quinta-feira, 27 de julho de 2017

Premiado em vários festivais de cinema europeus, o drama espanhol “A PRÓXIMA PELE” (“La Próxima Piel”), 2016, produzido pela Netflix, foi escrito e dirigido pela dupla Isaki Lacuesta e Isa Campo. A história é ambientada num vilarejo ao norte da Catalunha, próximo à fronteira com a França. Gabriel, um garoto de oito anos de idade, desapareceu misteriosamente quando brincava nas montanhas. Oito anos depois, sua mãe Ana (Emma Suárez, estrela do recente “Julieta”, de Almodovar), ao folhear uma revista com fotos de um abrigo para delinquentes, viu um garoto de 16 anos chamado Leo, que acreditou ser o seu filho. Resolve, então, adotá-lo, mesmo que tenha sido desaconselhada pelos seus amigos mais próximos, como o cunhado Enric (Sergí López). O comportamento estranho do garoto leva a crer que ele não é o menino desaparecido, mas Ana continua acreditando que sim, numa espécie de cegueira materna, própria de uma mulher carente e desesperada. Ela até se recusa a fazer exame de DNA. O filme é repleto de suspense, pois o espectador fica esperando que o garoto, que tem constantes ataques de fúria e ansiedade, cometa um ato trágico.  Não dá para contar mais sem correr o risco de revelar o desfecho surpreendente. Um drama de primeira que vale a pensa ser conferido.                                                                     


                                   

terça-feira, 25 de julho de 2017

“SMUKKE MENNESKER” (“Pessoas Bonitas”, na tradução literal do dinamarquês, ou “Nothing’s All Bad”, como foi traduzido em países de língua inglesa). Nenhum desses títulos traduz com exatidão o conteúdo desse polêmico filme dinamarquês de 2010, escrito e dirigido por Mikkel Munch-Fals. Trata-se de um filme completamente diferente do que estamos acostumados a assistir. Não é fácil de digerir, pois explora taras sexuais, prostituição, mutilação, carências afetivas e outros temas indigestos. Mas, para amenizar, apresenta algumas pitadas de humor negro. A trama é centrada em quatro personagens, cada qual com seus problemas psicológicos. Ingeborg (Bodil Jørgensen) é uma senhora que acaba de ficar viúva e sofre de carência afetiva. Anna (Mille Lehfeldt), sua filha, alimenta um forte complexo de mutilação depois de ter extirpado um dos seios. Outro personagem problemático é o cinquentão Anders (Henrik Prip), um exibicionista sexual cuja tara é se masturbar em público. Seu filho Jonas (Sebastian Jessen) é um belo jovem que presta qualquer tipo de favor sexual a quem pagar por ele. De uma forma ou de outra, esses personagens irão se cruzar durante a narrativa, talvez o único fato previsível dessa surpreendente produção dinamarquesa. Trata-se de um filme que passa longe de qualquer apelo comercial, tanto é que não foi exibido em nossos cinemas. Mesmo sendo um tanto esquisito, dá para curtir numa boa.                                                                  

segunda-feira, 24 de julho de 2017

“A EXCEÇÃO” (“The Exception”), 2016, Inglaterra, direção de David Leveaux. Mais uma boa história, desta vez fictícia, ambientada durante a Segunda Guerra Mundial. O roteiro foi escrito por Simon Burke, inspirado no romance “The Kaiser’s Last Kiss” (2003), de Alan Judd. Em 1940, temerosos de que o Kaiser Wilhelm II (Christopher Plummer), na época exilado na Holanda, aceite um possível convite de Winston Churchill para fixar residência na Inglaterra, os nazistas enviam o capitão Stefan Brandt (Jai Courtney) para vigiá-lo e, para despistar, cuidar de sua segurança. Ao mesmo tempo, a Gestapo descobre a existência de um espião inglês no vilarejo próximo à mansão em que o antigo imperador da Alemanha está morando com a esposa Hermine (Janet McTeer). Em meio ao suspense criado pela caçada ao espião, o capitão Brandt acaba se apaixonando por uma das empregadas do casarão, a jovem e bela judia Mieke de Jong (Lily James). Para o clima de tensão aumentar ainda mais, Heinrich Himmler (Eddie Marsan), braço direito de Hitler e chefão das temidas tropas SS, resolve visitar o Kaiser com o objetivo de convidá-lo a retornar à Alemanha. Uma armadilha, claro. O suspense continua até o desfecho, transformando esta boa produção inglesa num ótimo entretenimento. No elenco, destaque para a atuação magistral dos veteranos Christopher Plummer e Janet McTeer. A jovem atriz Lily James (“Cinderela”) também está ótima. Para quem gosta de temas ligados à Segunda Grande Guerra, como eu, um programão!                                                              
“A ODISSEIA” (“L’Odyssée”), 2016, França, 122 minutos, roteiro e direção de Jérôme Salle (“Anthony Zimmer”, “Largo Winch”, “Zulu”). Trata-se de um filme biográfico do pesquisador, oceanográfico, escritor e inventor Jacques-Yves Cousteau (1910-1997), que ficou mundialmente famoso ao percorrer os mares do mundo a bordo do “Calypso”, navio transformado em laboratório móvel. O filme acompanha a trajetória de Cousteau durante 30 anos, desde que passou a se dedicar às pesquisas do mundo submarino no final da década de 40. Alguns de seus documentários, como “Mundo do Silêncio” (1956) e “O Mundo sem Sol” (1964), foram premiados em importantes festivais de cinema. Sua fama aumentou ainda mais com a série televisiva “O Mundo Submarino de Jacques Cousteau”, produzida pela BBC e exibida no mundo inteiro. “A Odisseia” não é só elogios ao grande pesquisador.  Apresenta um Cousteau (Lambert Wilson) visionário e egocêntrico, autoritário, mulherengo e perdulário, com dificuldades de relacionamento com a esposa Simone (Audrey Tatou) e com os filhos gêmeos Philippe (Pierre Niney) e Jean-Michel (Benjamin Lavernhe). O filme é um dos mais caros já realizados pelo cinema europeu – seu orçamento chegou aos 35 milhões de euros –, mas certamente foi compensado por resultar numa produção nada menos do que espetacular. A fotografia é esplendorosa, assim como os cenários, o roteiro e, principalmente, as filmagens submarinas, além de um elenco de primeira. Lambert Wilson é um show como Cousteau. Um dos melhores filmes franceses da década. Não dá para perder!                                                         


domingo, 23 de julho de 2017

“A ODISSEIA DE ALICE” (“Fidelio, L’Odyssée D’Alice”), 2014, marcou a estreia como roteirista e diretora da atriz francesa Lucie Borleteau. Uma belíssima estreia, aliás. A história é centrada na engenheira naval Alice (Ariane Labed), que em suas viagens de trabalho é sempre a única mulher da tripulação entre dezenas de homens. Ou seja, quando está em serviço nos navios, ela vive num mundo predominantemente masculino. Apesar disso, ela faz questão de se igualar aos tripulantes machos, não apenas no trabalho em si, enfrentando a dura rotina de descer à casa das máquinas e se sujar de óleo e graxa, como também se vangloriar de ter feito sexo nos cinco continentes. Uma abordagem bastante feminista da diretora ao colocar a personagem Alice em pé de igualdade com a tripulação masculina. A história é ambientada no cargueiro “Fidelio”, depois que o engenheiro-chefe morre num acidente. Alice assume seu lugar e, ao embarcar, reencontra o capitão Gaël, um antigo namorado. Os dois voltam a ter um caso e, numa conversa, Alice destaca um antigo lema dos marinheiros: “O que acontece no mar, fica no mar”. Gaël é casado e Alice tem um namorado norueguês, Félix (Anders Danielsen Lie). Quando fica em dúvida entre os dois, ela acaba transando com outro membro da tripulação, sem remorso ou qualquer pudor. Mas sua consciência começa a pesar e ela sofrerá com a possibilidade de ficar sem ninguém. Um trabalho fenomenal da competente e bela atriz grega Ariane Labed, revelada no abominável filme grego "Attenberg", de 2010, e atualmente bastante requisitada pelo cinema francês.  "A Odisseia de Alice" é um daqueles filmes indicados para quem curte cinema de qualidade.                                                             

terça-feira, 18 de julho de 2017

Existem dois bons motivos para assistir “O MAGO DAS MENTIRAS” (“The Wizard of Lies”): primeiro, a presença de astros como Robert De Niro e Michelle Pfeiffer. Segundo, a história bombástica da maior fraude financeira já ocorrida nos EUA, cometida pelo consultor financeiro Bernard Madoff nos anos 90 até 2008, quando foi preso e o esquema todo revelado. Madoff conseguiu arrecadar 65 bilhões de dólares por intermédio de falsas aplicações em fundos inexistentes, enganando milhares de investidores, entre os quais muita gente importante do meio artístico. O filme foi inspirado no livro escrito pela jornalista Diana B. Henriques, do The New York Times, que apresenta os bastidores de todo o processo, as investigações feitas pelo FBI e a desintegração da família de Madoff, aqui incluído o suicídio de um de seus filhos, Mark (Alessandro Nivola). Madoff (De Niro) é mostrado como um homem egocêntrico, autoritário, inescrupuloso, frio e calculista. Enfim, um sujeito dos mais desagradáveis. Michelle Pfeiffer, de volta ao cinema, tem um papel quase decorativo, mas continua bonita, charmosa e boa atriz. A produção é da HBO, com direção de Barry Levinson, e foi exibida diretamente na TV, estreando no último dia 20 de maio. É provável, portanto, que não chegue ao circuito comercial dos cinemas. Não custa ficar atento à programação da HBO, que certamente voltará a exibí-lo.                                                        

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Baseado em fatos reais, o drama inglês “NEGAÇÃO” (“Denial”), 2016, Inglaterra, foi levado às telas com roteiro de David Hare e direção de Mick Jackson. O início de toda a história remonta à segunda metade da década de 70, quando o historiador David Irving (Timothy Spall) escreve um livro defendendo a tese de que Adolf Hitler não ordenou e nem sabia do genocídio de judeus nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Na publicação, Irving ainda coloca em dúvida a própria existência do Holocausto, atribuindo a invenção aos judeus, que queriam, com isso, ganhar dinheiro. Alguns anos depois, a pesquisadora norte-americana Deborah Lipstadt (Rachel Weisz) escreve um livro em que desmente o historiador, que entra com um processo de difamação contra ela. O caso vai a julgamento em 1994. Com riqueza de detalhes, o filme mostra os bastidores do julgamento e as estratégias da equipe de advogados constituídos para defender Deborah, comandada pelo experiente jurista Richard Rampton (Tom Wilkinson). Uma das cenas mais importantes e impactantes é a visita dos advogados e da própria Deborah ao campo de concentração de Auschwitz. O roteiro do filme foi inspirado no livro “History on Trial: My Day in Court with a Holocaust Denier”, escrito pela própria pesquisadora e publicado em 2015. O pior de tudo é que, ainda hoje, tem muita gente que acredita que o Holocausto nunca existiu.                                                         


“KÓBLIC”, Argentina, 2016, é um drama escrito e dirigido por Sebastián Borensztein (“Um Conto Chinês”). O pano de fundo de toda a história é a ditadura militar argentina (1976/1983). O capitão Tomás Kóblic (Ricardo Darín) abandona o exército depois de protagonizar os terríveis “voos da morte”, durante os quais inimigos do regime eram drogados e jogados vivos de aviões no Rio da Prata ou em alto mar. Kóblic era quem pilotava esses aviões, o que lhe acarretou grandes problemas de consciência e recordações traumáticas. Kóblic se refugia num vilarejo fictício chamado Colonia Elena e vai trabalhar numa pequena empresa de aviões agrícolas que fazem a pulverização de plantações. A presença da Kóblic desperta a curiosidade dos moradores, principalmente do delegado Velarde (Oscar Martínez), um psicopata assassino de cachorros. Velarde vai perseguir Kóblic e tentar descobrir a verdade sobre o seu passado. Em meio a tantos problemas, Kóblic acaba se apaixonando por Nancy (a atriz espanhola Inma Cuesta), esposa do dono de um posto de gasolina. A história acaba virando um caso de polícia, com assassinatos e muito suspense. É claro que o astro Ricardo Darín domina o cenário, mas este não é o seu melhor filme. Longe disso. Mas sua presença, sempre marcante, valoriza qualquer produção. Acho que vi quase todos os seus filmes e recomendo, como imperdíveis, alguns deles, como “O Filho da Noiva”, “Truman”, “Abutres”, “Conto Chinês” e o melhor de todos, “O Segredo dos seus Olhos”, vencedor do Oscar 2010 de Melhor Filme Estrangeiro.                                                     


quarta-feira, 12 de julho de 2017

“DRONE”, Canadá, 2017, escrito e dirigido por Jason Bourque (“Black Fly”). Trata-se de um suspense que explora um tema dos mais atuais: a utilização de drones para fins militares. No caso, aviões que lançam mísseis para eliminar terroristas. Neil Winstin (Sean Bean, de “Senhor dos Anéis” e “Game of Thrones”) é contratado pela CIA para operar esses drones. Ele mora num pacato subúrbio de classe média alta em Washington com a esposa Ellen (Mary McCormack) e o filho Shane (Maxwell Haynes). Neil mantém em segredo sua atividade. Ele diz para a família, amigos e vizinhos, que trabalha numa empresa de computação. Certo dia, aparece um sujeito chamado Imir Shaw (Patrick Sabong, de “Uma Noite no Museu 3”), interessado em comprar o barco que pertencia ao pai de Neil, recentemente falecido. O espectador logo percebe que o homem misterioso, que se identificou como paquistanês em viagem a trabalho nos EUA, está escondendo uma segunda intenção, claramente relacionada com o lançamento de um míssel numa cidade do Paquistão e que ocasionou a morte de alguns civis. É melhor ficar por aqui para não estragar o desfecho. O filme não é ruim, mantém um bom ritmo de suspense e tensão, mas poderia ter um final mais bem elaborado. Vale para uma sessão da tarde.                                                

domingo, 9 de julho de 2017

Vencedor do Prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Berlim 2014, o drama alemão “14 ESTAÇÕES DE MARIA” (“KREUZWEG”) foi escrito e dirigido por Dietrich Brüggeman (“Corra se puder”). O enredo segue a trajetória de Maria (Lea van Acken), uma garota de 14 anos criada por uma família católica conservadora. Dividida em 14 segmentos que lembram as estações da Via-Crúcis de Jesus Cristo antes da ser crucificado (o título original "Kreuzweg" significa Via-Crúcis), a história apresenta Maria como uma garota de muita fé e obediente aos preceitos da religião católica. Ela segue as orientações do Padre Weber (Florian Stetter), de uma congregação que prefere seguir uma linha mais rígida, ao contrário da abertura estimulada pelo Concílio Vaticano II. A comunidade onde vive Maria não aceita, por exemplo, músicas gospel ou soul, consideradas obras satânicas. O melhor exemplo de fanatismo religioso, porém, vem da própria mãe de Maria, interpretada pela excelente Franziska Weisz. Cada um dos segmentos foi filmado com a câmera estática, com os atores se movimentando dentro do quadro, numa concepção que lembra muito um espetáculo teatral. O filme é bastante verborrágico. No primeiro segmento, por exemplo, num curso preparatório para a Crisma, o padre Weber fala sem parar durante 15 minutos, durante os quais destaca alguns dos principais preceitos da Igreja Católica para um grupo de crianças. Trata-se de um filme não muito fácil de digerir, um tanto pesado, mas, sem dúvida, um excelente trabalho de roteiro, direção e fotografia.                                           

sábado, 8 de julho de 2017

O drama australiano “PARTISAN”, 2015, escrito e dirigido por Ariel Kleiman (é seu longa de estreia), conta a história de uma comunidade secreta, à parte da sociedade, situada na periferia de alguma cidade, provavelmente na Austrália, onde as filmagens realmente aconteceram. Quem chefia o lugar é o misterioso Gregori (o ator francês Vincent Cassel), cuja intenção é – pelo menos o que dá a entender – transformar as crianças em futuros assassinos de aluguel para eliminar seus desafetos. Alexander (Jeremy Chabriel), seu filho adotivo e o garoto mais velho da turma, já possui algumas mortes no currículo. Por mais contraditório que pareça, é Alexander quem vai confrontar o seu mentor, numa reviravolta pra lá de inesperada. Quase nada do que acontece é explicado ao espectador. Algumas mães convivem com seus filhos na comunidade e assistem a tudo numa atitude pra lá de passiva, em meio a aulas de culinária, sessões de karaokê etc. É um filme bastante estranho, pesado, desagradável, sem muito nexo, totalmente aberto a interpretações. Não dá pra entender também como um ator tão conceituado como Vincent Cassel está fazendo nesse filme. Aliás, difícil entender como alguém faz um filme como esse, que não passa de uma bobagem monumental.                                           

quarta-feira, 5 de julho de 2017

“PREDADORES DO AMOR” (“Hounds of Love), Austrália, 2016, filme que marca a estreia do jovem Ben Young como roteirista e diretor. Uma boa estreia, aliás. Trata-se de um suspense baseado num caso real ocorrido na segunda metade da década de 80 na Austrália. O casal John (Stephen Curry) e Evelyn (Emma Booth) costumava sequestrar garotas, trancafiá-las num quarto e abusar delas sexualmente. Uma das vítimas, Vicky Maloney (Ashleigh Cummins) sofreu o diabo nas mãos dos dois psicopatas pervertidos, mas foi suficientemente inteligente para planejar uma estratégia com o objetivo de jogar um contra o outro. Desde a cena inicial, quando os dois desequilibrados assistem a uma partida de vôlei entre meninas e o olhar de ambos parece selecionar uma nova vítima, até o desfecho, o clima de tensão é de arrepiar, mesmo que o cenário de quase todo o filme seja unicamente o interior da casa da dupla de sádicos. A trilha sonora também é utilizada com maestria para aumentar o suspense. O elenco está muito bem, com destaque para o ator Stephen Curry, mais conhecido na Austrália como comediante. Seu comportamento é mesmo de assustar. Como o filme é baseado em fatos reais, achei que faltou no final a informação do que aconteceu com os personagens reais depois de tudo. Prepare-se para roer as unhas...                                    


                                   

segunda-feira, 3 de julho de 2017

“ROSAS A CRÉDITO” (“Roses à Crédit”), 2010, França, roteiro e direção de Amos Gitaï (“Free Zone”, “Kadosh” e “Kedma”). É uma adaptação do romance da escritora francesa Elsa Triolet, lançado em 1959, cujo pano de fundo é o esforço dos franceses em reerguer o país após anos de conflito. A história é centrada em Marjoline (Léa Seydoux) e Daniel (Grégoire Leprince-Ringuet), jovens que resolvem se casar logo após o final da Segunda Grande Guerra. Daniel trabalha com o pai Georges (Pierri Arditi) na produção de rosas, negócio que é uma tradição da família. Marjoline trabalha num salão de beleza, mas tem sonhos consumistas que estão fora do orçamento do casal. Aí a coisa complica, as dívidas aumentam e o casamento entra em crise. Trata-se de mais um bom trabalho do diretor israelense, cuja temática habitual é voltada para as questões que envolvem Israel e o Oriente Médio. Destaco a exuberante recriação de época, incluindo figurinos, cenários, trilha sonora e o comportamento social dos franceses. Com esse filme, a bela Léa Seydoux, na época com 25 anos, se consolidou como uma atriz bastante promissora. Nos anos seguintes, sua carreira daria um grande salto, quando estrelou, sempre em papéis de destaque, filmes como "007 contra Spectre", "Missão Impossível: Protocolo Fantasma", "Meia-Noite em Paris" e o polêmico "Azul é a Cor mais Quente". Hoje, Seydoux já é uma das melhores e mais requisitadas atrizes francesas da atualidade, devendo ocupar, em pouco tempo, o lugar da diva Isabelle Huppert.                            


domingo, 2 de julho de 2017

Quando filmou o excelente “Almas Silenciosas”, em 2010, o cineasta russo Aleksey Fedorchenko entrou em contato com a cultura do povo Mari, que habita uma região nas Montanhas Urais ao Norte da Rússia (Bashkortostão e Tatarstão). Os habitantes chegam hoje a 600 mil e são conhecidos por conservarem suas seculares tradições pagãs. Certamente para divulgar essa rica e interessante cultura, Fedorchenko realizou, em 2012, o filme “ESPOSAS CELESTIAIS DO PRADO MARI” (“Nebesnye Zheny Iugovykh Mari”), inspirado no livro de contos escrito por Denis Osokin, por sinal autor do roteiro. São 23 histórias curtas, cada uma identificada pelo nome de uma personagem. Ou seja, cada segmento leva o nome de uma mulher. O filme explora as tradições do povo Mari, mostrando seus estranhos rituais voltados para conseguir um objetivo. Por exemplo: arrumar um marido, engravidar, eliminar marcas de nascença, afastar maus espíritos etc. Muita sexualidade e misticismo, o que fez com que fosse chamado de “Decameron do Leste”, referência ao polêmico filme de 1971 do diretor italiano Pier Paolo Pasolini. O filme, realizado com financiamento do Ministério da Cultura da Federal Russa, é muito interessante, principalmente por nos apresentar uma cultura que poucos de nós lemos a respeito ou ouvimos falar.                            


quinta-feira, 29 de junho de 2017

Depois de dirigir “Post Mortem”, “No” (indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013), e “O Clube”, o diretor chileno Pablo Larraín caiu nas graças da crítica especializada e de Hollywood. Tanto é que depois dirigiu “Jackie”, com Natalie Portman. Todos os seus filmes têm um fundo político muito forte, explorando, principalmente, períodos de ditadura vividos pelo povo chileno. Não foi de outra forma que dirigiu “NERUDA”, com roteiro de Guilhermo Calderón (que também escreveu “Violeta foi para o Céu” e “O Clube”). “Neruda” é ambientado em 1948, quando o grande poeta chileno era senador da república e ligado ao partido comunista. Para não ser preso, Neruda empreendeu uma fuga pelo sul do país até chegar à Argentina. Não há muitos registros históricos sobre essa aventura. Dessa forma, Guilhermo Calderón e Larraín imaginaram o que teria ocorrido e criaram uma narrativa ficcional centrada na perseguição do policial Oscar Peluchoneau (Gael Garcia Bernal) a Neruda (Luis Gnecco). A fotografia, os figurinos e os cenários lembram os filmes noir de antigamente – Neruda era fã da literatura policial norte-americana. Muitos trechos dos principais poemas escritos por Neruda aparecem na narrativa in-off, o que, ao invés de reforçar o contexto das situações, tornou o filme um tanto cansativo. A semelhança física do ator com o poeta é impressionante. Pena que sua atuação ficou um tanto caricatural. O filme foi selecionado para representar o Chile no Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro. De qualquer forma, é um filme de Larraín e que, por isso mesmo, merece ser conferido.                       

terça-feira, 27 de junho de 2017

“VOCÊ SERÁ UM HOMEM” (“Tu Serás un Homme”), França, 2014, escrito e dirigido por Benoit Cohen. Confesso que fiquei desconfiado e não muito motivado a assistir, a começar pelo título estranho e também como foi concebido, misturando espanhol e francês. Além disso, não tinha referências sobre o diretor e o elenco, repleto de gente desconhecida. Por fim, a capinha do DVD, com aquela foto de alguém vestindo uma máscara das mais esquisitas. Pensei: lá vem bomba! Decidi finalmente conferir e, para minha surpresa, acabei assistindo um filme bastante interessante e agradável, um ótimo programa para uma sessão da tarde. A história: Léo (Aurelio Cohen), um garoto de 10 anos esperto e inteligente, vive enfurnado na biblioteca do pai devorando livros de poesia. Ele não recebe muito carinho e atenção nem do pai (Grégoire Monsaingeon) nem da mãe (Eléonore Pourriat), que sofre da síndrome do pânico e não sai de casa há três anos. Ao colocar um anúncio procurando uma babá para cuidar de Léo, quem aparece e acaba contratado é o jovem Théo (Aurelio Cohen). Em pouco tempo, Théo e Léo ficam amigos inseparáveis. Com seu jeito alegre e descontraído, Théo também cai nas graças da mãe. O pai, enciumado, não gosta da situação e acaba demitindo Théo e contratando uma nova babá, desta vez uma bela garota. Aí começa a confusão, pois a nova babá é nada menos do que a ex-namorada de Théo. O filme privilegia o bom humor, embora aborde temas sérios como amadurecimento, amizade e relacionamento familiar. A simpatia dos atores é mais um trunfo que torna este filme francês uma boa dica de entretenimento.              

domingo, 25 de junho de 2017

Em 2007, uma equipe pertencente à Ong francesa “Arca de Zoé” tentou resgatar 103 crianças órfãs do Chade para levá-las à França para adoção. Para evitar os trâmites burocráticos de imigração, a ação teria de ser secreta, envolvendo visitas às aldeias perto da fronteira de Darfur, além do aluguel de um Boeing-737 para transportar as crianças. Porém, por trás de uma aparente ação humanitária, havia outras intenções não muito escrupulosas. Essa história foi transformada no filme “OS CAVALEIROS BRANCOS” (“Les Chevaliers Blancs”), 2015, França/Bélgica, direção de Joachim Lafosse, que escreveu o roteiro juntamente com Thomas Van Zuylen, Julie de Carpentries e Zélia Abade, com base no livro “Les Chevaliers Blancs”, de François-Xavier Pinte e Geoffroy D’Ursel. Os personagens da história real receberam nomes fictícios, como Jacques Arnault (Vincent Lindon), chefe da missão, Laura (Louise Bourgoin), a repórter Françoise (Valérie Donzelli) e Xavier (Reda Kateb), além de médicos e enfermeiros. A Ong do filme foi intitulada “Move for Kids”. Ao invés de priorizar o clima de tensão e perigo enfrentado pela equipe em suas visitas às aldeias em meio a uma guerra civil, o diretor preferiu destacar a rotina do grupo e os desentendimentos entre seus integrantes, que divergiam sobre as verdadeiras intenções da Ong. Com essa opção, Lafosse privilegiou a falação ao invés da ação. De qualquer forma, vale pela presença sempre marcante de Vincent Lindon e pela história em si, que ficou pouco conhecida por aqui.            


sábado, 24 de junho de 2017

“A DÍVIDA” (”Oliver’s Deal”), coprodução EUA/Peru/Espanha, 2015, primeiro longa escrito e dirigido por Barney Elliott. O filme começa mostrando o trabalho de um garoto, seu pai e sua irmã numa fazenda situada nos alpes peruanos – as paisagens são lindas. O cenário muda de forma abrupta para um escritório sofisticado de Nova Iorque, cujo negócio principal é adquirir e depois negociar títulos da dívida pública de países do Terceiro Mundo. Pelo menos foi isso que eu entendi. Não há muita explicação sobre a atividade e talvez os leigos no assunto, como eu, ficarão totalmente por fora. Pelo que foi possível entender, o escritório está envolvido num acordo financeiro entre o governo dos EUA e o Peru. O escritório é comandado por Nathan (David Strathairn), que tem como seu braço direito Oliver Campbell (Stephen Dorff), tão inescrupuloso quanto seu chefe. O único funcionário do escritório que tem alguma sensibilidade é Ricardo (o ator argentino Alberto Ammann). Enquanto eles combinam estratégias para novos negócios no escritório de Nova Iorque, o poderoso empresário peruano Ruben Caravedo (o ator espanhol Carlos Bardem, irmão de Javier) tenta comprar as terras de pequenos proprietários rurais, entre eles o dono da fazenda onde pai e filhos aparecem trabalhando no início. Um novo personagem aparece na história (para confundir ainda mais): uma enfermeira (Elsa Olivero) que tenta conseguir uma operação para sua mãe num hospital público em Lima. Qual a ligação do drama dessa enfermeira com o enredo? Quase nenhuma. Só encher linguiça. Resumindo: Oliver e Ricardo vão para o Peru tentar convencer o coitado do fazendeiro a vender suas terras. No final, porém, descobrirão que uma trama sórdida está por trás de tudo. É a tal da ganância corporativa: os ricos explorando os pobres.    


quarta-feira, 21 de junho de 2017

O drama “PAULINA” (“La Patota”), 2015, Argentina, escrito e dirigido por Santiago Mitre, explora um tema dos mais polêmicos: o estupro. Trata-se, na verdade, da refilmagem do  clássico – também argentino – “La Patota”, de 1961. A história é centrada na advogada Paulina (Dolores Fonzi), que desiste de uma promissora carreira na área jurídica para se embrenhar numa zona rural pobre e ensinar política aos jovens da região. Ela quer formar cidadãos responsáveis, afirma ao pai, o juiz Fernando (Oscar Martinez, de “Inseparáveis” e “O Cidadão Ilustre”), que não se conforma com a decisão de certa forma irresponsável da filha. Numa noite em que pega emprestada a moto de uma amiga, Paulina é atacada por um grupo de jovens e estuprada. O pai exige que a polícia investigue o caso e prenda os agressores, mesmo que não conte com a colaboração de Paulina. Sua atitude passiva em relação ao que ocorreu revolta o pai, cujo desejo é fazer uma vingança sem piedade. A situação se complica ainda mais quando uma consequência do estupro é revelada. Dolores Fonzi, que foi casada com o ator mexicano Gael García Bernal, é uma das atrizes de maior evidência na Argentina. Além de bonita, é excelente atriz. O filme foi escrito e dirigido por Santiago Mitre (“La Cordillera”) e teve como um dos produtores o diretor brasileiro Walter Salles. Exibido por aqui durante a 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2015, “Paulina” venceu o Prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes 2015. Mais um bom filme argentino que merece ser visto.    

domingo, 18 de junho de 2017

Faz algum tempo que Adam Sendler não aparece na telona. Por um bom tempo ele estará só na telinha da TV. O ator norte-americano assinou contrato com a Netflix para protagonizar seis filmes. Os dois primeiros foram “The Ridiculous 6” (2015) e “Zerando a Vida” (2016). O terceiro e mais recente é “SANDY WEXLER” (2017), uma comédia onde Sendler aparece como o personagem do título, um empresário mequetrefe de Los Angeles que no início dos anos 90 – período em que a história é ambientada – agenciava os mais diferentes artistas, desde um ventríloquo, um lutador de luta-livre e até um acrobata saltador de obstáculos, cujas apresentações sempre acabavam em fracassos e fraturas. Até que um dia Wexler descobre, fazendo show num parque de diversões, a cantora Courtney Clarke (Jennifer Hudson). Ela logo se transforma num grande sucesso comercial, uma estrela da música pop. Com seu jeito abobalhado e inconveniente, Wexler desperdiça o momento e cai em desgraça, enquanto Courtney alavanca cada vez mais sua carreira artística. O filme, dirigido por Steven Brill (“A Herança de Mr. Deeds” e “Ligeiramente Grávidos”), foi escrito pelo trio de roteiristas Dan Bulla, Paul Sado e Tim Herlihy, que se inspiraram na trajetória de um empresário chamado Sandy Wernick, que realmente existiu e ganhou uma certa notoriedade na década de 90. O filme conta com rápidas aparições de comediantes, atores e celebridades do cinema e da TV, como Jay Leno, John Lovitz, Chris Rock, Jimmy Kimmel, David Spade e Pauly Shore, além das participações especiais de Rob Schneider, Kevin James, Terry Crews e Jane Seymour, ainda bonita e em grande forma aos 66 anos. O personagem vivido por Sendler é irritante ao extremo, inconveniente e completamente sem graça, como o filme inteiro – a não ser uma única cena onde ele é manipulado pelo ventríloquo. Sendler é o chato de sempre, caprichando para ser o mais abobado possível, parecendo um Jerry Lewis com surto de debilidade mental. O filme é muito fraco e longo demais: 2h10. Para quem gosta de cinema de qualidade, trata-se de um atentado ao intelecto.  

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Jim Jarmusch é um dos diretores de cinema mais cultuados da atualidade por grande parte dos críticos especializados. Esse status foi obtido por filmes autorais como “Flores Partidas”, “Amantes Eternos” e “Estranhos no Paraíso”, que definiram seu estilo pouco convencional. Com o recente “PATERSON”, o diretor norte-americano de 64 anos novamente arrancou elogios entusiasmados, transformando-se numa das grandes sensações do Festival de Cannes 2016. Ambientado na cidade de Paterson, em Nova Jersey, o filme acompanha o cotidiano de Paterson (Adam Driver, de “Star Wars”), um motorista de ônibus que adora escrever poesias nas horas vagas. Ele é casado com Laura (a bela atriz iraniana Golshifteh Farahani), uma mulher ingênua e infantil que procura seu lugar no mundo profissional, indecisa entre a música, a culinária ou as artes plásticas. A rotina de Paterson começa cedo com o café da manhã com Laura, o trabalho de motorista, a cerveja no final do dia no bar de Doc (Barry Shabaka Henrley) e os passeios com o buldogue Marvin. E, claro, escrever poesias, que Jarmusch faz questão de reproduzir na tela – na verdade, o autor delas é o poeta Ron Padgett, a quem o diretor admira há muitos anos. Como na maioria de seus filmes, Jarmusch mais uma vez reúne humor, ironia e erudição, tornando “Paterson” um entretenimento inteligente e acima da média.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

O filme se chama “DESCONHECIDA” (“Complete Unknown”), mas poderia se chamar “Inexplicável”. Vou tentar explicar o “Inexplicável”, a começar pela história sem pé nem cabeça.  Mulher bonita (Alice - Rachel Weisz) conhece um rapaz num bar. Este a convida para jantar com uma turma de amigos na casa de um deles, Tom (Michael Shannon). Todo mundo fica curioso em conhecê-la. Ela conta que viajou pelo mundo inteiro, trabalhou como bióloga na Tasmânia e até como assistente de mágico na China, entre outras peripécias que deixariam Forrest Gump com vergonha. Será ela uma mentirosa compulsiva ou tudo que disse é verdade? Pior: Tom, que é casado, acaba lembrando da moça, que há muitos anos se chamava Jennifer. Parece que tiveram um romance. Muita coincidência ela aparecer justamente na casa dele. O pessoal sai para dançar numa discoteca. Alice, ou Jennifer, vai embora e Tom sai atrás. Enquanto conversam, uma senhora (Kathy Bates) leva um tombo e eles a socorrem. Alice, ou Jennifer, diz que Tom é médico e que cuidará dela. E por aí vai essa aberração cinematográfica, que inclui uma longa cena com sapos noturnos, que não quer dizer absolutamente nada, assim como o filme inteiro. Inexplicável também é o fato de Rachel Weisz e Michael Shannon, dois bons atores, aceitarem participar de tamanho descalabro. E também Kathy Bates e Danny Glover, estes últimos em rápida aparição, talvez envergonhados. Quem escreveu e dirigiu esse verdadeiro abacaxi foi Joshua Marston, que ficou conhecido depois de dirigir “Maria Cheia de Graça”, filme de 2004, que não é tão ruim como este. Conselho: passe bem longe!