sábado, 10 de junho de 2017

Singelo, comovente, sensível. Assim é o drama francês “FATIMA”, 2015, escrito e dirigido pelo marroquino Philippe Faucon (“Samia”). A história acompanha o cotidiano de Fatima (Soria Zeroual), imigrante argelina divorciada de 44 anos, que há duas décadas imigrou para Paris e cria, com o trabalho de faxineira, as duas filhas nascidas em solo francês, Nesrine (Zita Hanrot), de 18 anos, e Souad (Kenza Noah Aïche), de 15 anos. Fatima não fala bem o francês e se comunica com as filhas em árabe, resultando num choque cultural dentro da própria família, pois Nesrine e Souad, plenamente integradas aos modos e costumes da França, não aceitam seguir as tradições muçulmanas, como, por exemplo, usar o véu para sair na rua. Nesrine é o orgulho da família, pois conseguiu ingressar na faculdade de Medicina, fato que gera a inveja das vizinhas também imigrantes. Souad é uma adolescente rebelde e briguenta, que não se conforma que a mãe seja uma faxineira. Ao cair de uma escada e ficar afastada do trabalho por licença médica, Fatima passa a escrever um diário em árabe, escrevendo tudo aquilo que gostaria de dizer às filhas em francês, além de fazer uma abordagem sobre os desafios de viver em outro país, em meio a muito preconceito. Numa das passagens do diário, escrito com muita poesia e sensibilidade, ela faz uma homenagem às “Fátimas” que, como ela, fazem o serviço pesado e sustentam suas famílias a custa de muito suor. Um texto muito bonito, que valoriza ainda mais esse belo filme, cujo roteiro foi inspirado em dois livros escritos pela imigrante marroquina Fatima Elayubi em 2006 e 2011. “Fatima”, merecidamente, conquistou o Prêmio César (o Oscar francês) de Melhor Filme em 2016.                          




sexta-feira, 9 de junho de 2017

Ainda não tem data para estrear por aqui “REGRAS NÃO SE APLICAM” (“Rules Don’t Apply”), 2016, sexto filme escrito – em conjunto com Bo Goldman - e dirigido pelo ator Warren Beatty. Ambientado em 1958, conta a história da jovem Marla Mabrey (Lily Collins), que chega a Hollywood em companhia da mãe Lucy (Annette Bening) para fazer um teste na produtora do excêntrico milionário Howard Hughes (Warren). Frank Forbes (Alden Ehrenreich) é o motorista escalado para servir Marla entre sua casa e o estúdio. Logo é possível perceber que os dois se apaixonarão, mesmo que uma das regras de Hughes seja desrespeitada: nenhum dos seus funcionários pode se envolver com as atrizes de seu estúdio – daí o título original. O filme é uma mistura de romance, comédia e drama, além de uma sátira ao misterioso Hughes, aqui apresentado como uma figura patética e histriônica. O resultado final não me agradou e, se há algo a destacar de forma positiva, é a exuberante recriação de época, especialmente os cenários e os figurinos, além da deliciosa trilha sonora. Outro fator de destaque é a presença de atores famosos fazendo apenas uma ponta no filme, como Matthew Broderick, Candice Bergen, Steve Coogan, Martin Sheen, Oliver Platt, Paul Sorvino e Ed Harris. Vale para uma sessão da tarde com pipoca. Nada muito especial.                    


O drama norte-americano “CHRONIC” disputou a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2015, onde teve sua primeira exibição – ainda não chegou por aqui, e duvido que chegue. Foi escrito e dirigido pelo mexicano Michel Franco (“Depois de Lúcia”) e traz no papel principal o ator britânico Tim Roth. Ele é David, um enfermeiro/cuidador que há muitos anos trabalha com pacientes terminais. Sua dedicação extrapola a função pela qual é contratado, pois acaba sempre ficando amigo, confidente e conselheiro dos doentes. O filme mostra a rotina tediosa de David, atendo-se a detalhes como a limpeza das sujeiras, o banho demorado, a medicação e, em especial, o carinho com que trata cada um deles. É assim que David aparece cuidando de duas mulheres com câncer, um idoso que acabara de sofrer um violento derrame e um rapaz com problemas motores. A dedicação de David nem sempre é compreendida pela família dos doentes. Ao ser surpreendido abraçando um deles, David é acusado, injustamente, de assédio sexual. Ao mesmo tempo, ele tenta se reconciliar com a filha Nadia (Bitsie Tulloch), fruto de um casamento desfeito. Ele também vive perturbado pelas recordações envolvendo um evento trágico ocorrido com seu filho, o que finalmente explica sua extrema dedicação aos doentes terminais. O filme é lento, sensação reforçada por longas cenas sem diálogos, e um tanto chocante ao mostrar o triste final de pessoas cuja única perspectiva é morrer sem sofrimento. O desfecho, abrupto e surpreendente, é perturbador. Não é um filme agradável de assistir, mas muito impactante. Mesmo numa atuação contida, o britânico Tim Roth mostra mais uma vez por que é considerado um dos melhores atores da atualidade. Aos 56 anos, Roth já trabalhou com grandes diretores, como Giuseppe Tornatore (no ótimo “A Lenda do Pianista do Mar”, de 1998), além de alguns filmes de Quentin Tarantino, como “Os Oito Odiados” e “Cães de Aluguel”.             

quinta-feira, 8 de junho de 2017

No dia 15 de abril de 2013, feriado nacional nos EUA (“Patriots Day”), um atentado terrorista durante a tradicional maratona de Boston matou 3 pessoas e deixou 264 feridas, muitas delas com os membros inferiores amputados. O evento trágico foi considerado o pior em solo norte-americano desde o 11 de setembro de 2001. O drama “O DIA DO ATENTADO” (“Patriots Day”), 2016, relembra em detalhes todo o episódio, desde as horas que o antecederam, o atentado em si e a posterior caçada aos terroristas. O diretor Peter Berg ( de “Horizonte Profundo: Desastre no Golfo” e do ótimo “O Grande Herói”), seguindo o roteiro escrito por ele mesmo em conjunto com Matt Cook e Joshua Zetumer, utilizou inúmeras cenas reais do momento da tragédia, algumas muito chocantes. Mas o aspecto mais destacado ficou por conta da caçada aos terroristas, identificados e presos 102 horas depois. Esse trabalho reuniu a polícia de Boston e agentes do FBI. Um grande galpão foi adaptado para concentrar toda a investigação, o que incluiu uma montagem de uma maquete gigante reproduzindo a rua onde as duas bombas explodiram. Tudo bem que o filme tem o tom patriótico típico dos filmes norte-americanos, o que não é demérito nenhum. O elenco é outro destaque: Mark Wahlberg (também um dos produtores), Kevin Bacon, John Goodman, J. K. Simmons e Michelle Monaghan. Filmaço!  

                                   

terça-feira, 6 de junho de 2017



“O IDEALISTA” (“IDEALISTEN”), 2015, Dinamarca, roteiro e direção de Christina Rosendahl. O filme resgata um fato não muito divulgado por aqui – não me lembro de ter lido ou ouvido falar do assunto. No dia 21 de janeiro de 1968, um bombardeiro B-52 norte-americano carregando ogivas nucleares caiu e explodiu próximo à base aérea dos EUA em Thule, na Groenlândia, naquela época um território da Dinamarca. A declaração oficial das autoridades dava conta de que realmente havia acontecido um acidente nuclear, mas a situação estava totalmente sob controle. Vinte anos depois, portanto em 1988, o jornalista dinamarquês Poul Brick (Peter Plaugborg) resolveu reabrir o caso. Brick vai fundo no assunto, entrevista os dinamarqueses que trabalhavam na base, muitos deles afetados por doenças causadas pelo acidente, e as autoridades encarregadas de investigar as causas da queda do avião e suas consequências. Ao fim de anos de trabalho, Brick chegará a uma conclusão que desagradará tanto o governo da Dinamarca quanto o dos EUA. O filme destaca os esforços de Brick para chegar a uma verdade que ele acreditava estar escondida durante décadas e que precisava ser revelada. Como se fosse um documentário em sua grande parte, o filme também reúne inúmeros vídeos, reportagens e entrevistas feitas após o acidente, muitos dos quais acabaram reforçando a tese abraçada pelo jornalista dinamarquês. O trabalho de Brick é considerado um dos mais importantes exemplos de jornalismo investigativo, o que por si só garante um ótimo entretenimento, principalmente para os estudantes de Comunicação. O filme foi exibido por aqui durante a 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016. 

domingo, 4 de junho de 2017

Antes de assistir ao drama “A LUZ ENTRE OCEANOS” (“THE LIGHT BETWEEN OCEANS”), 2016, EUA/Nova Zelândia, roteiro e direção do australiano Derek Cianfrance, separe uma caixa de lenços de papel. A história é baseada no livro best-seller da escritora australiana M. L. Stedman. Depois de lutar na I Grande Guerra, Tom Sherbourne (Michael Fassbender) precisa encontrar um lugar para se recuperar das feridas psicológicas do conflito. Encontrou refúgio como faroleiro na Ilha Janus Rocki, situada entre os oceanos Pacífico e Índico – daí o título. Ele casa com a jovem Isabel Graysmark (Alicia Vikander), que conhece logo ao ser contratado. Isabel engravida duas vezes, mas perde os bebês. Um dia, um barco a remo, à deriva, chega à ilha, com um homem morto e um bebê. Tom e Isabel adotam a criança e escondem o fato de todos, inclusive das autoridades que deveriam ser avisadas pelo faroleiro, conforme procedimento acertado em contrato. Anos mais tarde, a situação se complica com o surgimento da mãe biológica da criança, Hannah Hoennfeldt (Rachel Weisz), que acaba com o mistério que envolvia o barco. Ao saber da verdade, Tom é acometido por um enorme complexo de culpa, mas, assistindo à felicidade de Isabel como mãe, decide manter a história em segredo. Mas não por muito tempo. O filme foi elaborado de acordo com o estilo novelístico do livro, transformando-se num dramalhão e tanto, mas a história é bastante interessante e repleta de suspense, sem falar nos cenários deslumbrantes (uma ilha da Tasmânia serviu de locação). Durante as filmagens, o ator alemão Fassbender e a sueca Vikander iniciaram um romance que dura até hoje. Para quem gosta de um bom drama, um ótimo programa.  

terça-feira, 30 de maio de 2017

“ESTRELAS ALÉM DO TEMPO” (“Hidden Figures”) conta uma história que há muitos anos ficou praticamente escondida do grande público. Pelo menos não me lembro de ter lido ou ouvido falar de cientistas negras que tiveram um papel fundamental no desenvolvimento do programa espacial norte-americano no início da década de 60, no auge da Guerra Fria, quando os Estados Unidos disputavam com a União Soviética quem ganharia a corrida espacial. Inconcebível que durante tanto tempo essa história não tenha sido contada. Até que, em 2014, Margot Lee Shetterly resolveu transformá-la em livro – “Hidden Figures” -, adaptado para o cinema pela roteirista Allison Schroeder e pelo diretor Theodore Melfi (“Um Santo Vizinho”).  O enredo é centrado na matemática Katherine Johnson (Taraji P. Henson), na especialista em computação Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e na engenheira Mary Jackson (Janelle Monáe), que venceram o forte preconceito racial e, com muita coragem e determinação, encontraram seu espaço na NASA, ocupando cargos do mais alto nível. Só para se ter uma ideia da importância dessas mulheres, basta dizer que Katherine, um gênio precoce da matemática, foi a responsável pelos cálculos que permitiram o lançamento e a reentrada na atmosfera terrestre da cápsula espacial com o astronauta John Gleen, o primeiro a entrar em órbita. Apesar do contexto dramático causado pelo preconceito racial e da Guerra Fria como pano de fundo, o filme é levado com muito bom humor, culminando num entretenimento dos mais agradáveis. Ainda estão no elenco Kevin Costner, Kirsten Dunst e Mahershala Ali, que também atuou em “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, pelo qual ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. Por falar em Oscar 2017, “Estrelas Além do Tempo” foi indicado em três categorias: “Melhor Filme”, “Atriz Coadjuvante” (Octavia Spencer) e Roteiro Adaptado. IMPERDÍVEL!


segunda-feira, 29 de maio de 2017

Indicado ao Oscar 2017 em seis categorias, inclusive Melhor Filme, “LION: UMA JORNADA PARA CASA” (“Lion”), EUA/Austrália, direção de Garth Davis, conta a história verídica do indiano Saroo Brierley, que, em 1986, aos cinco anos de idade se perdeu do irmão mais velho Guddu numa estação de trem do interior da India e acabou mais perdido ainda em Calcutá, depois de uma viagem de mais de 1.600 km. Saroo é encaminhado para um orfanato e logo depois adotado por um casal australiano. Vinte e cinco anos depois, ele sente a necessidade de rever sua mãe biológica e seu irmão. Este é, basicamente, o enredo dessa incrível e comovente história, adaptada para o cinema pelo roteirista Luke Davies (“Life – Um Retrato de James Dean”), que se baseou nos fatos narrados por Saroo na autobiografia “A Long Way Home”. O elenco é ótimo: Dev Patel (Saroo), Sunny Pawar (Saroo menino), Rooney Mara (Lucy), Nicole Kidman (Sue, a mãe adotiva) e David Wenham (John, o pai adotivo). Impossível não se emocionar com a trajetória épica de Saroo. Um belo filme que merece ser visto. Espere os créditos finais, nos quais aparecem os personagens verdadeiros se encontrando, inclusive a mãe biológica e a mãe adotiva. Lenços de papel à mão...
 

sábado, 27 de maio de 2017

No final dos anos 80, o lutador norte-americano Vinny Pazienza surpreendeu o mundo do boxe ao retornar aos ringues depois de ter sido declarado “desenganado” para as lutas. Campeão do mundo na categoria superleves, ele sofreu um grave acidente automobilístico, no qual fraturou o pescoço e lesionou a coluna cervical. Os médicos foram unânimes: ele não voltaria a andar, muito menos a lutar. Pois Vinny voltou a lutar meses depois e ainda conquistou mais um cinturão de campeão do mundo. Toda essa história é contada no ótimo “SANGUE PELA GLÓRIA” (“Bleed For This”), 2016, roteiro e direção de Ben Younger (“Terapia do Amor”), que ainda teve como produtor executivo Martin Scorsese, um aval e tanto. Quem interpreta Pazienza é o ator Miles Teller, conhecido por ter protagonizado o espetacular “Whiplash – Em Busca da Perfeição”, de 2014. Como Vinny Pazienza, Miles apresenta mais uma interpretação magistral, provando que é um dos melhores atores da nova geração. O filme ainda conta com a participação de Aaron Eckhart, quase irreconhecível (careca) como o treinador Kevin Rooney, e Ciarán Hinds como o pai de Vinny. Este não é, com certeza, o melhor filme sobre boxe, mas tem inúmeras qualidades, a principal delas referente às cenas de luta. São sensacionais. Para valorizar ainda mais, a história é incrível, um dos maiores exemplos de superação já vistos no mundo do esporte. Não perca os créditos finais, nos quais aparecem os personagens reais. Simplesmente IMPERDÍVEL!

 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

“BEM-VINDO A MARLY-GOMONT” (“Bienvenue à Marly-Gomont”), 2016, França, direção de Julien Rambaldi, é mais uma produção da Netflix. Conta a história, baseada em fatos reais, do médico Syolo Zantoko (Marc Zinga), formado em Kinshasa, capital do Zaire – o filme é ambientado em 1975, quando tudo aconteceu. Depois de recusar, por questões ideológicas, um emprego como médico do General Mobutu Sese Seko, presidente do seu país, Zantoko viaja para a França e faz especialização em Lille. Ele é convidado para assumir o cargo de médico na comuna Marly-Gomont, uma zona rural ao norte da França, e convence a mulher Anne (Aïssa Maïga) e os filhos Kamini (Bayron Lebli) e Sivi (Médina Diarra) a saírem do Zaire para acompanhá-lo na nova empreitada. O médico, porém, não sabia de alguns detalhes importantes, como, por exemplo, o fato de que os moradores daquela região eram extremamente racistas. Além disso, o clima é gélido, obstáculo quase intransponível para quem estava acostumado com o calor africano. O filme inteiro se baseia justamente nos esforços da família Zantoko de vencer estes e outros obstáculos. Apesar de abordar um tema sério como o racismo, o diretor Rambaldi deu ao filme (seu segundo longa-metragem) um tom de comédia, com momentos de muito humor e situações hilariantes, tornando-o bastante agradável de assistir. Informação adicional: grande parte do roteiro foi escrito pelo próprio filho do médico, Kamini Zantoko, hoje um rapper de sucesso na França.           

                                               

terça-feira, 23 de maio de 2017

Vencedor do “Leão de Ouro” do Festival de Veneza/2015, o drama venezuelano “DE LONGE TE OBSERVO” (“Desde Allá”) conta a história de Armando (Alfredo Castro), um empresário de 50 anos, proprietário de um laboratório de próteses dentárias, que tem uma tara das mais sórdidas: pagar rapazes para ficarem nus enquanto se masturba. Um dia, Armando “contrata” Elder (Luis Silva), um delinquente líder de uma gangue e, pior, homofóbico. A relação entre os dois é, a princípio, bastante tumultuada, até violenta, depois vira amizade. Claro, uma amizade doentia de ambas as partes. Trata-se do primeiro filme escrito e dirigido por Lorenzo Vigas Castes, que contou com a colaboração, na elaboração do roteiro, do diretor mexicano Guilhermo Arriaga (“21 Gramas”, “Amores Brutos” e “Babel”). Outro trunfo do filme é o excelente desempenho do ator chileno Alfredo Castro, que tem no currículo filmes importantes como “O Clube”, “No” e “Post Mortem”. Também destaco a participação do jovem ator Luis Silva em sua estreia no cinema – ele lembra Cauã Reymond mais jovem. Mesmo com esses predicados, não é um filme que possa se chamar entretenimento. Tem poucos diálogos, é lento e bastante pesado, pois aborda temas desagradáveis como a promiscuidade e a obsessão sexual. Difícil acreditar que tenha conquistado um prêmio tão importante como o “Leão de Ouro”. Enfim, parodiando Geraldo Vandré, “a vida não é feita só de festivais”.        

domingo, 21 de maio de 2017

 O pano de fundo é a questão da pena de morte na África do Sul, abolida somente em 1995 quando Mandela assumiu a presidência do país. Até aquela data, ocorreram 4.200 execuções. O drama inglês “CORDEIROS E CARRASCOS” (“Shepherds and Butchers”), direção do sul-africano Oliver Schmitz, aborda o tema baseado no que ocorreu na capital executiva Pretória em 1987, quando aconteceram 164 enforcamentos. A história, baseada em fatos reais e transformada em roteiro por Brian Cox, é centrada no julgamento do jovem agente penitenciário Leon Labuschagne (Garion Dowds), de 19 anos, que, num surto psicótico, assassinou a tiros sete integrantes de uma equipe de futebol. Depois de preso, Leon vai a julgamento e tem como defensor o advogado Johan Webber (Steve Coogan, de “Philomena”). O destino do jovem parece ser mesmo a pena de morte. Apesar de todas as evidências em contrário, da pressão das famílias dos mortos e do clamor popular, o advogado tentará de todas as maneiras evitar a execução de Leon. Trata-se de mais um drama de tribunal, recheado de flashbacks dos acontecimentos, incluindo cenas chocantes da execução de presos por enforcamento. São chocantes mesmo, acredite! A destacar, o excelente desempenho do jovem ator Garion Dowds em sua estreia no cinema (antes, havia participado de um filme feito para a TV e de uma minissérie). Também está no elenco a atriz inglesa Andrea Riseborough, como a promotora que atua no caso. O filme estreou no Festival de Berlim/2016 e teve boa recepção por parte da crítica e do público. Minha opinião: é mais interessante, pela história, do que bom.  

                                               
“FOME DE PODER” (“The Founder”), 2016, com roteiro de Robert D. Siegel e direção de John Lee Hancock (“Um Sonho Possível”), conta a fascinante história da expansão da rede de lanchonetes McDonald’s, talvez um dos mais emblemáticos cases de sucesso do mundo dos negócios. No início dos anos 50 já havia uma lanchonete McDonald’s no sul da Califórnia, fundada e comandada pelos irmãos Richard e Maurice Mac McDonald. Em 1954, o vendedor Ray Kroc, de Illinois, visitou a lanchonete – ele vendia equipamentos para a preparação de alimentos - e ficou maravilhado com o seu funcionamento, a forma inovadora de atendimento e o cardápio. Com seu apurado tino comercial, Kroc vislumbrou, naquele pequeno negócio, um enorme potencial de crescimento, ou seja, expandir para uma rede de franquias por todo o país e, posteriormente, para o mundo inteiro. Kroc inicialmente associou-se aos irmãos e depois deu sua cartada final: fundou uma empresa franqueadora com o mesmo nome, deixando de fora os ingênuos irmãos. A ganância acima da ética. Michael Keaton está ótimo como Ray Kroc, provando que ainda é um dos melhores atores de Hollywood. Ainda estão no elenco Nick Offerman, John Carroll e Laura Dern. O filme é muito bom, ágil e esclarecedor, apresentando um dos maiores exemplos de empreendedorismo bem sucedido do mundo moderno. Imperdível!                        

quarta-feira, 17 de maio de 2017


Em “VERSÕES DE UM CRIME” (“The Whole Truth”), EUA, 2016, você não verá Keanu Reeves enfrentando bandidos em meio a pancadarias, tiros e perseguições. Muito menos vestido de preto desviando de balas em câmera lenta. “Versões de um Crime” é um filme de tribunal do começo ao fim. Tem pouca ação e muito falatório. Reeves é o advogado criminalista Richard Ramsey, que assume a defesa do jovem Mike (Gabriel Basso), acusado e réu confesso de ter assassinado o pai, Boone (James Belushi). A trama também envolve a viúva de Boone, Loretta (Renée Zellweger). Ramsey é amigo da família há tempos e costumava frequentar as reuniões sociais realizadas na mansão de Boone, um bem sucedido empresário, mas prepotente e violento. Em alguns flashbacks, o filme mostra cenas envolvendo Boone e a família, tentando explicar os possíveis motivos que levaram Mike a cometer o crime. O filme é repleto de pistas falsas, tem um eficiente clima de suspense e algumas reviravoltas perto do desfecho. O roteiro, assinado por Nicholas Kazan (filho do famoso cineasta já falecido Elia Kazan), mantém a atenção do espectador até o final. Este foi o segundo longa-metragem dirigido por Courtney Hunt – o primeiro foi o bom policial “Rio Congelado”, de 2008. Embora não seja o melhor filme de tribunal – longe disso -, “Versões de um Crime” certamente agradará o espectador que curte o gênero. Keanu Reeves continua sendo um ator muito fraco e quase não fica com o papel, destinado inicialmente ao ator inglês Daniel Craig, que desistiu na última hora. Não dá para não comentar a participação da atriz Renée Zellweger, completamente irreconhecível graças a uma plástica que a deixou com cara de estátua de cera, daquelas que são expostas em museus de celebridades.                       


terça-feira, 16 de maio de 2017

O drama francês “MARGUERITE & JULIEN – UM AMOR PROIBIDO” (“Marguerite & Julien”) resgata uma história verdadeira ocorrida no início do Século XVII, quando dois irmãos foram condenados por sua relação incestuosa – interpretados por Anaïs Demoustier (Marguerite) e Jérémie Elkaïm (Julien de Ravalet). A ideia de fazer um filme contando essa história surgiu no início da década de 70, quando o diretor François Truffaut resolveu desenvolver um roteiro, mas o projeto não foi concretizado. A atriz e agora cineasta Valérie Donzelli retomou a ideia,  transformando-o no seu quinto longa-metragem. Embora a trama seja ambientada originalmente em 1603, Donzelli desenvolveu-a em várias épocas, misturando o Século XVII com o início do Século XX e culminando nos dias atuais. Em outras palavras: uma confusão cronológica daquelas, com carruagens antigas ao lado de carros modernos e até de um helicóptero. Mais esquisito ainda foi o fato de toda essa história de incesto e amor proibido ser contada num orfanato para meninas que nem chegaram à adolescência. Não é por nada, mas acho que Valérie Donzelli exagerou na dose, extrapolando o bom senso. Melodramático demais. Mesmo tendo concorrido à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2015, não achei pontos positivos suficientes para recomendá-lo.                   
Os telespectadores que assistiam ao noticiário do Channel 40 da Cadeia WXLT, de Sarasota (Flórida) na manhã do dia 15 de julho de 1974 tiveram a oportunidade de presenciar uma das cenas mais chocantes da história da televisão mundial. Na bancada do estúdio, após pronunciar a frase “Para dar continuidade à política do Canal 40 de trazer as últimas notícias sobre sangue e miolos, vocês verão outro primor: uma tentativa de suicídio”, a repórter Christine Chubbuck, aos 29 anos, faria ao vivo seu trágico ato final. O dia fatídico e os que antecederam essa tragédia são retratados no drama “CHRISTINE” 2016, EUA, com direção de Antonio Campos (filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes), que também assina o roteiro ao lado de Craig Hilowich. O filme explora os antecedentes psicológicos da repórter, interpretada com maestria pela atriz inglesa Rebecca Hall. Christine tinha um histórico de depressão e uma vida pessoal tumultuada, principalmente a relação conturbada com sua mãe Peg (J. Smith-Cameron). No trabalho, Christine era sempre pressionada a conseguir reportagens que aumentassem a audiência da emissora, o que a levava ao limite do estresse. O filme estreou no Festival de Sundance em 2016 e, no mesmo ano, foi exibido durante o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. O filme é muito bom, ainda mais pelo maravilhoso desempenho de Rebecca Hall, injustamente não indicada ao Oscar 2017 por essa atuação.            


segunda-feira, 15 de maio de 2017

O drama independente “MELHORES AMIGOS” (“Little Men”), 2016, EUA, reúne novamente o diretor Ira Sachs com o roteirista brasileiro Maurício Zacharias (“O Céu de Suely” e “Madame Satã”). Eles trabalham juntos há vários anos, sendo responsáveis por filmes como “O Amor é Estranho”, “Deixe a Luz Acesa” e “Vida de Casado”. O fio condutor de “Melhores Amigos” é a mudança da família Jardine – Brian (Greg Kinnear), Kathy (Jennifer Ehle) e Jake (Theo Taplitz) – para a casa deixada pelo avô de Brian, recentemente falecido, no Brooklin. O térreo da casa é ocupado por uma loja cuja proprietária é Leonor (a atriz chilena Paulina Garcia, de “Glória”, em seu primeiro filme em língua inglesa). Seu filho Toni (Michael Barbieri) logo faz amizade com Jake. Os dois não se desgrudam. O avô de Brian cobrava um aluguel irrisório de Leonor. Brian e sua irmã Audrey (Talia Balsan) resolvem reajustar o valor. Inconformada, Leonor resolve não assinar um novo contrato, iniciando uma batalha jurídica que esfriará de vez a amizade entre as duas famílias. Destaco como trunfo do filme o excelente desempenho do elenco, principalmente os jovens atores que interpretam Jake e Toni. Apesar do contexto dramático, o filme é leve e pode ser visto numa sessão da tarde com pipoca.           

domingo, 14 de maio de 2017



“INSUBSTITUÍVEL” (“Médecin de Campagne”), 2016, traz de volta à tela um dos mais competentes atores franceses: François Cluzet (quem não se lembra dele como o tetraplégico de “Intocáveis”?). Ele interpreta o médico Jean-Pierre Werner, que há 30 anos dedica-se a cuidar da população de uma zona rural no interior da França. Werner é um médico à moda antiga. Além do consultório, onde costuma não cobrar consulta dos pobres, visita seus pacientes em suas casas, envolve-se emocionalmente com quase todos os casos, conversa demoradamente com cada um, dá conselhos e é radicalmente contra internações em hospitais. Todo mundo adora Werner. Só que um dia ele é diagnosticado com uma doença grave, com poucas chances de cura. Aconselhado a descansar e iniciar um tratamento mais intensivo, Werner não desiste de continuar trabalhando. Até que uma médica recém-formada, Natalie Delezia (Marianne Denicourt), chega para ajudá-lo e, tudo a leva a crer,  substituí-lo no futuro. De início, ele resolve boicotá-la, o que resulta nas cenas mais bem-humoradas do filme. O roteirista e diretor Thomas Lilti, que já havia colocado a medicina como tema de outro filme (“Hipócrates”), não deixa a trama cair no melodrama, o que faz desta produção francesa um ótimo entretenimento, mas o melhor do filme é, sem dúvida, o desempenho de Cluzet.        

sexta-feira, 12 de maio de 2017



“FRANTZ”, 2016, França/Alemanha, escrito e dirigido por François Ozon. Mais um excelente drama que Ozon readaptou para o cinema, baseado no filme “Não Matarás” (1932), do diretor alemão Ernest Lubitsch. Ambientado em 1919, um ano após o término da Primeira Guerra Mundial, conta a história do jovem francês Adrien Rivoire (Pierre Niney), que visita uma pequena cidade da Alemanha para depositar flores no túmulo de um soldado alemão. Ele é surpreendido no cemitério por Anna (Paula Beer), que iria se casar com o falecido. Anna fica curiosa para saber quem é aquele jovem misterioso e o pressiona para contar a verdade. Adrien conta que era muito amigo do alemão quando este morava em Paris antes do início da guerra. Adrien e Anna ficam amigos e essa amizade parece ter tudo para terminar em novo romance. Os pais do soldado morto, Magda (Marie Gruber) e Hans Hoffmeinster (Ernest Stözner), recebem Adrien em sua casa e ficam encantados quando ele descreve o que fazia com o amigo alemão em Paris. O espectador mais atento acabará percebendo que Adrien esconde algum segredo e que, uma hora ou outra, será finalmente revelado. Considero este um dos melhores filmes do diretor francês, um dos mais criativos do cinema atual – de Ozon recomendo ainda “Uma Nova Amiga”, “Sob a Areia” e, principalmente, o espetacular “Dentro de Casa”. A cada filme Ozon surpreende ao inovar na narrativa, criando sempre uma expectativa próxima do suspense. Em “Frantz”, Ozon utiliza o preto e branco para acentuar a carga dramática, o que acontece em 90% do filme. “Frantz” concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2016 e foi indicado em 11 categorias ao Prêmio César 2017 (o Oscar francês), além de ter sido aclamado nos festivais de Toronto e Sundance. IMPERDÍVEL!    

quarta-feira, 10 de maio de 2017

“ARMAS NA MESA” (“Miss Sloane”), 2016, EUA, direção do veterano diretor inglês John Madden (“Shakespeare Apaixonado” e “O Exótico Hotel Marigold 1 e 2”) e roteiro de Jonathan Perera. A trama é centrada em Elizabeh Sloane (Jessica Chastain), uma das lobistas mais famosas de Washington. É workalohic assumida, muito competente, extremamente ambiciosa e sem qualquer escrúpulo, a ponto de prejudicar e colocar em risco de vida seus próprios colegas de trabalho. Quando indicada por seu chefe George Dupont (Sam Waterston) para comandar uma campanha em prol da indústria de armas, ela recusa o trabalho e, mais do que isso, resolve passar para o outro lado, ou seja, assumir o cargo de coordenadora de uma ação para a implantação de leis de controles de armas mais rígidas desenvolvida pelo escritório de uma ONG. A partir daí, ela entra em rota de colisão com seu ex-escritório, resultando num processo que a levará a julgamento pelo Congresso norte-americano. A reviravolta no desfecho é sensacional. O filme parece ter sido feito para Jessica Chastain deitar e rolar. E ela deita e rola, esbanja charme, prepotência e arrogância na medida certa, justificando a posição de uma das atrizes mais competentes da atualidade. Ela já havia sido indicada para o Oscar de Melhor Atriz em 2013 por sua atuação em “A Hora mais Escura” e agora, com “Miss Sloane”, talvez tenha sido a grande injustiçada pela Academia no Oscar 2017. Ela está simplesmente sensacional. Se o filme já é bom por si só, é ainda melhor com a presença dessa maravilhosa atriz. Veja e confira!
                                                                   

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Representante da Noruega na disputa do Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro, o drama histórico “A NEGATIVA DO REI” (“Kongens Nei”), direção de Erik Poppe, ficou entre os nove finalistas (o vencedor foi o iraniano “O Apartamento”). O filme retrata um dos acontecimentos mais importantes da história da Noruega. Em abril de 1940, com o falso objetivo de defender o país escandinavo de uma possível invasão inglesa, as tropas alemãs invadiram a Noruega, exigindo sua imediata rendição. O Rei Haakon VII (Jesper Christensen) se negou a negociar com os alemães, daí o título do filme, e a seguida declaração de guerra contra a Alemanha. Além de mostrar os bastidores dos acontecimentos que envolveram a família real norueguesa e o governo, o filme destaca os esforços do embaixador alemão em Oslo, Kurt Bräuer (o ótimo Karl Markovics, de “Os Falsários”), em negociar a rendição, evitando um massacre da população civil e dos despreparados soldados noruegueses. Só que os comandantes militares alemães não queriam saber de negociar. Os fatos narrados estão no livro “Kongens Nei”, escrito por Al Reidar Jacobsen, transformados para roteiro do filme pela dupla Harald Rosenløw-Eeg e Jan Tryeve Røyneland. O filme é muito bom, não apenas porque é bem feito, bem dirigido e interpretado, mas por contar um fato histórico da maior importância, mas pouco conhecido por aqui. Para quem gosta de História mundial, um filme simplesmente obrigatório e imperdível!                                                                


sábado, 6 de maio de 2017

“A CRIADA” (“AH-GA-SSI”), 2016, Coréia do Sul, roteiro e direção de Park Chan-Wook (“Oldboy”, “Segredos de Sangue”). Trata-se de um drama da mais alta qualidade, criativo e, ao mesmo tempo, de difícil compreensão, longo (2h47m) e enigmático, sem falar no fato de que é falado em japonês e coreano. A trama, porém, é engenhosa. Requer uma atenção especial para os detalhes. Nem tudo o que você vê é o que realmente acontece. O roteiro é baseado no romance galês “Fingersmith” (“Na Ponta dos Dedos”), escrito por Sarah Waters. Ambientado nos anos 30 na Coréia do Sul durante a ocupação japonesa, o filme descreve uma trama diabólica. A jovem camponesa Sooke (Kim Tae-Ri) é contratada como empregada da rica e ingênua herdeira Hideko (Kim Min-Hee), que mora com o tio autoritário Kouzuki (Cho Jin-Woong). A verdadeira intenção de Sooke é promover a aproximação do falso conde Fugiwara (Ha Jung-Woo) e convencer Hideko a desposá-lo. Na segunda parte do filme, numa narrativa fragmentada, repleta de idas e vindas, além da repetição das cenas da primeira parte sob ângulos diferentes, o enredo transforma-se num verdadeiro quebra-cabeças e sua montagem terá a finalidade de explicar tudo o que realmente aconteceu, com direito a várias reviravoltas até chegar ao desfecho. O primor visual, tanto com relação à fotografia, cenários, figurinos e recriação de época, é um dos maiores destaques do filme, assim como a requintada elaboração das cenas eróticas, que beiram o explícito sem abrir mão do bom gosto. Não há dúvidas de que estamos diante de um filme bastante interessante e inovador. Poucos diretores do cinema atual teriam a coragem de utilizar a câmera com tantos planos diferentes e de forma tão criativa. Não é um filme para iniciantes. Concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2016 e ganhou nada menos do que 37 prêmios internacionais em festivais pelo mundo afora.