sábado, 28 de junho de 2014

“Nono, o Menino Zigue-zague” (“The ZigZag Kid”), 2012, co-produção Bélgica/Inglaterra, dirigido por Vincent Bal, é adaptado do livro homônimo do escritor israelense David Grossman. Nono (Thomas Simon) é um adolescente de 13 anos filho do policial Jacob (Fedja van Huet). De tanto aprontar, Jacob o envia para passar uma temporada com um tio rígido em outra cidade. Durante a viagem, porém, Nono conhece Felix (Burghart Klaubner), um sujeito de meia idade bastante simpático, mas que na verdade é um famoso ladrão. Nono acredita quando Felix diz que foi seu pai quem pediu para acompanhá-lo. É claro que o roteiro da viagem é modificado, e o sumiço de Nono faz com que seu pai acredite que se trata de um sequestro e ele mobiliza a polícia para tentar localizar o filho. Faz parte do plano de Felix levar Nono para conhecer a famosa cantora Lola, uma Isabella Rossellini bastante envelhecida. Em sua aventura com Felix, Nono vai descobrir alguns segredos sobre sua mãe – que ele não conheceu – e seus avós. A aventura prometida pelo filme vira um roteiro açucarado e com pouca ação. Se você procura um entretenimento para uma sessão da tarde com pipoca, o pessoal da Disney faz bem melhor.          

 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

“O Gigante Egoísta” (“The Selfish Giant”), 2012, é um drama inglês ambientado num bairro pobre da periferia de Londres. Arbor (Conner Chapman) e Swifty (Shaun Thomas) são dois amigos adolescentes de famílias pobres e problemáticas. Eles são inseparáveis, tanto no colégio como no dia-a-dia nas ruas do bairro. Arbor tem um desvio comportamental sério, é irritadiço e agressivo. Por isso, toma remédios para se acalmar. O exemplo do irmão viciado em drogas não ajuda muito. Arbor é expulso da escola e passa a perambular pelas ruas com Swifty. Para ajudar suas famílias financeiramente, os dois amigos começam a recolher sucata abandonada para vender a Kitten (Sean Gilder), dono de um ferro-velho. Não demora muito, Arbor e Swifty começam a roubar fios de cobre da empresa pública encarregada da manutenção da rede elétrica, o que um dia vai resultar num trágico acidente. A diretora Clio Barnard, em seu primeiro longa, não economiza nas situações dramáticas, reforçando o clima de tensão que permeia o filme do começo ao fim. Mas não há dúvidas de que ela conseguiu um ótimo resultado. O filme foi selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2013 e ganhou o Prêmio de Melhor Filme da 24ª edição do Festival Internacional de Cinema de Estocolmo. 

quinta-feira, 26 de junho de 2014

“Entre Nós”, filme nacional de 2013, conta a história de sete amigos que se encontram para um final de semana em 1992 numa casa de campo. São todos jovens e cheios de esperança. Em comum, o gosto pela literatura, sendo que alguns pretendem seguir carreira como escritores. Em meio a baforadas de maconha e muito álcool, eles combinam escrever cada um uma carta para si mesmo que será colocada numa caixa para ser aberta só dali a 10 anos. Antes do final de semana terminar, porém, uma tragédia vai abalar o grupo. Dez anos depois, como combinado, os amigos voltam a se reunir na mesma casa (única locação do filme). Uns conseguiram seus objetivos, outros fracassaram, mas todos, sem exceção, apresentam, sob o ponto de vista pessoal, uma infelicidade e uma frustração evidentes. O encontro, portanto, vai transcorrer num clima de um baixo astral quase insuportável, culminando com a revelação de um segredo que acabará de vez com a festa. O elenco tem Carolina Dieckmann, Caio Blat, Paulo Vilhena, Martha Noill, Maria Ribeiro, Júlio Andrade e Lee Taylor. A direção é de Paulo Morelli (“A Cidade dos Homens”). Finalmente um filme nacional com temática séria, saindo da mesmice das comédias que impera ultimamente no cinema tupiniquim.  

terça-feira, 24 de junho de 2014

Representante oficial do Canadá na disputa do Oscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro, “Gabrielle” é o segundo longa dirigido por Louise Archambault. A história gira em torno de um grupo de jovens e adultos especiais, a maioria deles com a Síndrome de Williams, doença próxima ao Autismo, que ensaiam para uma apresentação especial do coral do centro de apoio onde vivem. A figura central é a jovem Gabrielle (Gabrielle Marion-Rivard), uma alegre e sorridente jovem (a atriz é portadora da doença na vida real) que acredita ter condições de morar sozinha, ao contrário do que pensam sua mãe, a irmã e os terapeutas do centro. Ele quer ser independente como a irmã Sophie (Mélissa Désormeaux-Poulin). Em meio a esse dilema, Gabrielle se apaixona por Martin (Alexandre Landry), um jovem com o mesmo problema que ingressa no coral. Martin também se apaixona por Gabrielle. As famílias de cada um, além do pessoal do centro, terão que se virar para que os dois não cheguem aos finalmente. Mas são os ensaios do grupo, sem dúvida, os momentos mais comoventes do filme. É de tocar o coração ver aqueles rapazes e moças cantarem com tanta emoção e alegria. A gente percebe que a música, para eles, significa uma espécie de libertação e também uma terapia. Destaque para a participação especial do consagrado cantor canadense Robert Charlebois, que topou participar das filmagens e cantar com o coral. Além da interpretação luminosa da jovem Marion-Rivard, impressiona o trabalho do ator Alexandre Landry como portador da síndrome, já que na vida real ele é normal. A dupla recebeu prêmios em vários festivais pelo mundo afora. Prepare o seu coração para assistir a um dos filmes mais sensíveis e comoventes dos últimos anos. 
O drama “Cinzas e Sangue” (“Cendres et Sang”), 2009, marcou a estreia da atriz francesa Fanny Ardant como roteirista e diretora. Uma estreia, aliás, bastante pretensiosa, principalmente ao adaptar para o cinema o ensaio “Esquilo ou o Eterno Perdedor”, do escritor albanês Osmail Kadaré. A história começa com Judith (a atriz israelense Ronit Elkabetz) e seus três filhos viajando para a Romênia, sua terra natal, a fim de comparecer ao casamento de uma prima. No filme fica mal explicado que ela deixou a Romênia há 10 anos depois do assassinato de seu marido por uma família rival. Judith não queria voltar, mas por insistência dos filhos acabou viajando. Quando chegam lá, porém, as rivalidades do passado entre as famílias voltam à tona e o espírito de vingança assume o comando das ações, culminando numa tragédia. O excesso de personagens, com alguns atores muito parecidos uns com os outros, acaba confundindo o espectador, que por um bom tempo ficará perdido em adivinhar quem é quem. As filmagens foram realizadas na Transilvânia (Romênia) tendo como cenário bonitas paisagens campestres. Se Ardant colocasse um vampiro como personagem, talvez o filme não ficasse tão chato. Ardant insistiu como diretora e, em 2013, fez “Cadences Obstinées”, que ainda não tive coragem de assistir.    

 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Apenas um Suspiro” (“Le Temps de L’Aventure”), 2013, França, direção de Jérôme  Bonnel. A atriz de teatro Alix Aubane (Emmanuelle Devos) sai de Calais e vai de trem para Paris, onde tem marcado um teste para uma grande peça, vai tentar almoçar com a mãe e ainda encontrar o ex-namorado com quem pretende reatar. Durante a viagem, ela troca olhares com um homem de meia-idade (Gabriel Byrne). Ao chegarem a Paris, ele pede a ela informações sobre como chegar a uma igreja. Um passageiro se intromete na conversa e Alix perde o homem de vista. Numa atitude inesperada e um tanto sem nexo, Alix vai até a igreja que o homem mencionara no trem. É lá que ela vai se aproximar do homem e, logo depois, sem mesmo saber o nome dele, vai para a cama com o desconhecido (só mais tarde saberá que ele se chama Douglas).  Alix passa o filme indo de lá pra cá e de cá pra lá, sem saber o que fazer ou aonde ir. Não bastasse esse enredo insosso e de certa forma inverossímel, os diálogos são enfadonhos e a atriz Emmanuelle Devos, além de feiosa, passa o filme inteiro com a expressão de quem chupou um limão em jejum. O ator Gabriel Byrne pouco fala e, quando o faz, não diz nada de interessante. Pior que o filme, só o título que deram em português.   
“Tempestade na Estrada” (“Cloudburst”), EUA, 2011, direção de Thom Fitzgerald. Embora o enredo pudesse descambar para um drama, o filme é recheado de humor, com algumas cenas que chegam a ser hilariantes. Stella (Olympia Dukakis) e Dot (Brenda Fricker), mulheres na faixa dos 80 anos, vivem como amantes e companheiras há 31 anos numa pequena casa na costa do Maine. Um dia, Dot, que é cega, sofre um acidente caseiro e Stella é responsabilizada por Molly (Kristin Booth). Segundo Molly, Stella não tem mais condições de cuidar de sua avó. Molly, então consegue uma ordem judicial para internar Dot numa casa de repouso, de onde é “sequestrada” por Stella. As duas pegam estrada e vão para o Canadá, onde pretendem se casar e, assim, evitar futuras interferências de Molly. Aí começa um road movie dos mais movimentados. No meio do caminho, elas dão carona para o jovem Arnold (John Dunsworth), que vai visitar a mãe que está doente. Sem papas na língua, desbocada, irreverente e briguenta, Stella é a responsável pelos melhores momentos de humor. Aí entra o talento dessa grande atriz que é Olympia Dukakis. O filme diverte, tem lá seu lado comovente, e é um ótimo entretenimento. 

domingo, 22 de junho de 2014

Imperdível para quem curte o mundo fashion da moda, principalmente a alta costura, “Yves Saint-Laurent”, 2013, dirigido por Jalil Lespert, mostra os duas faces da personalidade do famoso estilista: a primeira diz respeito à genialidade criativa de Saint-Laurent, que revolucionou o mundo da moda a partir do final dos anos 50. O outro lado revela um artista temperamental, egocêntrico, dado a chiliques e, pior, alcoólatra, promíscuo e viciado em drogas. O filme acompanha a trajetória de Saint-Laurent desde 1957, quando, aos 21 anos, assume a direção da Christian Dior. Pouco depois, conhece Pierre Bergé, com o qual se associa para fundar a grife Yves Saint-Laurent.  Os dois também eram amantes e moravam juntos. Além dos ótimos atores Pierre Niney (Saint-Laurent), Guillaume Gallienne (Bergé) e Charlotte Le Bon (Victory, principal modelo e amiga de Laurent), merecem destaque as cenas dos deslumbrantes desfiles ao som de árias de ópera. A semelhança do ator Niney com o famoso estilista impressiona. Bergé, ainda vivo (Saint-Laurent morreu em 2008), foi conhecer o ator no set de filmagem e chegou a chorar ao vê-lo de perto. Futilidades à parte, um belo filme.   
“O Coração Normal” (“The Normal Heart”), 2013, direção de Ryan Murphy, é um filme da HBO ambientado em 1981 e mostra o início da epidemia da AIDS em Nova Iorque. A história, baseada em fatos reais, foi escrita por Larry Kramer e virou peça de teatro de bastante sucesso nos EUA e na Inglaterra nos anos 80 e 90. O filme começa mostrando um grupo de gays reunido para um final de semana numa praia exclusiva. A promiscuidade corre solta e traduz claramente a ideia de como a epidemia começou. No hospital onde trabalha a Dra. Emma Brokner (Júlia Roberts), vários pacientes começam a morrer da mesma maneira e a doença passou a ser chamada de “câncer gay”. Em reuniões com grupos de gays, a médica pede que não façam sexo por um tempo até a causa da doença ser descoberta. A receptividade ao seu apelo foi praticamente zero. Aí a coisa descambou de vez, com o aumento significativo de casos e de mortes. O escritor e também gay Ned Weeks (Mark Ruffalo), ao descobrir que seu namorado Felix (Matt Boomer) contrai a doença, organiza um grupo – que hoje seria uma ONG – para cobrar das autoridades que invistam urgentemente em pesquisas para descobrir a causa da doença. Não há dúvida de que é um drama bastante impactante e comovente, principalmente quando mostra os efeitos da doença e a impressionante decadência física no antes bonitão e saudável Felix – o ator Matt Boomer perdeu 19 quilos, assim como Matthew McConaughey em “Clube de Compras Dallas”.

sábado, 21 de junho de 2014

Mais um novo e obrigatório filme escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore: “A Melhor Oferta” (“La Migliore Offerta”), 2013. Trata-se de um drama centrado na vida do leiloeiro e colecionador de arte Virgil Oldman (o fabuloso Geoffrey Rush), um homem excêntrico e solitário. Só se relaciona com seus empregados e com o pessoal que comparece aos seus leilões de alta categoria. Em seu luxuoso apartamento, seu único prazer é ficar admirando as dezenas de quadros de mulheres que mantém expostos nas paredes de um salão guardado a sete chaves e em total segredo. Todas as obras são de pintores famosos desde o século XV. Enfim, uma coleção valiosíssima, conseguida em muitos anos com a ajuda do amigo Billy (Donald Sutherland) em transações não muito honestas. A vida de Virgil tomará um rumo diferente a partir do dia em que é contratado para avaliar os objetos de arte da família Ibbetson, representada pela herdeira Claire (a atriz holandesa Sylvia Hoeks), uma jovem misteriosa que vive reclusa numa antiga mansão. Tornatore faz uma bela homenagem ao mundo das artes e, ao mesmo tempo, cria um retrato cruel da solidão humana na figura do leiloeiro, adicionando ao drama muito suspense e mistério. Com mais esse ótimo filme, o diretor italiano reforça um currículo impecável composto também por “Cinema Paradiso”, “Malèna”, “Baaria – A Porta do Vento” e “A Lenda do Pianista do Mar”, entre outros.   

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A história de “A Menina que roubava Livros” (“The book thief”), co-produção EUA/Alemanha de 2012, é baseada no livro best-seller do escritor australiano Marcus Zusak. Alemanha, 1936. O enredo acampanha a trajetória da jovem Liesel Meminger (Sophie Nélisse), levada por sua mãe – perseguida pelos nazistas por ser comunista – para ser adotada em Munique pelo casal Rosa (Emily Watson) e Hans Hubermann (Geoffrey Rush), que receberão, em troca, um benefício em dinheiro do governo alemão. O irmão mais novo de Liesel, que também seria adotado pelo casal, morre no meio da viagem. Em seu enterro, o coveiro deixa cair um “Manual do Coveiro”, que Liese pega mesmo sem saber ler. Seria seu primeiro livro roubado e através do qual Hans a ensinará a ler. Liesel é encarregada de levar as roupas que Rosa lava para a casa do prefeito da cidade. Ilsa Hermann (Barbara Auer), a primeira dama, deixa Liesel frequentar a biblioteca da casa, oportunidade em que a jovem começa a ler alguns livros - e a surrupiá-los na calada da noite. "Eu os pego emprestados", diz ela ao amigo Rico (Nico Liersch). Nesse meio tempo, Rosa e Hans escondem um rapaz judeu, Max (Ben Schnetzer), no porão da casa, com o qual Liesel iniciará uma forte amizade. Mesmo em meio aos trágicos acontecimentos trazidos pela Segunda Guerra Mundial, a história reserva muitos momentos tocantes e comoventes, o que o diretor Brian Percival soube explorar com competência, principalmente ao escalar a jovem e expressiva atriz canadense Sophie Nélisse no papel principal. Lágrimas vão rolar...                            
“O que Fazer” (“The Angriest Man in Brooklyn”), EUA, 2013, é uma comédia que parte de um acontecimento um tanto inverossímil. Henry Altmann (Robin Williams) tem horário marcado com um médico. Ele vai saber o resultado de uma tomografia que fez do cérebro. No meio do caminho, um táxi bate no seu carro. Já irritado, chega ao hospital e demora para ser atendido. Ele entra para a consulta e lá não está seu médico, e sim a Dra. Sharon Gill (Mila Kunis), médica residente. Ele fica ainda mais irritado. Ela também não está nos seus melhores dias. Ao ser informado que tem um aneurisma cerebral, Altmann perde as estribeiras, grita com a médica e exige saber quanto tempo ainda tem de vida. Revoltada com o comportamento agressivo de Altmann, ela responde que ele tem apenas 90 minutos de vida. O inverrossímel está aqui: ele acredita na previsão da médica e sai correndo do hospital para corrigir seus erros com relação à sua esposa Bette (Melissa Leo) e ao seu filho Tommy (Hamish Linklater). Enquanto isso, a Dra. Gill sai desesperada pelas ruas de Nova Iorque atrás de Altmann para desfazer o seu prognóstico absurdo. A comédia até que funciona. Robin Williams está menos chato do que de costume, Mila Kunis e Melissa Leo seguram o humor com seus ataques histéricos e ainda tem uma boa cena de humor com James Earl Jones, que faz o balconista gago de uma loja onde Altmann, cheio de pressa, vai comprar uma filmadora. Dá pra ver numa boa.                                 

quinta-feira, 19 de junho de 2014


“Mel de Laranjas” (“Miel de Naranjas”), 2012, direção de Imanol Uribe, é um drama espanhol ambientado no ínicio dos anos 50, quando a “fúria espanhola” não era a seleção de futebol, e sim a ditadura do Generalíssimo Franco. A barra era bem pesada! Enrique (Iban Garate) namora com Carmen (Blanca Suárez, uma das atrizes mais bonitas do cinema espanhol), sobrinha do major Eládio (Karra Elejalde), comandante do Tribunal Militar de Andaluzia e figura de destaque no governo de Franco. Enrique está prestes a se alistar no Exército para cumprir o Serviço Militar obrigatório, o que naquela época significava ser mandado para alguma colônia. Carmen, então, pede ao tio que assegure a Enrique uma vaga no Tribunal Militar. O major Eládio coloca Enrique como seu assistente direto e motorista, além de encarregado de datilografar os processos instaurados contra os presos políticos. Só que Enrique fica revoltado com as atitudes arbitrárias do Tribunal, que incluem torturas, fuzilamentos e falcatruas nos processos. Então, a contragosto de Carmen e mesmo com o provável fim do seu relacionamento, ele entra para a luta armada contra o governo Franco e vira espião dos rebeldes dentro do Tribunal. O filme é baseado em fatos reais e deu o prêmio de melhor diretor a Uribe no Festival de Málaga. Quem gosta de filmes com pano de fundo político e histórico vai gostar.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

“A Execução” (“Une Exécution Ordinairey”), 2010, é um drama francês baseado no livro de Marc Dugain, que também é diretor do filme. O ano é 1952. Uma médica, a Dra. Anna (Marina Hands), urologista num hospital dos arredores de Moscou, tem a fama de curar doenças com a energia das mãos (Reiki?). Essa fama corre Moscou e chega aos ouvidos dos assessores de Joseph Stalin (Andre Dussolier), na ocasião bastante doente (morreria no ano seguinte). A médica é “convocada” para tirar as dores do ditador russo. No que poderia ser o início de uma fase de privilégios pela aproximação com Stalin, a médica, pelo contrário, vê sua vida se transformar num verdadeiro inferno. Ela e o marido, um físico, correrão risco de vida. Utilizando cenários sombrios, Dugain consegue retratar o clima de terror e medo que imperava na Rússia de Stalin. Algumas revelações do ditador russo, ditas à médica na base da confidência, são bastante interessantes para quem gosta de curtir História, mas, no geral, o filme passa longe de um entretenimento agradável.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Está nos dicionários: Fábula é uma narração alegórica, cujos personagens são animais, que encerra uma lição moral. A definição é perfeita para “A Parede” (“Die Wand”), 2012, uma co-produção Áustria/Alemanha, com direção de Julian Roman Rölsler. A única é diferença é que aqui os animais não falam. Aliás, nem a atriz principal. Com o acréscimo de um pouco de surrealismo, o filme conta a história de uma mulher (a atriz alemã Martina Gedeck) que viaja com um casal de amigos para uma cabana de caça nas montanhas da Áustria. À noite, os amigos saem para ir até a cidade, deixando a visitante sozinha com o cachorro Luchs. O casal não volta e, pela manhã, ela sai para ver o que aconteceu. Quando está a caminho, ela dá de cara com uma parede invisível. Ela vai pra cá e pra lá e chega à conclusão de que está aprisionada numa espécie de redoma intransponível. Daí em diante, ela ficará sozinha com o cachorro. Depois ainda chegam dois gatos e uma vaca. O filme inteiro é narrado in off  pela mulher, que, evidentemente, está escrevendo um diário. Ela não vê saída para sua situação e terá que aprender a viver – e sobreviver – sozinha. O tom da narrativa é monótono e melancólico, talvez para realçar a solidão da personagem. As paisagens dos Alpes austríacos são deslumbrantes e minimizam um pouco toda essa tristeza. O filme, baseado no livro da escritora austríaca Marlen Haushofer, disputou o Oscar 2014 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro representando a Áustria.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

 
 “Apenas Henry – A Verdade de uma Vida” (“Just Henry”), dirigido por David Moore, é um drama produzido em 2011 para a TV inglesa baseado no livro "Goodnight Mister Tom", de Michelle Magorian. O ano é 1950 na Inglaterra. O garoto Henry (Josh Bolt), de 15 anos, vive numa pequena casa na periferia de Londres. Ele mora com a mãe, o padrasto e a avó. O pai, morto em 1941, era um soldado considerado herói de guerra. Henry nunca se deu com o padrasto (Dean Andrews), no que é apoiado pela avó, mãe de seu pai. Em meio a essas rusgas familiares, um dia Henry vai ao cinema com a namoradinha Grace (Charlie May-Clark) e, ao fim da sessão, a fotografa na rua. Ao revelar a foto, Henry vê ao fundo um homem que parece muito ser seu pai. É apenas um vulto, mas o garoto, ao contrário de todos, acredita piamente que aquele é seu pai que ressurgiu. E não é que ele está certo? A partir daí, porém, muitas verdades virão à tona e revelarão que o pai de Henry não é exatamente o homem que Henry idolatrava. Próximo ao seu final, o filme deixa o clima  novelão de lado (a mãe de Henry vive desmaiando) e parte para um movimentado policial noir, com direito a sequestros e perseguições.                  

     

domingo, 15 de junho de 2014

“O Invasor” (“L’Envahisseur”), 2011, é um vigoroso drama belga. Trata-se do primeiro longa dirigido por Nicolas Provost. Começa o filme com dois africanos chegando, extenuados - provavelmente náufragos de alguma embarcação vinda da África – a uma praia de nudismo no litoral europeu (sul da Espanha?). A primeira visão humana que eles têm é de uma estonteante loira ao natural. Devem ter pensado: “Será aqui o Paraíso?”. Entram os créditos e, na cena seguinte, um dos africanos, Amadou (Isaka Sawadogo), está em Bruxelas (Bélgica) trabalhando duro numa obra juntamente com outros clandestinos. Um dia, Amadou consegue fugir de uma batida do serviço de imigração belga e começa a peregrinar pelas ruas de Bruxelas. Com seu jeito simpático e carismático, Amadou começa a conversar com as pessoas, que o tratam bem, sem qualquer tipo de rejeição. Um tanto inverossímil essa liberdade de Amadou pelas ruas sem ser interpelado pela polícia. Afinal, trata-se de um sujeiro enorme e evidentemente imigrante que pode estar com sua situação irregular, como de fato está. Em suas andanças, ele vai conhecer Agnès Yael (a atriz italiana Stefania Rocca), uma bela e rica executiva casada com um grande empresário. Amadou, que agora se apresenta como Obama, diz que é um homem de negócios em busca de novas oportunidades. Agnès fica encantada com o charme de Amadou/Obama e se entrega à sedução do africano, uma atitude da qual se arrependerá mais tarde. O filme é muito bem feito e tem como trunfo, além da história em si, dois atores estupendos: Sawadogo e a italiana Stefania.             
“Uma Vida Tranquila” (“Uma Vita Tranquilla”), 2010, é uma co-produção Itália/Alemanha/França dirigida por Claudio Cupellini e traz, encabeçando o elenco, o ator italiano Toni Servillo (de “A Grande Beleza”). Trata-se de um drama que, perto de seu desfecho, vira um suspense policial bem ao estilo dos filmes que envolvem mafiosos – Cupellini, aliás, dirigiu uma série de TV baseada no livro “Gomorra”. Servillo é Rosario Russo, um homem de passado obscuro na Itália e que há 15 anos mora nos arredores de Frankfurt (Alemanha), onde possui uma pousada. Ele é casado com a alemã Renate (Juliane Köhler), uma mulher bem mais jovem, e tem um filho pré-adolescente. O filme começa mostrando Rosário em sua rotina de trabalho na pousada, o que inclui supervisionar o pessoal da cozinha na elaboração dos pratos. Não há qualquer indício de seu passado nebuloso na Itália e essa calma aparente – a vida tranquila do título – só será abalada quando um dia chega à pousada Diego (Marco D’Amore), o filho italiano que Rosario abandonara na Itália. Diego chega com um amigo, Edoardo (Francesco di Leva). Quando Rosario descobre o verdadeiro motivo da visita dos dois, terá que agir rápido não só para proteger sua vida como também a da sua família. O filme estreou no Brasil durante a 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2011.  

sábado, 14 de junho de 2014

“Bola 8” (8-Pallo”), Finlândia, 2013, dirigido por Aku Louhimies, é um drama barra pesada que não economiza na violência. Conta a história de Pike (Jessica Grabowsky), uma jovem que se envolve com um grupo de viciados em drogas e engravida de um deles, o violento e psicótico Lalli (Eero Aho). Numa noite de embalo regada a muita cocaína e heroína, Pike é presa e, uns meses depois, sua filha nasce na penitenciária. Quando é solta em condicional, Pike recebe toda a assistência do governo finlandês, o que inclui moradia, vale-compras e uma importância em dinheiro por mês. Ela, porém, terá de seguir as normas da condicional, ou seja, andar na linha, o que é, aliás, sua intenção. Mas um dia Lalli volta a procurá-la. O amor bandido, então, vai prevalecer por um tempo e Pike vai fazer de tudo para não voltar às drogas, o que teria consequências drásticas, como perder os benefícios do governo e a tutela da filha. Não é um filme muito agradável de assistir, mas interessante e esclarecedor por apresentar um retrato pouco conhecido, realista e triste da sociedade finlandesa, com muita gente drogada e violência doméstica.                  
O drama “Uma Noite” (“Una Noche”), 2011, co-produção EUA/Cuba, dirigido por Lucy Molloy, estreou no Festival de Berlim em 2012 com muitos elogios de público e crítica. O filme mostra um retrato da desesperança que tomou conta da juventude cubana com relação ao seu futuro e o do próprio país. A história, baseada em fatos reais, gira em torno dos irmãos gêmeos Elio (Javier Nuñez Florian) e Lila (Nailin de La Rúa de la Torre) e do amigo de ambos Raúl (Dariel Arrenchaga). Confinados na periferia de Havana e proibidos de chegar perto de locais frequentados por turistas, assim como os jovens pobres da capital cubana, eles passam o seu dia-a-dia alimentando o sonho de fugir para Miami, principalmente Elio e Raúl, este último para viver com o pai, que se exilou nos EUA há anos. Lila ainda não sabe que seu irmão e o amigo têm planejada uma fuga pelo mar. Quando Raúl se envolve numa agressão a um turista - o que é um crime gravíssimo em Cuba – e a polícia inicia uma caçada para prendê-lo, os dois amigos resolvem antecipar a fuga, com um pequeno barco que ambos estavam construindo às escondidas. Lila, porém, descobre o plano e, para não abandonar o irmão, também embarca na aventura. Será que eles vão conseguir? Um fato teve enorme repercussão quando a equipe do filme viajou para participar do Festival de Tribeca, em 2012. Os atores Javier e Anailin sumiram e logo depois apareceram pedindo asilo ao governo dos EUA. Como dizia Oscar Wilde, a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida. “Uma Noite” é um filme esclarecedor e de grande impacto.    
Muita gente não vê um filme só porque é preto e branco. Quem pensa dessa forma pode estar perdendo filmes magistrais. Só para citar dois exemplos: o recente “Nebraska” e “Manhattan”, a obra-prima de Woody Allen. E, se por causa disso, não assistir “Oh Boy”, 2012, vai se arrepender por não ter visto um dos filmes alemães mais surpreendentes, criativos e inteligentes dos últimos anos. Já começa pela deliciosa trilha sonora, bem ao estilo de Allen, com um jazz instrumental das décadas de 30/40. Vamos à história. Chegando aos 30 anos, Niko Fischer (Tom Schilling) não tem emprego, acabou de largar a faculdade de Direito, brigou com a namorada, o pai cortou sua mesada, perdeu a carteira de motorista e ainda foi atestado por um psicólogo como um desequilibrado emocional. Enfim, um fracassado. Independente de tudo isso, Niko é boa gente. O filme, narrado pelo próprio Niko, dura um dia e uma noite. É durante esse período que ele vai peregrinar por Berlim com o amigo Matze (Marc Hosemann), visitar um estúdio onde é produzido um filme sobre o nazismo, conversar com os tipos mais estranhos e ainda reencontrar uma antiga colega de colégio, a maluquete Julika (Friederike Kempter). Mesmo quando o assunto exige um pouco mais de seriedade, os diálogos são construídos dentro do mais fino humor, assim como também são bem-humoradas as situações envolvendo Niko. Com uma fotografia deslumbrante, que lembra mais uma vez “Manhattan”, de Allen, o diretor Jan Ole Gerster apresenta cenários pouco conhecidos de uma Berlim pulsante, moderna, em contínuo movimento. Imperdível!

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Para quem ainda não viu, recomendo como imperdível. Quem já viu quando chegou aqui em 2007, ou depois que foi lançado em DVD no ano seguinte, rever também é uma delícia. Trata-se de “Conversas com meu Jardineiro” (“Dialogue avec mon Jardinier”), dirigido por Jean Becker, um dos filmes franceses mais sensíveis produzidos nos últimos anos. A história é baseada no livro de Henri Cueco. Daniel Auteuil é um consagrado pintor de Paris que, recém-separado da mulher, retorna à sua casa na cidadezinha onde nasceu e passou a infância e juventude, no interior da França. Chegando lá, vê a necessidade de contratar um jardineiro para cuidar do jardim em péssimo estado. Ele coloca um anúncio e logo aparece um candidato (Jean-Pierre Darroussin), que nada mais é do que um de seus amigos de infância e colega de escola. Eles vão rememorar muitos fatos engraçados e os inúmeros aprontos que faziam no colégio. Vão conversar também sobre os mais variados assuntos. Enfim, nasce uma forte amizade entre os dois. O pintor apelida o jardineiro de “Dujardim” e o jardineiro apelida o pintor de “Dupincel”. Os dois vão se tratar assim o filme inteiro. Os diálogos são primorosos, inteligentes e bem-humorados. Mas o filme não é só de conversas entre Dujardim e Dupincel. Aliás, as cenas mais engraçadas acontecem quando Dupincel vai a uma exposição de arte, quando recebe a visita da filha com o namorado 30 anos mais velho e quando ele vai com Dujardim ao velório de um ex-colega. A amizade entre os antigos amigos resultará num desfecho dos mais comoventes. Não dá para perder um filme como esse!