já em Londres, numa das primeiras reuniões entre os representantes do British Museum e os advogados do Museu de Acrópole, há uma cena espetacular durante a qual o gerente da Acrópole utiliza hologramas para explicar o dano irreparável que o roubo das peças significou, inclusive colocando em risco a própria estrutura do monumento grego. Os efeitos visuais são incríveis, uma verdadeira aula para historiadores, arqueólogos e arquitetos. As discussões preliminares entre as partes e durante o julgamento são de altíssimo nível, envolvendo questões históricas, filosóficas e jurídicas, tornando-se o grande trunfo deste ótimo filme. Também há que se destacar os cenários da Acrópole, onde as estão o Parthenon e outros monumentos históricos da Grécia. A crise econômica da Grécia, iniciada em 2008, também ganhou espaço no filme, principalmente os protestos violentos ocorridos em Atenas no início da segunda década deste século. As caminhadas dos advogados pelas ruas da capital grega durante as manifestações também merecem destaque. Como última nota, gostaria de salientar a presença, no elenco, dos veteranos atores Giancarlo Giannini, Paul Freeman e Michael Byrne. Enfim, “Promakhos” é cinema da melhor qualidade. Não percam!         

sábado, 23 de maio de 2020


“LOST GIRLS – OS CRIMES DE LONG ISLAND” (“LOST GIRLS”), 2020, Estados Unidos, produção Netflix, 1h35m, primeiro longa-metragem dirigido por Liz Garbus, conhecida e premiada documentarista. O roteiro foi escrito por Michael Werwie, que adaptou as informações fornecidas pelo livro “Lost Girls: An Unsolved American Mistery”, escrito pelo jornalista Robert Kolker. A história é baseada num caso real ocorrido em 2011 que chocou os Estados Unidos. Cerca de 16 mulheres foram encontradas mortas na região de Long Island (ilha ao sudeste de Nova Iorque). A maioria garotas de programa. As características dos homicídios faziam supor de que se tratava de um serial killer. Desde o início, a polícia não deu muita importância ao caso, ficando evidente que as vítimas, por serem prostitutas, não mereciam um esforço maior. Resumindo, o assassino não foi preso até hoje. O foco principal de “Lost Girls” está todo direcionado para Mari Gilbert (a excelente Amy Ryan), a primeira mãe a exigir da polícia um empenho maior para encontrar sua filha mais velha desaparecida, Shannan (Sarah Wisser). Quando a polícia resolveu se mexer, quatro corpos de mulheres foram encontrados – mais tarde, outros tantos. Sob a pressão da imprensa e da opinião pública, as investigações foram finalmente reforçadas. Sempre ao lado das filhas menores Sherre (Thomasin McKenzie) e Sarra (Oona Lawrence), Mari Gilbert não deu sossego ao detetive Richard Dormer (papel do ator irlandês Gabriel Byrne), além de denunciar o descaso policial para a mídia. Maria chegou até a participar de um grupo de mães e familiares de jovens desaparecidas, o que virou pauta nos principais meios de comunicação dos EUA, transformando o caso numa grande comoção nacional. O filme é muito bom, repleto de suspense e muita tensão. Para reforçar o enfoque realista do caso, a diretora Liz Garbus acrescentou inúmeras cenas dos noticiários dos telejornais da época. Antes dos créditos finais, a verdadeira Mari Gilbert aparece dando uma entrevista – em 2016, ela seria assassinada pela própria filha Sarra. Como dizia minha vó, “desgraça pouca é bobagem”. Resumo da ópera, aliás da tragédia grega: vale a pena assistir “Lost Girls”. Está lá à disposição na plataforma Netflix.      


Passei a admirar o trabalho do cineasta dinamarquês Bille August quando assisti “Pelle, O Conquistador” (1991), filme que conquistou, entre outros prêmios importantes, a Palma de Ouro do Festival de Cannes, o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Uma obra-prima. Depois vieram “A Casa dos Espíritos” (1993), “Mandela” (2007), “Marie Kroyer” (2012), “Trem Noturno para Lisboa” (2013) e “55 Passos (2017), entre tantos outros. Aos 71 anos, August continua em plena forma, como demonstra em seu filme mais recente, “UM HOMEM DE SORTE” (“LYKKE-PER”), 2018, produção Netflix, 2h47m. A história é baseada no livro autobiográfico do escritor dinamarquês Henrik Pontoppidan (Prêmio Nobel de Literatura em 1917), que leva o mesmo nome original do filme, o qual August transformou num verdadeiro épico. Vamos acompanhar a trajetória do jovem Peter Andreas Sidenius (Esben Smed), que um dia resolve sair de casa, em Jutland, para tentar a sorte na capital Copenhague. Além de uma pequena mala de roupas, Sidenius também carregou o trauma de uma infância pobre e uma educação religiosa cristã rígida à base de tabefes. Peter sempre foi considerado um jovem sem futuro, principalmente por não obedecer a religião da família. Peter chega a Copenhague e inicia seus estudos de engenharia. Na cabeça, um projeto revolucionário na área de produção de energia, o que o levaria a conhecer Ivan Salomon (Benjamin Kister), o herdeiro de uma família judia muito rica. Peter é introduzido na família Salomon e, a partir daí, inicia sua ascensão como figura proeminente na sociedade de Copenhague. Casará com a filha mais velha da família Solomon, Jakobe (Katrine Greis-Rosenthal), fará um período de estudos na Áustria com um renomado professor de engenharia e voltará para Copenhague disposto a implementar o seu projeto. Sua arrogância e um orgulho exagerado, porém, serão obstáculos para os seus objetivos e determinarão sua posterior decadência. Enfim, uma história muito interessante que August desenvolveu com maestria, principalmente com relação à primorosa reconstituição de época, destacando-se os cenários e os figurinos. Enfim, mais um belíssimo trabalho do cineasta dinamarquês. IMPERDÍVEL!       

quinta-feira, 21 de maio de 2020


“OUÇA O SILÊNCIO” (“HÖRE DIE STILLE”) – a tradução do título em português é minha, já que o filme não chegou por aqui (nos países de língua inglesa, ficou “Hear the Silence”), 2016, Alemanha, 1h34m, direção de Ed Ehrenberg, seguindo roteiro de Axel Melzener. É um drama ambientado em outubro de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, contando a história trágica de um episódio que, aparentemente, foi inspirado em um caso real, já que o filme começa e termina com um áudio em off do que parece ser um interrogatório dentro de uma corte marcial. Vamos à história: um grupo de soldados alemães fica perdido de seu batalhão após uma escaramuça com o exército russo e vai parar numa pequena vila no interior da Croácia, onde só há idosos, mulheres e crianças. Todos os moradores têm descendência alemã e recebem os soldados alemães como seus libertadores, já que temem a chegada dos russos e suas consequências. O fato de falarem a mesma língua facilita o entrosamento entre soldados e moradores. Com a convivência diária, o relacionamento melhora bastante, eliminando aquela desconfiança mútua do início. Surgem até alguns romances. O mar de rosas, porém, acaba quando o tenente Markus Wenzel (Lars Doppler) assassina uma moça e depois é morto num ato de vingança. A partir daí, o clima fica péssimo e, claro, acaba em tragédia. Quando fui verificar se o filme foi ou não baseado em fatos reais, descobri apenas que foi planejado para ser um filme de graduação de estudantes da Academia de Cinema de Munique, mais tarde roteirizado por Axel Melzener, transformando-se, por fim, em “Höre Die Stille”. O contexto é trágico demais, triste e violento, mas não há dúvida que é mais um excelente filme da fonte interminável de episódios da Segunda Guerra Mundial, tanto é que foi premiado em vários festivais mundo afora. Mas passa longe de ser um entretenimento agradável de assistir.