sábado, 16 de outubro de 2021

 

“DANO COLATERAL” (“KIN”), 2021, Turquia, produção original Netflix, 1h45m, direção da cineasta Türkan Derya, seguindo roteiro assinado por Yilmaz Erdogan, que também atua no filme no papel do personagem principal. O bom cinema turco surpreende novamente, desta vez sem explorar aqueles dramas chorosos lançados recentemente, também pela Netflix, como, por exemplo, “Milagre na Cela 7” e “Filhos de Istambul”. Agora chega arrasando com este ótimo drama policial repleto de suspense e reviravoltas. Começa a história com o inspetor-chefe Harum (Erdogan) recebendo o prêmio de “Policial do Ano”, o que lhe dará direito a uma promoção. Ele é um policial respeitado pelos colegas e considerado um exemplo de retidão. Depois da comemoração, ele entra em um táxi para ir para casa, mas a corrida termina em tragédia. Explico: o taxista leva Harum para um lugar ermo e tenta matá-lo, sem nenhuma razão aparente. Harum se defende e acaba matando o motorista. Para não se comprometer, ele não comunica o ocorrido aos seus colegas. No dia seguinte, o corpo do motorista de táxi aparece pendurado numa grua de um edifício em construção bem em frente à delegacia. Quem assume a investigação é justamente a equipe de Harum, que tentará esconder qualquer indício de sua participação no crime. Só que Tuncay (Cem Yigit Üzümoglu), um jovem policial da sua equipe, encontra dentro do táxi o prendedor de gravata que Harum havia sido presenciado na comemoração, mas não conta a ninguém. Para piorar, durante uma batida policial noturna, Harum mata uma possível testemunha do crime do taxista. Aí a coisa complica para o seu lado. Ainda mais depois que entra na história uma prostituta viciada, Gül (Doygu Sarisin), que tem contas a acertar com Harum pela prisão de seu pai, vinte anos antes. Graças a um roteiro bem elaborado, o filme consegue prender a atenção até o seu desfecho, num clima de tensão que aumenta cada vez mais à medida que a história avança. Há que se destacar, como outro trunfo desse excelente suspense policial, a atuação do ator, cineasta, roteirista e poeta turco, de origem curda, Yilmaz Erdogan, um dos principais atores do cinema turco atual, que ficou conhecido a partir do ótimo “Era Uma Vez na Anatólia”, de 2011. Trocando em miúdos, “Dano Colateral” é um filmaço!              

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

 

“O CULPADO” (“THE GUILTY”), 2021, Estados Unidos, disponível na plataforma Netflix, 1h31m, direção de Antoine Fuqua, com roteiro de Nic Pizzolatto. Trata-se de um remake do filme dinamarquês “Culpa”, de 2018 – mais uma comprovação da tese de que, atualmente, há falta de bons roteiristas em Hollywood. O drama policial é centrado no policial Joe Baylor (Jake Gyllenhaal), tirado das ruas depois de uma falha operacional e colocado como atendente de ligações da linha emergencial do 911. Já aviso que o filme inteiro é ambientado em um cenário único, ou seja, dentro da central telefônica da polícia de Los Angeles. Baylor aparece atendendo ligações das mais variadas emergências, como acidentes, roubos, violência doméstica e alguns trotes, além de ligações de bêbados e drogados. Para piorar, um grande incêndio acontece na floresta e se aproxima perigosamente de Los Angeles. É o plantão da madrugada e o policial recebe finalmente um telefonema que atrai seu interesse e que mobiliza toda a sua atenção. Uma mulher liga desesperada dizendo que foi sequestrada pelo ex-marido e está no porta-malas de um veículo. Ela também afirma que ele matou seu bebê. Pela comunicação interna da polícia, Baylor faz de tudo para localizar o carro e enviar socorro. O filme inteiro gira em torno do esforço de Baylor para tentar ajudar a moça sequestrada, o que fornece um clima de grande tensão até o desfecho, quando acontece uma surpreendente reviravolta. As vozes que Baylor ouve são de atores conhecidos, entre os quais Ethan Hawke, como o sargento Bill Miller, Riley Keough, como a vítima Emily Lighton, Peter Sarsgaard e Paul Dano. “O Culpado”, assim como o original dinamarquês, exige uma certa paciência por parte do espectador em acompanhar a trama dentro de um pequeno cenário. Mas, se resistir em desligar o vídeo, poderá curtir um bom entretenimento.           

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

 



“A AUSÊNCIA QUE SEREMOS” (“EL OLVIDO QUE SEREMOS”), 2020, Colômbia, 2h16m, disponível na plataforma Netflix desde 22/09/21, direção do espanhol Fernando Trueba e roteiro de David Trueba (irmão do diretor). Trata-se de uma pequena joia do pouco conhecido cinema colombiano, selecionado para disputar o Oscar 2021 de Melhor Filme Estrangeiro (não aceito a nova nomenclatura “Internacional”). Achei uma injustiça não ter sido classificado, pelo menos, entre os cinco finalistas. Por mim, seria um dos grandes favoritos. Trata-se de um drama baseado em fatos reais, cujo personagem central é o médico sanitarista e professor universitário Héctor Abad Gómez (Javier Cámara). A história contada no filme foi relatada no livro “El Olvido Que Seremos”, escrito pelo jornalista Héctor Abad Faciolince, filho do médico. Estamos na década de 80 na cidade de Médellin, onde Héctor Abad vive com sua esposa e seus seis filhos. A Colômbia vivia os anos de chumbo de uma ditadura militar e os violentos atentados praticados tanto por narcotraficantes como por militantes das Farcs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Em meio a esse ambiente turbulento, o filme acompanha o cotidiano da família de Héctor, um pai dedicado, carinhoso e atencioso com a esposa e os filhos. Ao mesmo tempo, destaca o trabalho do médico sanitarista na periferia de Médellin e sua luta em favor da saúde dos pobres e da desigualdade social. Héctor também era ativista dos direitos humanos e militante da organização “União Patriótica”, razão principal do seu assassinado, em 1987, cuja autoria é um mistério até hoje. Apesar do fundo claramente político e do contexto trágico que vivia a Colômbia naquele ano, o filme é sensível e comovente, mostrando um pai de família carinhoso e, ao mesmo tempo, corajoso a ponto de combater as injustiças de peito aberto, sem medo de represálias seja de onde vierem. Um verdadeiro herói. O ator espanhol Javier Cámara é a alma do filme, com uma atuação magistral. Nenhuma surpresa, pois ele é um dos principais atores do cinema espanhol, inclusive um dos preferidos do diretor Pedro Almodóvar. Para valorizar ainda mais esta verdadeira pérola do cinema colombiano, há que se destacar o currículo do diretor Fernando Trueba, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1993 por “Belle Époque”, que chegou ao Brasil com o título “Sedução”. Resumindo, "A Ausência Que Seremos" é simplesmente imperdível, um dos melhores lançamentos do ano da Netflix.       

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

 

“JE SUIS KARL”, 2021, coprodução Alemanha/República Tcheca, 2h06m, disponível na plataforma Netflix, direção de Christian Schwochow, seguindo roteiro de Thomas Wendrich. Trata-se de um drama de cunho fortemente político, bastante esclarecedor sobre as ideologias que dominam a mente de grande parte da juventude na Europa contemporânea. A história é centrada nas atividades de uma organização chamada “Re/Generation”, grupo juvenil de extrema-direita, neofascista, radical e violento. Suas ações são baseadas nas ideias de supremacia branca europeia e xenofobia, incentivando o ódio a imigrantes árabes e africanos. A personagem central da história é a jovem Maxi Baier (Luna Wedler), cuja mãe e seus dois irmãos menores são mortos em um atentado à bomba. Revoltada e desiludida com o trabalho ineficiente da polícia de Berlim em identificar os autores do atentado, ela ingressa na tal organização “Re/Generation”, cooptada por seu porta-voz Karl (Jannis Niewöhner), um jovem sedutor pelo qual Maxi se apaixona, sem saber que ele foi um dos autores da carnificina que vitimou sua família. Nesse contexto, a organização costuma praticar atentados atribuindo-os aos imigrantes árabes. Outro personagem importante na história é o pai de Maxi, Alex Baier (Milan Peschel), um pacifista que sempre protegeu os refugiados, inclusive acolhendo um deles, o jovem líbio Yusuf (Azis Dyab). Filmado em locações nas cidades de Berlim, Praga e Paris, o filme revela um lado sinistro da juventude europeia, que pretende “limpar” seu continente na base da força e do ódio aos imigrantes. Toda essa motivação é mostrada em cenas das reuniões do grupo radical bastante esclarecedoras sobre sua ideologia, muito próxima do nazismo. O grand finale acontece em Paris, onde os militantes da organização marcam presença no discurso da candidata francesa de ultradireita Odile Leconte (Fleur Geffrier), resultando em uma batalha campal. Resumindo, “Je Suis Karl” é um filme bastante impactante, sério, contundente, revelador. Será, provavelmente, indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional defendendo a Alemanha. Um filmaço!         

sábado, 2 de outubro de 2021

 

“O ÚLTIMO RESGATE” (“WE GO IN AT DAWN”), 2020, Inglaterra, disponível na plataforma Amazon Prime, 1h25m, roteiro e direção de Ben Mole. Quem vê a foto de divulgação (ao lado) pensa que vem aí mais um filme de guerra recheado de tiros, tanques, trincheiras, aviões, artilharia pesada e exércitos se enfrentando no front. Propaganda enganosa. O filme é claramente de baixo orçamento, certamente feito para a TV, com um elenco de atores desconhecidos – pelo menos para nós. Tal qual “Atrás da Linha: Fuga para Dunkirk”, do mesmo diretor e comentado recentemente neste blog, este drama de guerra ambientado durante a Segunda Guerra Mundial é muito fraco, com inúmeras falhas de continuidade – exemplo: combatente da resistência francesa aparece com uma arma na mão e na mesma cena aparece com outra, como num passe de mágica, e tantas outras falhas bem perceptíveis. Bem, vamos à sinopse. Estamos em 1944, pouco antes do Dia D, quando as forças aliadas invadem a Normandia e afugentam o exército alemão, dando um grande passo para o final do conflito. Victor Lawrence (Christos Lawton), oficial inglês de alta patente, é capturado pelos alemães em solo francês e enclausurado numa prisão de segurança máxima. Com receio de que ele seja torturado e entregue os planos do Dia D, o governo inglês envia à França John Seabourne (Kelvin Fletcher), oficial das forças especiais, para tentar resgatar o prisioneiro. Para essa missão, Seabourne contará com a ajuda de uma combatente da resistência francesa, Ellie (Audrey L’Ebrellec), cujo irmão também é prisioneiro dos alemães. A missão é quase impossível, mas sabe como é o cinema. Quem gosta de filmes de guerra certamente vai se decepcionar, principalmente com a falta de ação e com o roteiro de extrema pobreza. Ainda bem que só dura 1h25m e, mesmo assim, dá para lamentar esse tempo perdido.         

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

 

“SERVOS DA GUERRA” (“SLUGI WOJNY”), 2020, Polônia, 1h50m, disponível na plataforma Amazon Prime Video, roteiro e direção de Mariusz Gawrys. Trata-se de um filme policial com muito suspense e boas, mas não muitas, cenas de ação - a melhor delas é a perseguição nos telhados. A história é centrada na investigação do assassinato do professor Marek Abramski (Daiusz Jakubowski), médico especialista em transplante de medula óssea e fundador da organização “Helping Hand”. O caso é entregue ao comissário Wojciech “Sambor” Samborski (Piotr Stramowski) e a uma policial novata, Marta (Maria Kania). Durante as investigações, os policiais encontram pistas que levam a crimes envolvendo um complicado caso de corrupção, comércio de órgãos humanos e venda de informações do DNA de soldados do exército polonês. Tudo leva a crer que Joop Holten (Michael Schiller), diretor da fundação, e uma ministra do governo polonês estão envolvidos em toda essa trama. O roteiro não facilita um rápido entendimento sobre o que está acontecendo na tela. São citados vários nomes de personagens que a gente demora a identificar na história. Grande parte do roteiro abre espaço para o relacionamento amoroso secreto entre o comissário Sambor e a policial Marta, protagonistas de várias cenas de sexo, uma delas beirando o explícito. Aliás, como é de praxe nos filmes poloneses, mulheres bonitas não faltam no elenco. Trocando em miúdos, “Servos da Guerra” tem todos os ingredientes para agradar quem curte o gênero policial, mesmo com o roteiro um tanto complicado.           

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

 

“OS SEGREDOS QUE GUARDAMOS” (“THE SECRETS WE KEEP”), 2020, Estados Unidos, 1h37m, disponível na plataforma Amazon Prime Vídeo, direção do cineasta israelense Yuval Adler, que também assina o roteiro com a colaboração de Ryan Covington. A história é ambientada em meados dos anos 50 em uma pacata cidade do interior dos Estados Unidos, onde Maja (Noomi Rapace) vive com seu marido Lewis (Chris Messina) e um filho pequeno. Eles se conheceram na Europa pós-guerra, Lewis como médico do exército e Maja como uma refugiada romena. De volta aos Estados Unidos, Lewis levou Maja e se casaram. Quando já eram casados por alguns anos, Maja reconhece um homem como o soldado alemão que, durante a Segunda Grande Guerra, a estuprou e matou sua irmã. Maja resolve sequestrar o sujeito, que nega ter sido um soldado alemão e que se identifica como Thomas (Joel Kinnaman), um imigrante originário da Suíça e que agora trabalha como empregado em uma refinaria. Obcecada por vingança, Maja prende o suposto nazista no porão de sua casa. O marido exige uma explicação para o que está ocorrendo e Maja revela o segredo que escondeu durante todo o tempo em que se conhecem. Ela e sua família eram ciganos que foram perseguidos pelos nazistas e submetidos a torturas cruéis. Maja nunca mencionou esse fato ao marido. Mesmo diante da certeza dela de que Thomas foi seu estuprador, Lewis começa a desconfiar de que sua esposa está cometendo um grave erro. E essa dúvida permanecerá até o desfecho, mantendo a atenção do espectador para a expectativa do que vai acontecer, aumentando cada vez mais o suspense da história. Não há dúvida de que é atriz sueca Noomi Rapace quem leva o filme nas costas, com uma primorosa atuação. Ela demonstra mais uma vez que é uma atriz bastante versátil, principalmente quando a gente lembra dela como aquela garota punk masculinizada do filme “Os Homens que não Amavam as Mulheres” e em mais dois filmes da trilogia baseada nos livros do escritor sueco Stieg Larsson. Trocando em miúdos, “Os Segredos que Guardamos” é um bom suspense que merece ser conferido. Aproveito para recomendar mais um ótimo filme do diretor israelense Yuval Adler: “Belém: Zona de Conflito”, de 2013.             

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

“7.500”, 2019, Alemanha/Áustria/EUA, 1h32m, produção Amazon Studios, disponível na plataforma desde o dia 18 de junho de 2020, direção de Patrick Vollrath, que também assina o roteiro com a colaboração de Senad Halilbasic. Conhecido como diretor de curtas – ele tem até um Oscar de Melhor Curta-Metragem, em 2016, por “Alles Wird Gut” -, com “7.500” Vollrath faz sua estreia na direção de um longa. E que estreia auspiciosa. O cineasta alemão consegue prender a atenção e manter um clima de tensão do começo ao fim, mesmo que toda a ação seja ambientada no pequeno espaço da cabine de comando do avião onde ficam o piloto e o copiloto. O avião com 85 passageiros está prestes a decolar de Berlim com destino a Paris. O piloto Michael Lutzmann (Carlo Kitzlinger) e o seu copiloto Tobias Ellis (Joseph Gordon-Levitt) iniciam os preparativos, tomando todas as providências para iniciar a contagem regressiva para o início do taxiamento. O diálogo entre piloto e copiloto é bastante realista, pois leva o espectador a conhecer os detalhes técnicos do procedimento. Logo depois da decolagem, quando a aeronave entra em ritmo de cruzeiro e com o piloto automático ligado, terroristas islâmicos anunciam que estão sequestrando o avião. Dois deles conseguem invadir a cabine de comando, assassinando o piloto. Caberá ao copiloto Tobias deter os terroristas e ainda pilotar o avião, mesmo com um grave ferimento no braço. Os demais terroristas tentam derrubar a porta da cabine, ameaçando matar os passageiros caso Tobias não os deixe entrar. A tensão aumenta a partir do primeiro passageiro assassinado. O desespero de Tobias aumenta ainda mais quando um dos terroristas ameaçam matar uma aeromoça, justamente sua namorada. A gente acompanha toda a ação como se estivesse na cabine, ou seja, quem for claustrofóbico vai passar mal. Até a metade do filme a ação e a tensão correm soltas e o suspense é de tirar o fôlego. Mas na segunda parte, quando o copiloto tenta convencer um jovem terrorista, também preso na cabine, a se entregar, o ritmo da ação diminui e dá lugar a um frustrante período de calmaria.  Não que isso prejudique o resultado final, graças, principalmente ao roteiro engenhoso e à atuação magistral de Joseph Gordon-Levitt. Ah, só para esclarecer, o “7.500” do título refere-se ao código do Transponder de Emergência para “Interferência Ilícita”. Pode encarar essa viagem. Garanto que você não vai se arrepender.       

 

“PÁSSAROS DA LIBERDADE” (“BIRDS OF PARADISE”), 2021, Estados Unidos, 1h54m, produção da Amazon Studios, disponível na plataforma desde o dia 24 de setembro de 2021, roteiro e direção de Sarah Adina Smith. A história é baseada no romance “Bright Burning Stars”, escrito por A.K. Small. O filme começa com a chegada em Paris da jovem norte-americana Kate Sanders (Diana Silvers), bailarina que ganhou uma bolsa de estudos para participar de uma seleção para a consagrada Companhia Balé da Ópera de Paris. Ela não é muito bem recebida pelas outras bailarinas e logo constata que o ambiente é muito traiçoeiro e competitivo. Uma de suas principais concorrentes é Marine Elise Durand (Kristine Froseth), filha da embaixadora dos EUA na França, Celine Durand (Caroline Goodall) e do rico empresário Lucien Durand (Roger Barclay). Marine carrega o trauma de ter sido responsável pelo suicídio do irmão gêmeo, que era também bailarino e seu par nos concursos de dança. No começo da relação entre Marine e Kate havia uma certa rivalidade, pois as duas eram consideradas as favoritas. Mas a aparente concorrência se transformou em amizade e as duas enfrentarão juntas o rigoroso treinamento ministrado por Madame Brunelleschi (Jacqueline Bisset). Até o desfecho, o filme acompanha a amizade entre as duas jovens, o ambiente competitivo, a inveja, o ciúme, o consumo de drogas, o sofrimento dos exaustivos e doloridos ensaios e os romances nos bastidores. Ou seja, o mundo do balé não é só charme e beleza. Nos bastidores há um mundo cruel e nada saudável. O excelente desempenho das jovens atrizes Kristine Froseth e Diana Silvers é fundamental para acentuar a carga dramática e sensual que acompanha toda a história. Destaque também para a participação da veterana Jacqueline Bisset, ainda em grande forma. Uma curiosidade é a presença do bailarino brasileiro Daniel Camargo, que também faz papel de garanhão do pedaço. Totalmente filmado em Budapeste (Hungria), “Pássaros da Liberdade” se destaca também pela primorosa fotografia, que valoriza ainda mais as apresentações de balé. Não é um baita filme, mas muito interessante e que merece ser conferido.   

sábado, 25 de setembro de 2021

 

“BAC NORD: SOB PRESSÃO” (“BAC NORD”), 2020, França, disponível na plataforma Netflix, 1h47m, direção de Cédric Jimenez (“A Conexão Francesa", de 2014), que também assina o roteiro com a colaboração de Audrey Diwan (esposa do diretor) e Benjamin Charbit. Não é novidade que o cinema francês está dominando o gênero policial, muitas vezes superando os melhores de Hollywood. É o caso deste “Bac Nord”, repleto de ação, tensão e muita violência. E, melhor ainda, baseado em fatos reais ocorridos em 2012. Estamos na cidade de Marseille, que registra o maior índice de criminalidade da França – e talvez de toda a Europa. A história acompanha o desafio diário de três policiais na linha de frente da Brigada Anticrime no combate ao tráfico de drogas em Marseille, mais especificamente na parte norte da cidade, habitada, em sua grande maioria, por imigrantes árabes, muçulmanos e africanos. O QG dos traficantes fica localizado num conjunto de edifícios populares. Nem mesmo a polícia chega perto, pois a barra é bem pesada. Os policiais Antoine (François Civil, Grégory Cerva (Gilles Lellouche) e Yassine (Karim Leklou) resolvem tirar partido da situação e ganhar um dinheirinho por fora. A estratégia é simples: eles esperam os viciados saírem dos prédios e confiscam suas drogas e depois as vendem. Para obter mais informações sobre as atividades dos traficantes, Antoine mantém uma informante, a viciada Amel (Kenza Fortas), que dá as dicas em troca de porções de maconha. Quando o prefeito exige uma ofensiva contra os traficantes, um grande número de policiais é mobilizado para a perigosa e difícil missão. As cenas que virão a seguir são de uma tensão extrema, quando os policiais são cercados pelos traficantes, que contam com o apoio dos moradores. O diretor Cédric Jimenez, com uma câmera de mão, filma tudo de forma muito realista, fazendo com que o espectador se veja no meio de toda a ação. São cenas de tirar o fôlego, valorizando ainda mais este excelente filme francês. Como se não bastasse tudo isso, o elenco, além dos ótimos atores que interpretam os três policiais, ainda conta com a jovem diva Adèle Exarchopoulos, que, além de bonita, é excelente atriz. Lançado no Festival de Cannes de 2020, recebendo elogios da crítica e do público, “BAC Nord” é um filme obrigatório para quem curte o gênero policial. E para quem não curte também. Simplesmente IMPERDÍVEL, com letra maiúscula e negrito.     

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

 

“UNTOUCHED” (este é o título original, assim como está na Amazon Prime Vídeo; na tradução para o português, pode ser “Intocado” ou “Intocável”), 2017, Estados Unidos, 1h20m, direção do brasileiro Raphael Vieira, seguindo roteiro de Chip Lane, Angelique Chase, Megan Lambardo e Sandra Elise Williams. Filme certamente feito para a TV, com uma produção de poucos recursos – para não dizer pobre - e um elenco de ilustres desconhecidos e péssimos atores. Eis que surge de repente na tela, para minha surpresa, um rosto conhecido: a atriz brasileira Maria Zilda Bethlem. Dei stop na filmagem e fui pesquisar o que ela estaria fazendo em um filme norte-americano. Descobri na hora: ela é mãe do diretor, cujo pai é Roberto Talma, falecido em 2015, famoso por aqui como diretor da TV Globo. Bem, vamos à história de “Untouched”, ambientada na pequena cidade de Savannah (Estado da Geórgia). Primeiro, quero dizer que resolvi assistir esse drama porque a sinopse anunciava que se tratava de um filme de tribunal, o que eu adoro. Triste ilusão. Tem só uma pequena cena de julgamento, o resto é só um drama mesmo. O advogado Mitchell Thomas (Chip Lane, também um dos roteiristas) é designado para defender uma jovem de 16 anos acusada de ter assassinado seu bebê recém-nascido e o jogado em uma lixeira. Ela não se recorda do que aconteceu e também não quer dizer o nome do pai da criança. Para piorar a situação, a moça é filha de um conhecido pastor da igreja, de quem escondeu que estava grávida. No início, Mitchell relutou em assumir o caso, pois carrega um trauma do passado relacionado justamente com a questão do aborto. Maria Zilda interpreta Alex, outra advogada do escritório. Ela aparece pouco, num papel sem muita importância, mas não compromete. Acho que por conta de alguma brincadeira combinada durante a filmagem, Mitchell cumprimenta Alex com um “bom dia” em português, e, numa outra cena, Maria Zilda diz um “merda” também em português. Não há muito mais o que se comentar, apenas dizer que o filme é muito fraco, sem dúvida um dos piores lançamentos da Amazon este ano (2021).

   

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

“O SÉTIMO DIA” (“THE SEVENTH DAY”), 2021, Estados Unidos, disponível na plataforma Amazon Prime Vídeo, 1h27m, roteiro e direção de Justin P. Lange. Depois do clássico “O Exorcista”, de 1974, muitos outros filmes foram feitos com o tema exorcismo. Mas, até hoje, nenhum superou em impacto e qualidade o filme dirigido por William Friedkin, com Max von Sidow, Ellen Burstyn e Linda "Jato Verde" Blair. Eu mesmo já assisti a alguns, e posso afirmar, do alto da minha condição de cinéfilo amador, que a maioria é uma grande porcaria. “O Sétimo Dia” também faz parte da tropa medíocre, apesar de trazer no elenco Guy Pearce, um nome de um certo respeito no cinema atual. Mas nem ele foi capaz de salvar esse filme. Ele interpreta o padre Peter, um dos mais experientes na prática do exorcismo. Peter é designado para treinar o padre novato Daniel (o fraco ator mexicano Vadhir Derbez) a encarar o demônio de perto e tentar vencê-lo. O primeiro teste acontece num reduto de mendigos. Daniel terá que descobrir, entre eles, quem está possuído, e, para nosso espanto, sem usar batina, nem crucifixo, Bíblia ou água benta. Ou seja, não se fazem mais padres como antigamente. O segundo teste, agora na prática, acontece quando Daniel é obrigado a enfrentar o diabo no corpo do garoto Charlie (Brady Jenness). Aí o bicho pega. Como tantos outros filmes, “O Sétimo Dia” apresenta alguns clichês do gênero: tabuleiro Ouija, criança com voz grossa, gosma verde, olhos virando, levitação, mortes provocadas pelo possuído etc. Com exceção de alguns bons sustos, nada desse filme é capaz de motivar uma recomendação entusiasmada. Vade retro!  

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

 

“PALESTINA: UMA TERRA EM CONFLITO” (“PALESTINE”), 2019, disponível na plataforma Amazon Prime Video, coprodução Marrocos/Israel/Espanha, 1h18m, direção de Julio Soto Gurpide e Mohamed El Badaoui – que também faz o papel principal no filme – seguindo roteiro de Suha Arraf. A história é baseada em fatos reais descritos no livro “Palestine” (2007), do escritor tunisiano Hubert Haddad. Quem se depara com o título nacional pode pensar que vai ver atentados, explosões, mísseis e tiroteios. Nada disso, embora tenha cenas de alguma violência e tensão. A história começa com homem caminhando à beira de uma estrada da Palestina, ao lado do muro que separa seu território de Israel. Ele apresenta um ferimento na cabeça e está mentalmente perturbado, como alguém que não sabe o que está acontecendo. Um carro para ao seu lado e o identifica como Nassim (Mohamede El Badaoui), um palestino que foi preso há 10 anos pelo exército israelense. Quando é levado para a casa da mãe, em Hebrom - cidade palestina na Cisjordânia -, Nassim é recebido com muita festa e lágrimas e fica claro que ele perdeu a memória, pois não se lembra de nada. Aos poucos, porém, com a convivência diária com sua mãe Ismahan (Amal Ayduch) e com a prima Rana (Sarah Perles), Nassim percebe que tem algo errado com ele, ou seja, está sendo difícil acreditar que é mesmo um palestino. Um dia, durante o sono, ele fala em hebraico, o que gera suspeitas por parte da prima. Como o roteiro faz questão de esclarecer bem antes do desfecho, Nassim é, na verdade, um soldado israelense chamado Chaim. Embora a história seja bastante interessante, faltou ao roteiro explicar alguns aspectos que poderiam acrescentar um melhor entendimento por parte do espectador. Por exemplo, como Nassim/Chaim foi ferido, por que estava com roupas de civil quando foi encontrado e como ele fala tão bem a língua árabe. Somando os prós e os contras, acredito que o filme merece ser conferido, principalmente por aqueles que, como eu, gostam de histórias ambientadas naquela zona de conflito.            

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

 

“NORMANDIA NUA” (“NORMANDIE NUE”), 2018, França, disponível na plataforma Amazon Prime Vídeo, roteiro e direção de Philippe Le Guay. Na mão de outros diretores, a história talvez ganhasse tons de drama, pois tem como pano de fundo a crise econômica. Nas mãos de Philippe Le Guay, porém, o filme se transformou em uma ótima comédia, leve e agradável de assistir, como já tinha sido com dois de seus maiores sucessos, como “As Mulheres do Sexto Andar” (2010) e “Pedalando com Molière” (2013). Em “Normandia Nua”, a história envolve fazendeiros, agricultores e criadores de gado na região da Normandia, ao redor da pequena cidade de Mêle Dur Sarthe. Revoltados com a baixa de preços, principalmente do leite e da carne, e ainda pela concorrência de países como a Romênia e a China, os fazendeiros, sob o comando de George Balbuzard (François Cluzet, de “Intocáveis), prefeito do vilarejo, resolvem realizar manifestações de protesto, o primeiro deles fechar uma estrada com tratores, arados e colheitadeiras. O resultado foi o inverso. A mídia criticou a manifestação e recebeu apoio dos consumidores. Pra resumir a história, Balbuzard resolve aceitar a proposta inusitada do fotógrafo norte-americano Blake Newman (Toby Jones), famoso por fotografar dezenas de pessoas nuas, todas juntas, e dizer que aquilo é arte. Balbuzard acredita que essa foto com a população do vilarejo terá grande repercussão, dando a oportunidade para que os fazendeiros locais encontrem espaço na mídia para denunciar a situação. Porém, há um grande problema: convencer os habitantes a posar sem roupa. Daí começa a parte mais engraçada do filme, que é Balbuzard visitando os moradores para convencê-los a tirar a roupa e posar para a tal fotografia. Entre os lances mais engraçados está a torcida dos homens do vilarejo para que a mulher do açougueiro, ex-Miss Calvados, concorde em participar da foto, mesmo totalmente fora de forma. Outra grande sacada foi completar o elenco com os próprios moradores do vilarejo. Entre os atores profissionais, destaco a presença de François-Xavier Demaison, Vincent Regan, Arthur Dupont, Julie-Anne Roth, Philippe Rebbot, Grégory Gadebois e Lucie Muratet. Em tempos de tanto estresse, nada como uma boa comédia para melhorar o ânimo. “Normandia Nua” é a dica perfeita para isso. Não perca!       

 

“MEU ANO EM NOVA YORK” (“MY SALINGER YEAR”), 2020, Canadá, disponível dede 15 de setembro de 2021 na plataforma Netflix, 1h41m, roteiro e direção de Philippe Falardeau. Filme de abertura do Festival Internacional de Cinema de Berlim, este simpático drama é baseado em fatos reais relatados no livro biográfico da jornalista, poetisa, crítica e romancista Joanna Smith Rakoff. “Meu Ano em Nova York” destaca a experiência vivida por Joanna (Margaret Qualley) em 1995, quando saiu da Califórnia para morar em Nova York, onde conseguiu emprego como assistente de uma grande editora de livros. Seu trabalho era responder às cartas enviadas por leitores e fãs do consagrado escritor J. D. Salinger, o principal escritor agenciado pela editora, cuja proprietária era a mal-humorada e prepotente Margaret (Sigourney Weaver). Joana era obrigada a responder com cartas-padrão determinadas há anos pela editora. As cartas não deveriam chegar jamais às mãos de Salinger, autor do best-seller “O Apanhador no Campo de Centeio”, também famoso por viver recluso e avesso a encontros sociais, principalmente entrevistas. Ao contrário das normas estabelecidas e com pena dos remetentes, Joanna começou a responder as cartas dando conselhos, o que lhe causaria problemas com Margaret. O filme também destaca o namoro tumultuado de Joanna com o pretendente a escritor Don (Douglas Booth), com o qual dividia um pequeno apartamento. Embora Joanna seja o personagem principal da história, numa interpretação simpática da atriz Margaret Qualley, é Sigourney Weaver quem domina todas as cenas em que aparece. A veterana atriz arrasa no papel de proprietária da editora. Só sua presença vale o ingresso. Trocando em miúdos, “Meu Ano em Nova York” é apenas um filme bonitinho e agradável de assistir, indicado para apreciadores de literatura. Trata-se, enfim, de um filme muito interessante.  

sábado, 18 de setembro de 2021

 

“KATE”, 2021, Estados Unidos, disponível na plataforma Netflix, 1h46m, roteiro de Umair Aleem e direção do cineasta francês Cedric Nicolas-Troyan (é o seu segundo longa-metragem; o primeiro foi “O Caçador e a Rainha do Gelo”). Nos últimos anos virou moda em Hollywood escalar atrizes para os principais papéis em filmes de ação. Só para citar alguns nomes, foi assim com Charlize Theron (“Atomica” e “The Old Guard”), Angelina Jolie (“Lara Croft: Tomb Rider”), Scarlett Johansson (“Lucy” e “Viúva Negra”), Mila Jojovich (“Resident Evil”) e Kate Beckinsale (“Anjos da Noite” e “Jolt”), entre outras. Agora, em “Kate”, quem surge como a rainha da porrada é Mary Elizabeth Winstead, tão bonita quanto as já citadas e também boa de briga e de pontaria. Kate é uma assassina profissional treinada desde criança em artes marciais e armas. Desde o início, seu tutor e chefe é Varrick (Woody Harrelson). Começa o filme e eles estão em Osaka (Japão), Kate com a missão de assassinar um chefão da Yakuza, a poderosa máfia japonesa. Logo depois da missão executada, sem que o roteiro explique como, o pessoal da Yakuza consegue identificar Kate como a assassina do seu importante membro. Em um raro descuido, ela é envenenada com um líquido com alto teor de radioatividade e descobre que terá apenas 24 horas de vida. Dessa forma, ela decide esgotar esse tempo para descobrir quem foi o mandante do envenenamento e executar sua vingança. Mas, até lá, Kate vai sofrer um bocado, ao nível de “Dura de Matar”. Mary Elizabeth Winstead dá conta do recado nas cenas de ação, que são inúmeras, com muita pancadaria, tiros, explosões e uma sensacional perseguição de carro pelas ruas de Tóquio. Outro destaque do filme é a jovem atriz Miku Patricia Martineau como a neta do poderoso chefão mafioso Kijina (Jun Kunimura). Ela é a responsável pelas cenas mais engraçadas do filme. Sem levar em conta a história mirabolante, o fraco roteiro e os diálogos sofríveis e muitas vezes beirando o patético, asseguro que “Kate” é um ótimo filme de ação. Entretenimento de primeira. Não perca!    

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

 

“MENTIRA INCONDICIONAL” (“THE LIE”), 2018, Estados Unidos, coprodução Blumhouse e Amazon Studios, 1h37m, roteiro e direção de Veena Sud. Trata-se de uma refilmagem do filme alemão “Wir Monster” (“Nós Monstros”), de 2015, inaugurando o projeto “Welcome to the Blumhouse”, destinado a produzir uma série de filmes de suspense e terror. “Mentira Incondicional” traz no elenco Peter Sarsgaard, Mireille Enos, Joey King, Devery Jacobs, Cas Anvar, Patti Kim e Nicholas Lea. Começa o filme e lá está Jay (Sarsgaard) levando a filha adolescente Kayla (Joey King) para um acampamento de dança (coisa de americano). Está um frio danado e as ruas tomadas pelo gelo. Quando saem da cidade, eles encontram Brittany (Devery Jacobs) em um ponto de ônibus. Amiga inseparável de Kayla, ela também pretende ir para o tal acampamento e pega carona com o pai da amiga. No carro, Brittany revela que teve uma briga com o pai, Sam Ifrani (Cas Anvar), que a abandonou no meio do caminho. Logo depois que pegam a estrada, Brittany pede para sair do carro, pois precisa fazer xixi (no meio daquele frio?). Kayla vai junto com a amiga. Como demoram, Jay sai à procura das duas e, para sua surpresa, encontra a filha sentada numa pequena ponte. Ela confessa que empurrou a amiga e a forte correnteza a levou embora rio abaixo. Desesperado, Jay ainda tenta encontrar a menina, mas em vão. Ele volta para a casa com a filha e resolve contar tudo para Rebecca (Enos), sua ex-esposa e mãe de Kayla. A partir daí, Jay e Rebecca farão de tudo para proteger a filha problemática e agora assassina, mas logo serão alvos da desconfiança da polícia. E toda essa tensão será o tom do filme até o seu desfecho, com muitas reviravoltas - e mentiras. Como não vi o filme original alemão, não tenho condição de fazer uma comparação, mas confesso que gostei muito dessa refilmagem, que, como suspense, funciona muito bem e garante um ótimo entretenimento.              

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

 

“A ROSA VENENOSA” (“THE POISON ROSE”), 2019, Estados Unidos, disponível na plataforma Amazon Prime Video, direção de George Gallo e Francesco Cinquemani. O roteiro é assinado por Richard Salvatore, autor do livro “The Poison Rose”, de 2013 (o filme é dedicado à memória de Steve e Geraldine Salvatore, pais de Richard). Ao estilo policial noir, a história é ambientada em 1978 e copia todos os clichês do gênero, a começar pela mulher fatal que procura um detetive particular e joga todo o seu charme para convencê-lo a assumir o caso. O detetive em questão, fumante inveterado e alcoólatra (mais um clichê), é Carson Philips (John Travolta). A mulher quer que ele investigue por que sua tia, internada em uma clínica psiquiátrica, não responde às suas mensagens. A clínica, é claro, fica na cidade natal de Carson, onde ele era conhecido na juventude como um excelente jogador de futebol (rugby) que abandonou a carreira por causa de uma contusão, mudou para Los Angeles e virou detetive particular. Ao chegar à clínica, ele é recebido pelo seu diretor, dr. Miles Mitchell (Brendan Fraser), um tipo esquisito como a maioria dos psiquiatras. Em meio a essa investigação, Carson é procurado por Jayne Hunt (Famke Janssen), uma antiga namorada cuja filha está sendo acusada de assassinato. A filha é Becky Hunt (Ella Bleu Travolta), nada menos do que a filha de Travolta na vida real. Dividido entre as duas investigações, Carson ainda terá que conviver com as ameaças do chefão mafioso do lugar, Doc (Morgan Freeman), e com o xerife corrupto Walsh (Robert Patrick). Vamos parar por aqui para não estragar as surpresas da história. Aliás, a maior surpresa desse filme é contar com um elenco recheado de astros e ser tão ruim. Seu lançamento comercial nos Estados Unidos foi um grande fracasso de bilheteria, além de ser alvo de pesadas críticas do público e dos jornalistas especializados - só no site Roten Tomatoes, que concentra as críticas especializadas, recebeu 0% . Realmente, o filme é péssimo, e uma grande parte dessa responsabilidade cabe ao péssimo roteiro e ao desempenho dos atores. John Travolta principalmente. Ele está simplesmente patético e canastrão, com uma peruca cor de abóbora e com um enorme topete – ele parece aquele leão do Mágico de Oz. Famke aplicou tanto botox no rosto que tirou toda a sua expressão. Mas os piores são mesmo Brendan Fraser, que, além de enorme de gordo, parece fazer papel de um médico abobado, tipo aquele da série Good Doctor, e Ella Bleu Travolta, uma péssima e antipromissora atriz – se é que pode ser chamada de atriz. O único que se salva é Morgan Freeman, mesmo assim com algumas ressalvas. O filme é recheado de cenas ridículas, mas uma em especial merece ser destacada. O detetive está no gramado de um campo de rugby quando aparece um franco atirador no topo do estádio. Como as balas do revólver de Carson acabam, ele atira a bola lá de longe e derruba o atirador. Não é o máximo? Trocando em miúdos, "A Rosa Venenosa" é um grande abacaxi.        

terça-feira, 14 de setembro de 2021

 

“O CORVO BRANCO” (“THE WHITE CROW”), 2018, distribuição Amazon Prive Vídeo, coprodução Inglaterra/França/Sérvia, 2h7m, direção de Ralph Fiennes, que também atua. O roteiro é assinado por David Hare, que se inspirou no livro “Rudolf Nureyev: The Life”, da jornalista sul-africana Julie Kavanaugh. Como já deu para perceber, trata-se de uma cinebiografia do lendário bailarino russo Rudolf Nureyev (1938-1993). O filme descreve a trajetória de Nureyev desde criança, criado numa família muito pobre no interior da Rússia, e mais tarde seu ingresso na Academia de Dança de Leningrado (hoje São Petersburgo). Ainda jovem, ele já demonstrava uma personalidade muito forte, o que lhe valeu o apelido de “Corvo Branco” (na verdade, uma gíria usada na Rússia para designar pessoas que fogem do padrão). Além do seu talento, Nureyev sempre teve um gênio difícil que o acompanharia até o final dos seus dias. Conforme o seu perfil traçado no filme, o grande bailarino era um sujeito arrogante, petulante, atrevido e ousado. Ousado, principalmente, em sua performance nos palcos. Segundo os especialistas, ele revolucionou a dança clássica, fazendo sua união com o balé moderno. Era, enfim, um gênio. Em 1961, quando participava de uma turnê em Paris com a Companhia Kirov, ele resolveu pedir asilo, o que resultou em um grande escândalo para o governo russo, principalmente em meio à guerra fria – Nureyev foi o primeiro artista russo a pedir asilo no Ocidente. A cena em que ele pede o asilo, no aeroporto Le Bourget, de onde deveria seguir com a companhia de balé para Londres, é a de maior tensão no filme. Rudi, como era chamado pelos mais íntimos, foi detido, antes de embarcar, por agentes da KGB (polícia secreta russa), que o levariam de volta à Rússia, certamente para ser preso. Nureyev escapou dos agentes e pediu asilo à polícia do aeroporto. Enfim, uma história incrível que merece ser conhecida. É preciso destacar o trabalho de Ralph Fiennes como diretor e ator – ele interpreta o professor de dança Alexander Pushkin, um dos principais responsáveis pela evolução técnica de Nureyev. Este é o terceiro filme dirigido por Fiennes (os dois primeiros foram “Coriolano” e “O Nosso Segredo”). Como ator, ele já conseguiu o seu lugar de destaque, com grandes filmes em seu currículo, entre os quais “O Paciente Inglês”, “A Lista de Schindler” e “O Jardineiro Fiel”, além de muitos outros. É preciso destacar também a presença do ucraniano Oleg Ivenko como Nureyev, que marcou sua estreia como ator. Claro que ele ganhou o papel por ser um ótimo bailarino, hoje o principal nome da Tatar State Opera, em Kazan (República do Tartaristão). Seu desempenho como ator também surpreende. Do elenco – uma verdadeira ONU (franceses, russos, ucranianos, sérvios, ingleses) - ainda fazem parte Adèle Exarchopoulos, Chulpan Khamatova, Rawschana Kurkowa, Olivier Rabordin, Sergei Polunin, Louis Hofmann, Raphaël Personnaz e Calypso Valois. Os idiomas falados no filme são o russo, o inglês e o francês. Enfim, o filme é ótimo, com destaque para a recriação de época, as coreografias e as visitas aos grandes museus, uma paixão de Nureyev. “O Corvo Branco” é, portanto, arte pura. IMPERDÍVEL com letras maiúsculas.      

domingo, 12 de setembro de 2021

 

“ATRÁS DA LINHA: FUGA PARA DUNKIRK” (“BEHIND THE LINE: ESCAPE TO DUNKIRK”), 2020, Inglaterra, disponível na plataforma Amazon Prime Vídeo, 1h27m, roteiro e direção de Ben Mole. O título suntuoso faz a gente esperar um filme de guerra daqueles com uma superprodução, tiros, tanques, aviões. Nada disso. Fica logo evidente que se trata de uma produção feita para a TV, com poucos recursos e um elenco de ilustres desconhecidos. Mas a história, baseada em fatos reais, é muito interessante. Estamos em 1940, início da Segunda Grande Guerra, quando as tropas alemãs acabam de invadir a França. No interior do país, os nazistas aprisionam um grupo de soldados ingleses da Força Expedicionária Britânica, entre eles Danny Finnegan (Sam Gittins), um conhecido campeão de boxe. Aficionado pelo pugilismo e admirador do boxeador inglês, o oficial alemão Drexler (Tim Berrington), comandante da prisão, convence Finnegan a lutar com os boxeadores alemães. O inglês vence a primeira e fere o orgulho alemão. Drexler então convoca o lutador Maximus Sennewhund, um ex-campeão mundial dos pesos pesados – Finnegan era peso médio. Essa tão aguardada luta pode dar a oportunidade de fuga para os soldados ingleses, e um plano é elaborado. Como já era esperado, a luta se transforma num verdadeiro massacre. Não há muito mais a comentar para não estragar as surpresas da história. Ainda fazem parte do elenco – se é que você conhece alguém - Guy Falkner, Chris Simmons Jake J. Meniani, Chris Shipton, Jennifer Martin e Joe Egan. Como já afirmei no início deste comentário, não espere muito desse drama de guerra, apenas o suficiente para passar o tempo. Ou seja, nada de novo no front.

sábado, 11 de setembro de 2021

 

“CRIME SEM SAÍDA” (“21 BRIDGES”), 2019, Estados Unidos, disponível na plataforma Amazon Prime Vídeo, 1h39m, direção do cineasta irlandês Brian Kirk, seguindo roteiro assinado por Adam Mervis e Matthew Michael Carnahan. Este é um dos últimos filmes do ator Chadwick Boseman – ele só faria mais dois antes de morrer aos 43 anos, em agosto de 2020: “Destacamento Blood” e “A Voz Suprema do Blues”. “Crime Sem Saída” é daqueles filmes policiais para assistir sem piscar e grudado na poltrona. Começa com tudo, quando uma dupla de marginais resolve roubar um carregamento de cocaína. A polícia chega e começa o tiroteio. A dupla consegue fugir, matando 8 policiais. A cena é de um filme de guerra, com cadáveres pelo chão e carros de polícia alvejados com muitos tiros. Os dois bandidos são experientes em batalhas, pois foram colegas no exército - Ray Jackson (Taylor Kitsch) e Michael Trujillo (Stephan James), em ótimas atuações. Para estudar a cena do crime e iniciar as investigações, chega ao local da carnificina o detetive Andre Davis (Chadwick), o capitão Mckenna (J.K. Simmons) e os policiais da 85ª Delegacia, colegas daqueles que foram mortos. Para ajudar Davis é nomeada como sua nova parceira a policial Frankie Burns (Sienna Miller), também da 85ª Delegacia. A primeira providência de Davis é mandar fechar as 21 pontes de Manhattan na tentativa de impedir a fuga da dupla. Daí para a frente, a polícia percorre toda a cidade tentando capturar os marginais. As cenas de ação são ótimas, com muitas perseguições pelas ruas e pelo metrô, tiroteios e muito sangue jorrando, num ritmo alucinante e repleto de tensão. Em meio a toda essa agitação, que praticamente paralisa Nova Iorque durante toda a madrugada, Davis começa a desconfiar que há uma conspiração com gente graúda envolvida, inclusive integrantes da própria polícia nova-iorquina. Para amantes do gênero policial, este é um filme pra ninguém colocar defeito. Imperdível!      

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

 

“O SOM DO SILÊNCIO” (“SOUND OF METAL”), 2020, Estados Unidos, distribuição Amazon Prime Vídeo, 120 minutos, direção de Darius Marder – é o seu primeiro longa-metragem -, que também assina o roteiro com a colaboração de Derek Cianfrance. Indicado ao Oscar 2021 em seis categorias e vencedor em uma delas (veja as indicações no final deste comentário), o filme tem como pano de fundo o drama vivido por pessoas que sofrem de surdez. O personagem central é o jovem Ruben (Riz Ahmed), um baterista que forma dupla com a cantora e guitarrista Lou (Olivia Cooke). Eles tocam heavy metal e vivem de cidade em cidade, viajando em um trailer, se apresentando em bares e outros locais não muito convidativos. De repente, não mais do que repente, Ruben começa a perder a audição a tal ponto que não dá mais para tocar. Muito a contragosto e revoltado com sua situação, Ruben aceita o conselho da namorada e concorda em se mudar para uma comunidade de pessoas com deficiência auditiva. Aqui, ele aprenderá a conviver com a trágica realidade, tendo como mentor e conselheiro o velho Joe (o ótimo Paul Raci), que perdeu a audição numa embosca na Guerra do Vietnã. Ruben aprenderá a linguagem dos sinais e também a socializar com as outras pessoas que sofrem da mesma deficiência. Pela internet, Ruben descobre uma clínica que implanta um aparelho no cérebro (implante coclear) que tem dado ótimos resultados. Ele vende o trailer para pagar a cirurgia e é operado com relativo sucesso. Seu desejo agora é reencontrar Lou e retomar o romance. Ele então segue até a casa da moça e é recebido pelo pai dela – uma surpreendente aparição do ator francês Mathieu Amalric. Até o desfecho, Ruben tentará retomar a sua vida normal, claro que com todas as restrições da deficiência. Mesmo com o ritmo lento e às vezes arrastado demais, “O Som do Silêncio” tem muitos momentos sensíveis e comoventes. O trabalho do ator Riz Ahmed é excelente, mas o destaque maior fica por conta da atuação do veterano Paul Raci, que domina todas as cenas em que aparece. Não é um grande filme, embora tenha sido indicado ao Oscar 2021 em seis categorias – Melhor Ator (Riz), Ator Coadjuvante (Paul Raci), Filme, Montagem, Som e Roteiro Original. Venceu apenas na categoria Montagem. Conforme fica claro no desfecho, a principal mensagem do filme equivale a um velho ditado: “É melhor ser surdo do que ouvir todo esse barulho do cotidiano". Ou seja, ouvir o som do silêncio é muito melhor. Confiram e vejam se não estou certo.