quarta-feira, 27 de março de 2019

“CHACRINHA – O VELHO GUERREIRO” – 2018, direção de Andrucha Waddington, com roteiro de Cláudio Paiva. Trata-se da biografia de José Abelardo Barbosa (1917-1988), o popular Chacrinha, considerado até hoje o mais importante e criativo apresentador da TV brasileira. O filme começa com uma cena da Discoteca do Chacrinha, programa de auditório na TV Globo. No palco, Chacrinha chama como próxima atração uma famosa mãe de santo e transforma o palco numa verdadeira sessão de candomblé, com direito a batuque e cachaça. José Oliveira Sobrinho, o Boni, então diretor da TV Globo chega furioso à sala de produção e tira o programa do ar. O filme retrocede ao início dos anos 40, quando Abelardo Barbosa chega ao Rio de Janeiro depois de abandonar a faculdade de Medicina em Pernambuco. Ele chega com uma mão na frente e outra atrás. Para conseguir um troco pelo menos para comer, ele arruma um bico como locutor de megafone na porta de uma loja de roupas. Já nessa época, seu sonho era ser animador de auditório de alguma emissora de rádio – até então, não havia televisão. Para conseguir seu objetivo, ele conseguiu apresentar um programa musical numa rádio quase falida. A partir de então, o filme apresenta a trajetória de sucesso de Chacrinha até sua morte, relembrando vários de seus programas, inclusive alguns calouros de luxo como o iniciante Roberto Carlos e Clara Nunes. Stepan Nercessian dá um verdadeiro show como Chacrinha – quando moço, interpretado por Eduardo Sterblitch. A vida pessoal, os bastidores dos programas e até revelações bombásticas, como seu caso com a cantora Clara Nunes, o filme explora os fatos mais importantes da vida do apresentador. Estão lá os famosos bordões “O programa que acaba quando termina”, “Quem não se comunica se trumbica”, “Vocês querem bacalhau?” e “Terezinha, uh, uh”, além de jingles como “Maria Sapatão, de dia é Maria, à noite é João”. E as Chacretes, é claro. Tem ainda a espalhafatosa Elke Maravilha (Gianne Albertoni), seu grande inimigo Flávio Cavalcanti (Marcelo Serrado), Wanderléia (que seria mais tarde sua nora) e Boni (Thelmo Fernandes). O filme é delícia pura, um show de design de produção, recriação de época e figurinos. Uma divertida e emocionante volta ao passado recente. Não perca! 

terça-feira, 26 de março de 2019


“O VELHO E A ARMA” (“The Old Man and the Gun”), 2018, EUA, 93 minutos, roteiro e direção de David Lowery (“Sombras da Vida”, “Meu Amigo Dragão”). A história é baseada em fatos reais, ou seja, nos últimos anos de vida do delinquente Forrest Tucker (1920-2004), que ficou famoso nos Estados Unidos por ter fugido 18 vezes das prisões onde estava encarcerado, inclusive algumas de segurança máxima, como San Quentin. Sua vida de crimes começou aos 15 anos de idade e continuou até a velhice, fase em que toda a história do filme se desenrola. Aos 78 anos, Tucker (Robert Redford) continuava roubando bancos em companhia de dois comparsas, Waller (Tom Waits) e Teddy (Danny Glover). Tucker chefiava os assaltos e, para anunciá-los aos gerentes e funcionários do banco, o fazia com toda a educação, mostrando-se um verdadeiro gentleman. Nunca exibia uma arma, embora dissesse que portava uma. E seu único disfarce era apenas um bigode. Sua prisão, e a dos seus parceiros, virou ponto de honra para a polícia, que destacou para a missão o detetive John Hurt (Casey Affleck, irmão do Ben). Em meio a esta perseguição, Tucker conheceria a viúva Jewel (Sissy Spacek), proprietária de um rancho. Redford e Sissy Spacek são os responsáveis pelos momentos românticos e mais sensíveis do filme, quando o veterano ator usa todo o seu charme - ainda intacto aos 82 anos, apesar das rugas. Os diálogos entre os dois são ótimos. Por falar em Redford, ele anunciou que este seria seu último filme como ator. Pena, mas deixa um legado formidável, incluindo filmes como “Butch Cassidy”, “Golpe de Mestre”, “Todos os Homens do Presidente” e “O Grande Gatsby”, entre tantos outros. Resumo da ópera: “O Velho e a Arma” é um filmaço!    

segunda-feira, 25 de março de 2019


“O QUE NOS LIGA” (“CE QUI NOUS LIE”), 2017, França, 1h54m, direção de Cedric Klapisch, que também assina o roteiro com a colaboração do cineasta argentino Santiago Amigorena. Enólogos, sommeliers e amantes do vinho em geral vão se deliciar com essa pequena joia do cinema francês. Eu, que sou leigo no assunto, me deliciei e aprendia muito sobre a produção do vinho. A história é toda ambientada na região dos vinhedos da Borgonha (sul-sudeste da França). Um dos maiores vinhedos pertence aos irmãos Jean (Pio Marmai), Juliette (Ana Girardot, filha do ator Hippolyte Girardot) e Jéremie (François Civil). Eles o herdaram do pai (Eric Caravaca), que lhes ensinou tudo sobre a produção de vinho. Desde crianças, os irmãos foram acostumados a fazer degustação – sempre de olhos vendados - e adivinhar que tipo estavam tomando, além de apontar os defeitos e as qualidades. O pai ficou gravemente doente e os filhos assumiram o negócio. Desde a época certa para a plantação e colheita – a uva é experimentada no cacho para definir a data certa – até o armazenamento e fermentação, todas essas etapas são minuciosamente explicadas durante o filme. Os irmãos são bastante unidos e apaixonados pelo vinhedo, embora recebam boas ofertas para vendê-los. Um dos que querem comprar alguns lotes é justamente o sogro de Jéremie, proprietário de outro vinhedo concorrente. O filme reserva cenas bastante interessantes, como a festa realizada ao final da colheita, onde todos aqueles que colheram as uvas participam, com muita alegria e cantoria. E muito vinho, claro. Embora explore aspectos pessoais de cada um dos irmãos e algumas desavenças familiares, é o vinho o personagem principal desse excelente filme francês, sensível e divertido.    

sexta-feira, 22 de março de 2019

“VOCÊ DESAPARECEU” (“Du Forsvinder”), 2017, Dinamarca, 1h58m, direção de Peter Schønau Fog (seu segundo longa-metragem). O roteiro foi escrito por Christian Jungersen, autor do romance “I Biografen Nu", no qual o filme foi baseado, best-seller nos países da Escandinávia. Vamos à história: Frederick Halling (Nicolas Lie Kaas) desviou dinheiro da escola onde é diretor, em Oslo, e depositou em sua conta. O desfalque foi descoberto, ele acabou denunciado e vai para julgamento, podendo pegar um bom período na cadeia. O crime está devidamente comprovado, mas sempre há uma atenuante. No caso, um tumor no cérebro de Frederick, que, segundo os médicos, poderia provocar um desvio comportamental no paciente, o que explicaria sua conduta ilícita. Este talvez seja o único trunfo do advogado Bernard Berman (Michael Nyqvist), encarregado de defender Frederick. Para isso, porém, ele terá que entrevistar especialistas em neurociência, médicos neurologistas e até psiquiatras – no livro, Jungersen apresenta um verdadeiro estudo científico sobre a neurociência. Somente esse contexto já torna o filme muito interessante. Mas tem mais: a maravilhosa atuação da grande atriz dinamarquesa Trine Dyrholm (“Festa em Família”, “A Comunidade”), que interpreta Mia Halling, a esposa de Frederick. Outro destaque fica por conta da participação do ator Michael Nyqvist, que morreu meses depois do fim das filmagens. Enfim, um filme inteligente, polêmico, que dá margem a muitas discussões e reflexões acerca dos fatores que levam o ser humano a ter determinado comportamento. Imperdível!

quarta-feira, 20 de março de 2019


O que um pai é capaz de fazer para se vingar dos agressores do seu filho? É este o pano de fundo do drama “SEU FILHO” (“Su Hijo”), 2018, Espanha, Netflix (lançamento ocorreu dia 1º de março de 2019), roteiro e direção de Miguel Ángel Vivas. A vida do médico cirurgião Jaime Jiménez (José Coronado) vira um inferno após seu filho Marcos (Paul Monen) ser brutalmente espancado na porta de uma discoteca. Ele cobra da polícia uma investigação rápida para identificar os agressores. Mesmo com as cenas gravadas por um celular, a polícia não faz nada (a delegada diz que não pode assistir à gravação sem a ordem de um juiz – ou seja, má vontade), talvez por influência do poderoso dono da discoteca. Jiménez então resolve fazer justiça com as próprias mãos (clichê dos clichês) e parte para cima dos agressores. Uma peça fundamental do que ocorreu é a adolescente Andrea (Ester Expósito), ex-namorada de Marcos. Em todo o desenrolar do filme, a ação fica restrita às cenas da agressão (muito violentas, por sinal) a Marcos e da vingança do seu pai. Na maior parte, a câmera do diretor Vivas acompanha o sofrimento e a angústia de Jiménez em decidir ou não se vingar na base do “Olho por olho, dente por dente”. O filme ainda guarda, para perto do desfecho, uma surpreendente revelação. Nem a presença do veterano e excelente ator José Coronado nem uma surpreendente revelação perto do desfecho são suficientes para recomendar este drama espanhol. 

segunda-feira, 18 de março de 2019


“LEAL – SÓ HÁ UMA FORMA DE VIVER” (“LEAL – SOLO HAY UMA FORMA DE VIVIR”), 2018, Paraguai, Netflix, 1h47m, direção de Pietro Scappini e Rodrigo Salomón, com roteiro do argentino Andrés Gelós. Trata-se do primeiro filme paraguaio exibido pela Netflix – sua estreia mundial aconteceu no dia 2 de agosto de 2018. Mesmo sendo paraguaio, o filme não é falso. A história é baseada em fatos reais e envolve a atuação de um grupo paramilitar formado pela SENAD – Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai – com o objetivo de combater o tráfico de drogas nas fronteiras paraguaias. Para comandar o pelotão, o governo trouxe de volta à ativa o ex-coronel Ramón Fernández (Sílvio Rodas), que recrutou vários oficiais e soldados de sua confiança. O serviço de inteligência funcionou graças a uma estagiária do SENAD (Andrea Quatrocchi), que decifrou os códigos utilizados pelos traficantes para designar a chegada, por via aérea, de novos carregamentos. A parte divertida: o código dos aeroportos clandestinos era constituído por nomes de jogadores brasileiros. Estão lá Cafu, Djalma Santos, Alemão etc. Haja criatividade! No gênero ação, até que o filme funciona, tem ritmo, violência e muitos tiros, mas os atores são uma tragédia. Um pior que o outro. Ou foram mal dirigidos ou são ruins mesmo. Tem até um brasileiro no elenco, um tal de Bruno Sosa, que interpreta Dante, o braço direito do maior traficante da região. É isso aí, vale como curiosidade para conhecer um filme de ação do Paraguai. Garanto que já vi piores.   

domingo, 17 de março de 2019


“A ARTE DE AMAR – A HISTÓRIA DE MICHALINA WISLOCKA” (“SZTUKA KOCHANIA”), 2017, Polônia, 120 minutos, direção de Maria Sadowska – é o seu segundo longa-metragem -, com roteiro de Violetta Ozminkowski. Conta a história da médica ginecologista Michalina Wislocka, que em 1976 lançou o livro “A Arte de Amar” (“Sztuka Kochania”), um pioneiro e polêmico ensaio sobre a importância da prática do sexo na vida das pessoas. O livro foi um grande best-seller na época. Não foi fácil publicá-lo, já que a Polônia vivia sob o comando do rígido regime da União Soviética, além de ser um dos países mais católicos do mundo. Ou seja, Michalina teve de enfrentar a oposição da Igreja e dos governantes. O livro foi considerado o primeiro guia sexual gerado num país comunista e Michalina a primeira sexóloga da Polônia, sendo comparada ao seu colega norte-americano Alfred Charles Kinsey, que nos anos 40 fundou o Instituto de Pesquisa do Sexo na Universidade de Indiana. O filme apresenta Michalina (Magdalena Boczarska) como uma mulher liberal, desinibida e muito avançada para o seu tempo, a ponto de permitir que seu marido Stach Wislocki (Piotr Adamczyk) vivesse com outra mulher, Wanda (Justina Wasilewska) no mesmo teto que ela, consumando o famoso ménage à trois. Alguns anos mais tarde, separada de Stach, Michalina conhece Jurek (Eryk Lubos), que seria seu grande amor pelo resto da vida. Enfim, uma história e tanto a desta médica polonesa, contada de uma forma bem-humorada e fiel aos fatos, com excelente elenco, fotografia e uma esmerada reconstituição de época.    


“VIDA SELVAGEM” (“Wildlife”), 2019, EUA, 1h45m, filme independente que marca a estreia do ator Paul Dano como roteirista e diretor. Trata-se da adaptação do romance escrito por Richard Ford em 1990. A história é ambientada no final dos anos 50 do século passado e acompanha o drama da família Brinson, Jerry (Jake Gylhenhaal), Jeanette (Carey Mulligan) e Joe (Ed Oxenbould), o filho de 14 anos do casal. Eles vivem na cidade de Great Falls (Montana), onde Jerry trabalha como empregado de um clube de golfe. Ao perder o emprego, o relacionamento familiar fica insustentável. As brigas entre o casal acontecem quase sempre sob os olhares de Joe. Como não consegue outro emprego melhor, Jerry aceita fazer parte de um grupo encarregado de combater incêndios na floresta. Por vários meses, ele passa longe da família. Enquanto isso, Jeanette e o filho vão à luta. Ela consegue um emprego numa concessionária de veículos e o garoto num estúdio de fotografia. Com o casamento em ruínas e com o sumiço do marido, Jeanette acaba se envolvendo com um rico empresário e, quando Jerry volta para casa, a situação do casal se complica de vez. O filho Joe acompanha de perto toda essa situação de turbulência e é através do seu olhar que o diretor Paul Dano procura intensificar a dramaticidade. Assim como os críticos especializados presentes à exibição do filme nos festivais de Sundance e de Cannes, gostei muito do filme. Vale também pela ótima atuação da atriz inglesa Carey Mulligan.

sexta-feira, 15 de março de 2019


“TODOS JÁ SABEM” (“Todos Lo Saben”), 2019, Espanha, 2h13m, roteiro e direção de Asghar Farhadi. Com um elenco de primeira linha, este suspense foi exibido pela primeira vez no 71º Festival de Cinema de Cannes, em maio de 2018, não empolgando nem público nem críticos. A história começa com a chegada de Laura (Penélope Cruz) e seus dois filhos a uma pequena aldeia da Espanha, onde vivem seus pais e irmãs, para a festa de casamento da irmã mais nova. O marido de Laura, Alejandro (Ricardo Darín), tinha compromissos na Argentina e não pôde ir.   Durante a comemoração, um apagão acontece e, quando a luz volta, Irene (Carla Campra), filha mais velha de Laura, desaparece misteriosamente. Será que a garota fugiu ou foi sequestrada? A dúvida pairou no início, mas logo depois ficou confirmado que era um caso de sequestro. Por dinheiro, é claro. O diretor iraniano Farhadi nos conduz a uma espécie de jogo de adivinhação, fazendo com que o espectador desconfie deste ou daquele personagem. E são muitos. Não escapam nem o próprio pai da moça, Alejandro, que está falido, nem mesmo Paco (Javier Bardem, marido de Penélope Cruz na vida real), um antigo namorado de Laura. Depois de uma revelação bombástica (tudo a ver com o título “Todos já Sabem”), finalmente é revelado quem está por trás do sequestro. O diretor iraniano já tinha feito um suspense semelhante – e melhor -, “A Procura de Elly”, em 2009. Anos depois, Asghar Farhadi se consagraria com dois Oscars de Melhor Filme Estrangeiro, “A Separação”, de 2011, e “O Apartamento”, de 2016. O elenco de “Todos já Sabem” ainda conta com Inma Cuesta, Bárbara Lennie, Eduardo Fernández e Sara Sálamo.

segunda-feira, 11 de março de 2019


“PODERIA ME PERDOAR?” (“CAN YOU EVER FORGIVE ME?”), 2018, EUA, direção de Marielle Heller (“O Diário de uma Adolescente”), com roteiro adaptado por Nicole Holofcener e Jeff Whitty. Mais um ótimo filme da safra 2018 de Hollywood, considerado pela National Board of Review como um dos 10 melhores filmes de 2018. Trata-se da adaptação cinematográfica do livro de memórias da jornalista e escritora Lee Israel, que, nos anos 90, endividada e sem emprego, resolveu falsificar cartas atribuídas a celebridades, entre as quais Dorothy Parker, Tallulah Bankhead e Katharine Hepburn. Em meio a essa trajetória criminosa, Lee, interpretada magistralmente pela atriz Melissa McCarthy, faria amizade com o folclórico Jack Hock (o ator inglês Richard E. Grant), um trambiqueiro gay que se tornaria seu cúmplice nas picaretagens. Os dois seriam presos mais tarde pelo FBI. Por suas atuações nesse filme, Melissa concorreu a Melhor Atriz e Richard Grant a Melhor Ator Coadjuvante. A dupla realmente dá um show, mas é Richard quem rouba as cenas. O papel de Lee Israel estava acertado para ser de Julianne Moore, demitida logo após o início das filmagens. A razão não foi divulgada. Enfim, um ótimo filme, recheado de humor e, de certa forma, bastante sensível. Entretenimento dos melhores.


domingo, 10 de março de 2019


“LIZZIE”, 2018, EUA, 1h48m, segundo longa-metragem dirigido por Craig William MacNeill, com roteiro adaptado por Bryce Kass. O filme relembra o caso que chocou a cidade de Fall River, Massachusetts, e repercutiu por todo o país norte-americano. O fato gerou inúmeras reportagens, livros e, mais tarde, vários filmes. Em 1892, Andrew Borden (Jamey Sheridan) e sua esposa Abby Borden (Fiona Shaw), figuras importantes e respeitáveis da sociedade local, foram encontrados mortos, assassinados a machadadas. As suspeitas da polícia recaíram sobre Lizzie Borden (Chloë Sevigny), a filha mais nova, e a empregada Bridget Sullivan (Kristen Stewart). Ao final das investigações e interrogatórios, chegou-se à conclusão de que Lizzie seria a assassina. Ela foi presa e julgada, sendo absolvida da acusação. O filme detalha os acontecimentos ocorridos nos seis meses anteriores ao crime, começando pela chegada de Bridget, a empregada, que sofreria abuso sexual do patrão e teria um caso lésbico com Lizzie. O diretor Macneill explora a história adicionando muito suspense, cenas violentas e cenas de sexo, além da nudez das duas atrizes principais. Choë Sevigny, além de bonita, é uma grande atriz. Pena que não é tão requisitada pelos grandes estúdios, mais pelo cinema independente - "Lizzie", por sinal, estreou no Festival de Cinema de Sundance, em 2018. A bela Kristen Stewart está apática demais, sem nenhuma expressão, mas é boa atriz e tem crédito de sobra. O filme vale a pena ser visto não só pela história em si, mas pelo excelente desempenho da Sevigny. A mesma história foi tema de outros filmes, um deles "Lizzie Borden Pegou o Machado", produção para a TV com Christina Ricci (também comentado neste blog). 


sexta-feira, 8 de março de 2019

“SE A RUA BEALE FALASSE” (“IF BEALE STREET COULD TALK”), 2018, EUA, 120 minutos, dirigido por Barry Jenkins, que também escreveu o roteiro baseado no romance de James Baldwin lançado em 1974. As famílias de Tish (Kiki Laine) e de Alonzo “Fonny” Hunt (Stephan James) são vizinhas no Harlem. Tish e Fonny cresceram juntos e ainda adolescentes engatam um namoro. A história é ambientada no início dos anos 70, quando Tish está com 19 anos e Fonny com 22. Continuam apaixonados e ela acaba engravidando. Só que um dia Fonny é preso, acusado de estuprar uma jovem porto-riquenha. Ele nega o crime, mas o fato de ser negro já supõe culpa no país racista do Tio Sam, ainda mais naquela época. Tish acredita na inocência do namorado e segue sonhando em ter um lar no futuro com filhos etc. Mas nem sempre os sonhos tornam-se realidade, principalmente para uma minoria segregada. Barry Jenkins fez uma boa adaptação de um dos mais conhecidos romances de James Baldwin, autor também negro que explora, na maioria dos seus livros, a questão racial nos Estados Unidos. Lembro que Jenkins também foi o diretor do poderoso “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, Melhor Filme do Oscar 2017. Por falar em Oscar, “Se a Rua Beale Falasse” foi indicado para três categorias na versão 2019: Atriz Coadjuvante, Roteiro Adaptado e Trilha Sonora. Só levou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, Regina King, que faz a mãe de Tish. Achei que houve injustiça com Kiki Laine, que deveria ter sido indicada para Melhor Atriz e não foi. Ela está ótima. Enfim, “Se a Rua Beale Falasse” é mais um excelente filme da safra 2018, que já nos deu “Green Book”, “A Favorita” e “Bohemian Rhapsody”, entre outros.   

quarta-feira, 6 de março de 2019


“DEDE”, 2017, Georgia, 97 minutos, primeiro longa-metragem dirigido pela diretora Mariam Khatchvani, com roteiro de Vova Kacharava e Irakli Solomonashvili. Esse drama pesado, não fosse georgiano, seria um legítimo drama mexicano. Tem muita tragédia, brigas de famílias que geralmente terminam em morte, casamentos arranjados, mulheres e homens infelizes, pobreza... e por aí afora, sem contar com os cenários de muita neve e um frio de congelar os ossos. A história é toda ambientada em 1992 – logo após a guerra da independência - num vilarejo remoto na zona rural e montanhosa do interior da Geórgia, ex-república soviética. Num arranjo entre as respectivas famílias, a jovem Dina (Nadia Vibliani) está prometida em casamento para um homem que ela não ama. O preferido dela é o jovem Gegi (George Babluani), que por uma infelicidade é amigo do noivo. Dina desmarca o casamento, gerando uma guerra entre as famílias. É nesse contexto dramático que a trama segue até o seu desfecho. O mais interessante desse ótimo drama georgiano é o destaque dado às tradições locais, a principal delas o papel sempre subserviente e humilhante destinado às mulheres. Com exceção de três ou quatro atores profissionais, o restante do elenco é todo constituído por pessoas do próprio vilarejo, o que dá ao filme uma autenticidade e um realismo especiais. Só para lembrar, a Geórgia é um país da Europa Oriental que faz fronteira com Azerbaijão, Armênia e Turquia. A língua oficial é a suana, falada também no filme. Resumo da ópera: “Dede” é excelente. Assisti-lo é uma ótima oportunidade para conhecer um pouco do pouco conhecido cinema georgiano. Para concluir: o filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Karlovy  Vary, na República Tcheca, com muitos elogios da crítica e do público.   

terça-feira, 5 de março de 2019


“COLETTE”, 2018, coprodução EUA/Inglaterra, 1h52m, roteiro de Richard Glatzer e Rebecca Lenkiewicz, com direção de Wash Westmoreland. Trata-se de um filme biográfico que acompanha a trajetória fascinante da romancista francesa Sidonie-Gabrielle Colette, mais conhecida apenas como Colette, que no início do século XX foi um grande sucesso de vendas com suas histórias apimentadas, recheadas de sexo com a personagem Claudine. A sociedade conservadora ficou escandalizada com os temas abordados por Colette. Jovem simples nascida no interior da França, ela foi pedida em casamento pelo então famoso escritor Willy (Dominic West), cujos livros, na verdade, eram escritos por jovens escritores em início de carreira (escritores-fantasmas). Willy só assinava como autor. Colette começou a escrever alguns romances que também seriam assinados por Willy. Anos mais tarde, se cansaria dessa situação, assumindo a autoria, com seu próprio nome, de outros romances, todos sucessos de vendas na época. Em sua vida pessoal, Colette se envolveria sexualmente também com outras mulheres, entre as quais a aristocrata norte-americana George Raoul-Duval (Eleonor Tomlinson) e a atriz de teatro Missy (Denise Gough), romances que seriam descritos em seus livros. Ou seja, para usar um clichê dos mais antigos, Colette era uma mulher à frente do seu tempo. Além de bonita, Keira Knightley é ótima atriz e vários diretores adoram colocá-la em filmes de época, como aconteceu em “Orgulho e Preconceito” e “Desejo e Reparação”, entre tantos outros. Exibido por aqui na programação oficial do Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, em novembro de 2018, “Colette” é um filme de muita qualidade, com um elenco dos melhores, uma excelente fotografia e uma primorosa reconstituição de época.   

segunda-feira, 4 de março de 2019


“O QUE AS PESSOAS VÃO DIZER” (“HVA VIL FOLK SI”, título original em norueguês, e “What Will People Say” nos países de língua inglesa), 2018, Noruega, 1h46m, roteiro e direção da norueguesa Iram Haq (seu segundo longa-metragem). O filme foi selecionado para representar a Noruega na disputa do Oscar 2019 de Melhor Filme, mas não emplacou, embora seja ótimo. Trata-se de um drama cujo pano de fundo é o radicalismo paterno, comum entre as famílias muçulmanas. A história é centrada na jovem Nisha (Maria Mozhdah), nascida e criada em Oslo, capital da Noruega. Aos 16 anos, ela vai a baladas, namora, fuma um baseado de vez em quando, enfim, tudo o que uma garota ocidental está acostumada a fazer. Nisha faz tudo isso bem escondida dos pais imigrantes paquistaneses, Mirza (Adil Hussain) e Najma (Ekavali Khanna), radicais à beira do fundamentalismo quanto às tradições culturais e religiosas de seu país de origem. Quando Nisha é surpreendida com o namorado nas preliminares, seu Mirza acaba espancando o rapaz. O caso termina na delegacia. Najma, a mãe, se desespera: “O que os outros vão dizer?”. Essa preocupação diz respeito, claro, à reputação não só de Nisha, mas de toda a sua família. Depois disso, o pai, num acesso de ódio, decide levar a filha à força para Islamabad (capital do Paquistão), para a casa de sua irmã. Nisha tenta se adaptar aos costumes da família, mas acaba se envolvendo com um primo. Aí a coisa piora de vez. Nisha é obrigada a voltar para Oslo, onde curtirá mais alguns momentos de infelicidade. A gota d’água acontece quando a família arranja um marido paquistanês residente no Canadá para casar com Nisha. O filme, falado em norueguês e urdu, é muito bom e impactante, apresentando uma realidade presente há séculos nas famílias muçulmanas, onde a mulher é desconsiderada como cidadã. Filmaço!  

domingo, 3 de março de 2019


“GREEN BOOK: O GUIA” (“Green Book”), 2018, EUA, 2h10m, roteiro e direção de Peter Farrelly. Antes de assistir a esta pérola, vi “Bohemian Raphsody” e “A Favorita”, outros dois fortes concorrentes ao Oscar 2019 de Melhor Filme. Achei que um desses dois ganharia o prêmio. Se tivesse visto “Green Book” antes da noite da premiação, apostaria nele todas as minhas fichas. Sem dúvida, um filme maravilhoso, sensível, divertido, enfim, cinema da melhor qualidade. O trunfo maior, porém, além da interessante história baseada em fatos reais, é a dupla de atores Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Eles interpretam, respectivamente, o grosseirão Frank “Toni Lip” Vallelonga e o refinado pianista Don Shirley. O filme é ambientado em 1962 – a reconstituição da época é sensacional. Toni Lip trabalhava como segurança na discoteca Copacabana, em Nova Iorque. Quando o estabelecimento fechou para reformas, que durariam mais ou menos três meses, Toni arrumou um “bico” de motorista, assistente e segurança do pianista Don Shirley, um dos mais conceituados músicos de jazz que fazia enorme sucesso com seu “Trio Don Shirley”. Shirley e seu grupo foram contratados para uma turnê em várias cidades do sul, a região mais racista do país. O gozado da situação é que Toni Lip era um racista convicto e que seria obrigado a ter um chefe negro. É desse contexto que Farrelly conseguiu criar as mais hilariantes situações, principalmente no que se refere aos diálogos entre o motorista e seu chefe. Desta vez, Peter não trabalhou com seu irmão Bob, conhecidos como os irmãos Farrelly, responsáveis por ótimas comédias como “Debi & Lóide – Dois Idiotas em Apuros”, “Eu, Eu Mesmo & Irene” e “Quem vai Ficar com Mary?”. Além de dirigir “Green Book”, Peter escreveu o roteiro juntamente com Nick Vallelonga (filho de Toni na vida real) e Brian Hayes Currie. Por seu trabalho em “Green Book”, Mahershala Ali conquistou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. Merecido. Viggo Mortensen concorreu a Melhor Ator, perdendo para Rami Malek, o Fred Mercury de “Bohemian Raphsody”. Mortensen era o grande favorito, pois antes do Oscar já havia sido premiado pela AACTA Internacional Award, pelo Critic’s Choise Award, pelo Bafta, Sindicato dos Atores e pelo Globo de Ouro. Sua atuação é mesmo fantástica. Ele chegou a engordar 20 quilos para interpretar Toni. Como informação adicional, lembro que o Green Book era um livro/guia de hotéis e restaurantes do sul dos EUA que aceitavam afrodescendentes. Quem ainda não assistiu está perdendo a oportunidade de conhecer um dos melhores filmes dos últimos anos. Imperdível!       

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019


“MILLENNIUM: A GAROTA NA TEIA DE ARANHA” (“THE GIRL IN THE SPIDER’S WEB: A NEW DRAGON TATTOO STORY”), 2018, EUA, 1h57m, roteiro e direção do uruguaio Fede Alvarez. Trata-se da quarta adaptação para o cinema da série Millennium, na minha opinião a melhor de todas. A hacker profissional Lisbeth Salander, agora interpretada pela atriz inglesa Claire Foy (a esposa de Neil Armstrong em "O Primeiro Homem"), é contratada para recuperar um programa de computador intitulado “Firefall”, que dá ao seu usuário acesso ilimitado a um imenso arsenal bélico. O programa está em poder do governo norte-americano, mas há outros interessados em se apoderar dele, inclusive um grupo aliado à máfia russa chamado “Aranhas”. O filme foi rodado em locações de Estocolmo e redondezas durante o rigoroso inverno típico dos países nórdicos. As ótimas cenas de ação foram filmadas nesses ambientes. Aliás, o filme tem muita ação, perseguições, tiros e pancadaria, num ritmo bastante frenético. Além de Foy, ótima no papel da anti-heroína, estão no elenco Stephen Merchant, Suerrir Gunadson, Sylvia Hoeks, Lakeita Stanfield e a diva sueca Synnøve Macody Lund. Enfim, um filmaço para quem gosta de filmes de ação. Como informação adicional, lembro que a trilogia Millennium foi iniciada com “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, em 2008, obtendo um grande sucesso mundial de vendas (o livro) e de bilheteria (o filme). Com a morte repentina do autor da série, o jornalista sueco Stieg Larsson, a Editora Norstedts contratou o escritor David Lagercrantz para dar sequência à franquia. Em 2015, seria lançado o livro “Millennium: A Garota na Teia de Aranha” (“Det Som Inte Dödar Oss”), adaptado para o cinema dois anos depois pelo diretor Fede Alvarez.    

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019


“A AMANTE” (“INHEBBEK HEDI”), 2016, Tunísia/Bélgica/França, 88 minutos, primeiro longa-metragem escrito e dirigido por Mohamed Ben Attia (o segundo é de 2018, “Meu Querido Filho”) e produzido pelos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne, conhecidos como os irmãos Dardenne, conceituados diretores de cinema. Um aval e tanto para esta produção do cinema tunisiano. A história é centrada no jovem Hedi (Majd Mastoura), de 25 anos, um sujeito tímido, inseguro e completamente dominado pela mãe autoritária Baya (Sabah Bouzouita). Ele sente um ciúme doentio do irmão mais velho Ahmed (Hakim Boumessoudi), que vive em Paris e cuja esposa não se dá com sua mãe. Como é comum nos países árabes, as famílias muçulmanas escolhem os parceiros para seus filhos. Baya escolhe a bela e doce Khedija (Omnia Ben Ghali), de uma família tradicional da cidade, para casar com Hedi. Mas ele não se entusiasma muito, mas aceita calado, quase mudo. Até o dia em que seu chefe na concessionária Peugeot, onde trabalha como vendedor, o envia a outra cidade, Mahdi, para prospectar novos clientes. No hotel onde está hospedado, à beira-mar, ele conhece a fogosa Rim (Rym Ben Messaoud), cinco anos mais velha, e inicia um romance proibido. Mais paixão do que amor, na verdade. Hedi muda seu comportamento da água para o vinho, torna-se mais falante e alegre. Até o desfecho da história, Hedi terá de decidir se casa com Khedija ou foge do casamento para ficar com Rim. Além da história em si, o filme explora com sensibilidade as tradições familiares dos tunisianos, o que o torna ainda mais interessante. “A Amante” foi exibido por aqui na programação da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2016. No mesmo ano, recebeu dois prêmios no Festival de Berlim: Melhor Filme de Estreia e Melhor Ator (Majd Mastoura). Vale a pena conferir!      

domingo, 24 de fevereiro de 2019


“UMA NOITE DE 12 ANOS” (“La Noche de 12 Años”), 2018, Uruguai, 2h3m, escrito e dirigido por Álvaro Brechner. Selecionado para representar o Uruguai na disputa do Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro, “Uma Noite de 12 Anos” acompanha a prisão, o suplício e o sofrimento de três militantes do grupo guerrilheiro Tupamaros presos pela ditadura militar uruguaia em 1973: Alfonso Torti (Eleutério Fernández Huidobro), Maurício Rosencof (Chino Darín, filho do também ator argentino Ricardo Darín) e José Mujica (Antonio de La Torre) – este último seria eleito presidente do Uruguai em 2009. Ao lado de outros companheiros do Tupamaros, Mujica, Rosencof e Torti foram mantidos em prisões das mais precárias até 1985, quando o o país voltou a ser democrático. Os prisioneiros eram transferidos constantemente de locais, provavelmente quartéis, encapuzados e proibidos de se comunicar uns com os outros. Para diversão dos soldados, eram submetidos a violentas torturas. Um martírio que parecia não ter fim e cuja sobrevivência era encarada com uma grande vitória. O diretor Brechner conseguiu transmitir de forma bastante realista o clima claustrofóbico das prisões e o isolamento que chegou a levar alguns prisioneiros à loucura. Enfim, um filme muito pesado, a quilômetros de distância de um entretenimento agradável. Pelo contexto da história, não poderia ter sido feito de outra maneira. Além da ótima atuação do trio de protagonistas principais, destaco a participação, embora pequena, da grande atriz argentina Soledad Villamill, do espetacular “O Segredo dos Seus Olhos”, que interpreta uma psiquiatra que servia ao regime militar uruguaio. Destaco ainda a fabulosa interpretação da música “The Sound of Silence” (hino da dupla Simon & Garfunkel) pela cantora Sílvia Perez Cruz – de arrepiar! Resumo da ópera: o filme é excelente e merece ser visto por quem gosta de cinema de qualidade.        

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019


“UM HOMEM COMUM” (“AN ORDINARY MAN”), 2017, coprodução EUA/Sérvia, 1h30m, roteiro e direção de Brad Silberling. Um general criminoso de guerra, responsável por genocídios praticados durante a Guerra da Bósnia, na antiga Iugoslávia, é caçado por autoridades internacionais. Protegido por um grupo de antigos oficiais e soldados fiéis, ele circula por Belgrado, na Sérvia, sem ser molestado. Pelo contrário, é admirado pela população, que o trata como um herói nacional. Interpretado pelo ator inglês Ben Kingsley, ele sempre diz, orgulhoso, que cometeu os genocídios em nome da pátria e que é “o único criminoso de guerra que nunca foi levado à justiça”. Ele é obrigado a trocar constantemente de esconderijo e, num deles, aceita os serviços de Tanja (a atriz islandesa Hera Hilmar), uma jovem contratada para ser sua empregada – mais tarde, sua verdadeira função será revelada. O general é uma figura bem desagradável, arrogante, grosseiro e autoritário, dono de uma mente perversa e assassina – mais um show do ator inglês Ben Kinsgley. Esse lado psicológico de um criminoso de guerra é explorado com grande competência pelo diretor norte-americano Brad Silberling, que escreveu o roteiro inspirado no general sérvio Ratko Mladic, que ficou conhecido como “O Açougueiro da Bósnia”, um criminoso de guerra que foi procurado durante 12 anos e finalmente preso, julgado e condenado à prisão perpétua pelo Tribunal Internacional de Haia. O filme apresenta uma nítida estrutura teatral, com apenas dois protagonistas em evidência (o general e a empregada), sem praticamente nenhuma ação, apenas diálogos. Na verdade, o filme é uma espécie de continuação de outro filme com o mesmo nome, “Um Homem Comum” (“A Common Man”), de 2012, no qual Ben Kingsley faz um terrorista que provoca atentados à bomba no Sri Lanka. Nenhum crítico profissional percebeu esse detalhe, só este humilde cinéfilo. O filme ficou em cartaz no circuito comercial em várias cidades brasileiras em novembro e dezembro de 2018.    


Grande vencedor do Prêmio de Melhor Filme da Mostra “Um Certo Olhar” do Festival de Cannes 2017, “UM HOMEM ÍNTEGRO” (“Lerd” – o título nos países de língua inglesa ficou “A Man of Integrity”), 120 minutos, Irã, roteiro e direção de Mohammad Rasoulof, é uma crítica contundente ao governo iraniano, autoridades públicas e policiais, denunciando a corrupção que impera no país (não sei como passou pela rigorosa censura dos aiatolás). Bom lembrar que o filme foi realizado clandestinamente em locações no norte do Irã. Quando voltou dos Estados Unidos, onde participou de um festival que exibiu seu filme, Mohammad Rasoulof teve confiscado seu passaporte para que não pudesse sair mais do país - ele já tinha sido preso em 2010 juntamente com seu colega Jafar Panahi. Para piorar ainda mais a situação de Rasoulof, “Um Homem Íntegro” também foi premiado no Festival de Cinema de Jerusalém, o que aumentou ainda mais o rosnar das autoridades iranianas. Bem, vamos à história: depois de ser demitido como professor de uma escola de Teerã, Reza (Reza Akhlaghirad) resolve se mudar com a esposa Hadis (Sondabeh Beizaee) e o filho para uma zona rural ao norte do Irã, onde compra um terreno e monta um pequeno sítio para criar peixes dourados. O negócio ia bem até que seu vizinho, um tal de Abbas, um rico empresário, resolve um dia cortar o fornecimento de água. Ao reclamar, Reza acaba brigando com Abbas, que o processa pelo fato de ter quebrado seu braço. Daí para a frente, Reza viverá um verdadeiro inferno, terá que lidar com funcionários judiciários e policiais que exigem propina – para desespero da sua esposa, Reza não aceita o jogo dos corruptos e acaba sofrendo por isso. Ele e sua família. O filme é excelente e um de seus maiores trunfos é, sem dúvida, além do primoroso roteiro, a grande atuação da dupla de atores principais: Reza Akhlagfhirad e a belíssima Sondabeh Beizaee. Resumo da ópera: cinema da mais alta qualidade. Imperdível!  

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019


“UM AUTÊNTICO VERMEER” (“EEN ECHTE VERMEER”), 2016, Holanda, 1h55m, roteiro e direção de Rudolf Van Den Berg. Trata-se de uma história baseada em fatos reais, ou seja, a trajetória do pintor holandês Han Van Meegeren (Jeroen Spitzenberger), que ficou famoso na Amsterdã dos anos 20 do século passado por apresentar, em suas telas, um estilo semelhante aos grandes pintores clássicos holandeses do Século 17, Rembrandt e Johannes Vermeer. Seu sucesso, porém, teria vida curta, principalmente depois que conheceu e se apaixonou pela atriz de teatro Jolanka Lakatos (Lize Feryn), casada com Abraham Bredius (Porgy Franssen), o mais importante marchand e crítico de arte da Holanda. Enciumado pelo assédio de Meegeren sobre sua esposa, Bredius destruiu a carreira de Meegeren, que resolveu se vingar não apenas tornando-se amante de Jolanka, como também pintando telas falsas de Vermeer para o oponente comercializar como sendo verdadeiras. O filme acompanha a trajetória de Meegeren até depois da Segunda Guerra Mundial, quando ele é julgado como suspeito de colaborar com o exército nazista que ocupou a Holanda durante o conflito - ele presenteou os oficiais alemães e até Hitler com algumas de suas obras. O diretor holandês Van Den Berg (“Süskind” e “Tirza”) acertou ao escolher uma história tão interessante e pouco conhecida. Acertou também na escolha do elenco, na fotografia e, principalmente, na reconstituição de época – figurinos e cenários. Por aqui, o filme foi exibido durante a programação oficial da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Vale a pena assistir!