O
veterano diretor norte-americano Martin Scorsese (de “Os Bons Companheiros”, “O
Lobo de Wall Street” e tantos outros filmes importantes) alimentou durante mais
de 20 anos o desejo de realizar “SILÊNCIO” (“Silence”), um drama épico
ambientado no Século 17, cuja história é inspirada no romance escrito pelo
japonês Shusaku Endo em 1966. O filme, que tem quase três horas de duração,
começa quando a Companhia de Jesus, em Portugal, recebe a notícia de que o
padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), que estava no Japão em missão
catequista, havia renunciado publicamente à Fé Cristã. Para confirmar a
notícia, dois jesuítas são enviados ao país do sol nascente: Sebastião
Rodrigues (Andrew Garfield, de “Até o Último Homem”) e Francisco Garupe (Adam
Driver). Eles chegam clandestinamente, já que o Regime Tokugawa, que dominava o
Japão, havia proibido a prática de qualquer outra religião no país – só era
permitido o Budismo. A perseguição aos cristãos era violenta: tortura e morte
por decapitação ou crucificação. Até chegar a Ferreira, os dois padres
enfrentarão inúmeros perigos e correrão risco de vida. Estranho que o filme não
tenha conseguido uma divulgação mais efetiva, ainda mais em se tratando do
consagrado diretor, além da presença de astros como Liam Neeson e Andrew
Garfield. Aliás, embora os cartazes do filme tenham destacado Liam Neeson como
astro principal, na verdade é Andrew Garfield quem leva o filme nas costas.
Neeson aparece pouco, apenas no início e no final. Mesmo com Scorsese na
direção, o filme não teve indicações importantes ao Oscar 2017. Apenas uma: a de
Melhor Fotografia.
Ambientado
entre os anos 50 e 60, quando a questão racial estava em plena efervescência nos
EUA, “LOVING” conta a história verdadeira do casal Richard e Mildred
Loving (interpretados por Joel Edgerton e Ruth Negga), ele branco e ela negra. Como
residem no Estado da Virginia, onde o casamento inter-racial é proibido, eles
se casam secretamente em Washington, mas quando voltam são imediatamente presos.
Decisão do juiz: se permanecerem na Virginia cumprirão pena; para escapar da cadeia, terão que viver em
outro estado por nada menos do que 25 anos. É claro que eles optam pela segunda
opção. Anos depois, porém, já com três filhos, eles resolvem voltar e arriscar
a sorte. O embate jurídico tem seu desenrolar quando um advogado de uma
associação ligada aos direitos civis decide levar o caso à Suprema Corte. Escrito
e dirigido por Jeff Nichols (“Amor Bandido” e “O Abrigo”), o filme disputou a
Palma de Ouro no Festival de Cannes 2016 e teve Ruth Negga indicada para Melhor
Atriz no Oscar 2017 – a atuação de Edgerton também é magistral. Ao contrário de
filmes como “Selma – Uma Luta pela Igualdade” e “Malcom X”, por exemplo, “Loving”
é bastante contido ao explorar o tema do racismo, focando a questão apenas no
relacionamento entre o casal e nas suas dificuldades em concretizar um amor proibido. Cinema da melhor qualidade.
Todo
mundo deve ter ouvido falar de Madre Teresa de Calcutá – hoje Santa –, mas
poucos conhecem os principais detalhes da trajetória dessa religiosa albanesa que
dedicou toda a sua vida a ajudar os pobres. “AS CARTAS DE MADRE TERESA” (“The
Letters”), EUA, 2014, roteiro e direção de William Riead, conta essa
história, desde seu período de enclausuramento no Convento Irmãs de Loreto, a
fundação da Congregação Missionárias da Caridade até o Prêmio Nobel da Paz, em
1979. O roteiro é inspirado nas inúmeras cartas que Teresa (interpretada de
forma magistral pela atriz inglesa Juliet Stevenson) escreveu, durante 50 anos,
ao seu amigo e conselheiro espiritual, padre Celeste van Exem (Max Von Sydow). Além
dos trechos mais importantes dessas cartas, num das quais revela que muitas
vezes sentia uma escuridão dentro de si, ou seja, a ausência de Deus, o filme
explora o trabalho de Teresa junto à população carente das favelas de Calcutá,
graças ao qual se tornou famosa no mundo inteiro. Além de prestar atendimento
médico aos doentes, muitos largados para morrer no meio da rua, Teresa percorria as favelas da cidade ensinando as crianças
a ler e escrever. O filme também mostra alguns detalhes de bastidores do processo
que resultou em sua beatificação pela Igreja Católica em 2003 e sua canonização
em 2016. Além de Juliet e Von Sydow, o elenco conta ainda com a participação
especial de Rutger Hauer como o padre Benjamin Praagh. Enfim, uma história
maravilhosa que precisa ser conhecida. Imperdível!
Mais
uma ótima comédia francesa com o ator Cristian Clavier. “O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO?” (“Une heure de
Tranquillité”), 2014, roteiro e direção do veterano Patrice Leconte (“O
Marido da Cabeleireira”). A história é baseada na peça teatral homônima de
grande sucesso na França, escrita por Florian Zeller. Como diz o título
original, uma hora de tranquilidade é o que deseja o cirurgião-dentista Michel
Leproux (Clavier) para ouvir um LP raro de jazz que acabara de comprar
num sebo de discos de vinil. Quando chega em casa, porém, uma série de
acontecimentos acaba estragando seu dia. A revelação bombástica da esposa, Nathalie
(Carole Bouquet), a festa barulhenta dos vizinhos, o filho que aparece trazendo
um grupo de imigrantes filipinos e a inesperada visita de Elsa (Valérie
Bonneton), amante de Michel. Além disso, Michel tem que suportar as trapalhadas de
dois pedreiros encarregados da reforma de um dos quartos do apartamento. Uma
confusão dos diabos. Diversão garantida! Cristian Clavier é um ótimo
comediante. Entre seus filmes mais engraçados, recomendo também “Que Mal Eu fiz
a Deus?”, de 2014, “Asterix e Obelix – Missão Cleópatra”, de 2002, e “Os
Visitantes”, de 1998. Em tempos tenebrosos como os que estamos vivendo, nada melhor do que uma boa comédia.
“MA MA”, 2014, Espanha, roteiro e direção de Julio Medem,
com Penélope Cruz, Luis Tosar, Alex Brendemühl, Asier Etxeandia e Teo Planell. Filme foi lançado no Festival Internacional de Cinema de Toronto/2015. Um drama e tanto. A
história é centrada em Magda (Cruz), recentemente abandonada pelo marido,
desempregada e mãe de um menino de 10 anos. Como desgraça não vem sozinha,
ainda descobre que está com câncer e será obrigada a fazer uma mastectomia. Em
meio a este cenário trágico, ela conhece Arturo (Tosar), que acaba de perder a
mulher e a filha num acidente de trânsito. Os dois começam um romance e ela engravida.
Quando tudo levava a crer que Magda começaria uma vida nova, eis que surge mais
uma péssima notícia. O drama de Magda não tem fim, mas, para atenuar a situação, ela conta com o apoio de Arturo e também de Julián (Asier Etxeandia), seu
médico e grande amigo. Penélope Cruz, aos 42 anos, está cada vez mais bonita e
competente, apesar de representar uma personagem tão sofrida. Uma curiosidade:
antes de ingressar no cinema, o diretor Julio Medem era médico. Ele tem em seu
currículo filmes como “Os Amantes do Círculo Polar”, o erótico “Um Quarto em
Roma” e “Lúcia e o Sexo” (que revelou a atriz Paz Vega). Embora tenha exagerado
na dose dramática, Medem não conseguiu fazer de “Ma Ma” um filme daqueles de
arrancar lágrimas, o que talvez tenha sido sua intenção. Enfim, dá para ver numa boa!
“O MAR DAS ÁRVORES” (“The Sea of
Trees”), 2015, EUA, direção de Gus Van Sant. O
jornalista norte-para o
Japão com o objetivo de cometer suicídio. Como cenário do ato final, escolhe a
floresta Aokigahara, aos pés do Monte Fuji, também conhecida como “Purgatório” (ele achou o lugar no Google ao digitar "O melhor lugar para morrer"). Quando está prestes a ingerir os comprimidos fatais, ele se depara com um japonês
que está lá com a intenção de também tirar a própria vida. Conversa vai
conversa vem, o japonês se apresenta como Tajumi Nakamura (Ken Watanabe), um
executivo que acaba de ser demitido de sua empresa e, como tal, se sente
envergonhado perante a família, o que justifica um “haraquiri”. No caso de Brennam,
o filme relembra, em flashbakcs, o seu
casamento em crise com Joan (Naomi Watts) e depois uma tragédia que o levará à
floresta do Japão. Numa inexplicável mudança de planos, os dois tentarão sobreviver
na floresta e encontrar uma saída que os leve de volta à vida e à civilização.
O filme tem um pano de fundo espiritual envolvendo a Natureza, o que o torna
ainda mais chato e enfadonho, principalmente por causa da profundidade milimétrica dos diálogos. Culpa do criador da história, o roteirista Chris
Sparling (”Enterrado Vivo”), e do próprio diretor Gus Van Sant, cujo currículo
é bastante irregular, apesar de ter dirigido o sucesso “Gênio Indomável” e o aclamado
“Milk: A Voz da Igualdade”. Apesar disso, não descarte “O Mar de Árvores”,
principalmente se você sofrer de insônia. É um ótimo sonífero. Inacreditável que três astros tão
competentes tenham participado de tamanha bomba. Não foi à toa que o filme, ao
final de sua exibição na mostra competitiva do 68º Festival de Cannes, em 2015, foi vaiado intensamente pelo público, críticos e jornalistas. Minha reação foi a mesma: Uuuuuuuuuuu!
“COLLIDE” (ainda não chegou por aqui, mas a tradução é
“colidir”, “chocar”), Inglaterra, 2016, roteiro e direção de Eran Creevy
(“Inimigos de Sangue”). O elenco é dos melhores: o ator e modelo inglês
Nicholas Hoult, Felicity Jones, Anthony Hopkins e Ben Kingsley. Trata-se de um
filme de ação com todos os clichês do gênero: pancadaria, tiros, perseguições,
suspense e, claro, muita ação. Depois de enfrentar problemas com a polícia nos
EUA, o jovem norte-americano Casey Stein (Hoult) resolve passar uns tempos na
Alemanha, onde toda a história é ambientada. Por falta de opção, ele passa a
trabalhar para o traficante de origem turca Geran (Kingsley), que por sua vez é
sócio na organização criminosa comandada pelo poderoso Hagen (Anthony Hopkins).
A coisa complica quando Geran propõe a Hagen que aumente sua participação na
sociedade. Hagen rejeita a proposta e Geran resolve se vingar, recrutando Stein
para roubar um caminhão cheio de cocaína. Em meio ao planejamento do roubo,
Stein conhece Juliette (Felicity Jones, loira), por quem acaba se apaixonando. Ela
quer que Stein desista da missão. Só que Juliette descobre que está muito
doente e precisa de um transplante – e muito dinheiro para realizá-lo. A
situação coloca Stein de volta à missão quase suicida de roubar o caminhão de
Hagen. Daí para frente é ação o tempo inteiro. Stein vai sofrer o que sofreu
Bruce Willis nos filmes “Duro de Matar”. A trama é bem elaborada e as perseguições pelas ruas de cidades e
estradas do interior da Alemanha são muito bem feitas. Quem gosta de filmes de ação vai adorar.
“JACKIE”, 2016, EUA, direção do chileno Pablo Larrain e
roteiro do jornalista Noah Oppenheim (da série “Divergente”). Não se trata de
uma cinebiografia de Jacqueline Kennedy, a viúva do presidente John F. Kennedy.
O filme enfoca apenas os sete dias posteriores ao assassinato do presidente e
as situações de bastidores que envolveram a primeira-dama viúva, incluindo os
momentos do crime, a organização do velório e enterro, como deu a notícia aos
filhos, as conversas particulares com Bobby Kennedy (Peter Sarsgaard), a mudança repentina da Casa Branca, as conversas com um padre (John Hurt) e a
polêmica entrevista que concedeu ao jornalista Theodore H. White (Billy Crudup),
da Revista Life, uma semana depois do assassinato. Todos esses eventos acabam
por revelar a personalidade de Jackie, interpretada de forma magistral por
Natalie Portman. Trata-se do primeiro filme em Hollywood de Larrain, que ficou
conhecido depois de ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013 com o
excelente “No” e depois de dirigir o perturbador “O Clube” (2015) e o polêmico “Neruda”
(2016). Larrain não é um diretor convencional. Seus movimentos de câmera, seus
enquadramentos, o estilo de contar uma história e a fotografia lembram Terrence
Malick, embora não seja tão hermético – e chato. “Jackie” concorre a três
categorias no Oscar 2017: Atriz, Figurino e Trilha Sonora.
No dia
20 de abril de 2010, a plataforma de perfuração marítima Deepwater Horizon, no
Golfo do México, arrendada à British Petroleum, sofreu uma grande explosão,
causando a morte de 11 trabalhadores, ferimentos em inúmeros outros e, pior, derramou
no mar o equivalente a 4 milhões de barris de petróleo, ocasionando um dos
maiores desastres ecológicos de todos os tempos. O que aconteceu naquele dia é
contado no drama “HORIZONTE PROFUNDO: DESASTRE NO GOLFO” (“Deepwater Horizon”),
2016, com Mark Wahlberg, Kurt Russel, John Malkovich, Kate Hudson e Gina
Rodriguez. O diretor é Peter Berg, do ótimo “O Grande Herói” (2013), também com
Wahlberg no papel principal. Antes da explosão e do incêndio que se seguiu
ainda por dias, o filme faz uma reconstituição dos fatos que culminaram no
trágico acidente. Há muitos diálogos com a utilização de termos técnicos incompreensíveis para quem não conhece o funcionamento de uma plataforma
perfuradora de petróleo. Jimmy Harrell (Russel) é o chefe da operação e Mike
Williams (Wahlberg) seu assistente e braço direito. Sobrou o papel de vilão para John
Malkovich, que faz o executivo Donald Vidrine, representante da British Petroleum. Apesar dos clichês típicos dos disasters movies, o filme é muito bem feito, segura um clima de grande tensão até o desfecho,
culminando com cenas bastante realistas e fortes da explosão, além de acompanhar
os momentos de desespero dos trabalhadores tentando se salvar. Momentos de muito suspense e altas doses de adrenalina.
“ATÉ O ÚLTIMO HOMEM” (“Hacksaw
Ridge”), 2016, Austrália/EUA, roteiro da dupla Andrew
Knight e Robert Schenkkan e a direção de Mel Gibson, é um épico de guerra que
resgata um dos mais extraordinários episódios de heroísmo ocorrido durante a II
Grande Guerra (1939/1945). A história é centrada em Desmond Doss (Andrew
Garfield), um jovem norte-americano que se alistou voluntariamente, mas que,
por questões religiosas (ele era adventista do Sétimo Dia), se recusou a pegar em armas. Sua intenção era ajudar
as equipes médicas do exército a salvar vidas. A primeira metade do filme é dedicada ao
treinamento de Doss e seus esforços para convencer os comandantes a deixá-lo ir
para o campo de batalha sem empunhar uma arma, baseado no conceito constitucional
norte-americano do “Opositor Consciente”. Chegou a ser preso e julgado por uma
Corte Marcial, mas ganhou o direito de continuar servindo. Seu batalhão foi enviado
para Okinawa para combater os japoneses. Resumindo: Doss virou herói ao salvar,
sozinho, nada menos do que 75 soldados feridos em combate. Uma façanha que o
tornou o primeiro “Opositor Consciente” a ser condecorado com a Medalha de
Honra do Congresso. Indicado ao Oscar 2017 em seis categorias, incluindo Direção,
Melhor Ator e Melhor Filme, “Até o Último Homem” realmente é um filme
espetacular. As cenas de batalha são sensacionais, talvez as melhores que já vi
no cinema, e a história de heroísmo é incrível, mostrando a coragem de um homem
cuja força era mais baseada na fé do que na força física (Mel
Gibson é um católico fervoroso). O elenco conta ainda com Teresa Palmer, Vince
Vaughn, Hugo Weaving, Sam Worthington e Rachel Griffiths. Não deixe de ver os
créditos finais, quando o verdadeiro Desmond Doss e outros personagens aparecem
dando depoimentos sobre o que aconteceu. Cinema da melhor qualidade. Imperdível!
“JACK REACHER: SEM RETORNO” (“Jack
Reacher: Never Go Back”), EUA, 2016, roteiro e
direção de Edward Zwick (“O Último Samurai” e “Diamante de Sangue”), traz de
volta o astro Tom Cruise no segundo filme protagonizado pelo personagem dos
livros do escritor britânico Lee Child – o primeiro filme, “Jack Reacher: O Último
Tiro”, foi produzido em 2012. Embora não tenha o tamanho “armário” dos brucutus
Jason Statham ou Steven Seagal, Cruise não nega fogo em filmes de ação e
pancadaria, como já demonstrou nos filmes da série “Missão Impossível” e agora
com Jack Reacher. Aos 54 anos, Cruise ainda está em grande forma física e enfrenta
sem problemas as mais arriscadas e movimentadas cenas de ação. Neste segundo
filme em que interpreta Jack Reacher, ele sai em defesa da major Susan Turner (a
bela e competente atriz canadense Cobie Smulders), acusada e presa por um crime
que não cometeu. Reacher vai tentar resgatar Turner da prisão e provar sua
inocência. Os vilões tentarão impedir a ação de Reacher, o que inclui sequestrar
sua filha. É ação do começo ao fim, para alegria dos fãs do gênero. O mocinho
(Cruise) apanha bastante, mas não o suficiente para desfigurar o seu rosto recheado
de botox. Enfim, como o primeiro filme da série, um ótimo programa para uma
sessão da tarde com pipoca.
Com 8
indicações ao Oscar 2017, entre as quais Melhor Filme, Diretor e Atriz
Coadjuvante (Naomie Harris), além de ter vencido o Globo de Ouro como Melhor
Filme de Drama, “MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR” (Moonlight”) é um filme
de grande impacto. A história é baseada na peça “In Moonlight Black Boys look
Blue”, do dramaturgo Tarell Alvin McCraney, adaptada pelo roteirista e diretor
Barryt Jenkins. O filme acompanha a trajetória de Chiro (interpretado por Alex
Hibbert na infância, Ashton Sanders na adolescência e por Trevante Rhodes na
fase adulta), um menino criado na perigosa periferia de Miami, convivendo com
traficantes e viciados. Sua mãe Paula (Naomie Harris) se prostitui para comprar
drogas. Por seu jeito tímido, Chiro é chamado de bicha pelos colegas no
colégio. Seu único amigo e protetor é Juan (Mahershala Ali), justamente o
traficante que fornece drogas para sua mãe. Ao chegar à adolescência, Chiro
passa a enfrentar os desafios de raça e sexualidade. Quando chega à fase
adulta, torna-se um importante traficante chamado Black. A trajetória de Chiro
e sua jornada de autoconhecimento são os fios condutores da história. O elenco,
só de negros – nem os figurantes são brancos -, é excelente, especialmente
Naomie Harris como a mãe drogada. Aposto nela como ganhadora de Melhor Atriz
Coadjuvante na premiação do Oscar. O filme é muito bom e não será nenhuma
surpresa se vencer outros prêmios da Academia.
“ÚLTIMO TÁXI PARA DARWIN” (“Last
Cab to Darwin”), Austrália, 2015, direção
de Jeremy Sims. Trata-se de um drama baseado na peça de teatro homônima escrita em 2003
por Reg Cribb. O próprio Cribb, juntamente com Sims, escreveu o roteiro. A
história é centrada em Rex (Michael Caton), de 70 anos, motorista de táxi em
Broken Hill (Nova Gales do Sul), bem no interior do continente australiano. Há
muitos anos que sua rotina inclui, além de dirigir o táxi, passar algumas
noites entre os lençóis com sua vizinha aborígene Polly (a ótima Ningali
Lawford) e se embebedar e jogar conversa fora com os amigos num bar da cidade. Diagnosticado
com um câncer de estômago em estágio terminal, Rex resolve viajar até a cidade
de Darwin, onde a dra. Nicole Farmer (Jacki Weaver) está recrutando voluntários
para um projeto pioneiro e ainda não aprovado de Eutanásia. A distância até
Darwin é enorme: 3.000 km. Mesmo bastante enfraquecido por causa da doença, Rex
resolve encarar o desafio e pega a estrada com seu táxi. Aí o filme entra na
fase road-movie pelas estradas poeirentas do extenso deserto australiano. Durante o trajeto,
Rex faz amizade com Tilly (Mark Coles Smith), um jovem aborígene irresponsável,
e com a doce Julie (Emma Hamilton), uma enfermeira que o acompanhará até o
destino final. Embora baseado numa peça de teatro, o filme é bastante
movimentado e tem seus momentos sensíveis, embora no geral seja um tanto triste
e melancólico. O filme não chegou ao nosso circuito comercial. Somente foi
exibido na Mostra de Filmes da Austrália/2016, em São Paulo.
Quando
foi exibido pela primeira fez no Festival de Sundance (EUA), em janeiro de 2016,
o drama histórico “O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO” (“The Birth of a Nation”)
foi apontado como um dos filmes favoritos a receber algumas indicações ao Oscar 2017. Ao
mesmo tempo, uma revista publicou que o ator e diretor Nate Parker esteve
envolvido no estupro de uma moça em 1999. Foi o suficiente para a conservadora
sociedade norte-americana condenar o filme ao ostracismo. Ao ser lançado nos
cinemas de lá, o público praticamente boicotou o filme. Além disso, também não
foi indicado em nenhuma categoria ao Oscar 2017, ao contrário de “12 Anos de
Escravidão”, de 2013, que explora o mesmo tema e recebeu 9 indicações. “The
Birth of a Nation” conta a história, baseada em fatos reais, do primeiro
levante dos escravos negros contra a escravidão, em 1831, que resultou na morte
de 60 fazendeiros senhores de escravos, no Estado da Virginia, sul dos EUA. O filme
acompanha a trajetória de Nat Turner (o próprio Nate Parker) desde a infância
na fazenda de algodão de Samuel Turner (Armie Hammer). Nat cresceu colhendo
algodão e lendo livros emprestados pela esposa do patrão, Elizabeth (Penelope
Ann Miller). Através da leitura, Nat adquiriu o poder da oratória e virou
pregador. Até o dia em que os fazendeiros brancos resolvem, como era hábito na
época, estuprar algumas escravas, incluindo a esposa de Nat, que, revoltado, resolve
comandar o tal levante. O filme é ótimo e merecia um destino melhor. Vale a
pena assisti-lo pelo menos para conhecer um importante fato histórico dos EUA, o embrião da Guerra de Secessão, 30 anos mais tarde.
“A GAROTA NO TREM” (“The Girl on
the Train”), 2016, EUA, é um bom suspense
psicológico baseado no best-seller da escritora inglesa Paula Hawkins, adaptado
para o cinema pela roteirista Erin Cressida Wilson e pelo diretor Tate Taylor (“Histórias
Cruzadas”). A ação é centrada em Rachel (Emily Blunt), que todos os dias embarca
num trem para o trabalho e da janela observa a casa onde morava com o ex-marido
Tom (Justin Theroux), que agora está casado com Anna (Rebecca Ferguson, ainda
mais bonita loira). Em sua viagem diária, Rachel também costuma observar outra
casa próxima, onde mora Megan (Haley Bennett), sua antiga amiga e agora babá da
filha de Tom e Anna - quando digo que Rachel costuma observar as casas, observa também seus moradores. Certo dia, Megan desaparece misteriosamente e a polícia
começa a investigar o caso. Scott (Luke Evans), o marido de Megan, é um dos
suspeitos. Outra suspeita é a própria Rachel, que teria sido vista pelas
redondezas. Rachel, alcoólatra e emocionalmente desequilibrada, não se lembra
de nada o que aconteceu. No início, a trama é um tanto complicada, com alguns flashbacks envolvendo situações da época
em que Rachel ainda era casada. Graças ao roteiro bem elaborado e que mantém o
clima de tensão e mistério até o final, as coisas vão se encaixando e
esclarecendo o que realmente aconteceu, com direito a uma reviravolta
surpreendente no desfecho. Ainda estão no elenco Allison Janney, Laura Prepon,
Lisa Kudrow e o ator panamenho Edgar Ramírez. Destaque para a atuação da atriz inglesa Emily Blunt, que finalmente ganhou um papel à altura da sua competência. Ótimo programa para quem gosta de
um bom suspense.
Nunca
fui muito fã de filmes musicais. Sempre achei uma chatice monumental aquelas
cenas em que, no meio de um diálogo, um dos personagens começa a cantar. Confesso,
porém, que gostei de musicais como “All the Jazz” e “Cabaret”, por exemplo, mais pelas
ótimas trilhas sonoras e coreografias. Ao assistir “LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES”
(“LA LA LAND”), tentei evitar comparações com os filmes citados e
com aqueles musicais de antigamente. Impossível, mesmo porque o jovem roteirista
e diretor norte-americano Damien Chazelle, de apenas 32 anos de idade, elaborou
grande parte das coreografias baseado nos musicais antigos, inclusive “Cantando
na Chuva”. Claro que Ryan Gosling não é Fred Astaire ou Gene Kelly, longe
disso, assim como Emma Stone não é Ginger Rogers ou Cyd Charisse. De qualquer
forma, o filme é bastante agradável, tem alguns ótimos números de dança, música
de qualidade e uma fotografia deslumbrante, principalmente nas cenas noturnas,
mostrando uma Los Angeles em luz neon, criando aquele visual nostálgico dos
musicais das décadas de 30/40/50. A história: O pianista de jazz Sebastian
(Gosling) chega a Los Angeles disposto a ingressar em alguma banda que toca o
jazz tradicional. Ele acaba conhecendo Mia (Emma Stone), uma atendente de cafeteria
aspirante a atriz. Os dois se apaixonam e querem viver juntos para sempre, mas
cada um tem seus sonhos e desejam concretizá-los, nem que para isso tenham de
colocar o amor em segundo plano. O filme conquistou
7 prêmios “Globo de Ouro” e foi indicado para concorrer ao Oscar 2017 em 14
categorias. Mesmo que seja um belo filme, achei exagero tantas indicações. Do mesmo jovem e talentoso diretor, gostei muito mais do espetacular “Whiplash:
Em Busca da Perfeição”.
De vez em
quando é bom e até saudável assistir a uma bobagem, ou seja, aquele filme cuja
proposta é apenas divertir, sem exigir muito do intelecto. É o caso da comédia “VIZINHOS
NADA SECRETOS” (“Keeping Up With the Joneses”), 2016, EUA, roteiro de
Michael Lesieur e direção de Greg Mottola, que ainda conta com um quarteto de protagonistas
da melhor qualidade: Jon Hamm (da série “Mad Men”), Zach Galifianakis (“Se
Beber, não Case”), a atriz escocesa Isla Fisher (“Animais Noturnos”) e a atriz
e modelo israelense Gal Gadot (que será a nova Mulher Maravilha). A história: quando
os filhos viajam para passar alguns dias num acampamento de férias, o casal
Jeff e Karen Gaffney (Zack e Isla) passa o tempo bisbilhotando os vizinhos recém-chegados,
Tim e Natalie Jones (Hamm e Gadot), que adotam um comportamento dos mais
estranhos. Jeff e Karen logo se aproximam e acabam descobrindo que os novos
vizinhos são espiões. A partir daí, acumulam-se inúmeras situações hilariantes,
principalmente quando Jeff e Karen se envolvem numa missão secreta do casal de
espiões, incluindo ótimas cenas de ação com perseguições e muitos tiros. Como
disse antes, o filme é diversão pura, um programão para uma sessão da tarde
com pipoca.
Não fosse a história baseada em fatos reais, eu
acharia o enredo um tanto inverossímil. Mas é tudo verdade, o que valorizou
ainda mais o drama independente norte-americano “MR. CHURCH”,
2016, que traz de volta às telas o ator Eddie Murphy, desta vez num papel
sério. A história começa ambientada no início dos anos 70 e se estende por mais
três décadas. Murphy é Henry Church, o “Mr. Church” do título, um cozinheiro
profissional contratado para prestar serviços na casa de Marie Brooks (a ótima
atriz inglesa Natascha McElhone). Quem o contratou foi o ex-namorado rico de
Marie e pai de sua filha Charlotte, a “Charlie”, interpretada na fase adulta
por Britt Robertson. O contrato era de seis meses – tempo de vida dado por um
médico a Marie, portadora de um câncer terminal -, mas Mr. Church acabou
dedicando sua vida inteira à família, servindo não apenas como cozinheiro, mas
também como amigo e conselheiro. O filme é uma comovente história de dedicação
e amizade, ensinamentos e cumplicidade. O filme realmente é encantador e bastante sensível. Ao
comentá-lo, parte da crítica especializada mencionou a injustiça de não ter
sido indicado ao Oscar 2017, assim como injusta foi a não indicação de Eddie Murphy para Melhor Ator. O roteiro foi
escrito por Susan McMartin e a direção é do veterano diretor australiano Bruce
Beresford, do ótimo “O Último Dançarino de Mao” (2009) e de “Conduzindo Miss
Daisy”, Oscar de Melhor Filme em 1989, entre outros inúmeros filmes. Belo filme que merece ser visto.
“BELGICA”, 2016,
é o segundo filme escrito e dirigido pelo diretor belga Felix van Groeningen,
que já havia nos brindado com o espetacular “Alabama Monroe”, de 2012, indicado
naquele ano para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Para escrever a história
de “Belgica”, Groeningen conta que se baseou nas memórias do pai, Jo van
Groeningen, que durante anos foi dono de uma casa noturna na cidade de Ghent,
capital de Flanders Oriental. A história de “Belgica”, um bar/discoteca, é
centrada nos irmãos Frank (Tom Vermeir) e Jo (Stef Aerts), que fundaram e
administram a casa. Eles começam a ganhar muito dinheiro com o negócio, mas
Frank, o mais velho, é irresponsável, gasta tudo em cocaína e em festas com
muitas mulheres, apesar de ser casado. Jo é mais introvertido e responsável,
apesar de também gostar de cheirar umas carreiras, mas tem uma namorada fixa. Grande
parte do filme é dedicada aos shows apresentados na casa. Muito barulho,
ambiente esfumaçado e brigas entre os frequentadores bêbados. Já que o bar não
tem seguranças, são os próprios irmãos e alguns funcionários, inclusive mulheres, os
responsáveis por manter a ordem e colocar para fora os arruaceiros. O
relacionamento entre os irmãos começa a se desgastar por causa da
irresponsabilidade de Frank, fator que, somado às dívidas acumuladas, ameaçam a
sobrevivência do negócio. É um filme pesado, com personagens histéricos, muita
gritaria, discussões e festas regadas a muita bebida e cocaína, o que pode desagradar e incomodar os espectadores
mais sensíveis. Trata-se de um filme bastante interessante e Groeningen ainda tem crédito de sobra por ter feito “Alabama Monroe”.
Os aficionados por boxe sabem perfeitamente
quem foi Roberto Durán, o lutador panamenho que venceu, numa luta histórica em
1980, o então imbatível e invicto boxeador norte-americano Sugar Ray Leonard, tornando-se
campeão mundial dos leves – ele seria também campeão mundial em outras três
categorias. A história desse lutador, baseada em livro escrito por Christian
Giudice, está devidamente contada, e com grande competência, em “PUNHOS DE
AÇO” (“Hands of Stone”), EUA, 2016, roteiro e direção do venezuelano
Jonathan Jakubowicz, com o também venezuelano ator Édgar Ramírez no papel
principal. O filme relembra a infância pobre de Durán nas favelas de El
Chorrillo, periferia da capital panamenha. Começou a boxear ainda garoto, nas
brigas de rua. Chegou logo aos ringues e foi lutar nos EUA, quando então
começou a ser treinado pelo lendário Ray Arcel (Robert De Niro). Batia pesado e,
por isso, ganhou o apelido de “Manos de Piedra”. Lutou boxe de 1968 a 2001, conquistando
milhões de admiradores por seu estilo agressivo. Além de reproduzir algumas
lutas de Durán, destacando as duas em que enfrentou o mito Sugar Ray Leonard, o
filme prioriza a vida particular tumultuada do lutador panamenho, sua relação
com a esposa Felicidad Iglesias (a atriz cubana Ana de Armas), seu ódio pelos
norte-americanos e o convívio difícil com o treinador Arcel. Além do ótimo
elenco, que conta ainda com Ellen Barkin, Usher Raymond e John Torturro, o
filme apresenta como um de seus principais trunfos as ótimas cenas de luta. Para
quem gosta ou não de boxe, um programão!
“JACK STRONG – O ESPIÃO QUE DERROTOU UM IMPÉRIO” (“Jack
Strong”), Polônia, 2014, roteiro e direção de Wladyslaw
Pasikowsk. Uma superprodução do cinema polonês, com elenco multinacional integrado
por atores poloneses, russos e norte-americanos, além de locações em Varsóvia,
Gdansk, Moscou e Washington. Conta a história verídica do coronel do exército
polonês Ryszard Kublinski (Marcin Dorocinski), que nos anos 70, em plena Guerra
Fria, virou espião e informante da CIA. Responsável pelo planejamento e execução
da invasão soviética na Tchecoslováquia em 1968 (episódio que ficou famoso como
“A Primavera de Praga”) e também pela violenta repressão aos trabalhadores dos
estaleiros de Gdansk, em 1970, o oficial polonês era bastante respeitado tanto
na Polônia como na Rússia. Descontente com os rumos da política adotada pelo
Pacto de Varsóvia, sob o comando dos russos, Kublinski resolveu um dia passar para “o
outro lado”, transmitindo importantes informações e segredos militares para o
pessoal do Tio Sam. São 128 minutos de muita tensão e suspense, graças ao
espetacular trabalho de Pasikowski, mais conhecido como diretor do também ótimo
“Aftermath” e como roteirista de “Katin”. As cenas de ação são ótimas,
principalmente a da perseguição pelas ruas cheias de neve de Varsóvia. Destaque
para o ator principal, o polonês Dorocinski, e para a participação do ator
norte-americano Patrick Wilson como o contato da CIA, lembrando o personagem do ator Tom Hanks em "A Ponte dos Espiões". A produção polonesa, aliás, é muito melhor. Quem gosta de filmes do gênero espionagem e
ambientados no período da Guerra Fria não pode perder “Jack Strong” (o
codinome do espião). Um filmaço, simplesmente IMPERDÍVEL!
“COME AND FIND ME” (na tradução literal, “Venha me
Encontrar”), EUA, 1h52min, 2016, escrito e dirigido por Zack Whedon (seu filme
de estreia). Trata-se de um suspense centrado no designer gráfico David (Aaron
Paul), que um dia conhece a fotógrafa Claire (Annabelle Wallis). Os dois se
apaixonam e acabam morando juntos. Claire tem um comportamento misterioso. Não revela
sua origem, não fala dos pais e nem da família. Seu passado é um enigma. Não
mais que de repente, Claire some do mapa sem deixar pistas, deixando David
desesperado. Ele começa a investigar o sumiço da amada por conta própria, o que
vai lhe acarretar uma série de problemas, inclusive físicos. David é agredido
por um amigo do casal, é detido e espancado por uma gangue numa loja de autopeças,
tem sua casa invadida por um intruso e, por fim, terá de enfrentar um estranho
que se diz agente do governo norte-americano. David finalmente descobre que
Claire esconde uma identidade secreta e um passado pra lá de misterioso. O roteiro é muito fraco, não explica, por
exemplo, a ligação de Claire com as pessoas que passam a perseguir David. O
desfecho, então, é ainda mais inexplicável. Nem com muita boa vontade dá para
recomendar.