sábado, 5 de agosto de 2017

“HIPÓCRATES” (“Hippocrate”), 2014, França, marcou a estreia no roteiro e direção de Thomas Lilti. Trata-se de uma singela homenagem ao trabalho dos médicos, principalmente aqueles que estão se iniciando na profissão, os chamados residentes. A narrativa alterna momentos dramáticos com outros de bom humor, tornando o filme um ótimo entretenimento. A história acompanha um grupo de médicos residentes em sua rotina de plantões exaustivos, enfrentando suas inseguranças quanto a um diagnóstico ou mesmo suas dúvidas em decidir sobre o procedimento correto a aplicar num paciente. O diretor Lilti, também médico na vida real, é responsável por outro excelente filme sobre o tema da medicina, “Médecin de Campagne” (aqui traduzido por “Insubstituível”), lançado em 2016, com o astro François Cluzet. A história de “Hipócrates” é centrada em Benjamin Barois (Vicente Lacoste), um jovem de 23 anos recém-formado em Medicina, que começa sua residência num hospital de Paris cujo diretor é seu pai, o respeitável Dr. Barois (Jacques Gamblin). Nos primeiros dias de trabalho, Benjamin se vê à frente com inúmeros casos difíceis, um deles envolvendo um morador de rua alcoólatra que costuma tumultuar os plantões do hospital. Por isso, recebeu o apelido de “Tsunami” (Therry Levaret). Benjamin ficou responsável pelo paciente, que morreria horas depois. Sentindo-se culpado, o jovem médico recebe o apoio de outro médico residente, Abdel Rezzak (Reda Kateb), formado na Argélia – para exercer a profissão na França, o médico já diplomado em outro país é obrigado a fazer residência. A história destaca os bastidores do trabalho desses médicos, com suas inseguranças, falta de recursos e muito estresse. O filme foi lançado no Festival de Cannes 2014, com críticas bastante elogiosas. No ano seguinte, Reda Caleb conquistaria, merecidamente, o Prêmio César (o Oscar francês) de “Melhor Ator". Enfim, um filme bastante agradável de assistir. 


                                                                 


                                   

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Todo mundo conhece o envolvimento do ator norte-americano Sean Penn em causas políticas e humanitárias. Em seu quinto filme como diretor - “A ÚLTIMA FACE” (“THE LAST FACE”) –, Penn denuncia a situação dos refugiados africanos obrigados a sair dos seus países de origem para não serem mortos e faz uma crítica pesada à omissão dos países ricos. O roteiro, escrito por Erin Dignam, destaca os crimes de guerra ocorridos na Libéria e outros países africanos. A história é centrada num grupo de médicos voluntários de uma ONG chamada “Médicos do Mundo”, cujo papel é socorrer as populações em zonas de conflito, arriscando suas próprias vidas. Um desses médicos é o espanhol Miguel Leon (Javier Barden). Numa de suas missões ele conhece Wren Petersen (Charlize Theron), também médica e diretora de uma agência humanitária. Eles e mais alguns outros médicos tentam fazer o possível para salvar o maior número de pessoas, mesmo em condições bastante precárias, além de enfrentar a violência e o sadismo de soldados dos exércitos rebeldes. Sean Penn não economiza nas cenas chocantes. Se a sua intenção foi chocar as plateias, acertou em cheio. Por outro lado, fica evidente a influência do diretor Terrence Malick, com o qual Penn fez o abominável “A Árvore da Vida”. Como nos filmes de Malick, estão lá os cenários contemplativos da Natureza, com florestas e o céu avermelhado, ilustrando monólogos existencialistas narrados in-off por algum personagem. Essas partes são chatérrimas. Também fazem parte do elenco Adèle Exarchopoulos, Jean Reno e Jared Harris. O filme estreou na 69ª edição do Festival de Cannes 2016, concorrendo à Palma de Ouro. Recebeu duras críticas e ainda foi eleito o pior filme do festival. Também me decepcionou bastante.         

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O drama argentino “O AMIGO ALEMÃO” (“El Amigo Alemán”), 2012, roteiro e direção de Jeanine Meerapfel, apresenta como pano de fundo diversos acontecimentos históricos e políticos, como a queda de Juan Domingo Perón em 1955, até o período nefasto da ditadura militar argentina (1976-1983), além de explorar temas como o nazismo, os movimentos esquerdistas de 1968 na Europa e a queda de Salvador Allende no Chile. Um filme, enfim, situado num forte contexto político. A história é centrada em dois amigos de infância, vizinhos num bairro de classe média alta de Buenos Aires, Sulamit Löwnstein e Friedrich Burg. Amizade que tinha tudo para dar errado, pois ela faz parte de uma família de refugiados judeus e ele é filho de um casal de alemães também refugiados. Além disso, o pai de Friedrich teria sido um oficial da SS durante a Segunda Grande Guerra. Para desespero das duas famílias, Sulamit e Friedrich assumem o namoro e seus destinos estarão ligados por mais de trinta anos. O elenco é muito bom, com destaque para Celeste Cid, Max Riemelt, Benjamin Sadler, Noemi Frankel e Jean Pierre Noher. Mais um belo filme argentino, exibido por aqui como uma das atrações da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016.    

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Em 1955, o jornalista Denne Bart Petitclerc, do jornal The Miami Herald, escreveu uma carta para o seu ídolo, o escritor Ernest Hemingway, agradecendo por ter sido ele o grande incentivador de sua carreira. Hemingway gostou tanto da carta que telefonou para Denne convidando-o para visitá-lo em Cuba, onde morava há décadas. A partir dessa primeira visita, o jovem jornalista ficou amigo de Hemingway e de sua esposa Mary. A história dessa amizade é contada em “PAPA – HEMINGWAY IN CUBA”, 2016, EUA, direção de Bob Yari, o primeiro filme norte-americano filmado em território cubano desde 1959. Denne, no filme Ed Myers (Giovanni Ribisi), aproveitava suas visitas ao grande escritor para escrever reportagens não só sobre Hemingway, mas também sobre a situação política de Cuba, às vésperas da revolução comandada por Fidel Castro. Hemingway (Adrian Sparks, cuja semelhança com o escritor é impressionante) é mostrado como realmente devia ser, um beberrão contumaz, um gênio irascível, briguento e, naquela época em que a história é ambientada, em crise criativa e conjugal. Todas as filmagens ocorreram em Cuba nos lugares originais frequentados por Hemingway, incluindo seu bar favorito (“La Floridita”) e a casa onde morou o escritor com Mary (Joely Richardson, filha de Vanessa Redgrave), no vilarejo de San Francisco de Paula, a 25 quilômetros de Havana. Aliás, o roteiro do filme foi submetido à aprovação do governo cubano, que o aprovou sem restrições (tudo isso antes do fim do embargo promovido por Obama). Filmaço!  

                                                                   

domingo, 30 de julho de 2017

“PASTORAL AMERICANA” (“American Pastoral”), EUA, 2016, marca a estreia na direção do ator escocês Ewan McGregor, que também está no elenco. Com roteiro de John Romano, baseado em livro homônimo de Philip Roth, o filme tem como pano de fundo a conturbada década de 60 nos EUA, com manifestações violentas em prol dos direitos civis dos negros, protestos também violentos contra a Guerra do Vietnã e atentados terroristas praticados pelos próprios norte-americanos. O filme acompanha, desde os anos 50, a trajetória de Seymour Levov (McGregor), que ficou famoso no início dos anos 50 como “O Sueco”, astro do futebol americano universitário e herdeiro de uma bem sucedida fábrica de luvas. Ele acabaria casando com a bela Dawn (Jennifer Connelly, cada vez mais bonita; deve ter bebido da fonte da juventude), eleita miss em vários concursos. Enfim, formavam um casal lindo e invejado por muitos. Até nascer a filha deles, Merry (Dakota Fanning na fase adulta), uma criança problemática que sofria de uma gagueira crônica. Pouco depois de passar a fase adolescente, Merry resolve se insurgir contra o sistema, transformando-se numa ativista política radical e envolvida com um grupo terrorista (um tipo Patty Hearst). Depois de um atentado pelo qual foi acusada, Merry some do mapa e vira uma fugitiva, para desespero dos pais. E por aí vai a história. O filme vale mais pelo elenco, que ainda conta com David Strathairn, Molly Parker e Peter Riegart. McGregor poderia ter feito um filme mais interessante, principalmente pelo excelente material deixado por Philip Roth. O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2016.                                                                         


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Premiado em vários festivais de cinema europeus, o drama espanhol “A PRÓXIMA PELE” (“La Próxima Piel”), 2016, produzido pela Netflix, foi escrito e dirigido pela dupla Isaki Lacuesta e Isa Campo. A história é ambientada num vilarejo ao norte da Catalunha, próximo à fronteira com a França. Gabriel, um garoto de oito anos de idade, desapareceu misteriosamente quando brincava nas montanhas. Oito anos depois, sua mãe Ana (Emma Suárez, estrela do recente “Julieta”, de Almodovar), ao folhear uma revista com fotos de um abrigo para delinquentes, viu um garoto de 16 anos chamado Leo, que acreditou ser o seu filho. Resolve, então, adotá-lo, mesmo que tenha sido desaconselhada pelos seus amigos mais próximos, como o cunhado Enric (Sergí López). O comportamento estranho do garoto leva a crer que ele não é o menino desaparecido, mas Ana continua acreditando que sim, numa espécie de cegueira materna, própria de uma mulher carente e desesperada. Ela até se recusa a fazer exame de DNA. O filme é repleto de suspense, pois o espectador fica esperando que o garoto, que tem constantes ataques de fúria e ansiedade, cometa um ato trágico.  Não dá para contar mais sem correr o risco de revelar o desfecho surpreendente. Um drama de primeira que vale a pensa ser conferido.                                                                     


                                   

terça-feira, 25 de julho de 2017

“SMUKKE MENNESKER” (“Pessoas Bonitas”, na tradução literal do dinamarquês, ou “Nothing’s All Bad”, como foi traduzido em países de língua inglesa). Nenhum desses títulos traduz com exatidão o conteúdo desse polêmico filme dinamarquês de 2010, escrito e dirigido por Mikkel Munch-Fals. Trata-se de um filme completamente diferente do que estamos acostumados a assistir. Não é fácil de digerir, pois explora taras sexuais, prostituição, mutilação, carências afetivas e outros temas indigestos. Mas, para amenizar, apresenta algumas pitadas de humor negro. A trama é centrada em quatro personagens, cada qual com seus problemas psicológicos. Ingeborg (Bodil Jørgensen) é uma senhora que acaba de ficar viúva e sofre de carência afetiva. Anna (Mille Lehfeldt), sua filha, alimenta um forte complexo de mutilação depois de ter extirpado um dos seios. Outro personagem problemático é o cinquentão Anders (Henrik Prip), um exibicionista sexual cuja tara é se masturbar em público. Seu filho Jonas (Sebastian Jessen) é um belo jovem que presta qualquer tipo de favor sexual a quem pagar por ele. De uma forma ou de outra, esses personagens irão se cruzar durante a narrativa, talvez o único fato previsível dessa surpreendente produção dinamarquesa. Trata-se de um filme que passa longe de qualquer apelo comercial, tanto é que não foi exibido em nossos cinemas. Mesmo sendo um tanto esquisito, dá para curtir numa boa.                                                                  

segunda-feira, 24 de julho de 2017

“A EXCEÇÃO” (“The Exception”), 2016, Inglaterra, direção de David Leveaux. Mais uma boa história, desta vez fictícia, ambientada durante a Segunda Guerra Mundial. O roteiro foi escrito por Simon Burke, inspirado no romance “The Kaiser’s Last Kiss” (2003), de Alan Judd. Em 1940, temerosos de que o Kaiser Wilhelm II (Christopher Plummer), na época exilado na Holanda, aceite um possível convite de Winston Churchill para fixar residência na Inglaterra, os nazistas enviam o capitão Stefan Brandt (Jai Courtney) para vigiá-lo e, para despistar, cuidar de sua segurança. Ao mesmo tempo, a Gestapo descobre a existência de um espião inglês no vilarejo próximo à mansão em que o antigo imperador da Alemanha está morando com a esposa Hermine (Janet McTeer). Em meio ao suspense criado pela caçada ao espião, o capitão Brandt acaba se apaixonando por uma das empregadas do casarão, a jovem e bela judia Mieke de Jong (Lily James). Para o clima de tensão aumentar ainda mais, Heinrich Himmler (Eddie Marsan), braço direito de Hitler e chefão das temidas tropas SS, resolve visitar o Kaiser com o objetivo de convidá-lo a retornar à Alemanha. Uma armadilha, claro. O suspense continua até o desfecho, transformando esta boa produção inglesa num ótimo entretenimento. No elenco, destaque para a atuação magistral dos veteranos Christopher Plummer e Janet McTeer. A jovem atriz Lily James (“Cinderela”) também está ótima. Para quem gosta de temas ligados à Segunda Grande Guerra, como eu, um programão!                                                              
“A ODISSEIA” (“L’Odyssée”), 2016, França, 122 minutos, roteiro e direção de Jérôme Salle (“Anthony Zimmer”, “Largo Winch”, “Zulu”). Trata-se de um filme biográfico do pesquisador, oceanográfico, escritor e inventor Jacques-Yves Cousteau (1910-1997), que ficou mundialmente famoso ao percorrer os mares do mundo a bordo do “Calypso”, navio transformado em laboratório móvel. O filme acompanha a trajetória de Cousteau durante 30 anos, desde que passou a se dedicar às pesquisas do mundo submarino no final da década de 40. Alguns de seus documentários, como “Mundo do Silêncio” (1956) e “O Mundo sem Sol” (1964), foram premiados em importantes festivais de cinema. Sua fama aumentou ainda mais com a série televisiva “O Mundo Submarino de Jacques Cousteau”, produzida pela BBC e exibida no mundo inteiro. “A Odisseia” não é só elogios ao grande pesquisador.  Apresenta um Cousteau (Lambert Wilson) visionário e egocêntrico, autoritário, mulherengo e perdulário, com dificuldades de relacionamento com a esposa Simone (Audrey Tatou) e com os filhos gêmeos Philippe (Pierre Niney) e Jean-Michel (Benjamin Lavernhe). O filme é um dos mais caros já realizados pelo cinema europeu – seu orçamento chegou aos 35 milhões de euros –, mas certamente foi compensado por resultar numa produção nada menos do que espetacular. A fotografia é esplendorosa, assim como os cenários, o roteiro e, principalmente, as filmagens submarinas, além de um elenco de primeira. Lambert Wilson é um show como Cousteau. Um dos melhores filmes franceses da década. Não dá para perder!                                                         


domingo, 23 de julho de 2017

“A ODISSEIA DE ALICE” (“Fidelio, L’Odyssée D’Alice”), 2014, marcou a estreia como roteirista e diretora da atriz francesa Lucie Borleteau. Uma belíssima estreia, aliás. A história é centrada na engenheira naval Alice (Ariane Labed), que em suas viagens de trabalho é sempre a única mulher da tripulação entre dezenas de homens. Ou seja, quando está em serviço nos navios, ela vive num mundo predominantemente masculino. Apesar disso, ela faz questão de se igualar aos tripulantes machos, não apenas no trabalho em si, enfrentando a dura rotina de descer à casa das máquinas e se sujar de óleo e graxa, como também se vangloriar de ter feito sexo nos cinco continentes. Uma abordagem bastante feminista da diretora ao colocar a personagem Alice em pé de igualdade com a tripulação masculina. A história é ambientada no cargueiro “Fidelio”, depois que o engenheiro-chefe morre num acidente. Alice assume seu lugar e, ao embarcar, reencontra o capitão Gaël, um antigo namorado. Os dois voltam a ter um caso e, numa conversa, Alice destaca um antigo lema dos marinheiros: “O que acontece no mar, fica no mar”. Gaël é casado e Alice tem um namorado norueguês, Félix (Anders Danielsen Lie). Quando fica em dúvida entre os dois, ela acaba transando com outro membro da tripulação, sem remorso ou qualquer pudor. Mas sua consciência começa a pesar e ela sofrerá com a possibilidade de ficar sem ninguém. Um trabalho fenomenal da competente e bela atriz grega Ariane Labed, revelada no abominável filme grego "Attenberg", de 2010, e atualmente bastante requisitada pelo cinema francês.  "A Odisseia de Alice" é um daqueles filmes indicados para quem curte cinema de qualidade.                                                             

terça-feira, 18 de julho de 2017

Existem dois bons motivos para assistir “O MAGO DAS MENTIRAS” (“The Wizard of Lies”): primeiro, a presença de astros como Robert De Niro e Michelle Pfeiffer. Segundo, a história bombástica da maior fraude financeira já ocorrida nos EUA, cometida pelo consultor financeiro Bernard Madoff nos anos 90 até 2008, quando foi preso e o esquema todo revelado. Madoff conseguiu arrecadar 65 bilhões de dólares por intermédio de falsas aplicações em fundos inexistentes, enganando milhares de investidores, entre os quais muita gente importante do meio artístico. O filme foi inspirado no livro escrito pela jornalista Diana B. Henriques, do The New York Times, que apresenta os bastidores de todo o processo, as investigações feitas pelo FBI e a desintegração da família de Madoff, aqui incluído o suicídio de um de seus filhos, Mark (Alessandro Nivola). Madoff (De Niro) é mostrado como um homem egocêntrico, autoritário, inescrupuloso, frio e calculista. Enfim, um sujeito dos mais desagradáveis. Michelle Pfeiffer, de volta ao cinema, tem um papel quase decorativo, mas continua bonita, charmosa e boa atriz. A produção é da HBO, com direção de Barry Levinson, e foi exibida diretamente na TV, estreando no último dia 20 de maio. É provável, portanto, que não chegue ao circuito comercial dos cinemas. Não custa ficar atento à programação da HBO, que certamente voltará a exibí-lo.                                                        

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Baseado em fatos reais, o drama inglês “NEGAÇÃO” (“Denial”), 2016, Inglaterra, foi levado às telas com roteiro de David Hare e direção de Mick Jackson. O início de toda a história remonta à segunda metade da década de 70, quando o historiador David Irving (Timothy Spall) escreve um livro defendendo a tese de que Adolf Hitler não ordenou e nem sabia do genocídio de judeus nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Na publicação, Irving ainda coloca em dúvida a própria existência do Holocausto, atribuindo a invenção aos judeus, que queriam, com isso, ganhar dinheiro. Alguns anos depois, a pesquisadora norte-americana Deborah Lipstadt (Rachel Weisz) escreve um livro em que desmente o historiador, que entra com um processo de difamação contra ela. O caso vai a julgamento em 1994. Com riqueza de detalhes, o filme mostra os bastidores do julgamento e as estratégias da equipe de advogados constituídos para defender Deborah, comandada pelo experiente jurista Richard Rampton (Tom Wilkinson). Uma das cenas mais importantes e impactantes é a visita dos advogados e da própria Deborah ao campo de concentração de Auschwitz. O roteiro do filme foi inspirado no livro “History on Trial: My Day in Court with a Holocaust Denier”, escrito pela própria pesquisadora e publicado em 2015. O pior de tudo é que, ainda hoje, tem muita gente que acredita que o Holocausto nunca existiu.                                                         


“KÓBLIC”, Argentina, 2016, é um drama escrito e dirigido por Sebastián Borensztein (“Um Conto Chinês”). O pano de fundo de toda a história é a ditadura militar argentina (1976/1983). O capitão Tomás Kóblic (Ricardo Darín) abandona o exército depois de protagonizar os terríveis “voos da morte”, durante os quais inimigos do regime eram drogados e jogados vivos de aviões no Rio da Prata ou em alto mar. Kóblic era quem pilotava esses aviões, o que lhe acarretou grandes problemas de consciência e recordações traumáticas. Kóblic se refugia num vilarejo fictício chamado Colonia Elena e vai trabalhar numa pequena empresa de aviões agrícolas que fazem a pulverização de plantações. A presença da Kóblic desperta a curiosidade dos moradores, principalmente do delegado Velarde (Oscar Martínez), um psicopata assassino de cachorros. Velarde vai perseguir Kóblic e tentar descobrir a verdade sobre o seu passado. Em meio a tantos problemas, Kóblic acaba se apaixonando por Nancy (a atriz espanhola Inma Cuesta), esposa do dono de um posto de gasolina. A história acaba virando um caso de polícia, com assassinatos e muito suspense. É claro que o astro Ricardo Darín domina o cenário, mas este não é o seu melhor filme. Longe disso. Mas sua presença, sempre marcante, valoriza qualquer produção. Acho que vi quase todos os seus filmes e recomendo, como imperdíveis, alguns deles, como “O Filho da Noiva”, “Truman”, “Abutres”, “Conto Chinês” e o melhor de todos, “O Segredo dos seus Olhos”, vencedor do Oscar 2010 de Melhor Filme Estrangeiro.                                                     


quarta-feira, 12 de julho de 2017

“DRONE”, Canadá, 2017, escrito e dirigido por Jason Bourque (“Black Fly”). Trata-se de um suspense que explora um tema dos mais atuais: a utilização de drones para fins militares. No caso, aviões que lançam mísseis para eliminar terroristas. Neil Winstin (Sean Bean, de “Senhor dos Anéis” e “Game of Thrones”) é contratado pela CIA para operar esses drones. Ele mora num pacato subúrbio de classe média alta em Washington com a esposa Ellen (Mary McCormack) e o filho Shane (Maxwell Haynes). Neil mantém em segredo sua atividade. Ele diz para a família, amigos e vizinhos, que trabalha numa empresa de computação. Certo dia, aparece um sujeito chamado Imir Shaw (Patrick Sabong, de “Uma Noite no Museu 3”), interessado em comprar o barco que pertencia ao pai de Neil, recentemente falecido. O espectador logo percebe que o homem misterioso, que se identificou como paquistanês em viagem a trabalho nos EUA, está escondendo uma segunda intenção, claramente relacionada com o lançamento de um míssel numa cidade do Paquistão e que ocasionou a morte de alguns civis. É melhor ficar por aqui para não estragar o desfecho. O filme não é ruim, mantém um bom ritmo de suspense e tensão, mas poderia ter um final mais bem elaborado. Vale para uma sessão da tarde.                                                

domingo, 9 de julho de 2017

Vencedor do Prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Berlim 2014, o drama alemão “14 ESTAÇÕES DE MARIA” (“KREUZWEG”) foi escrito e dirigido por Dietrich Brüggeman (“Corra se puder”). O enredo segue a trajetória de Maria (Lea van Acken), uma garota de 14 anos criada por uma família católica conservadora. Dividida em 14 segmentos que lembram as estações da Via-Crúcis de Jesus Cristo antes da ser crucificado (o título original "Kreuzweg" significa Via-Crúcis), a história apresenta Maria como uma garota de muita fé e obediente aos preceitos da religião católica. Ela segue as orientações do Padre Weber (Florian Stetter), de uma congregação que prefere seguir uma linha mais rígida, ao contrário da abertura estimulada pelo Concílio Vaticano II. A comunidade onde vive Maria não aceita, por exemplo, músicas gospel ou soul, consideradas obras satânicas. O melhor exemplo de fanatismo religioso, porém, vem da própria mãe de Maria, interpretada pela excelente Franziska Weisz. Cada um dos segmentos foi filmado com a câmera estática, com os atores se movimentando dentro do quadro, numa concepção que lembra muito um espetáculo teatral. O filme é bastante verborrágico. No primeiro segmento, por exemplo, num curso preparatório para a Crisma, o padre Weber fala sem parar durante 15 minutos, durante os quais destaca alguns dos principais preceitos da Igreja Católica para um grupo de crianças. Trata-se de um filme não muito fácil de digerir, um tanto pesado, mas, sem dúvida, um excelente trabalho de roteiro, direção e fotografia.                                           

sábado, 8 de julho de 2017

O drama australiano “PARTISAN”, 2015, escrito e dirigido por Ariel Kleiman (é seu longa de estreia), conta a história de uma comunidade secreta, à parte da sociedade, situada na periferia de alguma cidade, provavelmente na Austrália, onde as filmagens realmente aconteceram. Quem chefia o lugar é o misterioso Gregori (o ator francês Vincent Cassel), cuja intenção é – pelo menos o que dá a entender – transformar as crianças em futuros assassinos de aluguel para eliminar seus desafetos. Alexander (Jeremy Chabriel), seu filho adotivo e o garoto mais velho da turma, já possui algumas mortes no currículo. Por mais contraditório que pareça, é Alexander quem vai confrontar o seu mentor, numa reviravolta pra lá de inesperada. Quase nada do que acontece é explicado ao espectador. Algumas mães convivem com seus filhos na comunidade e assistem a tudo numa atitude pra lá de passiva, em meio a aulas de culinária, sessões de karaokê etc. É um filme bastante estranho, pesado, desagradável, sem muito nexo, totalmente aberto a interpretações. Não dá pra entender também como um ator tão conceituado como Vincent Cassel está fazendo nesse filme. Aliás, difícil entender como alguém faz um filme como esse, que não passa de uma bobagem monumental.                                           

quarta-feira, 5 de julho de 2017

“PREDADORES DO AMOR” (“Hounds of Love), Austrália, 2016, filme que marca a estreia do jovem Ben Young como roteirista e diretor. Uma boa estreia, aliás. Trata-se de um suspense baseado num caso real ocorrido na segunda metade da década de 80 na Austrália. O casal John (Stephen Curry) e Evelyn (Emma Booth) costumava sequestrar garotas, trancafiá-las num quarto e abusar delas sexualmente. Uma das vítimas, Vicky Maloney (Ashleigh Cummins) sofreu o diabo nas mãos dos dois psicopatas pervertidos, mas foi suficientemente inteligente para planejar uma estratégia com o objetivo de jogar um contra o outro. Desde a cena inicial, quando os dois desequilibrados assistem a uma partida de vôlei entre meninas e o olhar de ambos parece selecionar uma nova vítima, até o desfecho, o clima de tensão é de arrepiar, mesmo que o cenário de quase todo o filme seja unicamente o interior da casa da dupla de sádicos. A trilha sonora também é utilizada com maestria para aumentar o suspense. O elenco está muito bem, com destaque para o ator Stephen Curry, mais conhecido na Austrália como comediante. Seu comportamento é mesmo de assustar. Como o filme é baseado em fatos reais, achei que faltou no final a informação do que aconteceu com os personagens reais depois de tudo. Prepare-se para roer as unhas...                                    


                                   

segunda-feira, 3 de julho de 2017

“ROSAS A CRÉDITO” (“Roses à Crédit”), 2010, França, roteiro e direção de Amos Gitaï (“Free Zone”, “Kadosh” e “Kedma”). É uma adaptação do romance da escritora francesa Elsa Triolet, lançado em 1959, cujo pano de fundo é o esforço dos franceses em reerguer o país após anos de conflito. A história é centrada em Marjoline (Léa Seydoux) e Daniel (Grégoire Leprince-Ringuet), jovens que resolvem se casar logo após o final da Segunda Grande Guerra. Daniel trabalha com o pai Georges (Pierri Arditi) na produção de rosas, negócio que é uma tradição da família. Marjoline trabalha num salão de beleza, mas tem sonhos consumistas que estão fora do orçamento do casal. Aí a coisa complica, as dívidas aumentam e o casamento entra em crise. Trata-se de mais um bom trabalho do diretor israelense, cuja temática habitual é voltada para as questões que envolvem Israel e o Oriente Médio. Destaco a exuberante recriação de época, incluindo figurinos, cenários, trilha sonora e o comportamento social dos franceses. Com esse filme, a bela Léa Seydoux, na época com 25 anos, se consolidou como uma atriz bastante promissora. Nos anos seguintes, sua carreira daria um grande salto, quando estrelou, sempre em papéis de destaque, filmes como "007 contra Spectre", "Missão Impossível: Protocolo Fantasma", "Meia-Noite em Paris" e o polêmico "Azul é a Cor mais Quente". Hoje, Seydoux já é uma das melhores e mais requisitadas atrizes francesas da atualidade, devendo ocupar, em pouco tempo, o lugar da diva Isabelle Huppert.                            


domingo, 2 de julho de 2017

Quando filmou o excelente “Almas Silenciosas”, em 2010, o cineasta russo Aleksey Fedorchenko entrou em contato com a cultura do povo Mari, que habita uma região nas Montanhas Urais ao Norte da Rússia (Bashkortostão e Tatarstão). Os habitantes chegam hoje a 600 mil e são conhecidos por conservarem suas seculares tradições pagãs. Certamente para divulgar essa rica e interessante cultura, Fedorchenko realizou, em 2012, o filme “ESPOSAS CELESTIAIS DO PRADO MARI” (“Nebesnye Zheny Iugovykh Mari”), inspirado no livro de contos escrito por Denis Osokin, por sinal autor do roteiro. São 23 histórias curtas, cada uma identificada pelo nome de uma personagem. Ou seja, cada segmento leva o nome de uma mulher. O filme explora as tradições do povo Mari, mostrando seus estranhos rituais voltados para conseguir um objetivo. Por exemplo: arrumar um marido, engravidar, eliminar marcas de nascença, afastar maus espíritos etc. Muita sexualidade e misticismo, o que fez com que fosse chamado de “Decameron do Leste”, referência ao polêmico filme de 1971 do diretor italiano Pier Paolo Pasolini. O filme, realizado com financiamento do Ministério da Cultura da Federal Russa, é muito interessante, principalmente por nos apresentar uma cultura que poucos de nós lemos a respeito ou ouvimos falar.                            


quinta-feira, 29 de junho de 2017

Depois de dirigir “Post Mortem”, “No” (indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013), e “O Clube”, o diretor chileno Pablo Larraín caiu nas graças da crítica especializada e de Hollywood. Tanto é que depois dirigiu “Jackie”, com Natalie Portman. Todos os seus filmes têm um fundo político muito forte, explorando, principalmente, períodos de ditadura vividos pelo povo chileno. Não foi de outra forma que dirigiu “NERUDA”, com roteiro de Guilhermo Calderón (que também escreveu “Violeta foi para o Céu” e “O Clube”). “Neruda” é ambientado em 1948, quando o grande poeta chileno era senador da república e ligado ao partido comunista. Para não ser preso, Neruda empreendeu uma fuga pelo sul do país até chegar à Argentina. Não há muitos registros históricos sobre essa aventura. Dessa forma, Guilhermo Calderón e Larraín imaginaram o que teria ocorrido e criaram uma narrativa ficcional centrada na perseguição do policial Oscar Peluchoneau (Gael Garcia Bernal) a Neruda (Luis Gnecco). A fotografia, os figurinos e os cenários lembram os filmes noir de antigamente – Neruda era fã da literatura policial norte-americana. Muitos trechos dos principais poemas escritos por Neruda aparecem na narrativa in-off, o que, ao invés de reforçar o contexto das situações, tornou o filme um tanto cansativo. A semelhança física do ator com o poeta é impressionante. Pena que sua atuação ficou um tanto caricatural. O filme foi selecionado para representar o Chile no Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro. De qualquer forma, é um filme de Larraín e que, por isso mesmo, merece ser conferido.                       

terça-feira, 27 de junho de 2017

“VOCÊ SERÁ UM HOMEM” (“Tu Serás un Homme”), França, 2014, escrito e dirigido por Benoit Cohen. Confesso que fiquei desconfiado e não muito motivado a assistir, a começar pelo título estranho e também como foi concebido, misturando espanhol e francês. Além disso, não tinha referências sobre o diretor e o elenco, repleto de gente desconhecida. Por fim, a capinha do DVD, com aquela foto de alguém vestindo uma máscara das mais esquisitas. Pensei: lá vem bomba! Decidi finalmente conferir e, para minha surpresa, acabei assistindo um filme bastante interessante e agradável, um ótimo programa para uma sessão da tarde. A história: Léo (Aurelio Cohen), um garoto de 10 anos esperto e inteligente, vive enfurnado na biblioteca do pai devorando livros de poesia. Ele não recebe muito carinho e atenção nem do pai (Grégoire Monsaingeon) nem da mãe (Eléonore Pourriat), que sofre da síndrome do pânico e não sai de casa há três anos. Ao colocar um anúncio procurando uma babá para cuidar de Léo, quem aparece e acaba contratado é o jovem Théo (Aurelio Cohen). Em pouco tempo, Théo e Léo ficam amigos inseparáveis. Com seu jeito alegre e descontraído, Théo também cai nas graças da mãe. O pai, enciumado, não gosta da situação e acaba demitindo Théo e contratando uma nova babá, desta vez uma bela garota. Aí começa a confusão, pois a nova babá é nada menos do que a ex-namorada de Théo. O filme privilegia o bom humor, embora aborde temas sérios como amadurecimento, amizade e relacionamento familiar. A simpatia dos atores é mais um trunfo que torna este filme francês uma boa dica de entretenimento.              

domingo, 25 de junho de 2017

Em 2007, uma equipe pertencente à Ong francesa “Arca de Zoé” tentou resgatar 103 crianças órfãs do Chade para levá-las à França para adoção. Para evitar os trâmites burocráticos de imigração, a ação teria de ser secreta, envolvendo visitas às aldeias perto da fronteira de Darfur, além do aluguel de um Boeing-737 para transportar as crianças. Porém, por trás de uma aparente ação humanitária, havia outras intenções não muito escrupulosas. Essa história foi transformada no filme “OS CAVALEIROS BRANCOS” (“Les Chevaliers Blancs”), 2015, França/Bélgica, direção de Joachim Lafosse, que escreveu o roteiro juntamente com Thomas Van Zuylen, Julie de Carpentries e Zélia Abade, com base no livro “Les Chevaliers Blancs”, de François-Xavier Pinte e Geoffroy D’Ursel. Os personagens da história real receberam nomes fictícios, como Jacques Arnault (Vincent Lindon), chefe da missão, Laura (Louise Bourgoin), a repórter Françoise (Valérie Donzelli) e Xavier (Reda Kateb), além de médicos e enfermeiros. A Ong do filme foi intitulada “Move for Kids”. Ao invés de priorizar o clima de tensão e perigo enfrentado pela equipe em suas visitas às aldeias em meio a uma guerra civil, o diretor preferiu destacar a rotina do grupo e os desentendimentos entre seus integrantes, que divergiam sobre as verdadeiras intenções da Ong. Com essa opção, Lafosse privilegiou a falação ao invés da ação. De qualquer forma, vale pela presença sempre marcante de Vincent Lindon e pela história em si, que ficou pouco conhecida por aqui.