Premiado em vários festivais de cinema europeus, o
drama espanhol “A PRÓXIMA PELE” (“La Próxima Piel”), 2016,
produzido pela Netflix, foi escrito e dirigido pela dupla Isaki Lacuesta e Isa
Campo. A história é ambientada num vilarejo ao norte da Catalunha, próximo à
fronteira com a França. Gabriel, um garoto de oito anos de idade, desapareceu misteriosamente
quando brincava nas montanhas. Oito anos depois, sua mãe Ana (Emma Suárez, estrela
do recente “Julieta”, de Almodovar), ao folhear uma revista com fotos de um
abrigo para delinquentes, viu um garoto de 16 anos chamado Leo, que acreditou
ser o seu filho. Resolve, então, adotá-lo, mesmo que tenha sido desaconselhada
pelos seus amigos mais próximos, como o cunhado Enric (Sergí López). O
comportamento estranho do garoto leva a crer que ele não é o menino
desaparecido, mas Ana continua acreditando que sim, numa espécie de cegueira
materna, própria de uma mulher carente e desesperada. Ela até se recusa a fazer exame de DNA. O filme é repleto de suspense,
pois o espectador fica esperando que o garoto, que tem constantes ataques de
fúria e ansiedade, cometa um ato trágico. Não dá para contar mais sem correr o risco de
revelar o desfecho surpreendente. Um drama de primeira que vale a pensa ser
conferido.
“SMUKKE
MENNESKER” (“Pessoas Bonitas”, na tradução literal do dinamarquês,
ou “Nothing’s All Bad”, como foi traduzido em países de língua inglesa). Nenhum
desses títulos traduz com exatidão o conteúdo desse polêmico filme dinamarquês
de 2010, escrito e dirigido por Mikkel Munch-Fals. Trata-se de um filme
completamente diferente do que estamos acostumados a assistir. Não é fácil de
digerir, pois explora taras sexuais, prostituição, mutilação, carências
afetivas e outros temas indigestos. Mas, para amenizar, apresenta algumas
pitadas de humor negro. A trama é centrada em quatro personagens, cada qual com
seus problemas psicológicos. Ingeborg (Bodil Jørgensen) é uma senhora que acaba
de ficar viúva e sofre de carência afetiva. Anna (Mille Lehfeldt), sua filha,
alimenta um forte complexo de mutilação depois de ter extirpado um dos seios.
Outro personagem problemático é o cinquentão Anders (Henrik Prip), um
exibicionista sexual cuja tara é se masturbar em público. Seu filho Jonas
(Sebastian Jessen) é um belo jovem que presta qualquer tipo de favor sexual a
quem pagar por ele. De uma forma ou de outra, esses personagens irão se cruzar durante a narrativa, talvez o único fato previsível dessa surpreendente
produção dinamarquesa. Trata-se de um filme que passa longe de qualquer apelo comercial,
tanto é que não foi exibido em nossos cinemas. Mesmo sendo um tanto esquisito,
dá para curtir numa boa.
“A
EXCEÇÃO” (“The Exception”), 2016, Inglaterra,
direção de David Leveaux. Mais uma boa história, desta vez fictícia, ambientada
durante a Segunda Guerra Mundial. O roteiro foi escrito por Simon Burke, inspirado
no romance “The Kaiser’s Last Kiss” (2003), de Alan Judd. Em 1940, temerosos de
que o Kaiser Wilhelm II (Christopher Plummer), na época exilado na Holanda, aceite
um possível convite de Winston Churchill para fixar residência na Inglaterra,
os nazistas enviam o capitão Stefan Brandt (Jai Courtney) para vigiá-lo e, para despistar, cuidar
de sua segurança. Ao mesmo tempo, a Gestapo descobre a existência de um espião
inglês no vilarejo próximo à mansão em que o antigo imperador da Alemanha está
morando com a esposa Hermine (Janet McTeer). Em meio ao suspense criado pela
caçada ao espião, o capitão Brandt acaba se apaixonando por uma das empregadas
do casarão, a jovem e bela judia Mieke de Jong (Lily James). Para o clima de
tensão aumentar ainda mais, Heinrich Himmler (Eddie Marsan), braço direito de
Hitler e chefão das temidas tropas SS, resolve visitar o Kaiser com o objetivo
de convidá-lo a retornar à Alemanha. Uma armadilha, claro. O suspense continua
até o desfecho, transformando esta boa produção inglesa num ótimo
entretenimento. No elenco, destaque para a atuação magistral dos veteranos
Christopher Plummer e Janet McTeer. A jovem atriz Lily James (“Cinderela”)
também está ótima. Para quem gosta de temas ligados à Segunda Grande Guerra, como eu, um
programão!
“A ODISSEIA”
(“L’Odyssée”), 2016, França, 122
minutos, roteiro e direção de Jérôme Salle (“Anthony Zimmer”, “Largo Winch”, “Zulu”).
Trata-se de um filme biográfico do pesquisador, oceanográfico, escritor e
inventor Jacques-Yves Cousteau (1910-1997), que ficou mundialmente famoso ao
percorrer os mares do mundo a bordo do “Calypso”, navio transformado em
laboratório móvel. O filme acompanha a trajetória de Cousteau durante 30 anos,
desde que passou a se dedicar às pesquisas do mundo submarino no final da
década de 40. Alguns de seus documentários, como “Mundo do Silêncio” (1956) e “O
Mundo sem Sol” (1964), foram premiados em importantes festivais de cinema. Sua fama
aumentou ainda mais com a série televisiva “O Mundo Submarino de Jacques
Cousteau”, produzida pela BBC e exibida no mundo inteiro. “A Odisseia” não é só
elogios ao grande pesquisador. Apresenta
um Cousteau (Lambert Wilson) visionário e egocêntrico, autoritário, mulherengo
e perdulário, com dificuldades de relacionamento com a esposa Simone (Audrey
Tatou) e com os filhos gêmeos Philippe (Pierre Niney) e Jean-Michel (Benjamin
Lavernhe). O filme é um dos mais caros já realizados pelo cinema europeu – seu orçamento chegou aos 35 milhões de
euros –, mas certamente foi compensado por resultar numa
produção nada menos do que espetacular. A fotografia é esplendorosa, assim como
os cenários, o roteiro e, principalmente, as filmagens submarinas, além de um
elenco de primeira. Lambert Wilson é um show como Cousteau. Um dos melhores
filmes franceses da década. Não dá para perder!
“A ODISSEIA
DE ALICE” (“Fidelio, L’Odyssée D’Alice”), 2014,
marcou a estreia como roteirista e diretora da atriz francesa Lucie Borleteau.
Uma belíssima estreia, aliás. A história é centrada na engenheira naval Alice
(Ariane Labed), que em suas viagens de trabalho é sempre a única mulher da
tripulação entre dezenas de homens. Ou seja, quando está em serviço nos navios,
ela vive num mundo predominantemente masculino. Apesar disso, ela faz questão
de se igualar aos tripulantes machos, não apenas no trabalho em si, enfrentando
a dura rotina de descer à casa das máquinas e se sujar de óleo e graxa, como
também se vangloriar de ter feito sexo nos cinco continentes. Uma abordagem bastante feminista da diretora ao colocar a personagem Alice em pé de igualdade com a tripulação masculina. A história é
ambientada no cargueiro “Fidelio”, depois que o engenheiro-chefe morre num acidente. Alice assume seu lugar e, ao embarcar, reencontra o capitão
Gaël, um antigo namorado. Os dois voltam a ter um caso e, numa conversa, Alice destaca
um antigo lema dos marinheiros: “O que acontece no mar, fica no mar”. Gaël é
casado e Alice tem um namorado norueguês, Félix (Anders Danielsen Lie). Quando
fica em dúvida entre os dois, ela acaba transando com outro membro da
tripulação, sem remorso ou qualquer pudor. Mas sua consciência começa a pesar e
ela sofrerá com a possibilidade de ficar sem ninguém. Um trabalho fenomenal da competente
e bela atriz grega Ariane Labed, revelada no abominável filme grego "Attenberg", de 2010, e atualmente bastante requisitada pelo cinema
francês. "A Odisseia de Alice" é um daqueles filmes indicados para quem curte cinema de qualidade.
Existem dois bons motivos para assistir “O MAGO
DAS MENTIRAS” (“The Wizard of Lies”): primeiro, a presença de astros
como Robert De Niro e Michelle Pfeiffer. Segundo, a história bombástica da
maior fraude financeira já ocorrida nos EUA, cometida pelo consultor financeiro
Bernard Madoff nos anos 90 até 2008, quando foi preso e o esquema todo
revelado. Madoff conseguiu arrecadar 65 bilhões de dólares por intermédio de
falsas aplicações em fundos inexistentes, enganando milhares de investidores,
entre os quais muita gente importante do meio artístico. O filme foi inspirado
no livro escrito pela jornalista Diana B. Henriques, do The New York Times, que
apresenta os bastidores de todo o processo, as investigações feitas pelo FBI e
a desintegração da família de Madoff, aqui incluído o suicídio de um de seus
filhos, Mark (Alessandro Nivola). Madoff (De Niro) é mostrado como um homem
egocêntrico, autoritário, inescrupuloso, frio e calculista. Enfim, um sujeito
dos mais desagradáveis. Michelle Pfeiffer, de volta ao cinema, tem um papel
quase decorativo, mas continua bonita, charmosa e boa atriz. A produção é da
HBO, com direção de Barry Levinson, e foi exibida diretamente na TV, estreando
no último dia 20 de maio. É provável, portanto, que não chegue ao circuito
comercial dos cinemas. Não custa ficar atento à programação da HBO, que
certamente voltará a exibí-lo.
Baseado em fatos reais, o drama inglês “NEGAÇÃO”
(“Denial”), 2016, Inglaterra, foi levado às telas com roteiro de David Hare
e direção de Mick Jackson. O início de toda a história remonta à segunda metade
da década de 70, quando o historiador David Irving (Timothy Spall) escreve um
livro defendendo a tese de que Adolf Hitler não ordenou e nem sabia do genocídio
de judeus nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Na publicação, Irving ainda coloca em
dúvida a própria existência do Holocausto, atribuindo a invenção aos judeus,
que queriam, com isso, ganhar dinheiro. Alguns anos depois, a pesquisadora
norte-americana Deborah Lipstadt (Rachel Weisz) escreve um livro em que
desmente o historiador, que entra com um processo de difamação contra ela. O
caso vai a julgamento em 1994. Com riqueza de detalhes, o filme mostra os
bastidores do julgamento e as estratégias da equipe de advogados constituídos
para defender Deborah, comandada pelo experiente jurista Richard Rampton (Tom
Wilkinson). Uma das cenas mais importantes e impactantes é a visita dos
advogados e da própria Deborah ao campo de concentração de Auschwitz. O roteiro
do filme foi inspirado no livro “History on Trial: My Day in Court with a
Holocaust Denier”, escrito pela própria pesquisadora e publicado em 2015. O pior
de tudo é que, ainda hoje, tem muita gente que acredita que o Holocausto nunca
existiu.
“KÓBLIC”, Argentina, 2016, é um drama escrito e dirigido por
Sebastián Borensztein (“Um Conto Chinês”). O pano de fundo de toda a história é
a ditadura militar argentina (1976/1983). O capitão Tomás Kóblic (Ricardo
Darín) abandona o exército depois de protagonizar os terríveis “voos da morte”,
durante os quais inimigos do regime eram drogados e jogados vivos de aviões no Rio da
Prata ou em alto mar. Kóblic era quem pilotava esses aviões, o que lhe
acarretou grandes problemas de consciência e recordações traumáticas. Kóblic se
refugia num vilarejo fictício chamado Colonia Elena e vai trabalhar numa pequena
empresa de aviões agrícolas que fazem a pulverização de plantações. A presença
da Kóblic desperta a curiosidade dos moradores, principalmente do delegado
Velarde (Oscar Martínez), um psicopata assassino de cachorros. Velarde vai
perseguir Kóblic e tentar descobrir a verdade sobre o seu passado. Em meio a
tantos problemas, Kóblic acaba se apaixonando por Nancy (a atriz espanhola Inma
Cuesta), esposa do dono de um posto de gasolina. A história acaba virando um
caso de polícia, com assassinatos e muito suspense. É claro que o astro Ricardo Darín domina o cenário, mas este
não é o seu melhor filme. Longe disso. Mas sua presença, sempre marcante,
valoriza qualquer produção. Acho que vi quase todos os seus filmes e recomendo,
como imperdíveis, alguns deles, como “O Filho da Noiva”, “Truman”, “Abutres”, “Conto
Chinês” e o melhor de todos, “O Segredo dos seus Olhos”, vencedor do Oscar 2010
de Melhor Filme Estrangeiro.
“DRONE”, Canadá, 2017, escrito e dirigido por Jason Bourque
(“Black Fly”). Trata-se de um suspense que explora um tema dos mais atuais: a
utilização de drones para fins militares. No caso, aviões que lançam mísseis para
eliminar terroristas. Neil Winstin (Sean Bean, de “Senhor dos Anéis” e “Game of
Thrones”) é contratado pela CIA para operar esses drones. Ele mora num pacato
subúrbio de classe média alta em Washington com a esposa Ellen (Mary McCormack)
e o filho Shane (Maxwell Haynes). Neil mantém em segredo sua atividade. Ele diz
para a família, amigos e vizinhos, que trabalha numa empresa de computação. Certo
dia, aparece um sujeito chamado Imir Shaw (Patrick Sabong, de “Uma Noite no Museu
3”), interessado em comprar o barco que pertencia ao pai de Neil, recentemente
falecido. O espectador logo percebe que o homem misterioso, que se identificou
como paquistanês em viagem a trabalho nos EUA, está escondendo uma segunda
intenção, claramente relacionada com o lançamento de um míssel numa cidade do Paquistão
e que ocasionou a morte de alguns civis. É melhor ficar por aqui para não
estragar o desfecho. O filme não é ruim, mantém um bom ritmo de suspense e
tensão, mas poderia ter um final mais bem elaborado. Vale para uma sessão da
tarde.
Vencedor do Prêmio de Melhor Roteiro no Festival de
Berlim 2014, o drama alemão “14 ESTAÇÕES DE MARIA” (“KREUZWEG”)
foi escrito e dirigido por Dietrich Brüggeman (“Corra se puder”). O enredo
segue a trajetória de Maria (Lea van Acken), uma garota de 14 anos criada por
uma família católica conservadora. Dividida em 14 segmentos que lembram as
estações da Via-Crúcis de Jesus Cristo antes da ser crucificado (o título
original "Kreuzweg" significa Via-Crúcis), a história apresenta Maria como uma garota de
muita fé e obediente aos preceitos da religião católica. Ela segue as
orientações do Padre Weber (Florian Stetter), de uma congregação que prefere
seguir uma linha mais rígida, ao contrário da abertura estimulada pelo Concílio
Vaticano II. A comunidade onde vive Maria não aceita, por exemplo, músicas gospel
ou soul, consideradas obras satânicas. O melhor exemplo de fanatismo religioso,
porém, vem da própria mãe de Maria, interpretada pela excelente Franziska Weisz.
Cada um dos segmentos foi filmado com a câmera estática, com os atores se
movimentando dentro do quadro, numa concepção que lembra muito um espetáculo
teatral. O filme é bastante verborrágico. No primeiro segmento, por exemplo, num
curso preparatório para a Crisma, o padre Weber fala sem parar durante 15
minutos, durante os quais destaca alguns dos principais preceitos da Igreja
Católica para um grupo de crianças. Trata-se de um filme não muito fácil de
digerir, um tanto pesado, mas, sem dúvida, um excelente trabalho de roteiro,
direção e fotografia.
O drama australiano “PARTISAN”, 2015, escrito
e dirigido por Ariel Kleiman (é seu longa de estreia), conta a história de uma
comunidade secreta, à parte da sociedade, situada na periferia de alguma
cidade, provavelmente na Austrália, onde as filmagens realmente aconteceram. Quem chefia
o lugar é o misterioso Gregori (o ator francês Vincent Cassel), cuja intenção é
– pelo menos o que dá a entender – transformar as crianças em futuros
assassinos de aluguel para eliminar seus desafetos. Alexander (Jeremy Chabriel), seu filho adotivo e o
garoto mais velho da turma, já possui algumas mortes no currículo. Por mais contraditório que pareça, é Alexander quem vai confrontar o seu mentor, numa reviravolta pra lá de inesperada. Quase nada
do que acontece é explicado ao espectador. Algumas mães convivem
com seus filhos na comunidade e assistem a tudo numa atitude pra lá de passiva, em meio a aulas de culinária, sessões de karaokê etc.
É um filme bastante estranho, pesado, desagradável, sem muito nexo, totalmente aberto a interpretações. Não dá pra entender também como um ator tão conceituado como Vincent Cassel está fazendo nesse filme. Aliás, difícil entender como alguém faz um filme como esse, que não passa de uma bobagem monumental.
“PREDADORES
DO AMOR” (“Hounds of Love), Austrália, 2016, filme
que marca a estreia do jovem Ben Young como roteirista e diretor. Uma boa
estreia, aliás. Trata-se de um suspense baseado num caso real ocorrido na
segunda metade da década de 80 na Austrália. O casal John (Stephen Curry) e
Evelyn (Emma Booth) costumava sequestrar garotas, trancafiá-las num quarto e
abusar delas sexualmente. Uma das vítimas, Vicky Maloney (Ashleigh Cummins)
sofreu o diabo nas mãos dos dois psicopatas pervertidos, mas foi
suficientemente inteligente para planejar uma estratégia com o objetivo de
jogar um contra o outro. Desde a cena inicial, quando os dois desequilibrados
assistem a uma partida de vôlei entre meninas e o olhar de ambos parece
selecionar uma nova vítima, até o desfecho, o clima de tensão é de arrepiar,
mesmo que o cenário de quase todo o filme seja unicamente o interior da casa da dupla de
sádicos. A trilha sonora também é utilizada com maestria para aumentar o
suspense. O elenco está muito bem, com destaque para o ator Stephen Curry, mais
conhecido na Austrália como comediante. Seu comportamento é mesmo de assustar. Como
o filme é baseado em fatos reais, achei que faltou no final a informação do que
aconteceu com os personagens reais depois de tudo. Prepare-se para roer as
unhas...
“ROSAS A
CRÉDITO” (“Roses à Crédit”), 2010,
França, roteiro e direção de Amos Gitaï (“Free Zone”, “Kadosh” e “Kedma”). É uma adaptação do romance da escritora francesa Elsa Triolet, lançado em
1959, cujo pano de fundo é o esforço dos franceses em reerguer o país após anos de conflito. A história é centrada em Marjoline (Léa Seydoux) e Daniel (Grégoire
Leprince-Ringuet), jovens que resolvem se casar logo após o final da Segunda
Grande Guerra. Daniel trabalha com o pai Georges (Pierri Arditi) na produção de
rosas, negócio que é uma tradição da família. Marjoline trabalha num salão de
beleza, mas tem sonhos consumistas que estão fora do orçamento do casal. Aí a
coisa complica, as dívidas aumentam e o casamento entra em crise. Trata-se de
mais um bom trabalho do diretor israelense, cuja temática habitual é voltada
para as questões que envolvem Israel e o Oriente Médio. Destaco a exuberante recriação
de época, incluindo figurinos, cenários, trilha sonora e o comportamento social
dos franceses. Com esse filme, a bela Léa Seydoux, na época com 25 anos, se consolidou como uma atriz bastante promissora. Nos anos seguintes, sua carreira daria um grande salto, quando estrelou, sempre em papéis de destaque, filmes como "007 contra Spectre", "Missão Impossível: Protocolo Fantasma", "Meia-Noite em Paris" e o polêmico "Azul é a Cor mais Quente". Hoje, Seydoux já é uma das melhores e mais requisitadas atrizes francesas da atualidade, devendo ocupar, em pouco tempo, o lugar da diva Isabelle Huppert.
Quando filmou o excelente “Almas Silenciosas”, em
2010, o cineasta russo Aleksey Fedorchenko entrou em contato com a cultura do
povo Mari, que habita uma região nas Montanhas Urais ao Norte da Rússia (Bashkortostão e Tatarstão). Os
habitantes chegam hoje a 600 mil e são conhecidos por conservarem suas seculares
tradições pagãs. Certamente para divulgar essa rica e interessante cultura,
Fedorchenko realizou, em 2012, o filme “ESPOSAS CELESTIAIS DO PRADO MARI” (“Nebesnye
Zheny Iugovykh Mari”), inspirado no livro de contos escrito por Denis Osokin,
por sinal autor do roteiro. São 23 histórias curtas, cada uma identificada pelo
nome de uma personagem. Ou seja, cada segmento leva o nome de uma mulher. O
filme explora as tradições do povo Mari, mostrando seus estranhos rituais voltados
para conseguir um objetivo. Por exemplo: arrumar um marido, engravidar,
eliminar marcas de nascença, afastar maus espíritos etc. Muita sexualidade e
misticismo, o que fez com que fosse chamado de “Decameron do Leste”, referência
ao polêmico filme de 1971 do diretor italiano Pier Paolo Pasolini. O filme, realizado
com financiamento do Ministério da Cultura da Federal Russa, é muito
interessante, principalmente por nos apresentar uma cultura que poucos de nós lemos
a respeito ou ouvimos falar.
Depois de dirigir “Post Mortem”, “No” (indicado ao
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013), e “O Clube”, o diretor chileno
Pablo Larraín caiu nas graças da crítica especializada e de Hollywood. Tanto é
que depois dirigiu “Jackie”, com Natalie Portman. Todos os seus filmes têm um
fundo político muito forte, explorando, principalmente, períodos de ditadura
vividos pelo povo chileno. Não foi de outra forma que dirigiu “NERUDA”, com
roteiro de Guilhermo Calderón (que também escreveu “Violeta foi para o Céu” e “O
Clube”). “Neruda” é ambientado em 1948, quando o grande poeta chileno era
senador da república e ligado ao partido comunista. Para não ser preso, Neruda
empreendeu uma fuga pelo sul do país até chegar à Argentina. Não há muitos
registros históricos sobre essa aventura. Dessa forma, Guilhermo Calderón e Larraín
imaginaram o que teria ocorrido e criaram uma narrativa ficcional centrada na
perseguição do policial Oscar Peluchoneau (Gael Garcia Bernal) a Neruda (Luis
Gnecco). A fotografia, os figurinos e os cenários lembram os filmes noir de antigamente
– Neruda era fã da literatura policial norte-americana. Muitos trechos dos
principais poemas escritos por Neruda aparecem na narrativa in-off, o que, ao invés de reforçar o
contexto das situações, tornou o filme um tanto cansativo. A semelhança física do
ator com o poeta é impressionante. Pena que sua atuação ficou um tanto
caricatural. O filme foi selecionado para
representar o Chile no Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro. De qualquer forma, é um filme de Larraín e que, por isso mesmo, merece ser conferido.
“VOCÊ
SERÁ UM HOMEM” (“Tu Serás un Homme”), França,
2014, escrito e dirigido por Benoit Cohen. Confesso que fiquei desconfiado e
não muito motivado a assistir, a começar pelo título estranho e também como foi
concebido, misturando espanhol e francês. Além disso, não tinha
referências sobre o diretor e o elenco, repleto de gente desconhecida. Por fim,
a capinha do DVD, com aquela foto de alguém vestindo uma máscara das
mais esquisitas. Pensei: lá vem bomba! Decidi finalmente conferir e, para minha surpresa, acabei
assistindo um filme bastante interessante e agradável, um ótimo programa para
uma sessão da tarde. A história: Léo (Aurelio Cohen), um garoto de 10 anos
esperto e inteligente, vive enfurnado na biblioteca do pai devorando livros de
poesia. Ele não recebe muito carinho e atenção nem do pai (Grégoire
Monsaingeon) nem da mãe (Eléonore Pourriat), que sofre da síndrome do pânico e
não sai de casa há três anos. Ao colocar um anúncio procurando uma babá para
cuidar de Léo, quem aparece e acaba contratado é o jovem Théo (Aurelio Cohen).
Em pouco tempo, Théo e Léo ficam amigos inseparáveis. Com seu jeito alegre e
descontraído, Théo também cai nas graças da mãe. O pai, enciumado, não gosta da
situação e acaba demitindo Théo e contratando uma nova babá, desta vez uma bela
garota. Aí começa a confusão, pois a nova babá é nada menos do que a ex-namorada
de Théo. O filme privilegia o bom humor,
embora aborde temas sérios como amadurecimento, amizade e relacionamento
familiar. A simpatia dos atores é mais um trunfo que torna este filme francês uma boa dica de entretenimento.
Em 2007, uma equipe pertencente à Ong francesa “Arca
de Zoé” tentou resgatar 103 crianças órfãs do Chade para levá-las à França para
adoção. Para evitar os trâmites burocráticos de imigração, a ação teria de ser
secreta, envolvendo visitas às aldeias perto da fronteira de Darfur, além do
aluguel de um Boeing-737 para transportar as crianças. Porém, por trás de uma
aparente ação humanitária, havia outras intenções não muito escrupulosas. Essa
história foi transformada no filme “OS CAVALEIROS BRANCOS” (“Les
Chevaliers Blancs”), 2015, França/Bélgica, direção de Joachim Lafosse, que
escreveu o roteiro juntamente com Thomas Van Zuylen, Julie de Carpentries e
Zélia Abade, com base no livro “Les Chevaliers Blancs”, de François-Xavier
Pinte e Geoffroy D’Ursel. Os personagens da história real receberam nomes
fictícios, como Jacques Arnault (Vincent Lindon), chefe da missão, Laura
(Louise Bourgoin), a repórter Françoise (Valérie Donzelli) e Xavier (Reda
Kateb), além de médicos e enfermeiros. A Ong do filme foi intitulada “Move for
Kids”. Ao invés de priorizar o clima de tensão e perigo enfrentado pela equipe
em suas visitas às aldeias em meio a uma guerra civil, o diretor preferiu
destacar a rotina do grupo e os desentendimentos entre seus integrantes, que
divergiam sobre as verdadeiras intenções da Ong. Com essa opção, Lafosse privilegiou
a falação ao invés da ação. De qualquer forma, vale pela presença sempre marcante
de Vincent Lindon e pela história em si, que ficou pouco conhecida por aqui.
“A DÍVIDA”
(”Oliver’s Deal”), coprodução EUA/Peru/Espanha, 2015, primeiro
longa escrito e dirigido por Barney Elliott. O filme começa mostrando o
trabalho de um garoto, seu pai e sua irmã numa fazenda situada nos alpes
peruanos – as paisagens são lindas. O cenário muda de forma abrupta para um
escritório sofisticado de Nova Iorque, cujo negócio principal é adquirir e
depois negociar títulos da dívida pública de países do Terceiro Mundo. Pelo
menos foi isso que eu entendi. Não há muita explicação sobre a atividade e
talvez os leigos no assunto, como eu, ficarão totalmente por fora. Pelo que foi
possível entender, o escritório está envolvido num acordo financeiro entre o
governo dos EUA e o Peru. O escritório é comandado por Nathan (David Strathairn),
que tem como seu braço direito Oliver Campbell (Stephen Dorff), tão inescrupuloso
quanto seu chefe. O único funcionário do escritório que tem alguma sensibilidade
é Ricardo (o ator argentino Alberto Ammann). Enquanto eles combinam estratégias
para novos negócios no escritório de Nova Iorque, o poderoso empresário peruano
Ruben Caravedo (o ator espanhol Carlos Bardem, irmão de Javier) tenta comprar
as terras de pequenos proprietários rurais, entre eles o dono da fazenda onde
pai e filhos aparecem trabalhando no início. Um novo personagem aparece na
história (para confundir ainda mais): uma enfermeira (Elsa Olivero) que tenta conseguir uma
operação para sua mãe num hospital público em Lima. Qual a ligação do drama dessa
enfermeira com o enredo? Quase nenhuma. Só encher linguiça. Resumindo: Oliver e
Ricardo vão para o Peru tentar convencer o coitado do fazendeiro a vender suas
terras. No final, porém, descobrirão que uma trama sórdida está por trás de
tudo. É a tal da ganância corporativa: os ricos explorando os pobres.
O drama “PAULINA” (“La Patota”), 2015, Argentina,
escrito e dirigido por Santiago Mitre, explora um tema dos mais polêmicos: o
estupro. Trata-se, na verdade, da refilmagem do clássico – também argentino – “La Patota”, de
1961. A história é centrada na advogada Paulina (Dolores Fonzi), que desiste de
uma promissora carreira na área jurídica para se embrenhar numa zona rural
pobre e ensinar política aos jovens da região. Ela quer formar cidadãos
responsáveis, afirma ao pai, o juiz Fernando (Oscar Martinez, de “Inseparáveis”
e “O Cidadão Ilustre”), que não se conforma com a decisão de certa forma
irresponsável da filha. Numa noite em que pega emprestada a moto de uma amiga,
Paulina é atacada por um grupo de jovens e estuprada. O pai exige que a polícia
investigue o caso e prenda os agressores, mesmo que não conte com a colaboração
de Paulina. Sua atitude passiva em relação ao que ocorreu revolta o pai, cujo
desejo é fazer uma vingança sem piedade. A situação se complica ainda mais
quando uma consequência do estupro é revelada. Dolores Fonzi, que foi casada
com o ator mexicano Gael García Bernal, é uma das atrizes de maior evidência na
Argentina. Além de bonita, é excelente atriz. O filme foi escrito e dirigido
por Santiago Mitre (“La Cordillera”) e teve como um dos produtores o diretor
brasileiro Walter Salles. Exibido por aqui durante a 39ª Mostra Internacional
de Cinema de São Paulo, em outubro de 2015, “Paulina” venceu o Prêmio da Semana
da Crítica no Festival de Cannes 2015. Mais um bom filme argentino que merece ser visto.
Faz
algum tempo que Adam Sendler não aparece na telona. Por um bom tempo ele estará
só na telinha da TV. O ator norte-americano assinou contrato com a Netflix para
protagonizar seis filmes. Os dois primeiros foram “The Ridiculous 6” (2015) e “Zerando
a Vida” (2016). O terceiro e mais recente é “SANDY WEXLER” (2017), uma
comédia onde Sendler aparece como o personagem do título, um empresário
mequetrefe de Los Angeles que no início dos anos 90 – período em que a história
é ambientada – agenciava os mais diferentes artistas, desde um ventríloquo, um
lutador de luta-livre e até um acrobata saltador de obstáculos, cujas
apresentações sempre acabavam em fracassos e fraturas. Até que um dia Wexler
descobre, fazendo show num parque de diversões, a cantora Courtney Clarke
(Jennifer Hudson). Ela logo se transforma num grande sucesso comercial, uma
estrela da música pop. Com seu jeito abobalhado e inconveniente, Wexler
desperdiça o momento e cai em desgraça, enquanto Courtney alavanca cada vez mais
sua carreira artística. O filme, dirigido por Steven Brill (“A Herança de Mr.
Deeds” e “Ligeiramente Grávidos”), foi escrito pelo trio de roteiristas Dan
Bulla, Paul Sado e Tim Herlihy, que se inspiraram na trajetória de um
empresário chamado Sandy Wernick, que realmente existiu e ganhou uma certa notoriedade
na década de 90. O filme conta com rápidas aparições de comediantes, atores e
celebridades do cinema e da TV, como Jay Leno, John Lovitz, Chris Rock, Jimmy
Kimmel, David Spade e Pauly Shore, além das participações especiais de Rob
Schneider, Kevin James, Terry Crews e Jane Seymour, ainda bonita e em grande
forma aos 66 anos. O personagem vivido por Sendler é irritante ao extremo, inconveniente
e completamente sem graça, como o filme inteiro – a não ser uma única cena onde
ele é manipulado pelo ventríloquo. Sendler é o chato de sempre, caprichando
para ser o mais abobado possível, parecendo um Jerry Lewis com surto de
debilidade mental. O filme é muito fraco e longo demais: 2h10. Para quem gosta
de cinema de qualidade, trata-se de um atentado ao intelecto.
Jim
Jarmusch é um dos diretores de cinema mais cultuados da atualidade por grande parte dos críticos
especializados. Esse status foi
obtido por filmes autorais como “Flores Partidas”, “Amantes Eternos” e “Estranhos
no Paraíso”, que definiram seu estilo pouco convencional. Com o recente “PATERSON”,
o diretor norte-americano de 64 anos novamente arrancou elogios entusiasmados, transformando-se
numa das grandes sensações do Festival de Cannes 2016. Ambientado na cidade de
Paterson, em Nova Jersey, o filme acompanha o cotidiano de Paterson (Adam
Driver, de “Star Wars”), um motorista de ônibus que adora escrever poesias nas
horas vagas. Ele é casado com Laura (a bela atriz iraniana Golshifteh Farahani),
uma mulher ingênua e infantil que procura seu lugar no mundo profissional, indecisa
entre a música, a culinária ou as artes plásticas. A rotina de Paterson começa
cedo com o café da manhã com Laura, o trabalho de motorista, a cerveja no final
do dia no bar de Doc (Barry Shabaka Henrley) e os passeios com o buldogue
Marvin. E, claro, escrever poesias, que Jarmusch faz questão de reproduzir na
tela – na verdade, o autor delas é o poeta Ron Padgett, a quem o diretor admira
há muitos anos. Como na maioria de seus filmes, Jarmusch mais uma vez reúne
humor, ironia e erudição, tornando “Paterson” um entretenimento inteligente e
acima da média.
O filme
se chama “DESCONHECIDA” (“Complete Unknown”), mas poderia se chamar “Inexplicável”.
Vou tentar explicar o “Inexplicável”, a começar pela história sem pé nem
cabeça. Mulher bonita (Alice - Rachel
Weisz) conhece um rapaz num bar. Este a convida para jantar com uma turma de
amigos na casa de um deles, Tom (Michael Shannon). Todo mundo fica curioso em conhecê-la. Ela conta que viajou pelo mundo
inteiro, trabalhou como bióloga na Tasmânia e até como assistente de mágico na
China, entre outras peripécias que deixariam Forrest Gump com vergonha. Será
ela uma mentirosa compulsiva ou tudo que disse é verdade? Pior: Tom, que é casado, acaba lembrando da moça, que há muitos
anos se chamava Jennifer. Parece que tiveram um romance. Muita coincidência
ela aparecer justamente na casa dele. O pessoal sai para dançar numa discoteca.
Alice, ou Jennifer, vai embora e Tom sai atrás. Enquanto conversam, uma senhora
(Kathy Bates) leva um tombo e eles a socorrem. Alice, ou Jennifer, diz que Tom
é médico e que cuidará dela. E por aí vai essa aberração cinematográfica, que
inclui uma longa cena com sapos noturnos, que não quer dizer absolutamente
nada, assim como o filme inteiro. Inexplicável também é o fato de Rachel Weisz
e Michael Shannon, dois bons atores, aceitarem participar de tamanho
descalabro. E também Kathy Bates e Danny Glover, estes últimos em rápida
aparição, talvez envergonhados. Quem escreveu e dirigiu esse verdadeiro abacaxi
foi Joshua Marston, que ficou conhecido depois de dirigir “Maria Cheia de Graça”,
filme de 2004, que não é tão ruim como este. Conselho: passe bem longe!