sábado, 30 de maio de 2020


“RIPHAGEN”, 2016, Holanda, disponível na plataforma Netflix, 2h11m, direção de Pieter Kuijpers, com roteiro de Paul Jan Nelissen e Thomas van der Ree. O filme é baseado em fatos reais ocorridos na Holanda durante a 2ª Guerra Mundial. Bernardus Andries Riphagen (Jeroen van Konings Brugge) foi um grande colaborador dos nazistas invasores, denunciando pelo menos 200 judeus , principalmente em Amsterdam. Antes, porém,  chantageava as vítimas, sequestrando os seus pertences – dinheiro, joias, objetos de arte e até imóveis. Ele prometia às famílias judias que assim que a guerra terminasse devolveria tudo aos proprietários. Em seguida, porém, dava os endereços de suas vítimas aos nazistas, que as enviavam para os campos de concentração na Polônia. Quando a guerra acabou, Riphagen foi considerado traidor e maior criminoso de guerra da Holanda. Para não ser preso, conseguiu fugir para a Espanha e depois para a Argentina, onde fez amizade com Juan e Evita Peron, que conseguiram evitar sua extradição para a Holanda. O filme conta toda a essa história e ainda revela os bastidores da vida de Riphagen, como seu casamento com Greetje (Lisa Zeerman), sua ligação com os alemães e como chantageava suas vítimas. Enfim, Riphagen foi um verdadeiro monstro. O filme é excelente e o elenco é ótimo (atuam também Kay Greidanus, Anna Raadsveld e Sigrid Ten Napel), além de uma primorosa reconstituição de época, destacando-se os cenários e figurinos. Filmaço!   

sexta-feira, 29 de maio de 2020


“NA PRÓPRIA PELE: O CASO STEFANO CUCCHI” (“SULLA MIA PELLE”), 2018, Itália, disponível na plataforma Netflix, 1h40m, direção de Alessio Cremonini, que também assina o roteiro com a colaboração de Lisa Nur Sultan. O filme é baseado num fato verídico ocorrido na Itália em 2009 e que chocou a opinião pública do país e de toda a Europa. Por aqui, foi pouco divulgado. Desde jovem, Stefano Cucchi (Alessandro Borghi), sempre esteve envolvido em problemas, principalmente por causa do consumo e tráfico de drogas. Ele morava em Roma com uma família bem estruturada, o pai Giovanni (Giovanni Gucci), engenheiro e construtor, a mãe Rita (Milvia Marigliano) e a irmã Ilaria (Jasmine Trinca), com a qual sempre foi ligado. Enquanto estagiava numa das obras do pai, Stefano saiu à noite com um amigo e foi detido pela polícia, que descobriu em sua posse 20 gramas de haxixe e duas gramas de cocaína. Estava começando um de seus priores pesadelos. Ele passou a madrugada sendo espancado por dois violentos policiais que queriam obrigá-lo a confessar o nome do traficante que lhe vende as drogas. Gravemente ferido, foi colocado numa cela gelada e depois medicado, sempre dizendo que havia caído da escada, com medo de uma retaliação dos policiais. Sua condição médica piorava cada vez mais e, enquanto a família buscava informações, Stefano acabaria morrendo no sétimo dia de detenção. Ninguém investigou o que aconteceu, revoltando ainda mais a família de Stefano. Nos meses seguintes, sua irmã Ilaria exigiria uma resposta da justiça italiana. Só assim o processo teve andamento até a identificação e prisão dos policiais envolvidos. Por focalizar o tempo inteiro o sofrimento físico do rapaz com bastante realismo, o filme incomoda e chega a ser bastante desconfortável. Mas é muito bom como denúncia de um crime que abalou o sistema judicial e carcerário da Itália. Destaque especial para o desempenho do ator Alessandro Borghi na pele de Stefano Cucchi. Um show! “Na Própria Pele” estreou simultaneamente na plataforma Netflix e no Festival de Cinema de Veneza 2018, arrancando elogios tanto dos críticos quanto do público. Tal qual a história, trata-se de um filme bastante impactante. Vale a pena assistir!   

quinta-feira, 28 de maio de 2020



“A MULHER MAIS ODIADA DOS ESTADOS UNIDOS” (“THE MOST HATED WOMAN IN AMERICA”), 2017, Estados Unidos, 1h31m – está no catálogo da Netflix. O roteiro e a direção são assinados por Tommy O’Haver. Trata-se do filme biográfico de Madalyn Murray O’Hair, uma dona de casa que nos anos 60 do século passado conseguiu que a Suprema Corte dos EUA derrubasse a obrigatoriedade da leitura da Bíblia nas escolas públicas. Madalyn defendia sua causa afirmando que “A religião é uma questão privada e só deveria ser celebrada dentro de casa ou das igrejas”. Madalyn também questionou a realização de cerimônias religiosas semanais na Casa Branca e contestou a inclusão da frase “In God We Trust” (“Em Deus Nós Confiamos”) nas moedas e notas de dólar. Não bastasse tudo isso, ainda conseguiu que a Constituição do Estado do Texas eliminasse a exigência de acreditar em Deus para os candidatos a cargos públicos. Além disso, ainda participava de debates com padres e pastores, transmitidos pela TV, durante os quais falava um monte de palavrões, ofendia Deus, o Papa e os santos, como também rasgava as Bíblias que estivessem ao seu alcance. Imaginem a repercussão negativa que isso causou num país onde 70% da população segue a religião cristã. Tanto é que, em 1964, ganhou capa na famosa revista Life com o título “The Most Hated Woman in America” ao lado de sua foto. Ao mesmo tempo, fundou a associação “Ateístas da América”, que durante muitos anos arrecadou tantas doações que Madalyn ficou milionária, o que seria motivo para o seu fim trágico, em 1995, quando foi sequestrada, juntamente com seu filho e neta. O filme conta isso e mais um pouco, como as maracutaias de Madalyn (Melissa Leo) para ganhar dinheiro e enganar o fisco. Ela chegou até mesmo a encenar uma farsa com um pastor da igreja cristã – papel vivido por Peter Fonda num de seus últimos filmes antes de morrer, em 2019 – para lucrar ainda mais. Além de Melissa Leo e Peter Fonda, estão no elenco Juno Temple, Adam Scott, Josh Lucas e Machel Chernus. Mas quem carrega o filme nas costas é mesmo Melissa Leo, atriz norte-americana de 59 anos que já tem um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “The Fighter” (2011). “A Mulher mais Odiada dos Estados Unidos” é muito bom, tem um roteiro bem elaborado e atuações bastante competentes.

quarta-feira, 27 de maio de 2020



“CONSPIRAÇÃO TERRORISTA” (“UNLOCKED”), 2017, Inglaterra, produção Netflix, 1h43m, direção de Michael Apted (“Tudo por um Sonho”), seguindo roteiro assinado por Peter O’Brien. O elenco é de primeira: Noomi Rapace, John Malkovich, Michael Douglas, Toni Collette e Orlando Bloom. Mas o filme nem tanto. Não que seja ruim. Como filme de ação até que funciona. Trata-se de um thriller de espionagem centrado na ex-agente da CIA Alice Racine (Rapace), especialista em interrogar suspeitos de terrorismo, mas que agora trabalha numa Ong dedicada a atender refugiados que chegam à Europa. Quando ela recebe o convite de seu antigo chefe na CIA, requisitando-a para ajudá-lo a interrogar um árabe suspeito de planejar um futuro atentado com armas químicas em Londres, Alice acabará se envolvendo num emaranhado de situações de perigo, envolvendo agentes de organizações governamentais como a CIA, M15 e M16, estes dois últimos pertencentes ao serviço secreto da Inglaterra. E dá-lhe tiros, pancadarias, perseguições e muita ação. A atriz sueca Noomi Rapace, revelada nos filmes da Série Millennium (o primeiro foi “Os Homens que não Gostavam de Mulheres"), dá conta do recado com muita competência. Ela é boa de briga e não usa dublê para as cenas mais perigosas, tanto que quebrou o nariz durante as filmagens. Rapace também é boa de língua: fala nada menos do que seis, contando o sueco nativo - islandês, norueguês, dinamarquês, inglês e francês. Além de boa atriz, Rapace também é bonita e muito simpática, conforme pude constatar numa de suas entrevistas à televisão inglesa. Resumo da ópera: apesar de alguns defeitos de roteiro e situações inverossímeis, “Conspiração Terrorista” é um ótimo entretenimento.   

terça-feira, 26 de maio de 2020


Atenção, colegas e amigos cinéfilos, críticos e estudantes de cinema e amantes da Sétima Arte em geral. Não dá para perder “FILMANDO CASABLANCA” (“CURTIZ”), 2018, Hungria, 1h38m, produção Netflix (estreou dia 20 de março de 2020), direção de Tamás Yvan Topolánszky, que também assina o roteiro juntamente com Zsuzsanna Bak e Ward Parry. O filme é todo centrado no consagrado diretor húngaro Michael Curtiz (1886-1962), responsável por “Casablanca”, talvez o filme mais elogiado e badalado do século 20. Falado em inglês e húngaro e ambientado nos primeiros meses de 1942, “Filmando Casablanca” acompanha os bastidores das filmagens do clássico norte-americano, mas o foco central é sempre Curtiz, apresentado como um homem arrogante, autoritário (humilhava aos berros o pessoal da sua equipe, atores e figurantes) e mulherengo ao extremo, mas um gênio da Sétima Arte. Todo em preto e branco, com uma fotografia exuberante de Zoltán Dévényi, o set das filmagens de “Filmando Casablanca” foi construído como uma verdadeira réplica do cenário original, criado nos estúdios da Warner Bros. O filme mostra o alto nível de estresse que tomou conta das filmagens, a começar pelas reuniões entre Jack L. Warner (Andrew Hefler), o produtor Hal B. Wallis (Scott Alexander Young)o chefão do estúdio, e Michael Curtiz, que contavam ainda com a presença do representante (censor) do governo norte-americano, Johnson (Declan Hannigan), que insistia toda hora em interferir no roteiro – as filmagens começaram logo após o ataque dos japoneses a Pearl Harbor, o que resultou na entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial. Johnson insistia para que o filme servisse como propaganda patriótica em tempos de guerra. Não bastasse isso, Curtiz teria de lidar com a visita inesperada de sua filha Kitty (Evelin Dobos), que não via há muitos anos. Outro fator que atormentava Curtiz eram os pedidos desesperados de sua irmã que tentava fugir da Hungria para não ser mandada para algum campo de concentração (a família de Curtiz era judia). Para aumentar ainda mais a alegria dos cinéfilos, o filme mostra ainda como as gravações foram feitas, as inesperadas mudanças no roteiro e o surpreendente detalhe sobre o avião ao fundo na cena final, construído de papelão sobre uma armação de madeira. Os atores que representam Humphrey Bogard e Ingrid Bergman aparecem sempre de relance, desfocados, uma maneira que o jovem diretor Topolánszky, de apenas 33 anos, encontrou para enfatizar que o astro do seu filme é o diretor Michael Curtiz. Enfim, um filme delicioso que os amantes de cinema terão - como eu tive - o privilégio de saborear. IMPERDÍVEL com letra maiúscula!       


domingo, 24 de maio de 2020


“A PRIMEIRA LINHA” (“PROMAKHOS”, título original em grego, ou “The First Line” nos países de língua inglesa – a tradução para o português é minha, baseado no título em inglês), 2014, coprodução Estados Unidos/Grécia/Inglaterra, 1h43m, disponível na plataforma Netflix. Roteiro e direção são assinados pelos irmãos John e Coertes Voorhees. Para entrar no comentário do filme propriamente dito, vamos aos fatos históricos que serviram de base ao roteiro. No início do século XIX, Lord Elgin, embaixador inglês junto ao império otomano (na época, a Grécia era dominada pelo império otomano), surrupiou do Parthenon, em Atenas, várias esculturas de mármore e levou tudo para a Inglaterra (ficariam conhecidas como “Os Mármores do Parthenon"). Alguns anos depois, Lord Elgin ficou sem dinheiro e vendeu as peças para o British Museum, em Londres. Muitos anos depois, em 2009, a direção do recém-inaugurado Museu da Acrópole de Atenas resolveu contratar dois advogados atenienses para entrar com um processo contra o Britsh Museum com o objetivo de resgatar as peças e devolvê-las à Grécia. Vamos agora ao filme. Os advogados Andreas (Pantelis Kodogiannis) e Eleni (Kassandra Voyagis), representando o Museu de Acrópole, preparam a acusação baseados, principalmente, no valor inestimável que as peças representam para a própria história do povo grego. Já em Londres, numa das primeiras reuniões entre os representantes do British Museum e os advogados do Museu de Acrópole, há uma cena espetacular durante a qual o gerente da Acrópole utiliza hologramas para explicar o dano irreparável que o roubo das peças significou, inclusive colocando em risco a própria estrutura do monumento grego. Os efeitos visuais são incríveis, uma verdadeira aula para historiadores, arqueólogos e arquitetos. As discussões preliminares entre as partes e durante o julgamento são de altíssimo nível, envolvendo questões históricas, filosóficas e jurídicas, tornando-se o grande trunfo deste ótimo filme. Também há que se destacar os cenários da Acrópole, onde as estão o Parthenon e outros monumentos históricos da Grécia. A crise econômica da Grécia, iniciada em 2008, também ganhou espaço no filme, principalmente os protestos violentos ocorridos em Atenas no início da segunda década deste século. As caminhadas dos advogados pelas ruas da capital grega durante as manifestações também merecem destaque. Como última nota, gostaria de salientar a presença, no elenco, dos veteranos atores Giancarlo Giannini, Paul Freeman e Michael Byrne. Enfim, “Promakhos” é cinema da melhor qualidade. Não percam!         

sábado, 23 de maio de 2020


“LOST GIRLS – OS CRIMES DE LONG ISLAND” (“LOST GIRLS”), 2020, Estados Unidos, produção Netflix, 1h35m, primeiro longa-metragem dirigido por Liz Garbus, conhecida e premiada documentarista. O roteiro foi escrito por Michael Werwie, que adaptou as informações fornecidas pelo livro “Lost Girls: An Unsolved American Mistery”, escrito pelo jornalista Robert Kolker. A história é baseada num caso real ocorrido em 2011 que chocou os Estados Unidos. Cerca de 16 mulheres foram encontradas mortas na região de Long Island (ilha ao sudeste de Nova Iorque). A maioria garotas de programa. As características dos homicídios faziam supor de que se tratava de um serial killer. Desde o início, a polícia não deu muita importância ao caso, ficando evidente que as vítimas, por serem prostitutas, não mereciam um esforço maior. Resumindo, o assassino não foi preso até hoje. O foco principal de “Lost Girls” está todo direcionado para Mari Gilbert (a excelente Amy Ryan), a primeira mãe a exigir da polícia um empenho maior para encontrar sua filha mais velha desaparecida, Shannan (Sarah Wisser). Quando a polícia resolveu se mexer, quatro corpos de mulheres foram encontrados – mais tarde, outros tantos. Sob a pressão da imprensa e da opinião pública, as investigações foram finalmente reforçadas. Sempre ao lado das filhas menores Sherre (Thomasin McKenzie) e Sarra (Oona Lawrence), Mari Gilbert não deu sossego ao detetive Richard Dormer (papel do ator irlandês Gabriel Byrne), além de denunciar o descaso policial para a mídia. Maria chegou até a participar de um grupo de mães e familiares de jovens desaparecidas, o que virou pauta nos principais meios de comunicação dos EUA, transformando o caso numa grande comoção nacional. O filme é muito bom, repleto de suspense e muita tensão. Para reforçar o enfoque realista do caso, a diretora Liz Garbus acrescentou inúmeras cenas dos noticiários dos telejornais da época. Antes dos créditos finais, a verdadeira Mari Gilbert aparece dando uma entrevista – em 2016, ela seria assassinada pela própria filha Sarra. Como dizia minha vó, “desgraça pouca é bobagem”. Resumo da ópera, aliás da tragédia grega: vale a pena assistir “Lost Girls”. Está lá à disposição na plataforma Netflix.      


Passei a admirar o trabalho do cineasta dinamarquês Bille August quando assisti “Pelle, O Conquistador” (1991), filme que conquistou, entre outros prêmios importantes, a Palma de Ouro do Festival de Cannes, o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Uma obra-prima. Depois vieram “A Casa dos Espíritos” (1993), “Mandela” (2007), “Marie Kroyer” (2012), “Trem Noturno para Lisboa” (2013) e “55 Passos (2017), entre tantos outros. Aos 71 anos, August continua em plena forma, como demonstra em seu filme mais recente, “UM HOMEM DE SORTE” (“LYKKE-PER”), 2018, produção Netflix, 2h47m. A história é baseada no livro autobiográfico do escritor dinamarquês Henrik Pontoppidan (Prêmio Nobel de Literatura em 1917), que leva o mesmo nome original do filme, o qual August transformou num verdadeiro épico. Vamos acompanhar a trajetória do jovem Peter Andreas Sidenius (Esben Smed), que um dia resolve sair de casa, em Jutland, para tentar a sorte na capital Copenhague. Além de uma pequena mala de roupas, Sidenius também carregou o trauma de uma infância pobre e uma educação religiosa cristã rígida à base de tabefes. Peter sempre foi considerado um jovem sem futuro, principalmente por não obedecer a religião da família. Peter chega a Copenhague e inicia seus estudos de engenharia. Na cabeça, um projeto revolucionário na área de produção de energia, o que o levaria a conhecer Ivan Salomon (Benjamin Kister), o herdeiro de uma família judia muito rica. Peter é introduzido na família Salomon e, a partir daí, inicia sua ascensão como figura proeminente na sociedade de Copenhague. Casará com a filha mais velha da família Solomon, Jakobe (Katrine Greis-Rosenthal), fará um período de estudos na Áustria com um renomado professor de engenharia e voltará para Copenhague disposto a implementar o seu projeto. Sua arrogância e um orgulho exagerado, porém, serão obstáculos para os seus objetivos e determinarão sua posterior decadência. Enfim, uma história muito interessante que August desenvolveu com maestria, principalmente com relação à primorosa reconstituição de época, destacando-se os cenários e os figurinos. Enfim, mais um belíssimo trabalho do cineasta dinamarquês. IMPERDÍVEL!       

quinta-feira, 21 de maio de 2020


“OUÇA O SILÊNCIO” (“HÖRE DIE STILLE”) – a tradução do título em português é minha, já que o filme não chegou por aqui (nos países de língua inglesa, ficou “Hear the Silence”), 2016, Alemanha, 1h34m, direção de Ed Ehrenberg, seguindo roteiro de Axel Melzener. É um drama ambientado em outubro de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, contando a história trágica de um episódio que, aparentemente, foi inspirado em um caso real, já que o filme começa e termina com um áudio em off do que parece ser um interrogatório dentro de uma corte marcial. Vamos à história: um grupo de soldados alemães fica perdido de seu batalhão após uma escaramuça com o exército russo e vai parar numa pequena vila no interior da Croácia, onde só há idosos, mulheres e crianças. Todos os moradores têm descendência alemã e recebem os soldados alemães como seus libertadores, já que temem a chegada dos russos e suas consequências. O fato de falarem a mesma língua facilita o entrosamento entre soldados e moradores. Com a convivência diária, o relacionamento melhora bastante, eliminando aquela desconfiança mútua do início. Surgem até alguns romances. O mar de rosas, porém, acaba quando o tenente Markus Wenzel (Lars Doppler) assassina uma moça e depois é morto num ato de vingança. A partir daí, o clima fica péssimo e, claro, acaba em tragédia. Quando fui verificar se o filme foi ou não baseado em fatos reais, descobri apenas que foi planejado para ser um filme de graduação de estudantes da Academia de Cinema de Munique, mais tarde roteirizado por Axel Melzener, transformando-se, por fim, em “Höre Die Stille”. O contexto é trágico demais, triste e violento, mas não há dúvida que é mais um excelente filme da fonte interminável de episódios da Segunda Guerra Mundial, tanto é que foi premiado em vários festivais mundo afora. Mas passa longe de ser um entretenimento agradável de assistir.      

quarta-feira, 20 de maio de 2020


“O SILÊNCIO DO PÂNTANO” (“EL SILENCIO DEL PANTANO”), 2020, Espanha, produção Netflix (estreou dia 22 de abril), 1h32m, direção de Marc Vigil, seguindo roteiro assinado por Carlos de Pando e Sara Antuña. Trata-se de um suspense psicológico centrado numa figura meio sinistra e misteriosa, tão indecifrável que é conhecido apenas como “Q” (Pedro Alonso, de “La Casa de Papel”), um ex-jornalista que se tornou um escritor de sucesso, especializado em livros policiais. Quando reunia subsídios para o seu próximo romance, que abordará casos de corrupção, “Q” começa a desenvolver um lado psicótico, o mesmo que caracteriza seu personagem principal no livro. Uma de suas primeiras vítimas (do autor ou do personagem?) é um importante ex-ministro espanhol da área econômica, o hoje professor universitário Ferrán Carretero (José Angel Egito). Depois de descobrir que Carretero está envolvido em um esquema de lavagem de dinheiro em sociedade com uma quadrilha de traficantes, “Q” o sequestra e o mantém preso numa casa isolada à beira do pântano. O sumiço do ex-ministro faz acender o alerta vermelho para a gangue de traficantes comandada pela repugnante Puri (Carmina Barrios), que coloca em campo o seu braço direito, o sanguinário Falconetti (Nacho Fresneda), para tentar descobrir o que aconteceu com Carretero. O filme também retrata a corrupção reinante na polícia de Valência, na figura da delegada Isabel (Maite Sandoval). O resultado final, assim como o filme inteiro, não convence, talvez pela falta de experiência tanto dos roteiristas como do diretor, todos estreantes em longa-metragem, que não souberam explorar uma história que poderia se transformar numa produção interessante. O bom elenco se esforçou e ainda tentou dar alguma dignidade ao filme, mas mesmo assim não foi suficiente. Enfim, não me convenceu.

segunda-feira, 18 de maio de 2020


“MORTE ÀS SEIS DA TARDE” (“PLAGI BRESLAU”), 2018, Polônia, 1h50m, roteiro e direção de Patryka Vegi, que se inspirou em romance do escritor Marek Krajewski. Filme policial centrado na investigação de crimes cometidos por um serial killer em Breslávia (Wroclaw, em polaco), cidade polonesa na região da Baixa Silésia. Os corpos são encontrados com requintes de crueldade, decapitados e queimados, com sinais evidentes de torturas sádicas e violentas - os crimes aconteciam sempre às 18 horas. Aviso: as cenas são chocantes, talvez realistas demais, mas muito bem realizadas. A primeira vítima, por exemplo, é encontrada dentro da carcaça de um boi. A segunda, arrastada aos pedaços por dois cavalos de corrida, e daí por diante. A depressiva e mal-humorada detetive Helena Rus (Malgorzata Kozuchowska) é encarregada de investigar os assassinatos. Para auxiliá-la na missão, Varsóvia envia uma policial especializada em homicídios, Iwona (Daria Widawska), um tipo machão que não leva desaforo para casa. É justamente Iwona que encontrará uma pista mais concreta sobre os assassinatos. Ela descobriu que os crimes podem estar ligados a fatos ocorridos na cidade no Século 18, quando criminosos eram mortos numa tal “Semana das Pragas”. A cada dia, eram executados os condenados por roubo, corrupção, degeneração, calúnia, mentira e opressão. Tudo bem que a história é um tanto mirabolante, mas, de qualquer forma, trata-se de um filme que caminha num bom ritmo, com muita ação e algumas reviravoltas interessantes e surpreendentes. Se há alguns bons motivos para assisti-lo, um deles é a arquitetura em estilo gótico da cidade de Breslávia, garantindo um visual bastante agradável. Uma cidade muito bonita. Para quem gosta de filmes policiais, este é um tiro certo.    

domingo, 17 de maio de 2020


“O DESPERTAR DE MOTTI” (“WOLKENBRUCH”), 2019, Suíça, 1h33m, direção de Michael Steiner, com roteiro de Thomas Mey, representou a Suíça na disputa do Oscar 2020 de Melhor Filme Estrangeiro. Trata-se de uma comédia cuja história é baseada num livro do próprio roteirista Meyer, ou seja, “A Maravilhosa Jornada Wonkenbruch nos Braços de um Shiksa”. O personagem principal é o jovem Mordechai “Motti” Wolkenbruch (Joel Basman), que vive com os pais judeus ortodoxos na comunidade judaica de Zurique. Com vinte e poucos anos, Motti ainda é completamente dominado pela mãe Judith (Inge Maux Murer), que insiste em incentivá-lo a seguir a tradição judaica, ou seja, casar com uma jovem judia. Ela chega a promover nada menos do que 10 “shidduchs” (encontros forçados entre jovens judeus para gerar casamentos) num único dia, para Motti finalmente encontrar uma esposa, o que resulta em cenas hilariantes. A intenção de Judith vai por água abaixo quando Motti conhece Laura (Noémie Schmidt) na faculdade e se apaixona perdidamente. Só que Laura é uma jovem “shiksa” (não judia) e, ainda mais, alemã. As crises histéricas de Judith ao ver o filho se desvincular das tradições judaicas geram situações bastante engraçadas. Quando Motti resolve raspar a barba e troca a armação dos óculos, ele chega a ser comparado ao diretor Woody Allen, que costuma satirizar os judeus ortodoxos em seus filmes, principalmente nas suas falas em off – Motti faz a mesma coisa, mas dialogando com o espectador. Falado em iídiche, alemão e hebraico, “O Despertar de Motti” é uma comédia muito divertida. Imperdível!     

sexta-feira, 15 de maio de 2020


“NADA SANTO” (“LO SPIETATO”), 2019, produção italiana da Netflix, 1h51m, direção de Renato De Maria, que também assina o roteiro ao lado de Valentina Strada e Federico Gnesini. Baseado em fatos reais, descritos no livro “Manager Calibro 9”, de Pietro Colaprico e Lucia Fazzo, o filme acompanha a trajetória de Santo Russo (o excelente Riccardo Scamarcio), um jovem pobre que se muda com a família da Calábria (sul da Itália) para Milão no início dos anos 80. Logo ele se envolve em confusão e acaba preso. Algum tempo mais tarde, ao lado de seu antigo colega de cela Slim (Alessio Praticò) e o malandro Mario Barbiere (Alessandro Tedeschi), Russo começa a prestar serviços para a Máfia, roubando, matando, sequestrando, traficando. Aos poucos, ele mesmo vai subindo na hierarquia mafiosa, angariando o respeito das outras famiglias. Além de mostrar a ascensão de Russo no mundo da criminalidade, o filme também acompanha a sua vida particular, especialmente seu casamento com Mariangela (Sara Serraiocco), que entra em crise após ele se envolver com Annabelle (a francesa Marie-Ange Casta, irmã mais nova da também atriz Laetitia Casta e tão bonita quanto). O roteiro reserva para o final uma surpreendente reviravolta, que não se enquadra exatamente nos tradicionais desfechos da maioria dos filmes de Máfia. “Nada Santo” agrada não só por sua história, mas também pelo desempenho excepcional de Riccardo Scamarcio, um de meus atores preferidos do cinema italiano, e ainda pela bela fotografia noturna de Gian Filippo Corticelli. Enfim, mais uma ótima produção da Netflix.               

quinta-feira, 14 de maio de 2020


“A ÚLTIMA COISA QUE ELE QUERIA” (“The Last Thing He Wanted”), 2020, Estados Unidos, produção Netflix, 120 minutos, direção da cineasta Dee Rees, que também assina o roteiro com a colaboração de Marco Villalobos. Trata-se, na verdade, de uma adaptação do livro escrito em 1996 pela jornalista, ensaísta e romancista norte-americana Joan Didion (o título do livro é mesmo do filme em inglês). A história é centrada na jornalista investigativa Elena McMahon (Anne Hathway), do jornal Atlantic Post. Em 1982, ela é enviada como correspondente a El Salvador, ao lado da fotógrafa Alma Guerrero (Rosie Perez), para cobrir o conflito armado entre o exército do governo ditatorial de direita, apoiado pelo Tio Sam, e a Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional. Depois de quase serem mortas durante a cobertura, Elena e Alma voltam com material jornalístico que denuncia a participação dos EUA fornecimento de armas para o governo de El Salvador. Quando estava disposta a ir mais a fundo nas suas investigações, Elena recebe a ordem de esquecer El Salvador para cobrir a campanha do republicano Ronald Reagan à reeleição, em 1984. Até aí, o filme segue um roteiro crível. Mas eis que de repente, não mais do que repente, surge na trama o pai de Elena, o trambiqueiro Richard McMahon (Willem Dafoe), que há muito tempo havia abandonado a esposa e a filha. Ele chega contando uma história mirabolante, dizendo que está em meio a um negócio de milhões de dólares e pede à filha para ajudá-lo. Sem saber exatamente do que se tratava, Elena embarca numa aventura maluca que a leva até a Costa Rica, onde descobrirá que o pai estava contrabandeando armas e recebendo como pagamento carregamentos de drogas. Olha só que confusão! Tudo isso para dar a entender que o pai de Elena fornecia armas também para El Salvador (Que coincidência, hein?). Para tornar o roteiro ainda mais confuso, aparecem mais dois personagens misteriosos, Treat Morrison (o canastrão  e péssimo ator Ben Afflek), um agente do governo norte-americano ligado à CIA, e o mais que esquisito Paul Schuster (Toby Jones), que surge na história como um homossexual afetado que mora num casarão à beira do mar do caribenho. Enfim, um filme que se perde a partir da segunda metade, confundindo a cabeça do espectador mais atento com um roteiro dos mais mirabolantes e fantasiosos. De qualquer forma, em meio a um resultado final para lá de decepcionante, dá para destacar a boa atuação de Anne Hathaway, uma boa atriz que ultimamente não tem tido muita sorte na escolha de seus roteiros. Acompanho a trajetória de Hathaway desde o seu filme de estreia, “O Diário da Princesa”, em 2001, passando, entre outros, por “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), “O Diabo Veste Prada” (2006) até “Os Miseráveis”, que lhe valeu o Oscar 2013 de Melhor Atriz Coadjuvante. Depois atuou em bobagens como “As Trapaceiras” e o horrível “Calmaria”, sem dúvida um dos piores deste século, onde contracenou com Matthew McConaughey. Após sua exibição de estreia no Festival de Cinema de Sundance (EUA), “A Última Coisa que Ele Queria” foi recebido com risadas, apesar do desfecho dramático. O filme ainda recebeu severas e contundentes críticas por parte dos comentaristas especializados. Tudo isso para confirmar minha opinião negativa sobre o filme. Eu até trocaria o título em português para “A Última Coisa que Você Merecia Ver”.              

quarta-feira, 13 de maio de 2020


“RAINHA DE COPAS” (“DRONNINGEN”), 2019, coprodução Dinamarca/Suécia, 2h08m, roteiro e direção de Mayel-Toukhy, cineasta dinamarquesa de origem egípcia. A história é centrada na advogada Anne (Trine Dyrholm), especialista no direito das crianças e dos adolescentes, além de trabalhar com mulheres vítimas de estupro ou agressão física. Sua reputação profissional é das melhores em Copenhague. Ela é casada com Peter (Magnus Krepper), médico também conceituado, seu segundo marido. Os dois vivem um casamento tranquilo, dedicando-se em grande parte do tempo às duas filhas gêmeas. Tudo vai às mil maravilhas até a chegada de Gustav (Gustav Lindh), filho do primeiro casamento de Peter, um adolescente rebelde que acaba de ser expulso de um internato em Estocolmo (Suécia). Acostumada a lidar com jovens problemáticos, Anne aceita receber Gustav em casa, mesmo com uma certa relutância por causa das gêmeas. Mas Gustav interagiu bem com a madastra, com o pai e as novas irmãs. Até o dia em que mostrou seu lado de menino malvado, roubando vários pertences da casa. Anne descobriu, mas não denunciou o enteado, fortalecendo a amizade entre ambos. Aos poucos, porém, desiludida com o casamento um tanto morno, Anne faz a besteira de se entregar de corpo e alma – principalmente de corpo – para o jovem. Aí a coisa desanda, pois a relação é descoberta e, a partir daí, o filme se transforma num suspense envolvente, de grande tensão psicológica, até o triste mas não surpreendente desfecho. O principal trunfo de “Rainha de Copas” é realmente o desempenho magistral da fabulosa atriz dinamarquesa Trine Dyrholm, cuja trajetória acompanho desde que atuou no polêmico “Festa de Família” (1998), de Thomas Vinterberg, passando por “Em Um Mundo Melhor”, “O Amante da Rainha” e “A Comunidade”, entre tantos outros. “Rainha de Copas” foi o grande vencedor do Prêmio do Público no Festival de Sundance (EUA). Resumo da ópera:  cinema da melhor qualidade. IMPERDÍVEL!

segunda-feira, 11 de maio de 2020


“ROSIE – UMA FAMÍLIA SEM TETO” (“ROSIE”), 2018, Irlanda, 1h26m, direção de Paddy Breathnach (de “Viva”, filme rodado em Cuba), com roteiro de Moe Dunford (ator no filme) e Roddy Doyle. Ao estrear na Seção Contemporary World Cinema do Toronto International Film Festival, em 2018, esta produção irlandesa foi alvo de rasgados elogios da crítica especializada e do público. Trata-se de um drama muito triste, que acompanha, durante dois dias e duas noites, uma família em Dublin sem um teto para dormir, em pleno inverno irlandês. Rosie Davis (Sarah Greene), mãe solteira de quatro crianças, mais o namorado John Paul (Moe Dunford, o roteirista), são despejados da casa onde moravam e ficam sem ter para onde ir. Passam o tempo todo dentro do carro para se proteger do frio, Rosie a trocar as fraldas do mais novo, fazer a lição com outra e ainda levar a mais velha ao colégio. Ao mesmo tempo, Rosie fica no celular tentando encontrar um quarto de hotel, o que é impossível, pois todos de Dublin já estão ocupados por causa de um show de Lady Gaga. Enquanto isso, John Paul trabalha como ajudante de cozinha num restaurante, e o que ganha mal dá para comprar comida para a família. Mesmo com a situação de mal a pior, o casal mantém a esperança de dias melhores, incentivando as crianças a acreditarem nisso, embora a realidade mostre um quadro bem desolador. O filme foi realizado tendo como pano de fundo a crise habitacional da Irlanda, país com a maior taxa de famílias sem-abrigo da Europa por causa da especulação imobiliária. Não é nada fácil assistir ao sofrimento do casal e das crianças confinadas num carro, mal tendo o que comer ou vestir. Muito triste. De qualquer forma, o filme é muito bem feito, uma fotografia primorosa e uma atriz sensacional, Sarah Greene, que carrega o filme – e os filhos e o namorado – literalmente nas costas. Recomendo separar, no mínimo, uma caixa de lenços de papel. Chororô garantido!      

“MENTIRAS PERIGOSAS” (“DANGEROUS LIES”), 2020, Estados Unidos, produção Netflix (estreou dia 30 de abril de 2020), 1h36m, direção de Michael Scott, com roteiro de David Golden. Trata-se de um suspense policial daqueles em que todos os personagens são suspeitos e só no final é revelado o verdadeiro assassino. “Mentiras Perigosas” começa com um casal em dificuldades financeiras. Katie (Camila Mendes) trabalha como atendente em um bar e seu marido Adam (Jessie T. Usher) estuda para ingressar na faculdade de medicina. Ou seja, só o trabalho de Katie não sustenta os gastos do casal. Para reforçar o orçamento, Katie arruma um emprego como cuidadora de Leonard (Elliot Gould), um velho solitário e cheio da grana. Adam também vai trabalhar na casa como jardineiro. A morte misteriosa do velho muda totalmente o destino do jovem casal, pois Leonard deixou um testamento doando toda a sua fortuna para Katie. Aí tem coisa, logo pensou a detetive Chesler (Sasha Alexander), encarregada de investigar o caso. Além do jovem casal, o roteiro coloca como suspeitos um corretor imobiliário (Cam Gigandet), um dono de agência de empregos (Michael P. Northey) e a própria advogada de Leonard (Jamie Chung). Enquanto o suspense segue em frente fornecendo pistas contra todos os personagens, a policial não larga do pé do jovem casal, que já está morando na bela casa do falecido e usufruindo a grana herdada. Recheado de clichês típicos do gênero, “Mentiras Perigosas” chega ao desfecho sem uma conclusão satisfatória, o que acabou prejudicando o resultado final, além de um elenco não muito convincente. De bom mesmo, destaco a presença do veterano Elliot Gould, que eu não via na telinha faz algum tempo, e da atriz Camila Mendes, a “Veronica Lodge” da série Riverdale, que, embora nascida nos EUA, é filha de brasileiros.    

domingo, 10 de maio de 2020


“ENQUANTO A GUERRA DURAR” (“MIENTRAS DURE LA GUERRA”), 2019, Espanha, 1h47m, roteiro e direção do premiado cineasta chileno Alejandro Amenábar, radicado na Espanha desde 1973. Trata-se de um drama histórico baseado em fatos reais, ambientado em 1936 na cidade de Salamanca. Aqui, vivia o famoso escritor e filósofo humanista Miguel de Unamuno (Karra Elejalde), intelectual respeitado por várias correntes de pensamento em toda a Espanha e Europa. Por seu apoio ao governo republicano, Unamuno havia sido nomeado para o importante cargo de reitor da Universidade de Salamanca. A trama do filme gira em torno desse riquíssimo personagem e como ele vê toda a questão histórica que se desenrola na Espanha. Em 1936, descontente com os rumos tomados pelo governo republicano, Unamuno vê com bons olhos o golpe militar iniciado pelos militares comandados pelos generais Emilio Mola (Luis Callejo) e Francisco Franco (Santi Prego) e passa a apoiá-los, o que lhe custa o cargo de reitor da universidade. Porém, quando os militares começam com suas atrocidades, prendendo, torturando e matando intelectuais, professores e artistas, muitos deles seus amigos de longa data, Unamono passa a criticar Franco e os militares, culminando com um violento discurso durante a solenidade na aula magna da Universidade de Salamanca, da qual só saiu vivo por interferência de Carmen Polo (Mireia Rey), justamente a esposa do generalíssimo Franco e sua grande admiradora. O filme é pródigo em diálogos bastante elucidativos sobre a situação política na Espanha naquela época, além de revelar os bastidores de alguns dos momentos mais importantes da Guerra Civil, como, por exemplo, a reunião da junta militar que elegeu Franco como o comandante supremo do golpe. “Enquanto a Guerra Durar” é mais um excelente filme de Amenábar, que já havia nos presenteado com pequenas obras-primas como “De Olhos Abertos”, “Os Outros” e “Mar Adentro”, este último premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2005.  


sexta-feira, 8 de maio de 2020


“O ANJO DO MOSSAD” (“THE ANGEL”), 2018, Estados Unidos, à disposição na plataforma Netflix, 1h43m, direção do diretor israelense Ariel Vromen, que também assina o roteiro com a colaboração de David Arata e Luke Garret. A história é verídica e lembra o episódio envolvendo um dos personagens mais marcantes da espionagem internacional. Estou me referindo a Ashraf Marwan (o ator holandês de origem árabe Marwan Kensari), um oficial egípcio de alto escalão que no início dos anos 70 se ofereceu para ser espião de Israel via Mossad (o serviço secreto israelense). A adesão de Ashraf foi voluntária, revoltado por ter sido humilhado publicamente pelo seu sogro, nada menos do que o presidente do Egito Gamal Abdel Nasser. Genro e sogro nunca se entenderam e Nasser sempre foi contra o casamento. Como mulher acostumada a obedecer ao pai, a esposa Mona (Maisa Abd Elhad) nunca saiu em defesa do marido. Quando aderiu ao Mossad, Ashraf forneceu importantes informações para Israel, a mais vital delas em 1973, durante o feriado judeu do Yom Kippur, dando conta da movimentação bélica dos países árabes, liderados pelo Egito – agora comandado por Anwar Sadat (Sasson Gabai) –, com o objetivo de recuperar territórios tomados por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Por causa dessas informações, Israel conseguiu mobilizar seu efetivo militar e derrotar seus inimigos. Dessa forma, Ashraf seria considerado um herói por parte de Israel e, mais tarde, pelo próprio Egito, que concluiu que o seu papel fora fundamental para a realização do acordo de paz entre as duas nações, três anos depois. O mais interessante de “O Anjo do Mossad” é a revelação dos bastidores do trabalho de Ashraf, suas reuniões com o pessoal da alta cúpula militar do Egito, seus encontros secretos com o pessoal do Mossad em Londres e seu dia a dia cada vez mais perigoso, alimentando o clima de tensão cada vez mais crescente durante a projeção. Em vários momentos, Ashraf correu risco de morte, negociou frente à frente com Muammar Gadaffi (Isahi Halevi), ditador da Líbia, e teve muitos problemas com sua família, pois sempre escondeu suas atividades secretas da esposa Mona. Para complicar ainda mais a situação conjugal, Mona descobriria o caso do marido com uma amante londrina, a espetacular Diana Ellis (Hannah Ware) –, mais um fator de estresse para o coitado do espião. Todos esses detalhes só seriam revelados em 2016 no livro “O Anjo: O Espião Egípcio que Salvou Israel”, do escritor e cientista político israelense Uri Bar-Joseph, que serviu de inspiração e base para o roteiro do filme. Eu já conhecia o diretor israelense Ariel Vromen, radicado nos Estados Unidos, de bons filmes como “Mente Criminosa” e “O Homem de Gelo”. Vromen fez mais um excelente trabalho com “O Anjo do Mossad”, um filme obrigatório para quem gosta de conhecer um pouco mais da história mundial recente. IMPERDÍVEL!


quinta-feira, 7 de maio de 2020


“ALTOS NEGÓCIOS” (“BETONRAUSCH”), 2020, Alemanha, já disponível na plataforma Netflix, 1h34m, roteiro e direção de Cüneyt Kaya – é o seu terceiro longa-metragem. Baseado num caso real ocorrido na Alemanha, Kaya conta a história de um rapaz pobre, Viktor Stein (David Kross), que um dia resolve ir para a cidade grande (Berlim) com o objetivo de trabalhar e ganhar dinheiro. No início, arrumou emprego como operário na construção civil, dormiu em bancos de praça, passou frio e mal tinha o que comer. Até que tem a ideia de ingressar no mercado imobiliário, juntando-se a Gerry Falkland (Frederick Lau), um fracassado malandro oficial, e a uma experiente bancária, a bela Nicole Kleber (Janina Uhse). Viktor tem como principal trunfo o seu jeito malandro sedutor e um sorriso cativante, abrindo as portas para vários negócios. Ele e os novos parceiros começam a engendrar esquemas fraudulentos no ramo imobiliário com a retaguarda de empréstimos e financiamentos ilegais junto a bancos e instituições de crédito. Os três ganham bilhões em pouco tempo, mas gastam quase tudo em mansões, carrões, prostíbulos luxuosos e festas regadas a muito álcool e cocaína, o que nos remete ao estilo de vida dos principais personagens do filme “O Lobo de Wall Street”. Trata-se, portanto, de uma história de cobiça e ambição, realizada com muita competência pelo diretor alemão Cüneyt Kaya, que conseguiu impor um ritmo frenético do começo ao fim. Um surpreendente filme alemão que merece ser visto. Imperdível!

terça-feira, 5 de maio de 2020


“EM GUERRA POR AMOR” (“IN GUERRA PER AMORE”), 2016, Itália, 1h39m, roteiro e direção de Pierfrancesco Diliberto (também conhecido como Pif). Trata-se de uma saborosa comédia cujo pano de fundo é uma declarada homenagem aos grandes diretores italianos, como Mario Monicelli, Fellini, Dino Risi e Ettore Scola, entre outros. Como registram os créditos iniciais, o filme é dedicado ao mestre Scola (1931/2016), falecido pouco antes do fim das filmagens. Ambientado em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, “Em Guerra por Amor” conta a história de um amor impossível que começa em Nova Iorque, envolvendo o fracassado Arturo Giammaresi (papel do próprio diretor) e a bela  Flora (Miriam Leone), de uma importante família ligada à máfia. Eles pretendem se casar, mas só que a “famiglia” de Flora escolheu outro pretendente, filho de um chefe mafioso de Nova Iorque ligado ao poderoso Lucky Luciano. Para evitar esse casamento, Arturo precisa viajar à Sicília para pedir a mão de Flora para o seu pai, Don Caló (Maurizio Marchetti), um chefão da máfia local. Mas como viajar para a Sicília em meio à guerra, e, principalmente, sem dinheiro? A resposta chegou num golpe de sorte. No balcão de um bar, Arturo conhece um oficial norte-americano que está à procura justamente de alguém que fale italiano e conheça bem a Sicília, já que há planos dos aliados de utilizarem a região como ponto estratégico no combate ao exército nazista – essa ajuda seria recompensada posteriormente pelos norte-americanos, que colocaram os mafiosos, alguns cumprindo pena, em postos-chave dos governos municipais da Sicília. Aliás, por sua ajuda ao exército norte-americano, o chefão da máfia em Nova Iorque, Lucky Luciano, também recebeu algumas regalias da justiça do Tio Sam. O filme faz uma forte crítica à conexão entre o pessoal da OSS (serviço secreto norte-americano da época) e a máfia italiana, o que favoreceu o crescimento e o fortalecimento da organização criminosa tanto nos EUA como em território italiano. Enfim, o filme acompanha, com muito humor, a aventura de Arturo para chegar até o pai de Flora, sua amizade com o oficial norte-americano Philip Chiamparino (Andrea Di Stefano) e até sua presença na Casa Branca, em Washington, para entregar um importante documento secreto ao presidente dos EUA. Durante o filme, percebi várias homenagens a Fellini, como os tipos esquisitos e caricaturais, o cego (“Amarcord”) e a cena do helicóptero (“A Doce Vida”). Com relação ao fato de que “Em Guerra por Amor” foi dedicado à memória do grande Ettore Scola, gostaria de mencionar aqueles que considero seus melhores filmes, alguns deles verdadeiras obras-primas, como “O Baile", “Nós que nos Amávamos Tanto”, “Um Dia Muito Especial”, “O Jantar”, “Feios, Sujos e Malvados” e “Splendor”, este último uma bela homenagem ao cinema. “Em Guerra por Amor” é um filme que remete às melhores comédias italianas dos anos 40/50/60/70 do século passado. Nostálgico, engraçado e sensível, além de uma primorosa reconstituição de época, “Em Guerra por Amor” é um filme obrigatório para quem gosta do bom cinema.  

segunda-feira, 4 de maio de 2020


“VIVER DUAS VEZES” (“VIVIR DOS VECES”), 2019, Espanha, produção Netflix, 1h41m, direção de María Ripoll, com roteiro assinado por María Mínguez. Mesmo tratando de temas não muito agradáveis, como o Mal de Alzheimer e a deficiência física infantil, essa produção espanhola, para amenizar o contexto, tira partido de muito humor e de momentos de alta sensibilidade. Ou seja, “Viver Duas Vezes” diverte e emociona na dose certa, transformando-se num filme bastante agradável de assistir. A história é centrada no professor universitário aposentado Emílio (Oscar Martínez), um gênio da matemática reconhecido no mundo inteiro. Chega o dia em que ele começa a ter alguns apagões, como esquecimentos e desorientações, confirmando-se, depois de alguns exames médicos, que ele sofre do Mal de Alzheimer. Ele começa a ter atitudes esquisitas, como sair à noite pelas ruas de pijama e jogar para o alto a comida. Nesses casos, claro, o doente precisa ser vigiado o dia inteiro, tarefa que acaba recaindo sobre a família, no caso, a filha Julia (Inma Cuesta), o genro Felipe (Nacho López) e a neta Blanca (Mafalda Carbonell), uma garota esperta que enfrenta, desde que nasceu, uma grave deficiência nas pernas. Independente desse problema, Blanca é uma garota muito esperta que adora colocar palavrões em suas frases, para desespero dos pais. No dia em que Julia recebe o pai para almoçar e expõe não saber o que fazer, Blanca dá o recado na lata: “Mãe, leva ele para o asilo. É o que todo mundo faz”. A garotinha é terrível mesmo, mas é ela que será a cúmplice do seu avô numa grande aventura. Emílio resolve tentar encontrar um antigo amor de infância, uma tal Margarita. Blanca tentar ajudar o avô navegando pelas redes sociais e descobre uma possibilidade na cidade de Navarra. Emílio e a neta partem para a estrada, mas não contavam com um problema mecânico no velho automóvel. Avô e neta ficam retidos num posto de gasolina à espera de Júlia e do marido. O road movie continua, pois Júlia decide, tal qual Blanca, ajudar Emílio em seu sonho quase impossível. Além da história marcante, é sem dúvida no elenco que está o maior trunfo de “Viver Duas Vezes”. A começar pelo grande ator argentino Oscar Martínez (“Ninho Vazio”, “Cidadão Ilustre”, “Relatos Selvagens” e “Inseparáveis”, este último refilmagem da comédia francesa “Intocáveis”). E a sensacional espanhola Inma Cuesta, que além de bonita é excelente atriz. Lembro dela em filmes como "Branca de Neve", "Todos já Sabem", "La Novia" e "La Voz Dormida". Mas a grande surpresa positiva é a presença de Mafalta Carbonell, cuja ótima atuação (de estreia no cinema) garante os momentos mais divertidos. A diretora Maria Ripoll, ao dirigir "Ahora o Nunca" ("Agora ou Nunca"), em 2015, alcançou a posição invejável de diretora com a maior bilheteria da história do cinema espanhol. Enfim, “Viver Duas Vezes” é um filme bastante sensível, diverte e emociona. Mais uma joia preciosa lapidada pelo cinema espanhol. IMPERDÍVEL!