quinta-feira, 15 de junho de 2017

Jim Jarmusch é um dos diretores de cinema mais cultuados da atualidade por grande parte dos críticos especializados. Esse status foi obtido por filmes autorais como “Flores Partidas”, “Amantes Eternos” e “Estranhos no Paraíso”, que definiram seu estilo pouco convencional. Com o recente “PATERSON”, o diretor norte-americano de 64 anos novamente arrancou elogios entusiasmados, transformando-se numa das grandes sensações do Festival de Cannes 2016. Ambientado na cidade de Paterson, em Nova Jersey, o filme acompanha o cotidiano de Paterson (Adam Driver, de “Star Wars”), um motorista de ônibus que adora escrever poesias nas horas vagas. Ele é casado com Laura (a bela atriz iraniana Golshifteh Farahani), uma mulher ingênua e infantil que procura seu lugar no mundo profissional, indecisa entre a música, a culinária ou as artes plásticas. A rotina de Paterson começa cedo com o café da manhã com Laura, o trabalho de motorista, a cerveja no final do dia no bar de Doc (Barry Shabaka Henrley) e os passeios com o buldogue Marvin. E, claro, escrever poesias, que Jarmusch faz questão de reproduzir na tela – na verdade, o autor delas é o poeta Ron Padgett, a quem o diretor admira há muitos anos. Como na maioria de seus filmes, Jarmusch mais uma vez reúne humor, ironia e erudição, tornando “Paterson” um entretenimento inteligente e acima da média.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

O filme se chama “DESCONHECIDA” (“Complete Unknown”), mas poderia se chamar “Inexplicável”. Vou tentar explicar o “Inexplicável”, a começar pela história sem pé nem cabeça.  Mulher bonita (Alice - Rachel Weisz) conhece um rapaz num bar. Este a convida para jantar com uma turma de amigos na casa de um deles, Tom (Michael Shannon). Todo mundo fica curioso em conhecê-la. Ela conta que viajou pelo mundo inteiro, trabalhou como bióloga na Tasmânia e até como assistente de mágico na China, entre outras peripécias que deixariam Forrest Gump com vergonha. Será ela uma mentirosa compulsiva ou tudo que disse é verdade? Pior: Tom, que é casado, acaba lembrando da moça, que há muitos anos se chamava Jennifer. Parece que tiveram um romance. Muita coincidência ela aparecer justamente na casa dele. O pessoal sai para dançar numa discoteca. Alice, ou Jennifer, vai embora e Tom sai atrás. Enquanto conversam, uma senhora (Kathy Bates) leva um tombo e eles a socorrem. Alice, ou Jennifer, diz que Tom é médico e que cuidará dela. E por aí vai essa aberração cinematográfica, que inclui uma longa cena com sapos noturnos, que não quer dizer absolutamente nada, assim como o filme inteiro. Inexplicável também é o fato de Rachel Weisz e Michael Shannon, dois bons atores, aceitarem participar de tamanho descalabro. E também Kathy Bates e Danny Glover, estes últimos em rápida aparição, talvez envergonhados. Quem escreveu e dirigiu esse verdadeiro abacaxi foi Joshua Marston, que ficou conhecido depois de dirigir “Maria Cheia de Graça”, filme de 2004, que não é tão ruim como este. Conselho: passe bem longe!    


domingo, 11 de junho de 2017

"QUANDO A NEVE CAI" (“DESPITE THE FALLING SNOW”), 2016, Inglaterra, roteiro e direção da inglesa Shamim Sarif, que adaptou para o cinema o romance que ela mesmo escreveu. A história é ambientada no final da década de 50 em Moscou, durante a Guerra Fria. Depois de viver com o trauma de ver seus pais assassinados pelo regime de Stalin, Katya (a sueca Rebecca Fergusson, de “Missão Impossível: Nação Secreta”) resolve se vingar e passa a trabalhar como espiã para os EUA. Numa de suas missões, ela é escalada para conseguir informações junto a Alexander (Sam Reid), que ocupa um cargo importante no governo comunista, a quem deveria seduzir. Katya não poderia imaginar, porém, que Alexander iria se apaixonar perdidamente por ela, e vice-versa. E os dois acabam se casando. Em 1961, Alexander acompanha uma missão diplomática russa para uma reunião com os norte-americanos em Nova Iorque e acaba desertando. A história salta para 1992. A fotógrafa Lauren (papel também de Fergusson), sobrinha de Alexander, resolve ir para Moscou tentar descobrir o que aconteceu com Katya depois que o marido desertou. Ela conhece Marina (a bela atriz alemã Antje Traue), uma jornalista de grande influência na capital soviética, que se propõe a ajudá-la. Ao encontrar um antigo parceiro de Katya, ela descobrirá toda a verdade. Mesmo que a espionagem apareça como pano de fundo, é o romance entre Katya e Alexander que norteará todo o desenrolar da história. Não é o melhor filme de espionagem que já vi, nem é ruim, mas fica bem longe dos melhores.                                   
“UM MERGULHO NO PASSADO” (“A Bigger Splash”), 2015, coprodução Itália/França, roteiro de David Kajganich e direção de Luca Guadagnino, é uma refilmagem do clássico policial francês “A Piscina”, de 1969, com Alain Delon e Romy Schneider. No filme recente, falado em inglês, a história é centrada na estrela do rock Marianne Lane (Tilda Swinton), que resolve passar as férias de verão com o namorado Paul de Smedt (Mathias Schoenaearts) numa casa na paradisíaca Ilha de Pantelleria, na Sicília. Tudo vai bem com o casal até que chega uma visita das mais inesperadas e indesejadas: Harry Hawkes (Ralph Fiennes), ex-produtor musical de Marianne, e sua filha Penélope (Dakota Johnson). Prevendo confusão, Paul não quer que Marianne hospede Harry e a filha. Marianne, porém, não tem opção, pois, além de antigo amigo, Harry produziu muitos de seus discos e shows. Os dias passam e o clima vai ficando cada vez mais pesado, principalmente pelo comportamento inconveniente do egocêntrico e verborrágico Hawkes, que não para de beber, toma banho de piscina nú e ainda assedia Marianne. Os jogos de sedução também envolvem Penélope e Paul. É claro que a convivência acabará numa tragédia e, a partir de então, o filme se transforma num verdadeiro suspense policial, envolvendo até mesmo os coitados dos refugiados que chegam de barco ao litoral italiano. Apesar do elenco de astros, o filme não convence e, em muitos momentos, torna-se até desagradável, principalmente por causa do personagem histriônico e irritante de Ralph Fiennes.                                


O drama inglês “45 ANOS” (“45 YEARS”), foi escrito e dirigido por Andrew Haigh e teve sua primeira exibição no Festival de Berlim/2015. Na tranquilidade bucólica da confortável casa em que vivem numa zona rural da Inglaterra, Geoff Mercer (Tom Courtnay) e Kate (Charlotte Rampling) curtem uma rotina tediosa ao lado do seu cão pastor Max. Às vésperas da festa do  45º aniversário de casamento, Geoff recebe a notícia de que o corpo de uma antiga namorada e uma de suas grandes paixões da juventude, que estava desaparecida depois de um acidente, foi encontrado numa geleira dos Alpes Suíços. Ao recordar alguns fatos dessa antiga paixão, Geoff acaba gerando ciúmes em Kate. O relacionamento entre os dois fica abalado, principalmente pela insegurança de Kate quanto ao verdadeiro amor de Geoff, se ela ou a antiga namorada. Nos dias em que antecedem a festa, Kate e Geoff recordam alguns fatos que marcaram seu casamento, mas o fantasma da antiga namorada sempre aparece no meio da conversa. Será que haverá clima para a festa? A resposta você só terá assistindo a este excelente filme, cujo roteiro foi baseado no conto “In Another Country”, de David Constantine, e claramente inspirado no clássico “Cenas de um Casamento”, de 1973, do diretor sueco Ingmar Bergman. “45 Anos” foi premiado em vários festivais pelo mundo afora. Charlotte Rampling e Tom Courtnay conquistaram o Prêmio Urso de Ouro de Melhor Atriz e Ator no Festival de Berlim/2015. Além disso, também por esse filme, Rampling foi indicada e disputou o Oscar/2016 de Melhor Atriz. A trilha sonora, dos anos 60, é deliciosa: Marvin Gaye, Aaron Neville, Buffalo Springfield, The Moody Blues, The Turtles etc.                          

sábado, 10 de junho de 2017

Singelo, comovente, sensível. Assim é o drama francês “FATIMA”, 2015, escrito e dirigido pelo marroquino Philippe Faucon (“Samia”). A história acompanha o cotidiano de Fatima (Soria Zeroual), imigrante argelina divorciada de 44 anos, que há duas décadas imigrou para Paris e cria, com o trabalho de faxineira, as duas filhas nascidas em solo francês, Nesrine (Zita Hanrot), de 18 anos, e Souad (Kenza Noah Aïche), de 15 anos. Fatima não fala bem o francês e se comunica com as filhas em árabe, resultando num choque cultural dentro da própria família, pois Nesrine e Souad, plenamente integradas aos modos e costumes da França, não aceitam seguir as tradições muçulmanas, como, por exemplo, usar o véu para sair na rua. Nesrine é o orgulho da família, pois conseguiu ingressar na faculdade de Medicina, fato que gera a inveja das vizinhas também imigrantes. Souad é uma adolescente rebelde e briguenta, que não se conforma que a mãe seja uma faxineira. Ao cair de uma escada e ficar afastada do trabalho por licença médica, Fatima passa a escrever um diário em árabe, escrevendo tudo aquilo que gostaria de dizer às filhas em francês, além de fazer uma abordagem sobre os desafios de viver em outro país, em meio a muito preconceito. Numa das passagens do diário, escrito com muita poesia e sensibilidade, ela faz uma homenagem às “Fátimas” que, como ela, fazem o serviço pesado e sustentam suas famílias a custa de muito suor. Um texto muito bonito, que valoriza ainda mais esse belo filme, cujo roteiro foi inspirado em dois livros escritos pela imigrante marroquina Fatima Elayubi em 2006 e 2011. “Fatima”, merecidamente, conquistou o Prêmio César (o Oscar francês) de Melhor Filme em 2016.                          




sexta-feira, 9 de junho de 2017

Ainda não tem data para estrear por aqui “REGRAS NÃO SE APLICAM” (“Rules Don’t Apply”), 2016, sexto filme escrito – em conjunto com Bo Goldman - e dirigido pelo ator Warren Beatty. Ambientado em 1958, conta a história da jovem Marla Mabrey (Lily Collins), que chega a Hollywood em companhia da mãe Lucy (Annette Bening) para fazer um teste na produtora do excêntrico milionário Howard Hughes (Warren). Frank Forbes (Alden Ehrenreich) é o motorista escalado para servir Marla entre sua casa e o estúdio. Logo é possível perceber que os dois se apaixonarão, mesmo que uma das regras de Hughes seja desrespeitada: nenhum dos seus funcionários pode se envolver com as atrizes de seu estúdio – daí o título original. O filme é uma mistura de romance, comédia e drama, além de uma sátira ao misterioso Hughes, aqui apresentado como uma figura patética e histriônica. O resultado final não me agradou e, se há algo a destacar de forma positiva, é a exuberante recriação de época, especialmente os cenários e os figurinos, além da deliciosa trilha sonora. Outro fator de destaque é a presença de atores famosos fazendo apenas uma ponta no filme, como Matthew Broderick, Candice Bergen, Steve Coogan, Martin Sheen, Oliver Platt, Paul Sorvino e Ed Harris. Vale para uma sessão da tarde com pipoca. Nada muito especial.                    


O drama norte-americano “CHRONIC” disputou a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2015, onde teve sua primeira exibição – ainda não chegou por aqui, e duvido que chegue. Foi escrito e dirigido pelo mexicano Michel Franco (“Depois de Lúcia”) e traz no papel principal o ator britânico Tim Roth. Ele é David, um enfermeiro/cuidador que há muitos anos trabalha com pacientes terminais. Sua dedicação extrapola a função pela qual é contratado, pois acaba sempre ficando amigo, confidente e conselheiro dos doentes. O filme mostra a rotina tediosa de David, atendo-se a detalhes como a limpeza das sujeiras, o banho demorado, a medicação e, em especial, o carinho com que trata cada um deles. É assim que David aparece cuidando de duas mulheres com câncer, um idoso que acabara de sofrer um violento derrame e um rapaz com problemas motores. A dedicação de David nem sempre é compreendida pela família dos doentes. Ao ser surpreendido abraçando um deles, David é acusado, injustamente, de assédio sexual. Ao mesmo tempo, ele tenta se reconciliar com a filha Nadia (Bitsie Tulloch), fruto de um casamento desfeito. Ele também vive perturbado pelas recordações envolvendo um evento trágico ocorrido com seu filho, o que finalmente explica sua extrema dedicação aos doentes terminais. O filme é lento, sensação reforçada por longas cenas sem diálogos, e um tanto chocante ao mostrar o triste final de pessoas cuja única perspectiva é morrer sem sofrimento. O desfecho, abrupto e surpreendente, é perturbador. Não é um filme agradável de assistir, mas muito impactante. Mesmo numa atuação contida, o britânico Tim Roth mostra mais uma vez por que é considerado um dos melhores atores da atualidade. Aos 56 anos, Roth já trabalhou com grandes diretores, como Giuseppe Tornatore (no ótimo “A Lenda do Pianista do Mar”, de 1998), além de alguns filmes de Quentin Tarantino, como “Os Oito Odiados” e “Cães de Aluguel”.             

quinta-feira, 8 de junho de 2017

No dia 15 de abril de 2013, feriado nacional nos EUA (“Patriots Day”), um atentado terrorista durante a tradicional maratona de Boston matou 3 pessoas e deixou 264 feridas, muitas delas com os membros inferiores amputados. O evento trágico foi considerado o pior em solo norte-americano desde o 11 de setembro de 2001. O drama “O DIA DO ATENTADO” (“Patriots Day”), 2016, relembra em detalhes todo o episódio, desde as horas que o antecederam, o atentado em si e a posterior caçada aos terroristas. O diretor Peter Berg ( de “Horizonte Profundo: Desastre no Golfo” e do ótimo “O Grande Herói”), seguindo o roteiro escrito por ele mesmo em conjunto com Matt Cook e Joshua Zetumer, utilizou inúmeras cenas reais do momento da tragédia, algumas muito chocantes. Mas o aspecto mais destacado ficou por conta da caçada aos terroristas, identificados e presos 102 horas depois. Esse trabalho reuniu a polícia de Boston e agentes do FBI. Um grande galpão foi adaptado para concentrar toda a investigação, o que incluiu uma montagem de uma maquete gigante reproduzindo a rua onde as duas bombas explodiram. Tudo bem que o filme tem o tom patriótico típico dos filmes norte-americanos, o que não é demérito nenhum. O elenco é outro destaque: Mark Wahlberg (também um dos produtores), Kevin Bacon, John Goodman, J. K. Simmons e Michelle Monaghan. Filmaço!  

                                   

terça-feira, 6 de junho de 2017



“O IDEALISTA” (“IDEALISTEN”), 2015, Dinamarca, roteiro e direção de Christina Rosendahl. O filme resgata um fato não muito divulgado por aqui – não me lembro de ter lido ou ouvido falar do assunto. No dia 21 de janeiro de 1968, um bombardeiro B-52 norte-americano carregando ogivas nucleares caiu e explodiu próximo à base aérea dos EUA em Thule, na Groenlândia, naquela época um território da Dinamarca. A declaração oficial das autoridades dava conta de que realmente havia acontecido um acidente nuclear, mas a situação estava totalmente sob controle. Vinte anos depois, portanto em 1988, o jornalista dinamarquês Poul Brick (Peter Plaugborg) resolveu reabrir o caso. Brick vai fundo no assunto, entrevista os dinamarqueses que trabalhavam na base, muitos deles afetados por doenças causadas pelo acidente, e as autoridades encarregadas de investigar as causas da queda do avião e suas consequências. Ao fim de anos de trabalho, Brick chegará a uma conclusão que desagradará tanto o governo da Dinamarca quanto o dos EUA. O filme destaca os esforços de Brick para chegar a uma verdade que ele acreditava estar escondida durante décadas e que precisava ser revelada. Como se fosse um documentário em sua grande parte, o filme também reúne inúmeros vídeos, reportagens e entrevistas feitas após o acidente, muitos dos quais acabaram reforçando a tese abraçada pelo jornalista dinamarquês. O trabalho de Brick é considerado um dos mais importantes exemplos de jornalismo investigativo, o que por si só garante um ótimo entretenimento, principalmente para os estudantes de Comunicação. O filme foi exibido por aqui durante a 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016. 

domingo, 4 de junho de 2017

Antes de assistir ao drama “A LUZ ENTRE OCEANOS” (“THE LIGHT BETWEEN OCEANS”), 2016, EUA/Nova Zelândia, roteiro e direção do australiano Derek Cianfrance, separe uma caixa de lenços de papel. A história é baseada no livro best-seller da escritora australiana M. L. Stedman. Depois de lutar na I Grande Guerra, Tom Sherbourne (Michael Fassbender) precisa encontrar um lugar para se recuperar das feridas psicológicas do conflito. Encontrou refúgio como faroleiro na Ilha Janus Rocki, situada entre os oceanos Pacífico e Índico – daí o título. Ele casa com a jovem Isabel Graysmark (Alicia Vikander), que conhece logo ao ser contratado. Isabel engravida duas vezes, mas perde os bebês. Um dia, um barco a remo, à deriva, chega à ilha, com um homem morto e um bebê. Tom e Isabel adotam a criança e escondem o fato de todos, inclusive das autoridades que deveriam ser avisadas pelo faroleiro, conforme procedimento acertado em contrato. Anos mais tarde, a situação se complica com o surgimento da mãe biológica da criança, Hannah Hoennfeldt (Rachel Weisz), que acaba com o mistério que envolvia o barco. Ao saber da verdade, Tom é acometido por um enorme complexo de culpa, mas, assistindo à felicidade de Isabel como mãe, decide manter a história em segredo. Mas não por muito tempo. O filme foi elaborado de acordo com o estilo novelístico do livro, transformando-se num dramalhão e tanto, mas a história é bastante interessante e repleta de suspense, sem falar nos cenários deslumbrantes (uma ilha da Tasmânia serviu de locação). Durante as filmagens, o ator alemão Fassbender e a sueca Vikander iniciaram um romance que dura até hoje. Para quem gosta de um bom drama, um ótimo programa.  

terça-feira, 30 de maio de 2017

“ESTRELAS ALÉM DO TEMPO” (“Hidden Figures”) conta uma história que há muitos anos ficou praticamente escondida do grande público. Pelo menos não me lembro de ter lido ou ouvido falar de cientistas negras que tiveram um papel fundamental no desenvolvimento do programa espacial norte-americano no início da década de 60, no auge da Guerra Fria, quando os Estados Unidos disputavam com a União Soviética quem ganharia a corrida espacial. Inconcebível que durante tanto tempo essa história não tenha sido contada. Até que, em 2014, Margot Lee Shetterly resolveu transformá-la em livro – “Hidden Figures” -, adaptado para o cinema pela roteirista Allison Schroeder e pelo diretor Theodore Melfi (“Um Santo Vizinho”).  O enredo é centrado na matemática Katherine Johnson (Taraji P. Henson), na especialista em computação Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e na engenheira Mary Jackson (Janelle Monáe), que venceram o forte preconceito racial e, com muita coragem e determinação, encontraram seu espaço na NASA, ocupando cargos do mais alto nível. Só para se ter uma ideia da importância dessas mulheres, basta dizer que Katherine, um gênio precoce da matemática, foi a responsável pelos cálculos que permitiram o lançamento e a reentrada na atmosfera terrestre da cápsula espacial com o astronauta John Gleen, o primeiro a entrar em órbita. Apesar do contexto dramático causado pelo preconceito racial e da Guerra Fria como pano de fundo, o filme é levado com muito bom humor, culminando num entretenimento dos mais agradáveis. Ainda estão no elenco Kevin Costner, Kirsten Dunst e Mahershala Ali, que também atuou em “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, pelo qual ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. Por falar em Oscar 2017, “Estrelas Além do Tempo” foi indicado em três categorias: “Melhor Filme”, “Atriz Coadjuvante” (Octavia Spencer) e Roteiro Adaptado. IMPERDÍVEL!


segunda-feira, 29 de maio de 2017

Indicado ao Oscar 2017 em seis categorias, inclusive Melhor Filme, “LION: UMA JORNADA PARA CASA” (“Lion”), EUA/Austrália, direção de Garth Davis, conta a história verídica do indiano Saroo Brierley, que, em 1986, aos cinco anos de idade se perdeu do irmão mais velho Guddu numa estação de trem do interior da India e acabou mais perdido ainda em Calcutá, depois de uma viagem de mais de 1.600 km. Saroo é encaminhado para um orfanato e logo depois adotado por um casal australiano. Vinte e cinco anos depois, ele sente a necessidade de rever sua mãe biológica e seu irmão. Este é, basicamente, o enredo dessa incrível e comovente história, adaptada para o cinema pelo roteirista Luke Davies (“Life – Um Retrato de James Dean”), que se baseou nos fatos narrados por Saroo na autobiografia “A Long Way Home”. O elenco é ótimo: Dev Patel (Saroo), Sunny Pawar (Saroo menino), Rooney Mara (Lucy), Nicole Kidman (Sue, a mãe adotiva) e David Wenham (John, o pai adotivo). Impossível não se emocionar com a trajetória épica de Saroo. Um belo filme que merece ser visto. Espere os créditos finais, nos quais aparecem os personagens verdadeiros se encontrando, inclusive a mãe biológica e a mãe adotiva. Lenços de papel à mão...
 

sábado, 27 de maio de 2017

No final dos anos 80, o lutador norte-americano Vinny Pazienza surpreendeu o mundo do boxe ao retornar aos ringues depois de ter sido declarado “desenganado” para as lutas. Campeão do mundo na categoria superleves, ele sofreu um grave acidente automobilístico, no qual fraturou o pescoço e lesionou a coluna cervical. Os médicos foram unânimes: ele não voltaria a andar, muito menos a lutar. Pois Vinny voltou a lutar meses depois e ainda conquistou mais um cinturão de campeão do mundo. Toda essa história é contada no ótimo “SANGUE PELA GLÓRIA” (“Bleed For This”), 2016, roteiro e direção de Ben Younger (“Terapia do Amor”), que ainda teve como produtor executivo Martin Scorsese, um aval e tanto. Quem interpreta Pazienza é o ator Miles Teller, conhecido por ter protagonizado o espetacular “Whiplash – Em Busca da Perfeição”, de 2014. Como Vinny Pazienza, Miles apresenta mais uma interpretação magistral, provando que é um dos melhores atores da nova geração. O filme ainda conta com a participação de Aaron Eckhart, quase irreconhecível (careca) como o treinador Kevin Rooney, e Ciarán Hinds como o pai de Vinny. Este não é, com certeza, o melhor filme sobre boxe, mas tem inúmeras qualidades, a principal delas referente às cenas de luta. São sensacionais. Para valorizar ainda mais, a história é incrível, um dos maiores exemplos de superação já vistos no mundo do esporte. Não perca os créditos finais, nos quais aparecem os personagens reais. Simplesmente IMPERDÍVEL!

 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

“BEM-VINDO A MARLY-GOMONT” (“Bienvenue à Marly-Gomont”), 2016, França, direção de Julien Rambaldi, é mais uma produção da Netflix. Conta a história, baseada em fatos reais, do médico Syolo Zantoko (Marc Zinga), formado em Kinshasa, capital do Zaire – o filme é ambientado em 1975, quando tudo aconteceu. Depois de recusar, por questões ideológicas, um emprego como médico do General Mobutu Sese Seko, presidente do seu país, Zantoko viaja para a França e faz especialização em Lille. Ele é convidado para assumir o cargo de médico na comuna Marly-Gomont, uma zona rural ao norte da França, e convence a mulher Anne (Aïssa Maïga) e os filhos Kamini (Bayron Lebli) e Sivi (Médina Diarra) a saírem do Zaire para acompanhá-lo na nova empreitada. O médico, porém, não sabia de alguns detalhes importantes, como, por exemplo, o fato de que os moradores daquela região eram extremamente racistas. Além disso, o clima é gélido, obstáculo quase intransponível para quem estava acostumado com o calor africano. O filme inteiro se baseia justamente nos esforços da família Zantoko de vencer estes e outros obstáculos. Apesar de abordar um tema sério como o racismo, o diretor Rambaldi deu ao filme (seu segundo longa-metragem) um tom de comédia, com momentos de muito humor e situações hilariantes, tornando-o bastante agradável de assistir. Informação adicional: grande parte do roteiro foi escrito pelo próprio filho do médico, Kamini Zantoko, hoje um rapper de sucesso na França.           

                                               

terça-feira, 23 de maio de 2017

Vencedor do “Leão de Ouro” do Festival de Veneza/2015, o drama venezuelano “DE LONGE TE OBSERVO” (“Desde Allá”) conta a história de Armando (Alfredo Castro), um empresário de 50 anos, proprietário de um laboratório de próteses dentárias, que tem uma tara das mais sórdidas: pagar rapazes para ficarem nus enquanto se masturba. Um dia, Armando “contrata” Elder (Luis Silva), um delinquente líder de uma gangue e, pior, homofóbico. A relação entre os dois é, a princípio, bastante tumultuada, até violenta, depois vira amizade. Claro, uma amizade doentia de ambas as partes. Trata-se do primeiro filme escrito e dirigido por Lorenzo Vigas Castes, que contou com a colaboração, na elaboração do roteiro, do diretor mexicano Guilhermo Arriaga (“21 Gramas”, “Amores Brutos” e “Babel”). Outro trunfo do filme é o excelente desempenho do ator chileno Alfredo Castro, que tem no currículo filmes importantes como “O Clube”, “No” e “Post Mortem”. Também destaco a participação do jovem ator Luis Silva em sua estreia no cinema – ele lembra Cauã Reymond mais jovem. Mesmo com esses predicados, não é um filme que possa se chamar entretenimento. Tem poucos diálogos, é lento e bastante pesado, pois aborda temas desagradáveis como a promiscuidade e a obsessão sexual. Difícil acreditar que tenha conquistado um prêmio tão importante como o “Leão de Ouro”. Enfim, parodiando Geraldo Vandré, “a vida não é feita só de festivais”.        

domingo, 21 de maio de 2017

 O pano de fundo é a questão da pena de morte na África do Sul, abolida somente em 1995 quando Mandela assumiu a presidência do país. Até aquela data, ocorreram 4.200 execuções. O drama inglês “CORDEIROS E CARRASCOS” (“Shepherds and Butchers”), direção do sul-africano Oliver Schmitz, aborda o tema baseado no que ocorreu na capital executiva Pretória em 1987, quando aconteceram 164 enforcamentos. A história, baseada em fatos reais e transformada em roteiro por Brian Cox, é centrada no julgamento do jovem agente penitenciário Leon Labuschagne (Garion Dowds), de 19 anos, que, num surto psicótico, assassinou a tiros sete integrantes de uma equipe de futebol. Depois de preso, Leon vai a julgamento e tem como defensor o advogado Johan Webber (Steve Coogan, de “Philomena”). O destino do jovem parece ser mesmo a pena de morte. Apesar de todas as evidências em contrário, da pressão das famílias dos mortos e do clamor popular, o advogado tentará de todas as maneiras evitar a execução de Leon. Trata-se de mais um drama de tribunal, recheado de flashbacks dos acontecimentos, incluindo cenas chocantes da execução de presos por enforcamento. São chocantes mesmo, acredite! A destacar, o excelente desempenho do jovem ator Garion Dowds em sua estreia no cinema (antes, havia participado de um filme feito para a TV e de uma minissérie). Também está no elenco a atriz inglesa Andrea Riseborough, como a promotora que atua no caso. O filme estreou no Festival de Berlim/2016 e teve boa recepção por parte da crítica e do público. Minha opinião: é mais interessante, pela história, do que bom.  

                                               
“FOME DE PODER” (“The Founder”), 2016, com roteiro de Robert D. Siegel e direção de John Lee Hancock (“Um Sonho Possível”), conta a fascinante história da expansão da rede de lanchonetes McDonald’s, talvez um dos mais emblemáticos cases de sucesso do mundo dos negócios. No início dos anos 50 já havia uma lanchonete McDonald’s no sul da Califórnia, fundada e comandada pelos irmãos Richard e Maurice Mac McDonald. Em 1954, o vendedor Ray Kroc, de Illinois, visitou a lanchonete – ele vendia equipamentos para a preparação de alimentos - e ficou maravilhado com o seu funcionamento, a forma inovadora de atendimento e o cardápio. Com seu apurado tino comercial, Kroc vislumbrou, naquele pequeno negócio, um enorme potencial de crescimento, ou seja, expandir para uma rede de franquias por todo o país e, posteriormente, para o mundo inteiro. Kroc inicialmente associou-se aos irmãos e depois deu sua cartada final: fundou uma empresa franqueadora com o mesmo nome, deixando de fora os ingênuos irmãos. A ganância acima da ética. Michael Keaton está ótimo como Ray Kroc, provando que ainda é um dos melhores atores de Hollywood. Ainda estão no elenco Nick Offerman, John Carroll e Laura Dern. O filme é muito bom, ágil e esclarecedor, apresentando um dos maiores exemplos de empreendedorismo bem sucedido do mundo moderno. Imperdível!                        

quarta-feira, 17 de maio de 2017


Em “VERSÕES DE UM CRIME” (“The Whole Truth”), EUA, 2016, você não verá Keanu Reeves enfrentando bandidos em meio a pancadarias, tiros e perseguições. Muito menos vestido de preto desviando de balas em câmera lenta. “Versões de um Crime” é um filme de tribunal do começo ao fim. Tem pouca ação e muito falatório. Reeves é o advogado criminalista Richard Ramsey, que assume a defesa do jovem Mike (Gabriel Basso), acusado e réu confesso de ter assassinado o pai, Boone (James Belushi). A trama também envolve a viúva de Boone, Loretta (Renée Zellweger). Ramsey é amigo da família há tempos e costumava frequentar as reuniões sociais realizadas na mansão de Boone, um bem sucedido empresário, mas prepotente e violento. Em alguns flashbacks, o filme mostra cenas envolvendo Boone e a família, tentando explicar os possíveis motivos que levaram Mike a cometer o crime. O filme é repleto de pistas falsas, tem um eficiente clima de suspense e algumas reviravoltas perto do desfecho. O roteiro, assinado por Nicholas Kazan (filho do famoso cineasta já falecido Elia Kazan), mantém a atenção do espectador até o final. Este foi o segundo longa-metragem dirigido por Courtney Hunt – o primeiro foi o bom policial “Rio Congelado”, de 2008. Embora não seja o melhor filme de tribunal – longe disso -, “Versões de um Crime” certamente agradará o espectador que curte o gênero. Keanu Reeves continua sendo um ator muito fraco e quase não fica com o papel, destinado inicialmente ao ator inglês Daniel Craig, que desistiu na última hora. Não dá para não comentar a participação da atriz Renée Zellweger, completamente irreconhecível graças a uma plástica que a deixou com cara de estátua de cera, daquelas que são expostas em museus de celebridades.                       


terça-feira, 16 de maio de 2017

O drama francês “MARGUERITE & JULIEN – UM AMOR PROIBIDO” (“Marguerite & Julien”) resgata uma história verdadeira ocorrida no início do Século XVII, quando dois irmãos foram condenados por sua relação incestuosa – interpretados por Anaïs Demoustier (Marguerite) e Jérémie Elkaïm (Julien de Ravalet). A ideia de fazer um filme contando essa história surgiu no início da década de 70, quando o diretor François Truffaut resolveu desenvolver um roteiro, mas o projeto não foi concretizado. A atriz e agora cineasta Valérie Donzelli retomou a ideia,  transformando-o no seu quinto longa-metragem. Embora a trama seja ambientada originalmente em 1603, Donzelli desenvolveu-a em várias épocas, misturando o Século XVII com o início do Século XX e culminando nos dias atuais. Em outras palavras: uma confusão cronológica daquelas, com carruagens antigas ao lado de carros modernos e até de um helicóptero. Mais esquisito ainda foi o fato de toda essa história de incesto e amor proibido ser contada num orfanato para meninas que nem chegaram à adolescência. Não é por nada, mas acho que Valérie Donzelli exagerou na dose, extrapolando o bom senso. Melodramático demais. Mesmo tendo concorrido à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2015, não achei pontos positivos suficientes para recomendá-lo.                   
Os telespectadores que assistiam ao noticiário do Channel 40 da Cadeia WXLT, de Sarasota (Flórida) na manhã do dia 15 de julho de 1974 tiveram a oportunidade de presenciar uma das cenas mais chocantes da história da televisão mundial. Na bancada do estúdio, após pronunciar a frase “Para dar continuidade à política do Canal 40 de trazer as últimas notícias sobre sangue e miolos, vocês verão outro primor: uma tentativa de suicídio”, a repórter Christine Chubbuck, aos 29 anos, faria ao vivo seu trágico ato final. O dia fatídico e os que antecederam essa tragédia são retratados no drama “CHRISTINE” 2016, EUA, com direção de Antonio Campos (filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes), que também assina o roteiro ao lado de Craig Hilowich. O filme explora os antecedentes psicológicos da repórter, interpretada com maestria pela atriz inglesa Rebecca Hall. Christine tinha um histórico de depressão e uma vida pessoal tumultuada, principalmente a relação conturbada com sua mãe Peg (J. Smith-Cameron). No trabalho, Christine era sempre pressionada a conseguir reportagens que aumentassem a audiência da emissora, o que a levava ao limite do estresse. O filme estreou no Festival de Sundance em 2016 e, no mesmo ano, foi exibido durante o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. O filme é muito bom, ainda mais pelo maravilhoso desempenho de Rebecca Hall, injustamente não indicada ao Oscar 2017 por essa atuação.            


segunda-feira, 15 de maio de 2017

O drama independente “MELHORES AMIGOS” (“Little Men”), 2016, EUA, reúne novamente o diretor Ira Sachs com o roteirista brasileiro Maurício Zacharias (“O Céu de Suely” e “Madame Satã”). Eles trabalham juntos há vários anos, sendo responsáveis por filmes como “O Amor é Estranho”, “Deixe a Luz Acesa” e “Vida de Casado”. O fio condutor de “Melhores Amigos” é a mudança da família Jardine – Brian (Greg Kinnear), Kathy (Jennifer Ehle) e Jake (Theo Taplitz) – para a casa deixada pelo avô de Brian, recentemente falecido, no Brooklin. O térreo da casa é ocupado por uma loja cuja proprietária é Leonor (a atriz chilena Paulina Garcia, de “Glória”, em seu primeiro filme em língua inglesa). Seu filho Toni (Michael Barbieri) logo faz amizade com Jake. Os dois não se desgrudam. O avô de Brian cobrava um aluguel irrisório de Leonor. Brian e sua irmã Audrey (Talia Balsan) resolvem reajustar o valor. Inconformada, Leonor resolve não assinar um novo contrato, iniciando uma batalha jurídica que esfriará de vez a amizade entre as duas famílias. Destaco como trunfo do filme o excelente desempenho do elenco, principalmente os jovens atores que interpretam Jake e Toni. Apesar do contexto dramático, o filme é leve e pode ser visto numa sessão da tarde com pipoca.