sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Gerard Butler já provou que é bom ator. Com competência, atuou em filmes de ação (“300”, “Invasão à Casa Branca”, “Invasão a Londre”), em filmes românticos (“P.S. Eu Te Amo”) e comédias como “Caçador de Recompensa”, ao lado de Jennifer Aniston. No drama “UM HOMEM DE FAMÍLIA” (“A FAMILY MAN”), 2016, o ator escocês encarou um papel mais sério e conflituoso, o de um recrutador (“headhunter”) corporativo inescrupuloso de Chicago, Dane Jensen, que joga sujo, manipulando currículos e fornecendo informações falsas. Seu chefe, Ed Blackridge (Willem Dafoe) é um tirano obcecado por resultados e exigente com sua equipe, a ponto de obrigar o pessoal a trabalhar depois do expediente e aos finais de semana. Jensen entra nesse ritmo e pouco se dedica à esposa Elise (Gretchen Mol) e aos três filhos, o que provoca discussões que colocam o casal a toda hora à beira de uma crise conjugal. Ele diz que se dedica tanto a arrumar emprego para muita gente que se considera “um verdadeiro herói americano”. A situação fica pior quando Blackridge anuncia que vai se aposentar em três meses e que indicará seu sucessor entre Jensen e Lyn Vogel (Alison Brie), dependendo do desempenho de cada um até o final daquele período. Somente depois que Ryan (Max Jenkins), seu filho mais velho, fica gravemente doente é que Jensen começa a mudar os seus conceitos. Dirigido por Mark Williams – seu filme de estreia como diretor – e escrito por Bill Dubuque (“O Juiz” e “O Contador”), “Um Homem de Família” pode ser visto apenas como um filme mediano, sem muitos atrativos para merecer uma recomendação entusiasmada.                                              

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O suspense francês “NOCTURAMA”, 2015, escrito e dirigido por Bertrand Bonello,  explora um tema de bastante evidência neste início de século: os atos terroristas. No caso, ataques em Paris praticados por sete jovens, que explodem prédios públicos simbólicos dos poderes político e financeiro do país, assassinam executivos de bancos e incendeiam carros e até a estátua de Joana D’Arc, ao lado do Louvre. Não ficou claro, pelo menos para mim, qual a motivação dos cinco rapazes e duas moças. Não são muçulmanos – apenas dois ou três são descendentes de árabes – e não têm qualquer ideologia política.  São apenas jovens perdidos na vida, sem perspectiva de futuro numa Europa em plena recessão, talvez se rebelando contra uma sociedade injusta e um modelo econômico que privilegia apenas os ricos. Nada é esclarecido. O filme é elaborado como se tivesse duas partes, antes - o planejamento - e após os atentados. Depois de cometê-los, eles se escondem à noite numa grande loja de departamentos sem saber o que fazer quando o dia amanhecer. Com exceção do desfecho, que é movimentado, o restante do filme é bastante entediante. Bertrand Bonello é cultuado pelos críticos profissionais desde que dirigiu “L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância” e “Saint Laurent”). Nas entrevistas coletivas que concedeu à imprensa, ele garante que o projeto de “Nocturama” surgiu bem antes da onda de atentados que atingiu Paris em novembro de 2015, o mesmo acontecendo com as filmagens. A polêmica em torno do filme chegou ao Festival de Cannes 2016, que o retirou da programação. Dessa forma, ele estreou no Festival de Toronto e depois foi exibido no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, em outubro de 2016. No Festival de Mar Del Plata, foi o vencedor do prêmio de Melhor Fotografia. É um filme pesado, longe de um entretenimento agradável. Talvez seja interessante apenas por apresentar uma estética bastante inusitada.                                             

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Representante oficial da Grécia no Oscar 2015 para disputar a categoria “Melhor Filme Estrangeiro”, “LITTLE ENGLAND” (“MIKRA ANGLIA”), escrito e dirigido por Pantelis Vougaris, é uma adaptação do romance da escritora grega Ioanna Karystiani – na vida real, esposa do diretor. A história é toda ambientada na Ilha de Andros, cujos habitantes têm uma relação muito próxima com o mar. Os homens, em geral, trabalham nos navios seja como oficiais ou tripulantes, vivem viajando o tempo inteiro, enquanto suas esposas os aguardam – impossível não associar com a música “Mulheres de Atenas”, do Chico Buarque, que trata justamente dessa espera das mulheres por seus homens. O centro da história é a trajetória da família Santaferou desde o início dos anos 30 até o final da década de 40 do século passado. O patriarca da família é Savvas (Vasilis Vasilakis), capitão de navio que há 30 anos percorre os mares do mundo, com pouco tempo para visitar a esposa Mina (Aneza Papadopoulou) e as filhas Orsa (Pinelopi Tsilika) e Moscha (Sofia Kokkali). Desde crianças, Moscha e Orsa liam com orgulho as cartas do pai descrevendo os países que visitava. Mina criou as meninas com todo rigor e, quando chegou a hora de casá-las, faz tudo para encontrar os maridos certos, obrigando-as a aceitá-los – ambos, claro, capitães de navio. Orsa casa com um homem que não ama. Seu grande amor é Spyros (Andreas Konstantinou). Por outro lado, Moscha está feliz da vida com seu casamento, mas nem tudo será um mar de rosas. Embora o tom seja assumidamente novelesco, o roteiro é muito bem elaborado. A fotografia, o excelente elenco e os cenários deslumbrantes também merecem destaque. Enfim, um ótimo programa.                                         

domingo, 20 de agosto de 2017

“A IDADE DAS SOMBRAS” (“Mil-jeong”, título original, ou “Age of Shadows”, como foi lançado em países de língua inglesa), 2016, Coréia do Sul, 2h21m, escrito e dirigido por Jee-Woon Kim ("História de Duas Irmãs', “O Último Desafio” e “Eu vi o Diabo”). A história é ambientada no início da década de 20, quando os japoneses ocupavam a Coréia (o país ficou sob o domínio do Japão de 1910 a 1945). A narrativa é centrada num plano dos membros da resistência coreana de contrabandear uma grande quantidade de explosivos de Xangai (China) para Seul e cometer atentados contra as autoridades militares japonesas. A peça-chave do plano é o policial japonês Lee Jung-Chool (Song Hang-Ho), encarregado de se infiltrar e identificar as lideranças da resistência. Coreano de nascimento, Jung-Chool fará um jogo duplo até o desfecho da história, servindo a cada um dos lados do conflito. Trata-se de uma superprodução do cinema sul-coreano, um emocionante filme de espionagem repleto de ação e um suspense de tirar o fôlego. A sequência inicial, durante a qual um dos membros da resistência é perseguido pelas ruas de Seul por soldados japoneses é simplesmente espetacular. Tudo funciona muito bem, desde a impecável reconstituição de época, o roteiro e as cenas de ação realizadas num ritmo frenético, até a fotografia e a trilha sonora, com direito a Ravel e Louis Armstrong. O filme foi o representante oficial da Coréia do Sul ao prêmio de “Melhor Filme Estrangeiro” no Oscar/2017. Deixe de lado qualquer preconceito contra o cinema asiático e embarque nessa grande aventura. Vale a pena!                                      

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Exibido por aqui como uma das principais atrações do Festival Varilux de Cinema Francês 2017, o drama “CORAÇÃO E ALMA” (“Réparer Les Vivants”), de 2015, é o terceiro longa-metragem escrito e dirigido pela diretora Katell Quillévéré (os dois primeiros foram “Suzanne” e “Um Poison Violent”) - Katell nasceu na Costa do Marfim e mais tarde mudou para a França, naturalizando-se francesa. O roteiro foi adaptado do livro “Réparer Les Vivants”, de Maylis de Kerangal, e tem como pano de fundo a importância da doação de órgãos para salvar vidas. O filme é dividido em três segmentos. O primeiro conta a história de três jovens que sofrem um grave acidente numa estrada. Um deles, Simon (Gabin Verdet), entra em coma e logo tem decretada morte cerebral, para desespero de seus pais, Marianne (Emmanuelle Seigner) e Vincent (Kool Shen). Thomas Rémige (o ótimo Tahar Rahim), um dos médicos do hospital, tenta convencê-los a permitir a doação dos órgãos de Simon. Começa a segunda história, desta vez centrada em Claire (Anne Dorval), que tem uma doença cardíaca muito grave que só um transplante de coração a salvará. Não há muito tempo. Divorciada e com dois filhos jovens, Claire espera que seus médicos consigam logo um coração. Enquanto isso, tenta se reconciliar com a amante (Alice Taglione) mais jovem, uma pianista clássica de grande sucesso. O terceiro e último segmento explora os preparativos pré-operatórios e a operação em si, mostrada em detalhes como se fosse uma aula para estudantes de medicina, o que não deixa de ser interessante para nós, os leigos. Não vou contar o desfecho, deixando no ar a dúvida se a história terá um final feliz ou não. Uma coisa é certa: trata-se de mais um bom drama francês que merece ser visto.                                    

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Fazia algum tempo que Robert De Niro estava nos devendo uma atuação e um filme à altura de sua competência. Ele acaba de pagar essa dívida com a comédia “O COMEDIANTE” (“The Comedian”), 2016, roteiro da dupla Art Linson e Jeffrey Ross e direção de Taylor Hackford (“O Advogado do Diabo”, “Ray” e “Prova de Vida”), casado com a atriz inglesa Helen Mirren. De Niro interpreta Jack Burke, que três décadas antes fez um enorme sucesso numa série televisiva. Agora, em decadência, arruma uns trocados se apresentando em bares e eventos como comediante de stand-up. Ele apela para um humor debochado, escatológico, pornográfico e ofensivo. Numa de suas apresentações, Burke agride um espectador com o microfone, acaba preso e condenado a prestar serviços comunitários. Num abrigo para moradores de rua, onde serve comida, Burke conhece Harmony (Leslie Mann, ótima), por quem acaba se apaixonando. O filme tem ótimos momentos de humor, embora o personagem de De Niro seja desagradável e apelativo. O filme abre espaço para alguns comediantes de stand-up, mas fiquei em dúvida se foi uma homenagem ou uma crítica, pois um é mais sem graça que o outro – sabe aquele humor norte-americano, que só eles conseguem rir? Também estão no elenco Danny DeVito, Cloris Leachman, Harvey Keitel, Veronica Ferres, Charles Grodin e Edie Falco.                                

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

“NORMAN: CONFIE EM MIM.” (“NORMAN: THE MODERATE RISE AND TRAGIC FALL OF THE NEW YORK FIXER”), 2016, é o primeiro filme em língua inglesa do diretor israelense Joseph Cedar (de “Beaufort” e “Nota de Rodapé”, ambos indicados ao Oscar de Filme Estrangeiro). A história é centrada em Norman Oppenheimer (Richard Gere), um sujeito que perambula por Nova Iorque tentando se aproximar de pessoas de destaque – políticos, empresários e até religiosos – e se oferecer como intermediário para os mais variados negócios. Uma espécie de lobista, que se apresenta com um cartão de visitas com a inscrição “Oppenheimer Strategies”. Um cara chato, inconveniente, falador ao extremo, que finge ser íntimo de pessoas importantes. Um dia ele conhece Micha Eschel (Lior Ashkenazi), um político israelense sem muita notoriedade. Três anos depois, porém, ele é eleito Primeiro Ministro de Israel. Micha não esquece seu amigo Norman, que três anos antes o presenteou com um caríssimo par de sapatos. O inverossímil permeia toda a história, a começar pelo personagem de Gere, cujo comportamento beira a esquizofrenia. Além de Gere e Ashkenazi, estão no elenco Michael Sheen, Dan Stevens, Charlotte Gainsbourg e Steve Buscemi. Só para esclarecer: a tradução do título original é “A Ascensão Modesta e a Queda de um Embrulhão Nova-Iorquino”. Complicado demais, assim como o filme inteiro. Alguns críticos profissionais gostaram, ressaltando uma certa semelhança com os filmes de Woody Allen. Discordo totalmente: Allen é infinitamente melhor.                                     

domingo, 13 de agosto de 2017

“BOKEH” (ainda sem tradução por aqui), 2017, EUA/Islândia, roteiro e direção de Geoffrey Orthwein e Andrew Sullivan. Trata-se de uma ficção científica centrada num casal de turistas norte-americanos que resolve passar as férias na Islândia. Um dia, ao acordarem, Riley (Mattew O’Leary) e Jenai (Maika Monroe) se dão conta de que não há viva alma na cidade – deve ser a capital, Reykjavik. Sumiu todo mundo, só ficaram os dois, não há comunicação com o mundo externo, a Internet não funciona. Enfim, estão totalmente isolados. A partir daí, o espectador é envolvido pela expectativa de saber o que aconteceu, assim como qual será o destino dos dois personagens. No início, o casal fica deslumbrado com a situação. Vão ao shopping, escolhem as melhores roupas, vão ao supermercado e levam tudo que interessa, sem pagar nada, pois não há ninguém para cobrar. Um verdadeiro sonho para os consumistas. Mas os dias vão se passando e a pergunta “O que está acontecendo?” vira uma obsessão. Depois vem o tédio. Eles tentam passar o tempo indo pra lá e pra cá buscando uma explicação. A história é inverossímil – claro, é uma ficção científica -, e o transcorrer do filme é entediante, pois nada de importante acontece até o trágico desfecho. Os diálogos, então, são de uma profundidade milimétrica. Mas uma coisa é certa: não dá para não ficar extasiado com os deslumbrantes cenários naturais da Islândia, como as geleiras, a Lagoa Azul, os geysers, os campos de flores e outras paisagens características da ilha. É tudo muito bonito, o que nos faz desconfiar que o filme pode ter sido patrocinado pelo governo da Islândia para incentivar o turismo. Só mais um detalhe: “Bokeh”, o título original, refere-se a um termo em fotografia que significa a validade estética do borrão em imagens fora de foco. Tudo muito estranho, como o filme inteiro.                                       

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O drama israelense “A PROFESSORA DO JARDIM DE INFÂNCIA” (“HAGANENET”), 2014, escrito e dirigido por Nadav Lapit, não é daqueles filmes fáceis de digerir. No início, parece que vamos assistir a um filme leve, alegre, com a participação de muitas crianças. Aos poucos, porém, o clima de tensão vai tomando conta da história, transformando o filme num dos mais perturbadores já feitos pelo cinema israelense. A história é centrada na professora Nira (Sarit Larry), que toma conta de crianças num jardim de infância de uma escola em Tel Aviv. Ela é casada, tem um filho no exército e sonha em ser poeta. Mas falta-lhe inspiração. Um dia, ela descobre que um de seus alunos, Yoav Pollak (Avi Shnaidman), de 5 anos, tem um talento incrível para a poesia. A babá do garoto, Miri (Ester Rada), conta que a inspiração chega quando ele, de repente, começa a andar de um lado para o outro. É nesses momentos que ele declama seus poemas, e Miri os anota. Abalada psicologicamente por não conseguir escrever poemas tão bonitos, Nira fica obcecada pelo garoto, chegando a copiar seus poemas para declamá-los nas reuniões de jovens poetas dizendo serem de sua autoria. Sua obsessão aumenta tanto a ponto de transformá-la numa quase psicopata. A atuação da atriz Sarit Larry é impressionante, principalmente a mudança de sua expressão de uma professora meiga para uma mulher rancorosa e maldosa. O filme estreou no Festival de Cannes 2014 e foi exibido por aqui como uma das atrações da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2016. Vale a pena conferir.                                      

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Para quem gosta de um bom suspense policial, repleto de tensão e reviravoltas, “UM CONTRATEMPO” (“Contratiempo”), 2016, Espanha, vai agradar em cheio. O filme começa com o empresário Adrián Doria (Mario Casas) indo com sua amante Laura Vidal (Bárbara Lennie) para sua casa de campo. No caminho, porém, acontecerá um contratempo, ou seja, um acidente de carro que culminará na morte do outro motorista. A partir daí, a vida dos dois amantes vira um verdadeiro inferno. Cada um dos amantes tem seu cônjuge, são bem casados e ficam desesperados que descubram o seu caso, ainda mais que Adrián é um empresário de sucesso, muito conhecido e respeitado. Dessa forma, tentam encobrir o que aconteceu na estrada. Mas não será fácil, pois os pais do rapaz morto não darão trégua até descobrir toda a verdade. O filme reserva muitas surpresas, o que mantém o interesse do espectador até o desfecho, quando acontecerá a grande reviravolta da história. No elenco, destaque também para as presenças marcantes de José Coronado e Ana Wagener. O destaque negativo é mais um desempenho medíocre do galã espanhol Mario Casas, mais canastrão do que ator, mas o restante do elenco segura as pontos, principalmente Bárbara Lennie. “Um Contratempo” merece uma visita.   


sábado, 5 de agosto de 2017

“HIPÓCRATES” (“Hippocrate”), 2014, França, marcou a estreia no roteiro e direção de Thomas Lilti. Trata-se de uma singela homenagem ao trabalho dos médicos, principalmente aqueles que estão se iniciando na profissão, os chamados residentes. A narrativa alterna momentos dramáticos com outros de bom humor, tornando o filme um ótimo entretenimento. A história acompanha um grupo de médicos residentes em sua rotina de plantões exaustivos, enfrentando suas inseguranças quanto a um diagnóstico ou mesmo suas dúvidas em decidir sobre o procedimento correto a aplicar num paciente. O diretor Lilti, também médico na vida real, é responsável por outro excelente filme sobre o tema da medicina, “Médecin de Campagne” (aqui traduzido por “Insubstituível”), lançado em 2016, com o astro François Cluzet. A história de “Hipócrates” é centrada em Benjamin Barois (Vicente Lacoste), um jovem de 23 anos recém-formado em Medicina, que começa sua residência num hospital de Paris cujo diretor é seu pai, o respeitável Dr. Barois (Jacques Gamblin). Nos primeiros dias de trabalho, Benjamin se vê à frente com inúmeros casos difíceis, um deles envolvendo um morador de rua alcoólatra que costuma tumultuar os plantões do hospital. Por isso, recebeu o apelido de “Tsunami” (Therry Levaret). Benjamin ficou responsável pelo paciente, que morreria horas depois. Sentindo-se culpado, o jovem médico recebe o apoio de outro médico residente, Abdel Rezzak (Reda Kateb), formado na Argélia – para exercer a profissão na França, o médico já diplomado em outro país é obrigado a fazer residência. A história destaca os bastidores do trabalho desses médicos, com suas inseguranças, falta de recursos e muito estresse. O filme foi lançado no Festival de Cannes 2014, com críticas bastante elogiosas. No ano seguinte, Reda Caleb conquistaria, merecidamente, o Prêmio César (o Oscar francês) de “Melhor Ator". Enfim, um filme bastante agradável de assistir. 


                                                                 


                                   

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Todo mundo conhece o envolvimento do ator norte-americano Sean Penn em causas políticas e humanitárias. Em seu quinto filme como diretor - “A ÚLTIMA FACE” (“THE LAST FACE”) –, Penn denuncia a situação dos refugiados africanos obrigados a sair dos seus países de origem para não serem mortos e faz uma crítica pesada à omissão dos países ricos. O roteiro, escrito por Erin Dignam, destaca os crimes de guerra ocorridos na Libéria e outros países africanos. A história é centrada num grupo de médicos voluntários de uma ONG chamada “Médicos do Mundo”, cujo papel é socorrer as populações em zonas de conflito, arriscando suas próprias vidas. Um desses médicos é o espanhol Miguel Leon (Javier Barden). Numa de suas missões ele conhece Wren Petersen (Charlize Theron), também médica e diretora de uma agência humanitária. Eles e mais alguns outros médicos tentam fazer o possível para salvar o maior número de pessoas, mesmo em condições bastante precárias, além de enfrentar a violência e o sadismo de soldados dos exércitos rebeldes. Sean Penn não economiza nas cenas chocantes. Se a sua intenção foi chocar as plateias, acertou em cheio. Por outro lado, fica evidente a influência do diretor Terrence Malick, com o qual Penn fez o abominável “A Árvore da Vida”. Como nos filmes de Malick, estão lá os cenários contemplativos da Natureza, com florestas e o céu avermelhado, ilustrando monólogos existencialistas narrados in-off por algum personagem. Essas partes são chatérrimas. Também fazem parte do elenco Adèle Exarchopoulos, Jean Reno e Jared Harris. O filme estreou na 69ª edição do Festival de Cannes 2016, concorrendo à Palma de Ouro. Recebeu duras críticas e ainda foi eleito o pior filme do festival. Também me decepcionou bastante.         

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O drama argentino “O AMIGO ALEMÃO” (“El Amigo Alemán”), 2012, roteiro e direção de Jeanine Meerapfel, apresenta como pano de fundo diversos acontecimentos históricos e políticos, como a queda de Juan Domingo Perón em 1955, até o período nefasto da ditadura militar argentina (1976-1983), além de explorar temas como o nazismo, os movimentos esquerdistas de 1968 na Europa e a queda de Salvador Allende no Chile. Um filme, enfim, situado num forte contexto político. A história é centrada em dois amigos de infância, vizinhos num bairro de classe média alta de Buenos Aires, Sulamit Löwnstein e Friedrich Burg. Amizade que tinha tudo para dar errado, pois ela faz parte de uma família de refugiados judeus e ele é filho de um casal de alemães também refugiados. Além disso, o pai de Friedrich teria sido um oficial da SS durante a Segunda Grande Guerra. Para desespero das duas famílias, Sulamit e Friedrich assumem o namoro e seus destinos estarão ligados por mais de trinta anos. O elenco é muito bom, com destaque para Celeste Cid, Max Riemelt, Benjamin Sadler, Noemi Frankel e Jean Pierre Noher. Mais um belo filme argentino, exibido por aqui como uma das atrações da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016.    

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Em 1955, o jornalista Denne Bart Petitclerc, do jornal The Miami Herald, escreveu uma carta para o seu ídolo, o escritor Ernest Hemingway, agradecendo por ter sido ele o grande incentivador de sua carreira. Hemingway gostou tanto da carta que telefonou para Denne convidando-o para visitá-lo em Cuba, onde morava há décadas. A partir dessa primeira visita, o jovem jornalista ficou amigo de Hemingway e de sua esposa Mary. A história dessa amizade é contada em “PAPA – HEMINGWAY IN CUBA”, 2016, EUA, direção de Bob Yari, o primeiro filme norte-americano filmado em território cubano desde 1959. Denne, no filme Ed Myers (Giovanni Ribisi), aproveitava suas visitas ao grande escritor para escrever reportagens não só sobre Hemingway, mas também sobre a situação política de Cuba, às vésperas da revolução comandada por Fidel Castro. Hemingway (Adrian Sparks, cuja semelhança com o escritor é impressionante) é mostrado como realmente devia ser, um beberrão contumaz, um gênio irascível, briguento e, naquela época em que a história é ambientada, em crise criativa e conjugal. Todas as filmagens ocorreram em Cuba nos lugares originais frequentados por Hemingway, incluindo seu bar favorito (“La Floridita”) e a casa onde morou o escritor com Mary (Joely Richardson, filha de Vanessa Redgrave), no vilarejo de San Francisco de Paula, a 25 quilômetros de Havana. Aliás, o roteiro do filme foi submetido à aprovação do governo cubano, que o aprovou sem restrições (tudo isso antes do fim do embargo promovido por Obama). Filmaço!  

                                                                   

domingo, 30 de julho de 2017

“PASTORAL AMERICANA” (“American Pastoral”), EUA, 2016, marca a estreia na direção do ator escocês Ewan McGregor, que também está no elenco. Com roteiro de John Romano, baseado em livro homônimo de Philip Roth, o filme tem como pano de fundo a conturbada década de 60 nos EUA, com manifestações violentas em prol dos direitos civis dos negros, protestos também violentos contra a Guerra do Vietnã e atentados terroristas praticados pelos próprios norte-americanos. O filme acompanha, desde os anos 50, a trajetória de Seymour Levov (McGregor), que ficou famoso no início dos anos 50 como “O Sueco”, astro do futebol americano universitário e herdeiro de uma bem sucedida fábrica de luvas. Ele acabaria casando com a bela Dawn (Jennifer Connelly, cada vez mais bonita; deve ter bebido da fonte da juventude), eleita miss em vários concursos. Enfim, formavam um casal lindo e invejado por muitos. Até nascer a filha deles, Merry (Dakota Fanning na fase adulta), uma criança problemática que sofria de uma gagueira crônica. Pouco depois de passar a fase adolescente, Merry resolve se insurgir contra o sistema, transformando-se numa ativista política radical e envolvida com um grupo terrorista (um tipo Patty Hearst). Depois de um atentado pelo qual foi acusada, Merry some do mapa e vira uma fugitiva, para desespero dos pais. E por aí vai a história. O filme vale mais pelo elenco, que ainda conta com David Strathairn, Molly Parker e Peter Riegart. McGregor poderia ter feito um filme mais interessante, principalmente pelo excelente material deixado por Philip Roth. O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2016.                                                                         


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Premiado em vários festivais de cinema europeus, o drama espanhol “A PRÓXIMA PELE” (“La Próxima Piel”), 2016, produzido pela Netflix, foi escrito e dirigido pela dupla Isaki Lacuesta e Isa Campo. A história é ambientada num vilarejo ao norte da Catalunha, próximo à fronteira com a França. Gabriel, um garoto de oito anos de idade, desapareceu misteriosamente quando brincava nas montanhas. Oito anos depois, sua mãe Ana (Emma Suárez, estrela do recente “Julieta”, de Almodovar), ao folhear uma revista com fotos de um abrigo para delinquentes, viu um garoto de 16 anos chamado Leo, que acreditou ser o seu filho. Resolve, então, adotá-lo, mesmo que tenha sido desaconselhada pelos seus amigos mais próximos, como o cunhado Enric (Sergí López). O comportamento estranho do garoto leva a crer que ele não é o menino desaparecido, mas Ana continua acreditando que sim, numa espécie de cegueira materna, própria de uma mulher carente e desesperada. Ela até se recusa a fazer exame de DNA. O filme é repleto de suspense, pois o espectador fica esperando que o garoto, que tem constantes ataques de fúria e ansiedade, cometa um ato trágico.  Não dá para contar mais sem correr o risco de revelar o desfecho surpreendente. Um drama de primeira que vale a pensa ser conferido.                                                                     


                                   

terça-feira, 25 de julho de 2017

“SMUKKE MENNESKER” (“Pessoas Bonitas”, na tradução literal do dinamarquês, ou “Nothing’s All Bad”, como foi traduzido em países de língua inglesa). Nenhum desses títulos traduz com exatidão o conteúdo desse polêmico filme dinamarquês de 2010, escrito e dirigido por Mikkel Munch-Fals. Trata-se de um filme completamente diferente do que estamos acostumados a assistir. Não é fácil de digerir, pois explora taras sexuais, prostituição, mutilação, carências afetivas e outros temas indigestos. Mas, para amenizar, apresenta algumas pitadas de humor negro. A trama é centrada em quatro personagens, cada qual com seus problemas psicológicos. Ingeborg (Bodil Jørgensen) é uma senhora que acaba de ficar viúva e sofre de carência afetiva. Anna (Mille Lehfeldt), sua filha, alimenta um forte complexo de mutilação depois de ter extirpado um dos seios. Outro personagem problemático é o cinquentão Anders (Henrik Prip), um exibicionista sexual cuja tara é se masturbar em público. Seu filho Jonas (Sebastian Jessen) é um belo jovem que presta qualquer tipo de favor sexual a quem pagar por ele. De uma forma ou de outra, esses personagens irão se cruzar durante a narrativa, talvez o único fato previsível dessa surpreendente produção dinamarquesa. Trata-se de um filme que passa longe de qualquer apelo comercial, tanto é que não foi exibido em nossos cinemas. Mesmo sendo um tanto esquisito, dá para curtir numa boa.                                                                  

segunda-feira, 24 de julho de 2017

“A EXCEÇÃO” (“The Exception”), 2016, Inglaterra, direção de David Leveaux. Mais uma boa história, desta vez fictícia, ambientada durante a Segunda Guerra Mundial. O roteiro foi escrito por Simon Burke, inspirado no romance “The Kaiser’s Last Kiss” (2003), de Alan Judd. Em 1940, temerosos de que o Kaiser Wilhelm II (Christopher Plummer), na época exilado na Holanda, aceite um possível convite de Winston Churchill para fixar residência na Inglaterra, os nazistas enviam o capitão Stefan Brandt (Jai Courtney) para vigiá-lo e, para despistar, cuidar de sua segurança. Ao mesmo tempo, a Gestapo descobre a existência de um espião inglês no vilarejo próximo à mansão em que o antigo imperador da Alemanha está morando com a esposa Hermine (Janet McTeer). Em meio ao suspense criado pela caçada ao espião, o capitão Brandt acaba se apaixonando por uma das empregadas do casarão, a jovem e bela judia Mieke de Jong (Lily James). Para o clima de tensão aumentar ainda mais, Heinrich Himmler (Eddie Marsan), braço direito de Hitler e chefão das temidas tropas SS, resolve visitar o Kaiser com o objetivo de convidá-lo a retornar à Alemanha. Uma armadilha, claro. O suspense continua até o desfecho, transformando esta boa produção inglesa num ótimo entretenimento. No elenco, destaque para a atuação magistral dos veteranos Christopher Plummer e Janet McTeer. A jovem atriz Lily James (“Cinderela”) também está ótima. Para quem gosta de temas ligados à Segunda Grande Guerra, como eu, um programão!                                                              
“A ODISSEIA” (“L’Odyssée”), 2016, França, 122 minutos, roteiro e direção de Jérôme Salle (“Anthony Zimmer”, “Largo Winch”, “Zulu”). Trata-se de um filme biográfico do pesquisador, oceanográfico, escritor e inventor Jacques-Yves Cousteau (1910-1997), que ficou mundialmente famoso ao percorrer os mares do mundo a bordo do “Calypso”, navio transformado em laboratório móvel. O filme acompanha a trajetória de Cousteau durante 30 anos, desde que passou a se dedicar às pesquisas do mundo submarino no final da década de 40. Alguns de seus documentários, como “Mundo do Silêncio” (1956) e “O Mundo sem Sol” (1964), foram premiados em importantes festivais de cinema. Sua fama aumentou ainda mais com a série televisiva “O Mundo Submarino de Jacques Cousteau”, produzida pela BBC e exibida no mundo inteiro. “A Odisseia” não é só elogios ao grande pesquisador.  Apresenta um Cousteau (Lambert Wilson) visionário e egocêntrico, autoritário, mulherengo e perdulário, com dificuldades de relacionamento com a esposa Simone (Audrey Tatou) e com os filhos gêmeos Philippe (Pierre Niney) e Jean-Michel (Benjamin Lavernhe). O filme é um dos mais caros já realizados pelo cinema europeu – seu orçamento chegou aos 35 milhões de euros –, mas certamente foi compensado por resultar numa produção nada menos do que espetacular. A fotografia é esplendorosa, assim como os cenários, o roteiro e, principalmente, as filmagens submarinas, além de um elenco de primeira. Lambert Wilson é um show como Cousteau. Um dos melhores filmes franceses da década. Não dá para perder!                                                         


domingo, 23 de julho de 2017

“A ODISSEIA DE ALICE” (“Fidelio, L’Odyssée D’Alice”), 2014, marcou a estreia como roteirista e diretora da atriz francesa Lucie Borleteau. Uma belíssima estreia, aliás. A história é centrada na engenheira naval Alice (Ariane Labed), que em suas viagens de trabalho é sempre a única mulher da tripulação entre dezenas de homens. Ou seja, quando está em serviço nos navios, ela vive num mundo predominantemente masculino. Apesar disso, ela faz questão de se igualar aos tripulantes machos, não apenas no trabalho em si, enfrentando a dura rotina de descer à casa das máquinas e se sujar de óleo e graxa, como também se vangloriar de ter feito sexo nos cinco continentes. Uma abordagem bastante feminista da diretora ao colocar a personagem Alice em pé de igualdade com a tripulação masculina. A história é ambientada no cargueiro “Fidelio”, depois que o engenheiro-chefe morre num acidente. Alice assume seu lugar e, ao embarcar, reencontra o capitão Gaël, um antigo namorado. Os dois voltam a ter um caso e, numa conversa, Alice destaca um antigo lema dos marinheiros: “O que acontece no mar, fica no mar”. Gaël é casado e Alice tem um namorado norueguês, Félix (Anders Danielsen Lie). Quando fica em dúvida entre os dois, ela acaba transando com outro membro da tripulação, sem remorso ou qualquer pudor. Mas sua consciência começa a pesar e ela sofrerá com a possibilidade de ficar sem ninguém. Um trabalho fenomenal da competente e bela atriz grega Ariane Labed, revelada no abominável filme grego "Attenberg", de 2010, e atualmente bastante requisitada pelo cinema francês.  "A Odisseia de Alice" é um daqueles filmes indicados para quem curte cinema de qualidade.                                                             

terça-feira, 18 de julho de 2017

Existem dois bons motivos para assistir “O MAGO DAS MENTIRAS” (“The Wizard of Lies”): primeiro, a presença de astros como Robert De Niro e Michelle Pfeiffer. Segundo, a história bombástica da maior fraude financeira já ocorrida nos EUA, cometida pelo consultor financeiro Bernard Madoff nos anos 90 até 2008, quando foi preso e o esquema todo revelado. Madoff conseguiu arrecadar 65 bilhões de dólares por intermédio de falsas aplicações em fundos inexistentes, enganando milhares de investidores, entre os quais muita gente importante do meio artístico. O filme foi inspirado no livro escrito pela jornalista Diana B. Henriques, do The New York Times, que apresenta os bastidores de todo o processo, as investigações feitas pelo FBI e a desintegração da família de Madoff, aqui incluído o suicídio de um de seus filhos, Mark (Alessandro Nivola). Madoff (De Niro) é mostrado como um homem egocêntrico, autoritário, inescrupuloso, frio e calculista. Enfim, um sujeito dos mais desagradáveis. Michelle Pfeiffer, de volta ao cinema, tem um papel quase decorativo, mas continua bonita, charmosa e boa atriz. A produção é da HBO, com direção de Barry Levinson, e foi exibida diretamente na TV, estreando no último dia 20 de maio. É provável, portanto, que não chegue ao circuito comercial dos cinemas. Não custa ficar atento à programação da HBO, que certamente voltará a exibí-lo.                                                        

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Baseado em fatos reais, o drama inglês “NEGAÇÃO” (“Denial”), 2016, Inglaterra, foi levado às telas com roteiro de David Hare e direção de Mick Jackson. O início de toda a história remonta à segunda metade da década de 70, quando o historiador David Irving (Timothy Spall) escreve um livro defendendo a tese de que Adolf Hitler não ordenou e nem sabia do genocídio de judeus nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Na publicação, Irving ainda coloca em dúvida a própria existência do Holocausto, atribuindo a invenção aos judeus, que queriam, com isso, ganhar dinheiro. Alguns anos depois, a pesquisadora norte-americana Deborah Lipstadt (Rachel Weisz) escreve um livro em que desmente o historiador, que entra com um processo de difamação contra ela. O caso vai a julgamento em 1994. Com riqueza de detalhes, o filme mostra os bastidores do julgamento e as estratégias da equipe de advogados constituídos para defender Deborah, comandada pelo experiente jurista Richard Rampton (Tom Wilkinson). Uma das cenas mais importantes e impactantes é a visita dos advogados e da própria Deborah ao campo de concentração de Auschwitz. O roteiro do filme foi inspirado no livro “History on Trial: My Day in Court with a Holocaust Denier”, escrito pela própria pesquisadora e publicado em 2015. O pior de tudo é que, ainda hoje, tem muita gente que acredita que o Holocausto nunca existiu.