Singelo,
comovente, sensível. Assim é o drama francês “FATIMA”, 2015, escrito e
dirigido pelo marroquino Philippe Faucon (“Samia”). A história acompanha o
cotidiano de Fatima (Soria Zeroual), imigrante argelina divorciada de 44 anos, que
há duas décadas imigrou para Paris e cria, com o trabalho de faxineira, as duas
filhas nascidas em solo francês, Nesrine (Zita Hanrot), de 18 anos, e Souad
(Kenza Noah Aïche), de 15 anos. Fatima não fala bem o francês e se comunica com
as filhas em árabe, resultando num choque cultural dentro da própria família,
pois Nesrine e Souad, plenamente integradas aos modos e costumes da França, não
aceitam seguir as tradições muçulmanas, como, por exemplo, usar o véu para sair
na rua. Nesrine é o orgulho da família, pois conseguiu ingressar na faculdade
de Medicina, fato que gera a inveja das vizinhas também imigrantes. Souad é uma adolescente rebelde e briguenta, que não se conforma que a mãe seja uma faxineira. Ao cair de
uma escada e ficar afastada do trabalho por licença médica, Fatima passa a
escrever um diário em árabe, escrevendo tudo aquilo que gostaria de dizer às
filhas em francês, além de fazer uma abordagem sobre os desafios de viver em
outro país, em meio a muito preconceito. Numa das passagens do diário, escrito
com muita poesia e sensibilidade, ela faz uma homenagem às “Fátimas” que, como
ela, fazem o serviço pesado e sustentam suas famílias a custa de muito suor. Um
texto muito bonito, que valoriza ainda mais esse belo filme, cujo roteiro foi inspirado
em dois livros escritos pela imigrante marroquina Fatima Elayubi em 2006 e
2011. “Fatima”, merecidamente, conquistou o Prêmio César (o Oscar francês) de Melhor
Filme em 2016.
Ainda
não tem data para estrear por aqui “REGRAS NÃO SE APLICAM” (“Rules Don’t
Apply”), 2016, sexto filme escrito – em conjunto com Bo Goldman - e
dirigido pelo ator Warren Beatty. Ambientado em 1958, conta a história da jovem
Marla Mabrey (Lily Collins), que chega a Hollywood em companhia da mãe Lucy
(Annette Bening) para fazer um teste na produtora do excêntrico milionário
Howard Hughes (Warren). Frank Forbes (Alden Ehrenreich) é o motorista escalado
para servir Marla entre sua casa e o estúdio. Logo é possível perceber que os
dois se apaixonarão, mesmo que uma das regras de Hughes seja desrespeitada: nenhum
dos seus funcionários pode se envolver com as atrizes de seu estúdio – daí o
título original. O filme é uma mistura de romance, comédia e drama, além de uma
sátira ao misterioso Hughes, aqui apresentado como uma figura patética e
histriônica. O resultado final não me agradou e, se há algo a destacar de forma
positiva, é a exuberante recriação de época, especialmente os cenários e os
figurinos, além da deliciosa trilha sonora. Outro fator de destaque é a presença de atores famosos fazendo
apenas uma ponta no filme, como Matthew Broderick, Candice Bergen, Steve
Coogan, Martin Sheen, Oliver Platt, Paul Sorvino e Ed Harris. Vale para uma
sessão da tarde com pipoca. Nada muito especial.
O drama
norte-americano “CHRONIC” disputou a Palma de Ouro no Festival de Cannes
2015, onde teve sua primeira exibição – ainda não chegou por aqui, e duvido que
chegue. Foi escrito e dirigido pelo mexicano Michel Franco (“Depois de Lúcia”)
e traz no papel principal o ator britânico Tim Roth. Ele é David, um
enfermeiro/cuidador que há muitos anos trabalha com pacientes terminais. Sua
dedicação extrapola a função pela qual é contratado, pois acaba sempre ficando
amigo, confidente e conselheiro dos doentes. O filme mostra a rotina tediosa de
David, atendo-se a detalhes como a limpeza das sujeiras, o banho demorado, a
medicação e, em especial, o carinho com que trata cada um deles. É assim que
David aparece cuidando de duas mulheres com câncer, um idoso que acabara de
sofrer um violento derrame e um rapaz com problemas motores. A dedicação de
David nem sempre é compreendida pela família dos doentes. Ao ser surpreendido
abraçando um deles, David é acusado, injustamente, de assédio sexual. Ao mesmo
tempo, ele tenta se reconciliar com a filha Nadia (Bitsie Tulloch), fruto de um
casamento desfeito. Ele também vive perturbado pelas recordações envolvendo um
evento trágico ocorrido com seu filho, o que finalmente explica sua extrema
dedicação aos doentes terminais. O filme é lento, sensação reforçada por longas
cenas sem diálogos, e um tanto chocante ao mostrar o triste final de pessoas cuja
única perspectiva é morrer sem sofrimento. O desfecho, abrupto e surpreendente,
é perturbador. Não é um filme agradável de assistir, mas muito impactante. Mesmo numa atuação contida, o britânico Tim Roth mostra mais uma
vez por que é considerado um dos melhores atores da atualidade. Aos 56 anos, Roth já trabalhou
com grandes diretores, como Giuseppe Tornatore (no ótimo “A Lenda do Pianista
do Mar”, de 1998), além de alguns filmes de Quentin Tarantino, como “Os Oito
Odiados” e “Cães de Aluguel”.
No dia
15 de abril de 2013, feriado nacional nos EUA (“Patriots Day”), um atentado
terrorista durante a tradicional maratona de Boston matou 3 pessoas e deixou 264
feridas, muitas delas com os membros inferiores amputados. O evento trágico foi
considerado o pior em solo norte-americano desde o 11 de setembro de 2001. O
drama “O DIA DO ATENTADO” (“Patriots Day”), 2016, relembra em
detalhes todo o episódio, desde as horas que o antecederam, o atentado em si e
a posterior caçada aos terroristas. O diretor Peter Berg ( de “Horizonte Profundo:
Desastre no Golfo” e do ótimo “O Grande Herói”), seguindo o roteiro escrito por
ele mesmo em conjunto com Matt Cook e Joshua Zetumer, utilizou inúmeras cenas
reais do momento da tragédia, algumas muito chocantes. Mas o aspecto mais
destacado ficou por conta da caçada aos terroristas, identificados e presos 102
horas depois. Esse trabalho reuniu a polícia de Boston e agentes do FBI. Um
grande galpão foi adaptado para concentrar toda a investigação, o que incluiu uma
montagem de uma maquete gigante reproduzindo a rua onde as duas bombas explodiram. Tudo bem
que o filme tem o tom patriótico típico dos filmes norte-americanos, o que não
é demérito nenhum. O elenco é outro destaque: Mark Wahlberg (também um dos produtores),
Kevin Bacon, John Goodman, J. K. Simmons e Michelle Monaghan. Filmaço!
“O IDEALISTA” (“IDEALISTEN”), 2015, Dinamarca, roteiro e direção de Christina
Rosendahl. O filme resgata um fato não muito divulgado por aqui – não me lembro
de ter lido ou ouvido falar do assunto. No dia 21 de janeiro de 1968, um
bombardeiro B-52 norte-americano carregando ogivas nucleares caiu e explodiu
próximo à base aérea dos EUA em Thule, na Groenlândia, naquela época um
território da Dinamarca. A declaração oficial das autoridades dava conta de que
realmente havia acontecido um acidente nuclear, mas a situação estava
totalmente sob controle. Vinte anos depois, portanto em 1988, o jornalista dinamarquês
Poul Brick (Peter Plaugborg) resolveu reabrir o caso. Brick vai fundo no
assunto, entrevista os dinamarqueses que trabalhavam na base, muitos deles
afetados por doenças causadas pelo acidente, e as autoridades encarregadas de
investigar as causas da queda do avião e suas consequências. Ao fim de anos de
trabalho, Brick chegará a uma conclusão que desagradará tanto o governo da
Dinamarca quanto o dos EUA. O filme destaca os esforços de Brick para chegar a
uma verdade que ele acreditava estar escondida durante décadas e que precisava
ser revelada. Como se fosse um documentário em sua grande parte, o filme também
reúne inúmeros vídeos, reportagens e entrevistas feitas após o acidente, muitos
dos quais acabaram reforçando a tese abraçada pelo jornalista dinamarquês. O
trabalho de Brick é considerado um dos mais importantes exemplos de jornalismo
investigativo, o que por si só garante um ótimo entretenimento, principalmente
para os estudantes de Comunicação. O filme foi exibido por aqui durante a 40ª
Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016.
Antes
de assistir ao drama “A LUZ ENTRE OCEANOS” (“THE LIGHT BETWEEN OCEANS”),
2016, EUA/Nova Zelândia, roteiro e direção do australiano Derek Cianfrance,
separe uma caixa de lenços de papel. A história é baseada no livro best-seller da escritora australiana M.
L. Stedman. Depois de lutar na I Grande Guerra, Tom Sherbourne (Michael
Fassbender) precisa encontrar um lugar para se recuperar das feridas psicológicas
do conflito. Encontrou refúgio como faroleiro na Ilha Janus Rocki, situada
entre os oceanos Pacífico e Índico – daí o título. Ele casa com a jovem Isabel
Graysmark (Alicia Vikander), que conhece logo ao ser contratado. Isabel
engravida duas vezes, mas perde os bebês. Um dia, um barco a remo, à deriva,
chega à ilha, com um homem morto e um bebê. Tom e Isabel adotam a criança e
escondem o fato de todos, inclusive das autoridades que deveriam ser avisadas
pelo faroleiro, conforme procedimento acertado em contrato. Anos mais tarde, a
situação se complica com o surgimento da mãe biológica da criança, Hannah
Hoennfeldt (Rachel Weisz), que acaba com o mistério que envolvia o barco. Ao saber da verdade, Tom é acometido por um enorme complexo de
culpa, mas, assistindo à felicidade de Isabel como mãe, decide manter a
história em segredo. Mas não por muito tempo. O filme foi elaborado de acordo
com o estilo novelístico do livro, transformando-se num dramalhão e tanto, mas
a história é bastante interessante e repleta de suspense, sem falar nos
cenários deslumbrantes (uma ilha da Tasmânia serviu de locação). Durante as
filmagens, o ator alemão Fassbender e a sueca Vikander iniciaram um romance que
dura até hoje. Para quem gosta de um bom drama, um ótimo programa.
“ESTRELAS ALÉM DO TEMPO” (“Hidden
Figures”) conta uma história que há muitos anos ficou praticamente
escondida do grande público. Pelo menos não me lembro de ter lido ou ouvido
falar de cientistas negras que tiveram um papel fundamental no desenvolvimento
do programa espacial norte-americano no início da década de 60, no auge da
Guerra Fria, quando os Estados Unidos disputavam com a União Soviética quem
ganharia a corrida espacial. Inconcebível que durante tanto tempo essa história
não tenha sido contada. Até que, em 2014, Margot Lee Shetterly resolveu
transformá-la em livro – “Hidden Figures” -, adaptado para o cinema pela
roteirista Allison Schroeder e pelo diretor Theodore Melfi (“Um Santo Vizinho”).
O enredo é centrado na matemática
Katherine Johnson (Taraji P. Henson), na especialista em computação Dorothy
Vaughn (Octavia Spencer) e na engenheira Mary Jackson (Janelle Monáe), que
venceram o forte preconceito racial e, com muita coragem e determinação,
encontraram seu espaço na NASA, ocupando cargos do mais alto nível. Só para se ter uma ideia da importância dessas
mulheres, basta dizer que Katherine, um gênio precoce da matemática, foi a
responsável pelos cálculos que permitiram o lançamento e a reentrada na
atmosfera terrestre da cápsula espacial com o astronauta John Gleen, o primeiro
a entrar em órbita. Apesar do contexto dramático causado pelo preconceito racial e da Guerra Fria como pano de fundo, o filme é levado com muito bom humor, culminando num entretenimento dos mais agradáveis. Ainda estão no elenco Kevin Costner, Kirsten Dunst e
Mahershala Ali, que também atuou em “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, pelo qual
ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. Por falar em Oscar 2017, “Estrelas
Além do Tempo” foi indicado em três categorias: “Melhor Filme”, “Atriz
Coadjuvante” (Octavia Spencer) e Roteiro Adaptado. IMPERDÍVEL!
Indicado
ao Oscar 2017 em seis categorias, inclusive Melhor Filme, “LION: UMA JORNADA
PARA CASA” (“Lion”), EUA/Austrália, direção de Garth Davis, conta a história
verídica do indiano Saroo Brierley, que, em 1986, aos cinco anos de idade se
perdeu do irmão mais velho Guddu numa estação de trem do interior da India e
acabou mais perdido ainda em Calcutá, depois de uma viagem de mais de 1.600 km.
Saroo é encaminhado para um orfanato e logo depois adotado por um casal australiano.
Vinte e cinco anos depois, ele sente a necessidade de rever sua mãe biológica e
seu irmão. Este é, basicamente, o enredo dessa incrível e comovente história,
adaptada para o cinema pelo roteirista Luke Davies (“Life – Um Retrato de James
Dean”), que se baseou nos fatos narrados por Saroo na autobiografia “A Long Way
Home”. O elenco é ótimo: Dev Patel (Saroo), Sunny Pawar (Saroo menino), Rooney
Mara (Lucy), Nicole Kidman (Sue, a mãe adotiva) e David Wenham (John, o pai
adotivo). Impossível não se emocionar com a trajetória épica de Saroo. Um belo
filme que merece ser visto. Espere os créditos finais, nos quais aparecem os personagens verdadeiros se encontrando, inclusive a mãe biológica e a mãe adotiva. Lenços de papel à mão...
No
final dos anos 80, o lutador norte-americano Vinny Pazienza surpreendeu o mundo
do boxe ao retornar aos ringues depois de ter sido declarado “desenganado” para
as lutas. Campeão do mundo na categoria superleves, ele sofreu um grave
acidente automobilístico, no qual fraturou o pescoço e lesionou a coluna
cervical. Os médicos foram unânimes: ele não voltaria a andar, muito menos a
lutar. Pois Vinny voltou a lutar meses depois e ainda conquistou mais um cinturão de
campeão do mundo. Toda essa história é
contada no ótimo “SANGUE PELA GLÓRIA” (“Bleed For This”), 2016, roteiro
e direção de Ben Younger (“Terapia do Amor”), que ainda teve como produtor
executivo Martin Scorsese, um aval e tanto. Quem interpreta Pazienza é o ator
Miles Teller, conhecido por ter protagonizado o espetacular “Whiplash – Em Busca
da Perfeição”, de 2014. Como Vinny Pazienza, Miles apresenta mais uma
interpretação magistral, provando que é um dos melhores atores da nova geração.
O filme ainda conta com a participação de Aaron Eckhart, quase irreconhecível
(careca) como o treinador Kevin Rooney, e Ciarán Hinds como o pai de Vinny.
Este não é, com certeza, o melhor filme sobre boxe, mas tem inúmeras
qualidades, a principal delas referente às cenas de luta. São sensacionais. Para
valorizar ainda mais, a história é incrível, um dos maiores exemplos de
superação já vistos no mundo do esporte. Não perca os créditos finais, nos quais aparecem os personagens reais. Simplesmente IMPERDÍVEL!
“BEM-VINDO A MARLY-GOMONT” (“Bienvenue
à Marly-Gomont”), 2016, França, direção de
Julien Rambaldi, é mais uma produção da Netflix. Conta a história, baseada em
fatos reais, do médico Syolo Zantoko (Marc Zinga), formado em Kinshasa, capital
do Zaire – o filme é ambientado em 1975, quando tudo aconteceu. Depois de
recusar, por questões ideológicas, um emprego como médico do General Mobutu
Sese Seko, presidente do seu país, Zantoko viaja para a França e faz
especialização em Lille. Ele é convidado para assumir o cargo de médico na
comuna Marly-Gomont, uma zona rural ao norte da França, e convence a mulher
Anne (Aïssa Maïga) e os filhos Kamini (Bayron Lebli) e Sivi (Médina Diarra) a
saírem do Zaire para acompanhá-lo na nova empreitada. O médico, porém, não
sabia de alguns detalhes importantes, como, por exemplo, o fato de que os
moradores daquela região eram extremamente racistas. Além disso, o clima é
gélido, obstáculo quase intransponível para quem estava acostumado com o calor
africano. O filme inteiro se baseia justamente nos esforços da família Zantoko
de vencer estes e outros obstáculos. Apesar de abordar um tema sério como o
racismo, o diretor Rambaldi deu ao filme (seu segundo longa-metragem) um tom de
comédia, com momentos de muito humor e situações hilariantes, tornando-o
bastante agradável de assistir. Informação adicional: grande parte do roteiro
foi escrito pelo próprio filho do médico, Kamini Zantoko, hoje um rapper de sucesso na França.
Vencedor
do “Leão de Ouro” do Festival de Veneza/2015, o drama venezuelano “DE LONGE
TE OBSERVO” (“Desde Allá”) conta a história de Armando (Alfredo Castro),
um empresário de 50 anos, proprietário de um laboratório de próteses dentárias,
que tem uma tara das mais sórdidas: pagar rapazes para ficarem nus enquanto se
masturba. Um dia, Armando “contrata” Elder (Luis Silva), um delinquente líder
de uma gangue e, pior, homofóbico. A relação entre os dois é, a princípio,
bastante tumultuada, até violenta, depois vira amizade. Claro, uma amizade doentia de ambas as
partes. Trata-se do primeiro filme escrito e dirigido por Lorenzo Vigas Castes,
que contou com a colaboração, na elaboração do roteiro, do diretor mexicano
Guilhermo Arriaga (“21 Gramas”, “Amores Brutos” e “Babel”). Outro trunfo do
filme é o excelente desempenho do ator chileno Alfredo Castro, que tem no
currículo filmes importantes como “O Clube”, “No” e “Post Mortem”. Também destaco
a participação do jovem ator Luis Silva em sua estreia no cinema – ele lembra Cauã
Reymond mais jovem. Mesmo com esses predicados, não é um filme que possa se chamar entretenimento. Tem poucos diálogos, é lento e bastante pesado, pois
aborda temas desagradáveis como a promiscuidade e a obsessão sexual. Difícil
acreditar que tenha conquistado um prêmio tão importante como o “Leão de Ouro”.
Enfim, parodiando Geraldo Vandré, “a vida não é feita só de festivais”.
O pano de fundo é a questão da pena de morte na
África do Sul, abolida somente em 1995 quando Mandela assumiu a presidência do
país. Até aquela data, ocorreram 4.200 execuções. O drama inglês “CORDEIROS
E CARRASCOS” (“Shepherds and Butchers”), direção do sul-africano Oliver
Schmitz, aborda o tema baseado no que ocorreu na capital executiva Pretória em 1987, quando
aconteceram 164 enforcamentos. A história, baseada em fatos reais e
transformada em roteiro por Brian Cox, é centrada no julgamento do jovem agente
penitenciário Leon Labuschagne (Garion Dowds), de 19 anos, que, num surto
psicótico, assassinou a tiros sete integrantes de uma equipe de futebol. Depois
de preso, Leon vai a julgamento e tem como defensor o advogado Johan Webber
(Steve Coogan, de “Philomena”). O destino do jovem parece ser mesmo a pena de
morte. Apesar de todas as evidências em contrário, da pressão das famílias dos
mortos e do clamor popular, o advogado tentará de todas as maneiras evitar a
execução de Leon. Trata-se de mais um drama de tribunal, recheado de flashbacks
dos acontecimentos, incluindo cenas chocantes da execução de presos por
enforcamento. São chocantes mesmo, acredite! A destacar, o excelente desempenho
do jovem ator Garion Dowds em sua estreia no cinema (antes, havia participado
de um filme feito para a TV e de uma minissérie). Também está no elenco a atriz
inglesa Andrea Riseborough, como a promotora que atua no caso. O filme estreou
no Festival de Berlim/2016 e teve boa recepção por parte da crítica e do público.
Minha opinião: é mais interessante, pela história, do que bom.
“FOME DE PODER” (“The Founder”), 2016, com roteiro de Robert D. Siegel e direção de John Lee Hancock (“Um Sonho Possível”), conta
a fascinante história da expansão da rede de lanchonetes McDonald’s, talvez um
dos mais emblemáticos cases de sucesso
do mundo dos negócios. No início dos anos 50 já havia uma lanchonete McDonald’s
no sul da Califórnia, fundada e comandada pelos irmãos Richard e Maurice Mac McDonald.
Em 1954, o vendedor Ray Kroc, de Illinois, visitou a lanchonete – ele vendia
equipamentos para a preparação de alimentos - e ficou maravilhado com o seu funcionamento, a forma inovadora de atendimento e o cardápio. Com
seu apurado tino comercial, Kroc vislumbrou, naquele pequeno negócio, um enorme
potencial de crescimento, ou seja, expandir para uma rede de franquias por todo
o país e, posteriormente, para o mundo inteiro. Kroc inicialmente associou-se
aos irmãos e depois deu sua cartada final: fundou uma empresa franqueadora com
o mesmo nome, deixando de fora os ingênuos irmãos. A ganância acima da ética.
Michael Keaton está ótimo como Ray Kroc, provando que ainda é um dos melhores
atores de Hollywood. Ainda estão no elenco Nick Offerman, John Carroll e Laura Dern. O filme é muito bom, ágil e esclarecedor, apresentando um
dos maiores exemplos de empreendedorismo bem sucedido do mundo moderno.
Imperdível!
Em “VERSÕES
DE UM CRIME” (“The Whole Truth”), EUA, 2016, você não verá Keanu Reeves enfrentando
bandidos em meio a pancadarias, tiros e perseguições. Muito menos vestido de
preto desviando de balas em câmera lenta. “Versões de um Crime” é um filme de
tribunal do começo ao fim. Tem pouca ação e muito falatório. Reeves é o
advogado criminalista Richard Ramsey, que assume a defesa do jovem Mike
(Gabriel Basso), acusado e réu confesso de ter assassinado o pai, Boone (James
Belushi). A trama também envolve a viúva de Boone, Loretta (Renée Zellweger).
Ramsey é amigo da família há tempos e costumava frequentar as reuniões sociais realizadas
na mansão de Boone, um bem sucedido empresário, mas prepotente e violento. Em
alguns flashbacks, o filme mostra cenas envolvendo Boone e a família, tentando
explicar os possíveis motivos que levaram Mike a cometer o crime. O filme é
repleto de pistas falsas, tem um eficiente clima de suspense e algumas
reviravoltas perto do desfecho. O roteiro, assinado por Nicholas Kazan (filho
do famoso cineasta já falecido Elia Kazan), mantém a atenção do espectador até
o final. Este foi o segundo longa-metragem dirigido por Courtney Hunt – o primeiro
foi o bom policial “Rio Congelado”, de 2008. Embora não seja o melhor filme de
tribunal – longe disso -, “Versões de um Crime” certamente agradará o
espectador que curte o gênero. Keanu Reeves continua sendo um ator muito fraco
e quase não fica com o papel, destinado inicialmente ao ator inglês Daniel
Craig, que desistiu na última hora. Não dá para não comentar a participação da
atriz Renée Zellweger, completamente irreconhecível graças a uma plástica que a
deixou com cara de estátua de cera, daquelas que são expostas em museus de
celebridades.
O drama
francês “MARGUERITE & JULIEN – UM AMOR PROIBIDO” (“Marguerite &
Julien”) resgata uma história verdadeira ocorrida no início do Século XVII,
quando dois irmãos foram condenados por sua relação incestuosa – interpretados
por Anaïs Demoustier (Marguerite) e Jérémie Elkaïm (Julien de Ravalet). A ideia
de fazer um filme contando essa história surgiu no início da década de 70,
quando o diretor François Truffaut resolveu desenvolver um roteiro, mas o projeto
não foi concretizado. A atriz e agora cineasta Valérie Donzelli retomou a
ideia, transformando-o no seu quinto
longa-metragem. Embora a trama seja ambientada originalmente em 1603, Donzelli desenvolveu-a
em várias épocas, misturando o Século XVII com o início do Século XX e culminando
nos dias atuais. Em outras palavras: uma confusão cronológica daquelas, com
carruagens antigas ao lado de carros modernos e até de um helicóptero. Mais
esquisito ainda foi o fato de toda essa história de incesto e amor proibido ser
contada num orfanato para meninas que nem chegaram à adolescência. Não é por
nada, mas acho que Valérie Donzelli exagerou na dose, extrapolando o bom senso. Melodramático demais. Mesmo tendo concorrido à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2015, não achei pontos
positivos suficientes para recomendá-lo.
Os
telespectadores que assistiam ao noticiário do Channel 40 da Cadeia WXLT, de
Sarasota (Flórida) na manhã do dia 15 de julho de 1974 tiveram a oportunidade de presenciar uma das cenas mais chocantes da história da televisão mundial. Na bancada
do estúdio, após pronunciar a frase “Para dar continuidade à política do Canal
40 de trazer as últimas notícias sobre sangue e miolos, vocês verão outro
primor: uma tentativa de suicídio”, a repórter Christine Chubbuck, aos 29 anos,
faria ao vivo seu trágico ato final. O dia fatídico e os que antecederam essa
tragédia são retratados no drama “CHRISTINE” 2016, EUA, com direção de
Antonio Campos (filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes), que também assina
o roteiro ao lado de Craig Hilowich. O filme explora os antecedentes psicológicos
da repórter, interpretada com maestria pela atriz inglesa Rebecca Hall. Christine
tinha um histórico de depressão e uma vida pessoal tumultuada, principalmente a
relação conturbada com sua mãe Peg (J. Smith-Cameron). No trabalho, Christine era
sempre pressionada a conseguir reportagens que aumentassem a audiência da
emissora, o que a levava ao limite do estresse. O filme estreou no Festival de
Sundance em 2016 e, no mesmo ano, foi exibido durante o Festival Internacional de
Cinema do Rio de Janeiro. O filme é muito bom, ainda mais pelo maravilhoso
desempenho de Rebecca Hall, injustamente não indicada ao Oscar 2017 por essa
atuação.
O drama
independente “MELHORES AMIGOS” (“Little Men”), 2016, EUA, reúne
novamente o diretor Ira Sachs com o roteirista brasileiro Maurício Zacharias (“O
Céu de Suely” e “Madame Satã”). Eles trabalham juntos há vários anos, sendo
responsáveis por filmes como “O Amor é Estranho”, “Deixe a Luz Acesa” e “Vida
de Casado”. O fio condutor de “Melhores Amigos” é a mudança da família Jardine –
Brian (Greg Kinnear), Kathy (Jennifer Ehle) e Jake (Theo Taplitz) – para a casa
deixada pelo avô de Brian, recentemente falecido, no Brooklin. O térreo da casa
é ocupado por uma loja cuja proprietária é Leonor (a atriz chilena Paulina
Garcia, de “Glória”, em seu primeiro filme em língua inglesa). Seu filho Toni
(Michael Barbieri) logo faz amizade com Jake. Os dois não se desgrudam. O avô
de Brian cobrava um aluguel irrisório de Leonor. Brian e sua irmã Audrey (Talia
Balsan) resolvem reajustar o valor. Inconformada, Leonor resolve não assinar um
novo contrato, iniciando uma batalha jurídica que esfriará de vez a amizade
entre as duas famílias. Destaco como trunfo do filme o excelente desempenho do elenco, principalmente os jovens atores que interpretam Jake e Toni. Apesar do contexto dramático, o filme é leve e pode ser
visto numa sessão da tarde com pipoca.
“INSUBSTITUÍVEL” (“Médecin de
Campagne”), 2016, traz de volta à
tela um dos mais competentes atores franceses: François Cluzet (quem não se
lembra dele como o tetraplégico de “Intocáveis”?). Ele interpreta o médico Jean-Pierre
Werner, que há 30 anos dedica-se a cuidar da população de uma zona rural no
interior da França. Werner é um médico à moda antiga. Além do consultório, onde costuma não cobrar consulta dos pobres, visita
seus pacientes em suas casas, envolve-se emocionalmente com quase todos os
casos, conversa demoradamente com cada um, dá conselhos e é radicalmente contra
internações em hospitais. Todo mundo adora Werner. Só que um dia ele é diagnosticado
com uma doença grave, com poucas chances de cura. Aconselhado a descansar e
iniciar um tratamento mais intensivo, Werner não desiste de continuar
trabalhando. Até que uma médica recém-formada, Natalie Delezia (Marianne
Denicourt), chega para ajudá-lo e, tudo a leva a crer, substituí-lo no futuro. De início, ele resolve
boicotá-la, o que resulta nas cenas mais bem-humoradas do filme. O roteirista e
diretor Thomas Lilti, que já havia colocado a medicina como tema de outro filme
(“Hipócrates”), não deixa a trama cair no melodrama, o que faz desta produção
francesa um ótimo entretenimento, mas o melhor do filme é, sem dúvida, o
desempenho de Cluzet.
“FRANTZ”, 2016, França/Alemanha, escrito e dirigido por
François Ozon. Mais um excelente drama que Ozon readaptou para o cinema,
baseado no filme “Não Matarás” (1932), do diretor alemão Ernest Lubitsch.
Ambientado em 1919, um ano após o término da Primeira Guerra Mundial, conta a
história do jovem francês Adrien Rivoire (Pierre Niney), que visita uma pequena
cidade da Alemanha para depositar flores no túmulo de um soldado alemão. Ele é
surpreendido no cemitério por Anna (Paula Beer), que iria se casar com o
falecido. Anna fica curiosa para saber quem é aquele jovem misterioso e o
pressiona para contar a verdade. Adrien conta que era muito amigo do alemão
quando este morava em Paris antes do início da guerra. Adrien e Anna ficam
amigos e essa amizade parece ter tudo para terminar em novo romance. Os pais do
soldado morto, Magda (Marie Gruber) e Hans Hoffmeinster (Ernest Stözner),
recebem Adrien em sua casa e ficam encantados quando ele descreve o que fazia
com o amigo alemão em Paris. O espectador mais atento acabará percebendo que
Adrien esconde algum segredo e que, uma hora ou outra, será finalmente
revelado. Considero este um dos melhores filmes do diretor francês, um dos mais
criativos do cinema atual – de Ozon recomendo ainda “Uma Nova Amiga”, “Sob a
Areia” e, principalmente, o espetacular “Dentro de Casa”. A cada filme Ozon
surpreende ao inovar na narrativa, criando sempre uma expectativa próxima do
suspense. Em “Frantz”, Ozon utiliza o preto e branco para acentuar a carga
dramática, o que acontece em 90% do filme. “Frantz” concorreu ao Leão de Ouro
no Festival de Veneza 2016 e foi indicado em 11 categorias ao Prêmio César 2017
(o Oscar francês), além de ter sido aclamado nos festivais de Toronto e
Sundance. IMPERDÍVEL!
“ARMAS NA MESA” (“Miss Sloane”), 2016, EUA, direção do veterano diretor inglês John
Madden (“Shakespeare Apaixonado” e “O Exótico Hotel Marigold 1 e 2”) e roteiro
de Jonathan Perera. A trama é centrada em Elizabeh Sloane (Jessica Chastain), uma
das lobistas mais famosas de Washington. É workalohic
assumida, muito competente, extremamente ambiciosa e sem qualquer escrúpulo, a ponto de
prejudicar e colocar em risco de vida seus próprios colegas de trabalho. Quando
indicada por seu chefe George Dupont (Sam Waterston) para comandar uma campanha
em prol da indústria de armas, ela recusa o trabalho e, mais do que isso,
resolve passar para o outro lado, ou seja, assumir o cargo de coordenadora de
uma ação para a implantação de leis de controles de armas mais rígidas desenvolvida pelo escritório de uma ONG. A partir daí,
ela entra em rota de colisão com seu ex-escritório, resultando num processo que
a levará a julgamento pelo Congresso norte-americano. A reviravolta no desfecho é sensacional. O filme parece ter
sido feito para Jessica Chastain deitar e rolar. E ela deita e rola, esbanja
charme, prepotência e arrogância na medida certa, justificando a posição de uma
das atrizes mais competentes da atualidade. Ela já havia sido indicada para o
Oscar de Melhor Atriz em 2013 por sua atuação em “A Hora mais Escura” e agora,
com “Miss Sloane”, talvez tenha sido a grande injustiçada pela Academia no Oscar 2017. Ela está simplesmente sensacional. Se o filme já é bom por si só, é ainda melhor com a presença dessa maravilhosa atriz. Veja e confira!
Representante
da Noruega na disputa do Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro, o drama
histórico “A NEGATIVA DO REI” (“Kongens Nei”), direção de Erik Poppe,
ficou entre os nove finalistas (o vencedor foi o iraniano “O Apartamento”).
O filme retrata um dos acontecimentos mais importantes da história da Noruega.
Em abril de 1940, com o falso objetivo de defender o país escandinavo de uma
possível invasão inglesa, as tropas alemãs invadiram a Noruega, exigindo sua imediata
rendição. O Rei Haakon VII (Jesper Christensen) se negou a negociar com os
alemães, daí o título do filme, e a seguida declaração de guerra contra a
Alemanha. Além de mostrar os bastidores dos acontecimentos que envolveram a
família real norueguesa e o governo, o filme destaca os esforços do embaixador
alemão em Oslo, Kurt Bräuer (o ótimo Karl Markovics, de “Os Falsários”), em
negociar a rendição, evitando um massacre da população civil e dos
despreparados soldados noruegueses. Só que os comandantes militares alemães não queriam saber de negociar. Os fatos narrados estão no livro “Kongens
Nei”, escrito por Al Reidar Jacobsen, transformados para roteiro do filme pela
dupla Harald Rosenløw-Eeg e Jan Tryeve Røyneland. O filme é muito bom, não apenas
porque é bem feito, bem dirigido e interpretado, mas por contar um fato histórico da maior
importância, mas pouco conhecido por aqui. Para quem gosta de História mundial,
um filme simplesmente obrigatório e imperdível!
“A CRIADA” (“AH-GA-SSI”), 2016, Coréia do Sul, roteiro e direção de Park
Chan-Wook (“Oldboy”, “Segredos de Sangue”). Trata-se de um drama da mais alta
qualidade, criativo e, ao mesmo tempo, de difícil compreensão, longo (2h47m) e
enigmático, sem falar no fato de que é falado em japonês e coreano. A trama, porém, é
engenhosa. Requer uma atenção especial para os detalhes. Nem tudo o que você
vê é o que realmente acontece. O roteiro é baseado no romance galês “Fingersmith”
(“Na Ponta dos Dedos”), escrito por Sarah Waters. Ambientado nos anos 30 na Coréia do Sul
durante a ocupação japonesa, o filme descreve uma trama diabólica. A jovem
camponesa Sooke (Kim Tae-Ri) é contratada como empregada da rica e ingênua herdeira
Hideko (Kim Min-Hee), que mora com o tio autoritário Kouzuki (Cho Jin-Woong). A
verdadeira intenção de Sooke é promover a aproximação do falso conde Fugiwara (Ha
Jung-Woo) e convencer Hideko a desposá-lo. Na segunda parte do filme, numa
narrativa fragmentada, repleta de idas e vindas, além da repetição das cenas da
primeira parte sob ângulos diferentes, o enredo transforma-se num verdadeiro
quebra-cabeças e sua montagem terá a finalidade de explicar tudo o que
realmente aconteceu, com direito a várias reviravoltas até chegar ao desfecho.
O primor visual, tanto com relação à fotografia, cenários, figurinos e recriação
de época, é um dos maiores destaques do filme, assim como a requintada
elaboração das cenas eróticas, que beiram o explícito sem abrir mão do bom
gosto. Não há dúvidas de que estamos diante de um filme bastante interessante e
inovador. Poucos diretores do cinema atual teriam a coragem de utilizar a câmera
com tantos planos diferentes e de forma tão criativa. Não é um filme para iniciantes.
Concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2016 e ganhou nada menos do que
37 prêmios internacionais em festivais pelo mundo afora.