“CHACRINHA
– O VELHO GUERREIRO” – 2018, direção de Andrucha Waddington, com
roteiro de Cláudio Paiva. Trata-se da biografia de José Abelardo Barbosa
(1917-1988), o popular Chacrinha, considerado até hoje o mais importante e
criativo apresentador da TV brasileira. O filme começa com uma cena da
Discoteca do Chacrinha, programa de auditório na TV Globo. No palco, Chacrinha
chama como próxima atração uma famosa mãe de santo e transforma o palco numa
verdadeira sessão de candomblé, com direito a batuque e cachaça. José Oliveira
Sobrinho, o Boni, então diretor da TV Globo chega furioso à sala de produção e
tira o programa do ar. O filme retrocede ao início dos anos 40, quando Abelardo
Barbosa chega ao Rio de Janeiro depois de abandonar a faculdade de Medicina em Pernambuco. Ele chega com uma mão na frente e outra atrás. Para conseguir um troco pelo
menos para comer, ele arruma um bico como locutor de megafone na porta de uma
loja de roupas. Já nessa época, seu sonho era ser animador de auditório de
alguma emissora de rádio – até então, não havia televisão. Para conseguir seu
objetivo, ele conseguiu apresentar um programa musical numa rádio quase falida.
A partir de então, o filme apresenta a trajetória de sucesso de Chacrinha até
sua morte, relembrando vários de seus programas, inclusive alguns calouros de luxo
como o iniciante Roberto Carlos e Clara Nunes. Stepan Nercessian dá um
verdadeiro show como Chacrinha – quando moço, interpretado por Eduardo
Sterblitch. A vida pessoal, os bastidores dos programas e até revelações
bombásticas, como seu caso com a cantora Clara Nunes, o filme explora os fatos
mais importantes da vida do apresentador. Estão lá os famosos bordões “O programa
que acaba quando termina”, “Quem não se comunica se trumbica”, “Vocês querem
bacalhau?” e “Terezinha, uh, uh”, além de jingles como “Maria Sapatão, de dia é
Maria, à noite é João”. E as Chacretes, é claro. Tem ainda a espalhafatosa Elke Maravilha (Gianne
Albertoni), seu grande inimigo Flávio Cavalcanti (Marcelo Serrado), Wanderléia
(que seria mais tarde sua nora) e Boni (Thelmo Fernandes). O filme é delícia
pura, um show de design de produção, recriação de época e figurinos. Uma divertida e emocionante volta ao passado recente. Não perca!
quarta-feira, 27 de março de 2019
terça-feira, 26 de março de 2019
“O
VELHO E A ARMA” (“The Old Man and the Gun”), 2018, EUA, 93
minutos, roteiro e direção de David Lowery (“Sombras da Vida”, “Meu Amigo Dragão”).
A história é baseada em fatos reais, ou seja, nos últimos anos de vida do
delinquente Forrest Tucker (1920-2004), que ficou famoso nos Estados Unidos por
ter fugido 18 vezes das prisões onde estava encarcerado, inclusive algumas de
segurança máxima, como San Quentin. Sua vida de crimes começou aos 15 anos de
idade e continuou até a velhice, fase em que toda a história do filme se
desenrola. Aos 78 anos, Tucker (Robert Redford) continuava roubando bancos em
companhia de dois comparsas, Waller (Tom Waits) e Teddy (Danny Glover). Tucker
chefiava os assaltos e, para anunciá-los aos gerentes e funcionários do banco,
o fazia com toda a educação, mostrando-se um verdadeiro gentleman. Nunca exibia uma arma, embora dissesse que portava uma. E
seu único disfarce era apenas um bigode. Sua prisão, e a dos seus parceiros,
virou ponto de honra para a polícia, que destacou para a missão o detetive John
Hurt (Casey Affleck, irmão do Ben). Em meio a esta perseguição, Tucker
conheceria a viúva Jewel (Sissy Spacek), proprietária de um rancho. Redford e
Sissy Spacek são os responsáveis pelos momentos românticos e mais sensíveis do
filme, quando o veterano ator usa todo o seu charme - ainda intacto aos 82 anos,
apesar das rugas. Os diálogos entre os dois são ótimos. Por falar em Redford, ele anunciou que este seria seu último
filme como ator. Pena, mas deixa um legado formidável, incluindo filmes como “Butch
Cassidy”, “Golpe de Mestre”, “Todos os Homens do Presidente” e “O Grande Gatsby”,
entre tantos outros. Resumo da ópera: “O Velho e a Arma” é um filmaço!
segunda-feira, 25 de março de 2019
“O QUE NOS LIGA” (“CE
QUI NOUS LIE”), 2017, França, 1h54m, direção de Cedric Klapisch, que também
assina o roteiro com a colaboração do cineasta argentino Santiago Amigorena.
Enólogos, sommeliers e amantes do
vinho em geral vão se deliciar com essa pequena joia do cinema francês. Eu,
que sou leigo no assunto, me deliciei e aprendia muito sobre a produção do vinho. A
história é toda ambientada na região dos vinhedos da Borgonha (sul-sudeste da
França). Um dos maiores vinhedos pertence aos irmãos Jean (Pio Marmai),
Juliette (Ana Girardot, filha do ator Hippolyte Girardot) e Jéremie (François
Civil). Eles o herdaram do pai (Eric Caravaca), que lhes ensinou tudo sobre a
produção de vinho. Desde crianças, os irmãos foram acostumados a fazer
degustação – sempre de olhos vendados - e adivinhar que tipo estavam tomando,
além de apontar os defeitos e as qualidades. O pai ficou gravemente doente e os
filhos assumiram o negócio. Desde a época certa para a plantação e colheita – a
uva é experimentada no cacho para definir a data certa – até o armazenamento e
fermentação, todas essas etapas são minuciosamente explicadas durante o filme. Os
irmãos são bastante unidos e apaixonados pelo vinhedo, embora recebam boas
ofertas para vendê-los. Um dos que querem comprar alguns lotes é justamente o
sogro de Jéremie, proprietário de outro vinhedo concorrente. O filme reserva
cenas bastante interessantes, como a festa realizada ao final da colheita, onde
todos aqueles que colheram as uvas participam, com muita alegria e cantoria. E
muito vinho, claro. Embora explore aspectos pessoais de cada um dos irmãos e
algumas desavenças familiares, é o vinho o personagem principal desse excelente
filme francês, sensível e divertido.
sexta-feira, 22 de março de 2019
“VOCÊ
DESAPARECEU” (“Du Forsvinder”), 2017, Dinamarca, 1h58m,
direção de Peter Schønau Fog (seu segundo longa-metragem). O roteiro foi
escrito por Christian Jungersen, autor do romance “I Biografen Nu", no qual o
filme foi baseado, best-seller nos países da Escandinávia. Vamos à história: Frederick
Halling (Nicolas Lie Kaas) desviou dinheiro da escola onde é diretor, em Oslo, e
depositou em sua conta. O desfalque foi descoberto, ele acabou denunciado e vai
para julgamento, podendo pegar um bom período na cadeia. O crime está
devidamente comprovado, mas sempre há uma atenuante. No caso, um tumor no
cérebro de Frederick, que, segundo os médicos, poderia provocar um desvio
comportamental no paciente, o que explicaria sua conduta ilícita. Este talvez
seja o único trunfo do advogado Bernard Berman (Michael Nyqvist), encarregado
de defender Frederick. Para isso, porém, ele terá que entrevistar especialistas
em neurociência, médicos neurologistas e até psiquiatras – no livro, Jungersen
apresenta um verdadeiro estudo científico sobre a neurociência. Somente esse
contexto já torna o filme muito interessante. Mas tem mais: a maravilhosa
atuação da grande atriz dinamarquesa Trine Dyrholm (“Festa em Família”, “A
Comunidade”), que interpreta Mia Halling, a esposa de Frederick. Outro destaque
fica por conta da participação do ator Michael Nyqvist, que morreu meses depois
do fim das filmagens. Enfim, um filme inteligente, polêmico, que dá margem a
muitas discussões e reflexões acerca dos fatores que levam o ser humano a ter determinado
comportamento. Imperdível!
quarta-feira, 20 de março de 2019
O que um pai é capaz de
fazer para se vingar dos agressores do seu filho? É este o pano de fundo do
drama “SEU FILHO” (“Su Hijo”), 2018,
Espanha, Netflix (lançamento ocorreu dia 1º de março de 2019), roteiro e
direção de Miguel Ángel Vivas. A vida do médico cirurgião Jaime Jiménez (José
Coronado) vira um inferno após seu filho Marcos (Paul Monen) ser brutalmente
espancado na porta de uma discoteca. Ele cobra da polícia uma investigação rápida
para identificar os agressores. Mesmo com as cenas gravadas por um celular, a
polícia não faz nada (a delegada diz que não pode assistir à gravação sem a
ordem de um juiz – ou seja, má vontade), talvez por influência do poderoso dono
da discoteca. Jiménez então resolve fazer justiça com as próprias mãos (clichê
dos clichês) e parte para cima dos agressores. Uma peça fundamental do que
ocorreu é a adolescente Andrea (Ester Expósito), ex-namorada de Marcos. Em todo
o desenrolar do filme, a ação fica restrita às cenas da agressão (muito
violentas, por sinal) a Marcos e da vingança do seu pai. Na maior parte, a câmera
do diretor Vivas acompanha o sofrimento e a angústia de Jiménez em decidir ou
não se vingar na base do “Olho por olho, dente por dente”. O filme ainda guarda,
para perto do desfecho, uma surpreendente revelação. Nem a presença do veterano
e excelente ator José Coronado nem uma surpreendente revelação perto do
desfecho são suficientes para recomendar este drama espanhol.
segunda-feira, 18 de março de 2019
“LEAL
– SÓ HÁ UMA FORMA DE VIVER” (“LEAL – SOLO HAY UMA FORMA DE
VIVIR”), 2018, Paraguai, Netflix, 1h47m, direção de Pietro Scappini e Rodrigo
Salomón, com roteiro do argentino Andrés Gelós. Trata-se do primeiro filme
paraguaio exibido pela Netflix – sua estreia mundial aconteceu no dia 2 de
agosto de 2018. Mesmo sendo paraguaio, o filme não é falso. A história é baseada
em fatos reais e envolve a atuação de um grupo paramilitar formado pela SENAD –
Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai – com o objetivo de combater o
tráfico de drogas nas fronteiras paraguaias. Para comandar o pelotão, o governo
trouxe de volta à ativa o ex-coronel Ramón Fernández (Sílvio Rodas), que recrutou
vários oficiais e soldados de sua confiança. O serviço de inteligência
funcionou graças a uma estagiária do SENAD (Andrea Quatrocchi), que decifrou os
códigos utilizados pelos traficantes para designar a chegada, por via aérea, de
novos carregamentos. A parte divertida: o código dos aeroportos clandestinos
era constituído por nomes de jogadores brasileiros. Estão lá Cafu, Djalma
Santos, Alemão etc. Haja criatividade! No gênero ação, até que o filme
funciona, tem ritmo, violência e muitos tiros, mas os atores são uma tragédia.
Um pior que o outro. Ou foram mal dirigidos ou são ruins mesmo. Tem até um
brasileiro no elenco, um tal de Bruno Sosa, que interpreta Dante, o braço
direito do maior traficante da região. É isso aí, vale como curiosidade para
conhecer um filme de ação do Paraguai. Garanto que já vi piores.
domingo, 17 de março de 2019
“A
ARTE DE AMAR – A HISTÓRIA DE MICHALINA WISLOCKA” (“SZTUKA
KOCHANIA”), 2017, Polônia, 120 minutos, direção de Maria Sadowska – é o seu
segundo longa-metragem -, com roteiro de Violetta Ozminkowski. Conta a história
da médica ginecologista Michalina Wislocka, que em 1976 lançou o livro “A
Arte de Amar” (“Sztuka Kochania”), um pioneiro e polêmico ensaio sobre a
importância da prática do sexo na vida das pessoas. O livro foi um grande best-seller na época. Não foi fácil publicá-lo,
já que a Polônia vivia sob o comando do rígido regime da União Soviética, além
de ser um dos países mais católicos do mundo. Ou seja, Michalina teve de
enfrentar a oposição da Igreja e dos governantes. O livro foi considerado o primeiro
guia sexual gerado num país comunista e Michalina a primeira sexóloga da
Polônia, sendo comparada ao seu colega norte-americano Alfred Charles Kinsey, que
nos anos 40 fundou o Instituto de Pesquisa do Sexo na Universidade de Indiana. O
filme apresenta Michalina (Magdalena Boczarska) como uma mulher liberal,
desinibida e muito avançada para o seu tempo, a ponto de permitir que seu
marido Stach Wislocki (Piotr Adamczyk) vivesse com outra mulher, Wanda (Justina
Wasilewska) no mesmo teto que ela, consumando o famoso ménage à trois. Alguns anos mais tarde, separada de Stach, Michalina
conhece Jurek (Eryk Lubos), que seria seu grande amor pelo resto da vida.
Enfim, uma história e tanto a desta médica polonesa, contada de uma forma
bem-humorada e fiel aos fatos, com excelente elenco, fotografia e uma esmerada
reconstituição de época.
“VIDA SELVAGEM” (“Wildlife”),
2019, EUA, 1h45m, filme independente que marca a estreia do ator Paul Dano como
roteirista e diretor. Trata-se da adaptação do romance escrito por Richard Ford
em 1990. A história é ambientada no final dos anos 50 do século passado e
acompanha o drama da família Brinson, Jerry (Jake Gylhenhaal), Jeanette (Carey
Mulligan) e Joe (Ed Oxenbould), o filho de 14 anos do casal. Eles vivem na
cidade de Great Falls (Montana), onde Jerry trabalha como empregado de um clube
de golfe. Ao perder o emprego, o relacionamento familiar fica insustentável. As
brigas entre o casal acontecem quase sempre sob os olhares de Joe. Como não
consegue outro emprego melhor, Jerry aceita fazer parte de um grupo encarregado
de combater incêndios na floresta. Por vários meses, ele passa longe da
família. Enquanto isso, Jeanette e o filho vão à luta. Ela consegue um emprego
numa concessionária de veículos e o garoto num estúdio de fotografia. Com o
casamento em ruínas e com o sumiço do marido, Jeanette acaba se envolvendo com
um rico empresário e, quando Jerry volta para casa, a situação do casal se
complica de vez. O filho Joe acompanha de perto toda essa situação de
turbulência e é através do seu olhar que o diretor Paul Dano procura intensificar
a dramaticidade. Assim como os críticos especializados presentes à exibição do
filme nos festivais de Sundance e de Cannes, gostei muito do filme. Vale também
pela ótima atuação da atriz inglesa Carey Mulligan.
sexta-feira, 15 de março de 2019
“TODOS
JÁ SABEM” (“Todos Lo Saben”), 2019, Espanha, 2h13m, roteiro e
direção de Asghar Farhadi. Com um elenco de primeira linha, este suspense foi
exibido pela primeira vez no 71º Festival de Cinema de Cannes, em maio de 2018,
não empolgando nem público nem críticos. A história começa com a chegada de
Laura (Penélope Cruz) e seus dois filhos a uma pequena aldeia da Espanha, onde
vivem seus pais e irmãs, para a festa de casamento da irmã mais nova. O marido
de Laura, Alejandro (Ricardo Darín), tinha compromissos na Argentina e não pôde
ir. Durante a comemoração, um apagão acontece e, quando
a luz volta, Irene (Carla Campra), filha mais velha de Laura, desaparece
misteriosamente. Será que a garota fugiu ou foi sequestrada? A dúvida pairou no
início, mas logo depois ficou confirmado que era um caso de sequestro. Por
dinheiro, é claro. O diretor iraniano Farhadi nos conduz a uma espécie de jogo
de adivinhação, fazendo com que o espectador desconfie deste ou daquele
personagem. E são muitos. Não escapam nem o próprio pai da moça, Alejandro, que
está falido, nem mesmo Paco (Javier Bardem, marido de Penélope Cruz na vida
real), um antigo namorado de Laura. Depois de uma revelação bombástica (tudo a
ver com o título “Todos já Sabem”), finalmente é revelado quem está por trás do
sequestro. O diretor iraniano já tinha feito um suspense semelhante – e melhor
-, “A Procura de Elly”, em 2009. Anos depois, Asghar Farhadi se consagraria com
dois Oscars de Melhor Filme Estrangeiro, “A Separação”, de 2011, e “O
Apartamento”, de 2016. O elenco de “Todos já Sabem” ainda conta com Inma
Cuesta, Bárbara Lennie, Eduardo Fernández e Sara Sálamo.
segunda-feira, 11 de março de 2019
“PODERIA ME PERDOAR?” (“CAN
YOU EVER FORGIVE ME?”), 2018, EUA, direção de Marielle Heller (“O Diário de uma
Adolescente”), com roteiro adaptado por Nicole Holofcener e Jeff Whitty. Mais
um ótimo filme da safra 2018 de Hollywood, considerado pela National Board of
Review como um dos 10 melhores filmes de 2018. Trata-se da adaptação
cinematográfica do livro de memórias da jornalista e escritora Lee Israel, que,
nos anos 90, endividada e sem emprego, resolveu falsificar cartas atribuídas a
celebridades, entre as quais Dorothy Parker, Tallulah Bankhead e Katharine
Hepburn. Em meio a essa trajetória criminosa, Lee, interpretada magistralmente
pela atriz Melissa McCarthy, faria amizade com o folclórico Jack Hock (o ator
inglês Richard E. Grant), um trambiqueiro gay que se tornaria seu cúmplice nas
picaretagens. Os dois seriam presos mais tarde pelo FBI. Por suas atuações
nesse filme, Melissa concorreu a Melhor Atriz e Richard Grant a Melhor Ator
Coadjuvante. A dupla realmente dá um show, mas é Richard quem rouba as cenas. O
papel de Lee Israel estava acertado para ser de Julianne Moore, demitida logo
após o início das filmagens. A razão não foi divulgada. Enfim, um ótimo filme,
recheado de humor e, de certa forma, bastante sensível. Entretenimento dos
melhores.
domingo, 10 de março de 2019

sexta-feira, 8 de março de 2019
“SE
A RUA BEALE FALASSE” (“IF BEALE STREET COULD TALK”), 2018,
EUA, 120 minutos, dirigido por Barry Jenkins, que também escreveu o roteiro
baseado no romance de James Baldwin lançado em 1974. As famílias de Tish (Kiki
Laine) e de Alonzo “Fonny” Hunt (Stephan James) são vizinhas no Harlem. Tish e
Fonny cresceram juntos e ainda adolescentes engatam um namoro. A história é
ambientada no início dos anos 70, quando Tish está com 19 anos e Fonny com 22.
Continuam apaixonados e ela acaba engravidando. Só que um dia Fonny é preso,
acusado de estuprar uma jovem porto-riquenha. Ele nega o crime, mas o fato de
ser negro já supõe culpa no país racista do Tio Sam, ainda mais naquela época. Tish
acredita na inocência do namorado e segue sonhando em ter um lar no futuro com
filhos etc. Mas nem sempre os sonhos tornam-se realidade, principalmente para
uma minoria segregada. Barry Jenkins fez uma boa adaptação de um dos mais
conhecidos romances de James Baldwin, autor também negro que explora, na
maioria dos seus livros, a questão racial nos Estados Unidos. Lembro que
Jenkins também foi o diretor do poderoso “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, Melhor
Filme do Oscar 2017. Por falar em Oscar, “Se a Rua Beale Falasse” foi indicado para
três categorias na versão 2019: Atriz Coadjuvante, Roteiro Adaptado e Trilha
Sonora. Só levou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, Regina King, que faz a
mãe de Tish. Achei que houve injustiça com Kiki Laine, que deveria ter sido
indicada para Melhor Atriz e não foi. Ela está ótima. Enfim, “Se a Rua Beale Falasse”
é mais um excelente filme da safra 2018, que já nos deu “Green Book”, “A Favorita”
e “Bohemian Rhapsody”, entre outros.
quarta-feira, 6 de março de 2019
“DEDE”, 2017,
Georgia, 97 minutos, primeiro longa-metragem dirigido pela diretora Mariam
Khatchvani, com roteiro de Vova Kacharava e Irakli Solomonashvili. Esse drama
pesado, não fosse georgiano, seria um legítimo drama mexicano. Tem muita
tragédia, brigas de famílias que geralmente terminam em morte, casamentos
arranjados, mulheres e homens infelizes, pobreza... e por aí afora, sem contar
com os cenários de muita neve e um frio de congelar os ossos. A história é toda
ambientada em 1992 – logo após a guerra da independência - num vilarejo remoto
na zona rural e montanhosa do interior da Geórgia, ex-república soviética. Num
arranjo entre as respectivas famílias, a jovem Dina (Nadia Vibliani) está
prometida em casamento para um homem que ela não ama. O preferido dela é o
jovem Gegi (George Babluani), que por uma infelicidade é amigo do noivo. Dina
desmarca o casamento, gerando uma guerra entre as famílias. É nesse contexto dramático
que a trama segue até o seu desfecho. O mais interessante desse ótimo drama
georgiano é o destaque dado às tradições locais, a principal delas o papel sempre
subserviente e humilhante destinado às mulheres. Com exceção de três ou quatro
atores profissionais, o restante do elenco é todo constituído por pessoas do próprio vilarejo, o que dá ao filme uma autenticidade e um realismo especiais. Só para
lembrar, a Geórgia é um país da Europa Oriental que faz fronteira com Azerbaijão,
Armênia e Turquia. A língua oficial é a suana, falada também no filme. Resumo
da ópera: “Dede” é excelente. Assisti-lo é uma ótima oportunidade para conhecer um pouco do pouco conhecido cinema georgiano. Para concluir: o filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary, na República Tcheca, com muitos elogios da crítica e do público.
terça-feira, 5 de março de 2019
“COLETTE”, 2018,
coprodução EUA/Inglaterra, 1h52m, roteiro de Richard Glatzer e Rebecca
Lenkiewicz, com direção de Wash Westmoreland. Trata-se de um filme biográfico que acompanha a trajetória fascinante da romancista francesa Sidonie-Gabrielle Colette, mais conhecida apenas como
Colette, que no início do século XX foi um grande sucesso de vendas com suas
histórias apimentadas, recheadas de sexo com a personagem Claudine. A sociedade
conservadora ficou escandalizada com os temas abordados por Colette. Jovem
simples nascida no interior da França, ela foi pedida em casamento pelo então
famoso escritor Willy (Dominic West), cujos livros, na verdade, eram escritos
por jovens escritores em início de carreira (escritores-fantasmas). Willy só
assinava como autor. Colette começou a escrever alguns romances que também seriam
assinados por Willy. Anos mais tarde, se cansaria dessa situação, assumindo a
autoria, com seu próprio nome, de outros romances, todos sucessos de vendas na
época. Em sua vida pessoal, Colette se envolveria sexualmente também com outras
mulheres, entre as quais a aristocrata norte-americana George Raoul-Duval
(Eleonor Tomlinson) e a atriz de teatro Missy (Denise Gough), romances que seriam descritos em seus livros. Ou seja, para
usar um clichê dos mais antigos, Colette era uma mulher à frente do seu tempo.
Além de bonita, Keira Knightley é ótima atriz e vários diretores adoram colocá-la
em filmes de época, como aconteceu em “Orgulho e Preconceito” e “Desejo e
Reparação”, entre tantos outros. Exibido por aqui na programação oficial do
Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, em novembro de 2018, “Colette”
é um filme de muita qualidade, com um elenco dos melhores, uma excelente
fotografia e uma primorosa reconstituição de época.
segunda-feira, 4 de março de 2019
“O QUE AS PESSOAS VÃO DIZER” (“HVA
VIL FOLK SI”, título original em norueguês, e “What Will People Say” nos países
de língua inglesa), 2018, Noruega, 1h46m, roteiro e direção da norueguesa Iram
Haq (seu segundo longa-metragem). O filme foi selecionado para representar a
Noruega na disputa do Oscar 2019 de Melhor Filme, mas não emplacou, embora seja
ótimo. Trata-se de um drama cujo pano de fundo é o radicalismo paterno, comum
entre as famílias muçulmanas. A história é centrada na jovem Nisha (Maria
Mozhdah), nascida e criada em Oslo, capital da Noruega. Aos 16 anos, ela vai a
baladas, namora, fuma um baseado de vez em quando, enfim, tudo o que uma garota
ocidental está acostumada a fazer. Nisha faz tudo isso bem escondida dos pais
imigrantes paquistaneses, Mirza (Adil Hussain) e Najma (Ekavali Khanna), radicais
à beira do fundamentalismo quanto às tradições culturais e religiosas de seu
país de origem. Quando Nisha é surpreendida com o namorado nas preliminares,
seu Mirza acaba espancando o rapaz. O caso termina na delegacia. Najma, a mãe,
se desespera: “O que os outros vão dizer?”. Essa preocupação diz respeito,
claro, à reputação não só de Nisha, mas de toda a sua família. Depois disso, o
pai, num acesso de ódio, decide levar a filha à força para Islamabad
(capital do Paquistão), para a casa de sua irmã. Nisha tenta se adaptar aos
costumes da família, mas acaba se envolvendo com um primo. Aí a coisa piora de
vez. Nisha é obrigada a voltar para Oslo, onde curtirá mais alguns momentos de
infelicidade. A gota d’água acontece quando a família arranja um marido
paquistanês residente no Canadá para casar com Nisha. O filme, falado em
norueguês e urdu, é muito bom e impactante, apresentando uma realidade presente
há séculos nas famílias muçulmanas, onde a mulher é desconsiderada como cidadã.
Filmaço!
domingo, 3 de março de 2019
“GREEN
BOOK: O GUIA” (“Green Book”), 2018, EUA, 2h10m, roteiro e
direção de Peter Farrelly. Antes de assistir a esta pérola, vi “Bohemian
Raphsody” e “A Favorita”, outros dois fortes concorrentes ao Oscar 2019 de
Melhor Filme. Achei que um desses dois ganharia o prêmio. Se tivesse visto “Green
Book” antes da noite da premiação, apostaria nele todas as minhas fichas. Sem
dúvida, um filme maravilhoso, sensível, divertido, enfim, cinema da melhor
qualidade. O trunfo maior, porém, além da interessante história baseada em
fatos reais, é a dupla de atores Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Eles
interpretam, respectivamente, o grosseirão Frank “Toni Lip” Vallelonga e o
refinado pianista Don Shirley. O filme é ambientado em 1962 – a reconstituição
da época é sensacional. Toni Lip trabalhava como segurança na discoteca
Copacabana, em Nova Iorque. Quando o estabelecimento fechou para reformas, que
durariam mais ou menos três meses, Toni arrumou um “bico” de motorista,
assistente e segurança do pianista Don Shirley, um dos mais conceituados músicos
de jazz que fazia enorme sucesso com seu “Trio Don Shirley”. Shirley e seu
grupo foram contratados para uma turnê em várias cidades do sul, a região mais
racista do país. O gozado da situação é que Toni Lip era um racista convicto e
que seria obrigado a ter um chefe negro. É desse contexto que Farrelly conseguiu
criar as mais hilariantes situações, principalmente no que se refere aos
diálogos entre o motorista e seu chefe. Desta vez, Peter não trabalhou com seu
irmão Bob, conhecidos como os irmãos Farrelly, responsáveis por ótimas comédias
como “Debi & Lóide – Dois Idiotas em Apuros”, “Eu, Eu Mesmo & Irene” e “Quem
vai Ficar com Mary?”. Além de dirigir “Green Book”, Peter escreveu o roteiro
juntamente com Nick Vallelonga (filho de Toni na vida real) e Brian Hayes
Currie. Por seu trabalho em “Green Book”, Mahershala Ali conquistou o prêmio
de Melhor Ator Coadjuvante. Merecido. Viggo Mortensen concorreu a Melhor Ator,
perdendo para Rami Malek, o Fred Mercury de “Bohemian Raphsody”. Mortensen era
o grande favorito, pois antes do Oscar já havia sido premiado pela AACTA
Internacional Award, pelo Critic’s Choise Award, pelo Bafta, Sindicato dos
Atores e pelo Globo de Ouro. Sua atuação é mesmo fantástica. Ele chegou a engordar
20 quilos para interpretar Toni. Como informação adicional, lembro que o Green
Book era um livro/guia de hotéis e restaurantes do sul dos EUA que aceitavam
afrodescendentes. Quem ainda não assistiu está perdendo a oportunidade de
conhecer um dos melhores filmes dos últimos anos. Imperdível!
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019
“MILLENNIUM:
A GAROTA NA TEIA DE ARANHA” (“THE GIRL IN THE SPIDER’S WEB: A NEW DRAGON TATTOO
STORY”), 2018, EUA, 1h57m, roteiro e direção do uruguaio Fede
Alvarez. Trata-se da quarta adaptação para o cinema da série Millennium, na
minha opinião a melhor de todas. A hacker
profissional Lisbeth Salander, agora interpretada pela atriz inglesa Claire Foy (a esposa de Neil Armstrong em "O Primeiro Homem"),
é contratada para recuperar um programa de computador intitulado “Firefall”,
que dá ao seu usuário acesso ilimitado a um imenso arsenal bélico. O programa
está em poder do governo norte-americano, mas há outros interessados em se
apoderar dele, inclusive um grupo aliado à máfia russa chamado “Aranhas”. O
filme foi rodado em locações de Estocolmo e redondezas durante o rigoroso
inverno típico dos países nórdicos. As ótimas cenas de ação foram filmadas
nesses ambientes. Aliás, o filme tem muita ação, perseguições, tiros e
pancadaria, num ritmo bastante frenético. Além de Foy, ótima no papel da
anti-heroína, estão no elenco Stephen Merchant, Suerrir Gunadson, Sylvia Hoeks,
Lakeita Stanfield e a diva sueca Synnøve Macody Lund. Enfim, um filmaço para
quem gosta de filmes de ação. Como informação adicional, lembro que a trilogia
Millennium foi iniciada com “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, em 2008,
obtendo um grande sucesso mundial de vendas (o livro) e de bilheteria (o
filme). Com a morte repentina do autor da série, o jornalista sueco Stieg Larsson,
a Editora Norstedts contratou o escritor David Lagercrantz para dar sequência à
franquia. Em 2015, seria lançado o livro “Millennium: A Garota na Teia de
Aranha” (“Det Som Inte Dödar Oss”), adaptado para o cinema dois anos depois
pelo diretor Fede Alvarez.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
“A
AMANTE” (“INHEBBEK HEDI”), 2016, Tunísia/Bélgica/França, 88 minutos,
primeiro longa-metragem escrito e dirigido por Mohamed Ben Attia (o segundo é
de 2018, “Meu Querido Filho”) e produzido pelos belgas Luc e Jean-Pierre
Dardenne, conhecidos como os irmãos Dardenne, conceituados diretores de cinema.
Um aval e tanto para esta produção do cinema tunisiano. A história é centrada
no jovem Hedi (Majd Mastoura), de 25 anos, um sujeito tímido, inseguro e
completamente dominado pela mãe autoritária Baya (Sabah Bouzouita). Ele sente
um ciúme doentio do irmão mais velho Ahmed (Hakim Boumessoudi), que vive em
Paris e cuja esposa não se dá com sua mãe. Como é comum nos países árabes, as
famílias muçulmanas escolhem os parceiros para seus filhos. Baya escolhe a bela
e doce Khedija (Omnia Ben Ghali), de uma família tradicional da cidade, para
casar com Hedi. Mas ele não se entusiasma muito, mas aceita calado, quase mudo.
Até o dia em que seu chefe na concessionária Peugeot, onde trabalha como
vendedor, o envia a outra cidade, Mahdi, para prospectar novos clientes. No
hotel onde está hospedado, à beira-mar, ele conhece a fogosa Rim (Rym Ben Messaoud),
cinco anos mais velha, e inicia um romance proibido. Mais paixão do que amor,
na verdade. Hedi muda seu comportamento da água para o vinho, torna-se mais
falante e alegre. Até o desfecho da história, Hedi terá de decidir se casa com Khedija
ou foge do casamento para ficar com Rim. Além da história em si, o filme
explora com sensibilidade as tradições familiares dos tunisianos, o que o torna
ainda mais interessante. “A Amante” foi exibido por aqui na programação da 40ª Mostra
Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2016. No mesmo ano, recebeu
dois prêmios no Festival de Berlim: Melhor Filme de Estreia e Melhor Ator (Majd
Mastoura). Vale a pena conferir!
domingo, 24 de fevereiro de 2019
“UMA
NOITE DE 12 ANOS” (“La Noche de 12 Años”), 2018, Uruguai, 2h3m,
escrito e dirigido por Álvaro Brechner. Selecionado para representar o Uruguai
na disputa do Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro, “Uma Noite de 12 Anos” acompanha a prisão, o suplício e o sofrimento de três militantes do grupo guerrilheiro Tupamaros presos pela
ditadura militar uruguaia em 1973: Alfonso Torti (Eleutério Fernández Huidobro),
Maurício Rosencof (Chino Darín, filho do também ator argentino Ricardo Darín) e
José Mujica (Antonio de La Torre) – este último seria eleito presidente do
Uruguai em 2009. Ao lado de outros companheiros do Tupamaros, Mujica, Rosencof
e Torti foram mantidos em prisões das mais precárias até 1985, quando o o país
voltou a ser democrático. Os prisioneiros eram transferidos constantemente de
locais, provavelmente quartéis, encapuzados e proibidos de se comunicar uns com
os outros. Para diversão dos soldados, eram submetidos a violentas torturas. Um
martírio que parecia não ter fim e cuja sobrevivência era encarada com uma
grande vitória. O diretor Brechner conseguiu transmitir de forma bastante
realista o clima claustrofóbico das prisões e o isolamento que chegou a levar alguns
prisioneiros à loucura. Enfim, um filme muito pesado, a quilômetros de distância
de um entretenimento agradável. Pelo contexto da história, não poderia ter sido
feito de outra maneira. Além da ótima atuação do trio de protagonistas
principais, destaco a participação, embora pequena, da grande atriz argentina
Soledad Villamill, do espetacular “O Segredo dos Seus Olhos”, que interpreta
uma psiquiatra que servia ao regime militar uruguaio. Destaco ainda a fabulosa interpretação
da música “The Sound of Silence” (hino da dupla Simon & Garfunkel) pela
cantora Sílvia Perez Cruz – de arrepiar! Resumo da ópera: o filme é excelente e merece ser visto por quem gosta de cinema de qualidade.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
“UM
AUTÊNTICO VERMEER” (“EEN ECHTE VERMEER”), 2016, Holanda, 1h55m, roteiro
e direção de Rudolf Van Den Berg. Trata-se de uma história baseada em fatos
reais, ou seja, a trajetória do pintor holandês Han Van Meegeren (Jeroen
Spitzenberger), que ficou famoso na Amsterdã dos anos 20 do século passado por
apresentar, em suas telas, um estilo semelhante aos grandes pintores clássicos holandeses
do Século 17, Rembrandt e Johannes Vermeer. Seu sucesso, porém, teria vida
curta, principalmente depois que conheceu e se apaixonou pela atriz de teatro
Jolanka Lakatos (Lize Feryn), casada com Abraham Bredius (Porgy Franssen), o
mais importante marchand e crítico de
arte da Holanda. Enciumado pelo assédio de Meegeren sobre sua esposa, Bredius
destruiu a carreira de Meegeren, que resolveu se vingar não apenas tornando-se
amante de Jolanka, como também pintando telas falsas de Vermeer para o oponente
comercializar como sendo verdadeiras. O filme acompanha a trajetória de
Meegeren até depois da Segunda Guerra Mundial, quando ele é julgado como
suspeito de colaborar com o exército nazista que ocupou a Holanda durante o
conflito - ele presenteou os oficiais alemães e até Hitler com algumas de suas
obras. O diretor holandês Van Den Berg (“Süskind” e “Tirza”) acertou ao
escolher uma história tão interessante e pouco conhecida. Acertou também na
escolha do elenco, na fotografia e, principalmente, na reconstituição de época –
figurinos e cenários. Por aqui, o filme foi exibido durante a programação oficial
da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Vale a pena assistir!
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