sábado, 19 de março de 2016

“O MAJOR” (“MAЙOP”), 2013, Rússia, escrito e dirigido por Yuri Bykov, é um thriller policial forte e tenso, cuja história revela a podridão moral e ética de policiais que querem ver longe a justiça quando a mesma pode atingir um de seus colegas. O chamado corporativismo que a gente conhece muito bem. O major Sergey Sobolev (Denis Shevod) sai em alta velocidade pela estrada depois que o avisam que a esposa entrara em trabalho de parto e estava num hospital. No meio do caminho, ele atropela e mata um garoto, sendo que a única testemunha é a mãe da vítima, Irina Gutorova (Irina Nizina). O atropelador liga para um colega, o policial Pasha (papel do diretor Bykov), e pede ajuda, pois teme ser acusado e preso. A partir daí, os policiais criam estratégias para livrar Sobolev de um processo, o que inclui apagar qualquer vestígio de culpa. O pai e a mãe do garoto querem que a justiça seja feita e, por isso, sofrerão as consequências. O filme é ambientado em qualquer cidade do interior da Rússia, num cenário desolador e gélido de inverno, o que amplifica ainda mais o clima pesado que predomina do começo ao fim. O filme é interessante por ser russo, mas a história não difere de tantas outras que já vimos em outras línguas.            

sexta-feira, 18 de março de 2016

“PAIS E FILHAS” (“Fathers & Daughters”), EUA, 2015, direção do italiano Gabrielle Muccino (“À Procura da Felicidade” e “Sete Vidas”). O elenco é ótimo: Russell Crowe, Amanda Seyfried, Diane Kruger, Aaron Paul, Jane Fonda, Octavia Spencer e Bruce Greenwood. Mas o filme... Trata-se de um drama, praticamente dividido em duas partes. Na primeira, o escritor e vencedor do Prêmio Pulitzer Jake Davis (Crowe) vive um momento difícil após a morte da esposa num acidente. Jake tenta criar a filha Katie (Killie Rogers) de 5 anos, da melhor maneira possível, ao mesmo tempo em que precisa de tempo para escrever mais um livro, pois o dinheiro anda curto. Para piorar, ele começa a sofrer de um tipo de doença neurológica que o faz ter ataques parecidos com quem sofre de epilepsia. A cunhada Elizabeth (Diane Kruger), irmã da falecida, e o cunhado William (Bruce Greenwood), um casal de ricaços, quer a guarda da menina. Essa é uma parte da história. O filme salta vinte anos e aí começa a segunda parte, que acompanha a trajetória de Katie adulta (Amanda Seyfried), seu trabalho como psicóloga de crianças problemáticas, seu vício em sexo e as lembranças do pai, naquela altura do campeonato debaixo de sete palmos. O grandalhão Russel Crowe não combina com o personagem do escritor. Diane Kruger está irreconhecível e as cenas que mostram o romance conturbado de Katie com Cameron (Aaron Paul) são constrangedoras, com diálogos que fariam vergonha a qualquer novelão mexicano... Muccino tentou fazer um filme para arrancar lágrimas, mas nem isso conseguiu.         

segunda-feira, 14 de março de 2016

“TUDO VAI FICAR BEM” (“Every Thing Will be Fine”), 2014, co-produção Alemanha-Canadá e direção do alemão Wim Wenders (“Asas do Desejo”, “Paris, Texas”), é um drama pesado e depressivo. Tudo começa quando o escritor Tomas Eldan (James Franco), em crise existencial e conjugal, se isola nos cafundós gelados do Canadá para tentar recuperar a criatividade perdida. No meio desse processo, ele acidentalmente atropela e mata um garoto que brincava de trenó com o irmão. A tragédia abala não só a mãe do garoto, Kate (Charlotte Gainsbourg), assim como também o escritor, traumatizado e se sentindo culpado pelo atropelamento. A história se desenrola por mais 11 anos, período em que Eldan se separa da primeira esposa, Sara (Rachel McAdams), e já está com a segunda, Ann (Maria-Josée Croze). Acontece que depois do acidente fatal, Eldan volta a ser criativo e consegue emplacar vários livros de sucesso, recebendo prêmios e elogios dos críticos literários. Ficou rico. Quando tudo parece ir às mil maravilhas, surge no cenário um rapaz de 16 anos chamado Christopher, que nada mais é do que o irmão do menino atropelado por Eldan há 11 anos. O garoto é fã incondicional de Eldan, do qual já leu todos os livros. O escritor terá de se confrontar com Christopher e com o trauma que parecia ter esquecido. Um certo suspense predomina na parte final do filme, cujo desfecho só pode ser explicado por algum psicólogo. O filme teve a sua exibição de estreia, fora de competição, no Festival de Berlim/2015. Confesso que nunca fui muito fã de Wenders, e se depender deste último filme, continuarei não sendo.   
O gênero policial nunca teve grande destaque na vasta filmografia do veterano diretor francês Claude Lelouch (“Um Homem, Uma Mulher”, “Retratos da Vida”, “Os Miseráveis”). Em 2007, porém, Lelouch escreveu e dirigiu um ótimo filme policial: “CRIMES DE AUTOR” (“Roman de Gare”). A trama é inteligente, bem elaborada, com doses de suspense e humor na medida certa, com direito a uma reviravolta bastante surpreendente no final. O enredo reúne uma escritora de sucesso, Judith Ralitzer (Fanny Ardant), um repórter “ghost-writer”, Pierre Laclos (Dominique Pinon), e uma cabeleireira estressada e neurótica, Huguette (Audrey Dana), abandonada pelo noivo num posto de estrada. Lelouche teve o mérito de desenvolver a história até o seu desfecho com poucos personagens e criando situações que se desenrolam num clima que garante o suspense até o final. Outro mérito de Lelouch diz respeito ao elenco, encabeçado pela diva Fanny Ardant, ainda no auge da beleza. O desempenho hilariante da atriz Audrey Dana (hoje também diretora) é outro destaque, assim como a atuação de Dominique Pinon, ator-fetiche daqueles filmes esquisitos do diretor Jean-Pierre Jeunet. Quando estreou no Festival de Cannes, o filme não foi muito bem recebido pela Crítica. Mas eu recomendo, pois é criativo e muito interessante, além de ter a assinatura de um grande diretor.  

sexta-feira, 11 de março de 2016

O drama independente “THE GIRL IN THE BOOK”, 2015, EUA, escrito e dirigido por Marya Cohn, conta a história de Alice (Emily VanCamp), uma assistente editorial que há muito tempo é aspirante a escritora. Aos 29 anos, não tem um par fixo. Quando sai à noite, sempre acaba com um cara diferente na cama. Até que um dia aparece na sua editora o escritor Milan Daneker (o ator sueco Michael Nyqvist, da série original “Millennium”). Ao rever Milan, Alice passa a relembrar alguns fatos do passado, quando era apenas uma adolescente (papel de Ana Mulvoy-Ten). Alice relembra, por exemplo, como seu pai (Michael Cristofer), um renomado e prepotente agente literário, não media consequências para conseguir representar um escritor, no caso, Milan, o que incluía praticamente “oferecer” a filha ao escritor. Aliás, a atriz inglesa Ana Mulvoy-Ten, como a “Lolita” do filme, certamente faria inveja à original de Nabokov. Uma graça (embora na vida real tenha 23 anos de idade). O filme até que se desenvolve bem, mesmo alternando muitos flashbacks, e seu principal mérito é revelar a sujeira que rola nos bastidores do mundo editorial de livros.

quarta-feira, 9 de março de 2016

A comédia política “ESPECIALISTA EM CRISE” (“Our Brand is Crisis”), EUA, 2015, direção de David Gordon Green, deixa bem claro que nem sempre o vilão da história é o candidato, e sim seu consultor político, ou, como chamam no Brasil, “marqueteiro” – João Santana e Duda Mendonça são exemplos. Esses profissionais, muitas vezes, são os responsáveis pela criação de acusações falsas contra adversários e promessas mentirosas de campanha. No filme, a consultora política é Jane Bodine (Sandra Bullock), que decidira se aposentar após quatro derrotas seguidas de seus candidatos. Apelidada de “Jane Calamidade”, ela volta ao cenário para tentar eleger um candidato à presidência da Bolívia, o senador Pedro Castillo (o ator português Joaquim de Almeida), último nas pesquisas a apenas dois meses das eleições. No país sul-americano, Bodine cruza com um antigo inimigo de profissão, o consultor Pat Candy (Billy Bob Thornton), responsável pela consultoria política ao candidato líder das pesquisas. A briga promete ser boa. Apesar da presença de Bullock e de Thornton (dois bons atores), o filme é muito fraco e contém cenas constrangedoras e dispensáveis, como aquelas em que a marqueteira sai à noite para beber e dançar com três jovens bolivianos da periferia. Cenas descartáveis como o próprio filme. Só para ilustrar, George Clooney é um produtores do filme, assim como Bullock. 

terça-feira, 8 de março de 2016

“STRATOS” (“MIKRO PSARI”), Grécia, 2013, é um drama policial pesado, sinistro, esquisito e, principalmente, muito desagradável de assistir. Segundo o diretor Yannis Economides, trata-se de “um filme noir mediterrâneo”. De qualquer forma, o filme é bastante interessante pela maneira como foi concebido. Stratos (Vangelis Mourikis) é um ex-presidiário que trabalha como assassino de aluguel para pagar uma dívida a um chefão do crime organizado, Leônidas (Alekos Pangalos), que o salvou da morte na cadeia. Para pagar a tal dívida, Stratos se associa a Yorgos (Yannis Tsortekis), irmão de Leônidas, para criar e executar um plano de fuga, o que inclui a construção de um túnel subterrâneo. Com o objetivo de conseguir dinheiro para financiar o plano, Stratos vira um assassino de aluguel e, de madrugada, trabalha na confecção de massas numa padaria. Enredo meio estranho, não? É sim, e o personagem Stratos é mais estranho ainda. Quase não fala, tem o olhar vazio e frio, não esboça reação a nenhum tipo de provocação. Parece um autômato. Na hora de matar, porém, age com muita competência e uma frieza polar. Nesse ponto, cabe destacar a ótima interpretação do ator Vangelis Mourikis. O desfecho apresenta uma reviravolta surpreendente. O filme não é para iniciantes, ou seja, é difícil de aturar, ainda mais pelos seus longos 137 minutos de duração. Na sua sessão de estreia, durante a competição oficial do Festival de Berlim/2014, muita gente abandonou a plateia na metade do filme. Concordo que o filme não é muito fácil de digerir, mas tem muitos méritos, como a história em si, o roteiro bem estruturado, um ótimo elenco e uma incrível fotografia.   

quarta-feira, 2 de março de 2016

O ótimo drama de guerra “SUÍTE FRANCESA” (“Suite Française”), 2014, Reino Unido, é inspirado no livro homônimo da escritora ucraniana Irène Némirovsky. A história, ambientada na cidade francesa de Bussy durante a Segunda Guerra Mundial, é centrada na jovem Lucile Angellier (Michelle Williams), que mora com a sogra, Madame Angellier (Kristin Scott Thomas), enquanto espera o marido voltar da guerra. Enquanto isso, a cidade é dominada por um regimento de nazistas, cujos oficiais exigem ser acomodados nas melhores casas. Numa delas, justamente a de Madame Angellier, é hospedado Bruno Von Falk (o ator belga Matthias Schoenaertes), um oficial refinado que toca piano e compõe – a “Suíte Francesa”, que dá nome ao título do filme, é uma de suas composições. Como era de se prever, o clima fica quente entre o alemão e Lucile, o que vai ocasionar várias situações de risco. O filme é muito bem dirigido por Saul Dibb (“A Duquesa”) e conta com um ótimo elenco de apoio, incluindo o ator francês Lambert Wilson, Margot Robbie, Sam Riley e Ruth Wilson. Embora não prejudique o resultado final, fica estranho um filme ambientado no interior da França ser falado em inglês. Curiosidade: Irène Némirovsky morreu no Campo de Auschwitz em 1942 e “Suite Française” só foi publicado em 2004, depois que sua filha Denise encontrou o romance entre os manuscritos deixados pela escritora.

terça-feira, 1 de março de 2016

“BATALON”, 2015, direção de Dimitriy Meskhiev, é um drama de guerra russo baseado em fatos reais. Ambientado em 1917, conta a história da participação de um batalhão de mulheres no front da Primeira Guerra Mundial contra os alemães. O grupo foi formado e autorizado por ordem do então Ministro da Guerra Alexander Kerensky como uma estratégia para motivar o exército masculino, então em fase de dissolução por causa da guerra civil provocada pela Revolução Russa. O batalhão de mulheres ficou conhecido como “O Batalhão da Morte”, pois havia poucas chances delas voltarem vivas. E, como o filme deixa bem claro, elas sabiam disso, mas mostraram muita coragem ao assumir o risco. O comando desse grupo ficou a cargo da oficial Maria Bochkareva (Mariya Aronova), uma mulher que, antes de ingressar no exército, apanhava do marido. No comando do grupo, porém, ela se destacou como uma voz que se fazia ouvir e respeitar, mas que tinha lá seus momentos de ternura. Interpretada por uma ótima atriz, é a personagem mais interessante do filme, lembrando que a verdadeira Maria Bochkareva foi consagrada como heroína nacional, motivando a formação de outros batalhões femininos, o que se tornou prática normal no exército russo a partir de então. Filme interessante por contar uma história pouco conhecida da Primeira Guerra Mundial.
“A SAPIÊNCIA” (“La Sapienza”), 2014, França, roteiro e direção de Eugène Green, nascido nos EUA e naturalizado francês. No dicionário, “Sapiência” quer dizer “Sabedoria”. Mas, para suportar os 104 minutos desse filme, é preciso ter não apenas  Sapiência, e sim uma dose extra de Paciência. O filme acompanha a crise existencial e de criatividade do renomado arquiteto francês Alexandre Schmid (Fabrizio Rongione). A situação começa a interferir no seu casamento com Aliénor (Cristelle Prot). Alexandre resolve fazer uma viagem de estudos à Itália e leva a esposa. Seu objetivo é se aprofundar na obra de dois mestres do Barroco, Francesco Borromini e Gian Lorenzo Bernini. Na pequena cidade de Stresa, o casal conhece os jovens irmãos Lavínia (Arianna Nastro) e Goffredo (Ludovico Succio). Alexandre convida Goffredo para acompanhá-lo a Roma, enquanto Aliénor fica em Stresa com Lavínia. Quando estão em cena, Alexandre e Goffredo dedicam-se a discutir a Arquitetura Clássica italiana, ao mesmo tempo em que as imagens mostram detalhes das obras de Borromini e Bernini, datadas do Século XVII - o diretor filma de forma didática, como se preparasse slides para uma aula de Arquitetura (as imagens, aliás, são muito bonitas). As cenas são alternadas com os passeios de Aliénor e Lavínia, cujos diálogos têm como tema a importância do Amor na vida das pessoas. Viu como é preciso Paciência para chegar até o final do filme? Recomendo apenas para o pessoal que está estudando ou é ligado à Arquitetura. E também para quem sofre de insônia... De qualquer forma, vale acrescentar que o filme foi selecionado para exibição, durante 2014, nos Festivais de Locarno, Vancouver, Toronto, Londres e Nova Iorque.   

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

“MULHER DE OURO” (“Woman in Gold”), 2015, EUA/Inglaterra, direção de Simon Curtis (“Sete Dias com Marilyn”), conta a história incrível e verídica de uma mulher austríaca, Maria Altmann (Helen Mirren, e, quando jovem, Tatiana Maslany), que fugiu dos nazistas no início da Segunda Guerra Mundial e foi morar em Los Angeles. Seus familiares acabaram mortos nos campos de concentração na Europa. Quase sessenta anos depois, ela resolve tentar recuperar as obras de arte roubadas de sua casa em Viena pelos alemães, principalmente o quadro “Retrato de Adele Bloch-Bauer”, de Gustav Klimt, que há anos estava exposto na famosa Galeria Belvedere de Viena. Adele, a modelo do quadro, era a tia preferida de Maria. Para iniciar o processo judicial, Maria recorre ao jovem advogado Randol Schoenberg (Ryan Reynolds), ele mesmo nascido na Áustria e neto do famoso compositor. Mesmo com pouca experiência, Randol assume o caso e resolve enfrentar o governo austríaco nos tribunais. A relação entre Randol e Maria e o desenrolar da batalha jurídica – cujo final não conto –, além de flashes da família Altmann nas primeiras décadas do século 20, dão força ao excelente roteiro escrito pelo dramaturgo Alexi Kaye Campbell.  Mais uma vez é Helen Mirren quem domina as cenas, comprovando porque é uma das melhores atrizes da atualidade. Além dela e de Ryan Reynolds, estão no elenco Daniel Brühl, Katie Holmes (a ex de Tom Cruise), Elizabeth McGovern e Jonathan Price.         

domingo, 28 de fevereiro de 2016

O direito ao voto (sufrágio) foi uma das conquistas mais árduas das mulheres. Entre fins do Século XIX e princípio do Século XX, elas batalharam em vários países do mundo para conseguir exercer o direito que, até então, era somente dos homens. No caso do drama histórico inglês “AS SUFRAGISTAS” (“Suffragette”), 2015, direção de Sarah Gavron, a história é ambientada na Inglaterra e mostra como foi que as mulheres conseguiram conquistar o direito de votar naquele país. O enredo é centralizado na jovem Maud Watts (Carey Mulligan), que desde os 7 anos de idade trabalhava numa grande lavanderia de Londres, onde os trabalhadores –  principalmente as trabalhadoras - eram explorados sem qualquer escrúpulo, a começar pelo salário irrisório. Incentivada por Edith Ellyon (Helena Bonham Carter), proprietária de uma farmácia que servia de local para as reuniões clandestinas do grupo de mulheres, Maud ingressa no movimento, contrariando seu marido e seus chefes na lavanderia. Maud participa das manifestações, apanha da polícia e acaba presa diversas vezes. A luta dessas mulheres ganha corpo com a presença, em Londres, da fundadora do movimento britânico do sufragismo, Emmeline Pankhurst (Meryl Streep). Aliás, a grande Meryl Streep aparece muito pouco, apenas uma ponta. O filme é muito bom não apenas pela história em si, mas também pelo esmero na recriação de época, figurinos e cenários. Uma grande produção que merece ser conferida (Espere os créditos finais, antes dos quais são relacionados inúmeros países – inclusive o Brasil - e as respectivas datas em que o voto foi liberado para as mulheres).

sábado, 27 de fevereiro de 2016

O veterano diretor inglês Ken Loach é um dos cineastas mais politizados em atividade. À sua vasta filmografia de filmes políticos ele acrescentou, em 2014, "O SALÃO DE JIMMY" (“JIMMY’S HALL”), cuja história, baseada em fatos reais, é ambientada na Irlanda no início dos anos 30. O personagem principal é Jimmy Gralton (Barry Ward), o mais conhecido líder comunista irlandês. Nascido em Leitrim, na Irlanda, Jimmy fugiu para Nova Iorque para não ser preso por suas atividades políticas. Dez anos depois volta para a sua terra natal e é recebido como herói. Ele reinaugura um centro cultural e recreativo onde as pessoas podem ter aulas de dança, literatura, artes plásticas e discutir livremente temas políticos. Nos finais de semana, o local é utilizado pela população da cidade para dançar. Para o líder religioso da cidade, padre Sheridan (o ótimo Jim Norton), o centro de Jimmy é um local de perversão, principalmente por permitir que as pessoas dancem “um tal de jazz”,  ritmo considerado profano. Incitados pelo padre Sheridan, os conservadores partem para o enfrentamento contra a turma de Jimmy e aí começa uma perseguição implacável. O filme é ótimo, valorizando ainda mais a filmografia do cineasta inglês, da qual recomendo “Terra e Liberdade”, “Ventos da Liberdade”, “Pão e Rosas”, “Rota Irlandesa” e “A Parte dos Anjos”.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O drama cubano “NUMA ESCOLA DE HAVANA” (“Conducta”), 2014, é uma daquelas pérolas que de repente o cinema nos presenteia. Embora tenha patrocínio do Ministério da Cultura daquele país, não faz nenhuma propaganda do regime e muito menos esconde o lado pobre de Havana. A história é centrada no menino Chala (Armando Valdes Freire), de 11 anos. Filho de uma drogada, Sonia (Yuliet Cruz), Chala se vê responsável pelo dinheiro da casa. Cria pombos para vender e possui quatro cães treinados para lutar nas rinhas. No colégio, Chala é uma pedra no sapato dos professores, que a toda hora querem enviá-lo para um internato. A única que consegue dominá-lo é a veterana professora Carmela (Alina Rodriguez), por quem o garoto tem muito respeito e até uma grande dose de carinho. A amizade de Carmela e Chala rende os momentos mais sensíveis e comoventes do filme – para provocar umas lágrimas a mais, lembro que a atriz faleceu em julho de 2015, aos 63 anos. É o terceiro longa do diretor cubano Ernesto Daranos Serrano. Ganhou o Festival de Cinema de Havana e foi indicado para ser o representante oficial de Cuba na disputa do Oscar/2015 na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Produção simples, mas de muita qualidade. Não perca! 
Fazia tempo que eu não assistia a um filme com uma força dramática tão grande. Trata-se de “MOMMY”, 2014, Canadá, escrito e dirigido pelo jovem (26 anos) e cultuado diretor canadense Xavier Dolan (“Eu Matei a Minha Mãe” e “Amores Imaginários”). Também fazia tempo que não via uma atuação tão espetacular como a da atriz Anne Dorval. Ela interpreta Diane Després, uma viúva emocionalmente descontrolada e afogada em dívidas que um dia é obrigada a acolher o filho Steve (Antoine Olivier Pilon), de 15 anos, expulso de um reformatório após incendiar a cafeteria e causar ferimentos em várias pessoas. Steve, por conta de sua hiperatividade e seu déficit de atenção, é agressivo, rebelde e violento, à beira da psicopatia. Para piorar, ele se recusa a tomar os remédios receitados. De vez em quando, ele entra numa banheira cheia de gelo para tentar se acalmar. Ele trata a mãe aos gritos, além de tapas e bordoadas. A frase mais carinhosa dita por ele em relação à mãe é “Sua vadia”. Essa relação de amor e ódio chega aos extremos da gritaria e discussões histéricas. Impossível não ficar incomodado na poltrona. A situação dá uma amenizada quando a vizinha Kyla (Suzanne Clément), outra mulher problemática, passa a frequentar a casa de Diane. Mas não resolve o problema e tudo parece caminhar para um desfecho trágico. O filme é ótimo, mas o maior destaque é, sem dúvida, a atuação incrível de Anne Dorval, a mãe. Seria injusto não destacar também as ótimas atuações do jovem ator Antoine Olivier Pilon e da veterana Suzanne Clément. “Mommy” ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2014, além de ter sido indicado para disputar o Oscar/2015 de Melhor Filme Estrangeiro. Imperdível!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A comédia romântica “UM REENCONTRO” (“Une Rencontre”), 2014, roteiro e direção de Lisa Azuelos, reúne dois dos maiores astros do cinema francês atual: Sophie Marceau e François Cluzet (“Os Intocáveis”). O filme conta a história da paixão avalassadora entre a escritora Elsa (Sophie) e o advogado criminalista Pierre (Cluzet). Ambos são muito bem sucedidos em suas respectivas carreiras. Recentemente divorciada, Elsa tem dois filhos adolescentes e costuma sair com homens bem mais jovens. Pierre vive um casamento seguro com Anne (papel da diretora Azuelos), com quem tem um filho. Os dois se conhecem numa noite de autógrafos de Elsa, tornam-se amantes e, por um breve espaço de tempo, se afastam. Acabam se reencontrando em Paris (daí o título) e a partir de então não se desgrudam mais. O filme foge de alguns clichês típicos das comédias românticas, o que lhe confere uma qualidade melhor do que suas congêneres, principalmente aquelas que vêm de Hollywood. Aos 49 anos, Sophie Marceau, que já foi bond girl em “007 – O Mundo não é o Bastante” (1999), continua em grande forma, bonita e charmosa. Embora ótimo ator, falta a François Cluzet os predicados de um verdadeiro galã, pois é franzino e feio, mas se sustenta com seu charme de galanteador e atitudes atrevidas. Trata-se de uma comédia romântica sem grandes novidades, que vale ser conferida apenas pela dupla central de atores.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Quem diria, Hollywood fazendo remake de filme argentino (Mordam-se de inveja, cineastas brasileiros!). É, parece que a crise de criatividade dos roteiristas da meca do cinema continua. “OLHOS DA JUSTIÇA” (“The Secret in their Eyes”), 2015, foi adaptado do maravilhoso “O Segredo dos Seus Olhos”, 2009, filme argentino ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Embora haja algumas modificações de roteiro, “Olhos da Justiça” conta a mesma história, talvez com mais ação e suspense. O diretor Billy Ray (“Quebra de Confiança” e “O Preço de uma Verdade”) até faz uma menção ao incrível e famoso plano-sequência criado por Juan José Campanella no filme argentino. Se “Olhos da Justiça” não é melhor do que o original, pelo menos ganha no que diz respeito ao elenco de astros: Chiwetel Ejiofor (“12 Anos de Escravidão”), Nicole Kidman e Julia Roberts. Fazia tempo que não via Nicole Kidman tão linda como neste filme, e também Julia Roberts tão envelhecida. No filme norte-americano, senti falta do humor que sobrava no filme argentino. Em “Olhos da Justiça” o drama é reforçado pelas ótimas atuações de Júlia Roberts e, principalmente de Chiwetel Ejiofor. Mesmo quem tenha assistido o filme argentino vai gostar deste, também um ótimo entretenimento.    

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O drama francês “OS APACHES” (“Le Apaches”), 2013, segundo longa escrito e dirigido por Thierry de Peretti, faz um retrato bastante realista e cruel da juventude que habita uma cidade na região da Córsega, grande parte constituída de imigrantes africanos e de origem árabe. A história é centrada em cinco jovens pobres, inconsequentes e revoltados com sua condição de pobreza. Dois deles, Azis (Azis El Hadachi) e Hamza (Hamza Meziani), são filhos de imigrantes árabes. Numa noite de farra, os cinco invadem uma mansão para curtir a piscina. Consomem a bebida da casa, ficam bêbados e acabam roubando dois fuzis. A polícia começa a investigar o roubo e os jovens ficam apavorados. Uns querem devolver as armas, outros não. Até que um deles resolve vender um dos fuzis. Pressionados pela possibilidade de serem descobertos, eles começam a se desentender, culminando com um evento trágico. O filme, selecionado para a Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes/2013, é bastante impactante, forte e desagradável, principalmente por mostrar uma juventude alheia aos princípios morais e sem horizontes para traçar um objetivo de vida. É muito triste, mas esse retrato da juventude pode ser aplicado no mundo inteiro. Tristes tempos...  

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Apesar da impressionante atuação de Isabelle Huppert, não gostei de “UMA RELAÇÃO DELICADA” (“ABUS DE FAIBLESSE”), 2013, França, roteiro e direção de Catherine Breillat. Hupper interpreta a cineasta Maud Schoenberg, que sofre um AVC, fica meses internada e passa a viver com sequelas graves, uma delas a paralisação do lado esquerdo do corpo. Em meio à sua recuperação, Maud trabalha na produção de seu novo filme e procura um ator para determinado papel. Ao assistir a um programa de TV, ela vê um ex-presidiário sendo entrevistado. Maud tem certeza de que ele será o ator ideal e o convida para uma conversa. O ex-presidiário é Vilko (Kool Shen), um marginal que virou celebridade ao dar um grande golpe e ser preso. A partir daí, Vilko vai aproveitar o fato da cineasta estar vulnerável e tentar tirar o máximo de dinheiro dela. Aí que a história fica forçada demais, pois Maud tem amigos e uma família que, na vida real, jamais deixariam que ela fosse tão explorada. Também não há explicação – a não ser algum tipo de obsessão – para o comportamento irracional de Maud. Enfim, um filme mediano que não faz jus ao enorme talento da atriz francesa.
“DIÁRIO DE UMA CAMAREIRA” (“Journal D’une Femme de Chambre”), 2015, co-produção França/Bélgica, direção de Benoit Jacquot (“Adeus, Minha Rainha” e “3 Corações”), que também escreveu o roteiro, inspirado no romance escrito por Octave Mirbeau. Trata-se da terceira adaptação para o cinema – a primeira, de 1946, teve a direção de Jean Renoir, e a segunda, em 1964, de Luis Buñuel. A história é ambientada no início do Século XX e acompanha a trajetória do trabalho de camareira de Célestine (Léa Sedoux). Enviada por uma agência para trabalhar na mansão da família Lanlaire, interior da França, Célestine vai conhecer o inferno das mãos de Madame Lanlaire (Clotilde Mollet), uma patroa sádica e megera. Além disso, Célestine tem que conviver com os frequentes assédios do patrão tarado – aliás, pelo que o filme dá a entender, era prática comum na época os patrões exigerem esse tipo de serviço das empregadas, com ou sem o consentimento das respectivas patroas. Na casa dos Lanlaire, Célestine conhece Joseph (Vincent Lindon), que trabalha como cocheiro da família há 15 anos. Ele é um homem bastante misterioso, envolvido em atividades políticas clandestinas, além de ferrenho antissemita. O filme teve sua exibição de estreia em fevereiro de 2015 durante o Festival de Cinema de Berlim. Léa Seydoux, mais uma vez, esbanja competência e prova porque é considerada uma das melhores atrizes francesas da atualidade. A caprichada recriação de época é outro dos destaques desse ótimo drama francês. 

                                                                                                       

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Imagine ficar perdido numa floresta, no mar, no deserto ou simplesmente numa grande cidade. A sensação é horrível, de desesperar. Imagine então ficar perdido em Marte! É o que acontece com o astronauta Mark Watney (Matt Damon) no ótimo “PERDIDO EM MARTE” (“The Martian”), 2015, EUA. A história é baseada no livro homônimo de ficção científica escrito por Andy Weir. Mark foi praticamente abandonado em Marte pela equipe de astronautas da qual fazia parte depois de uma tempestade. Dado como morto, foi “enterrado” com honras militares nos EUA. Só que ele não morreu. Sozinho num planeta praticamente desconhecido, Mark teve que se virar para sobreviver. Com  seu conhecimento de botânica, criou uma plantação de batatas e inúmeros outros artifícios para se manter vivo até um possível resgate. E jamais perdeu o bom humor, tanto ao conversar consigo mesmo como falando com o pessoal da NASA. Numa de suas frases bem humoradas, ele diz: “Eu colonizei Marte. Chupa essa, Neil Armstrong”, referindo-se ao primeiro astronauta a pisar na Lua, em 1969. O elenco conta ainda com Jessica Chastain, Jeff Daniels, Kristen Wiig e Chiwetel Ejiofor. O filme é divertido e movimentado do começo ao fim e nem mesmo a utilização de inúmeros termos técnicos e científicos indecifráveis para nós, leigos e simples mortais, prejudica o resultado final. Como curiosidade:  o deserto de Wadi Rum, na Jordânia, foi utilizado como locação e cenário para reproduzir Marte. O diretor é o veterano Ridley Scott, dos clássicos “Alien, o Oitavo Passageiro”, “Blade Runner, o Caçador de Andróides”, “Falcão Negro em Perigo” e “Thelma & Louise”. Com sete indicações ao Oscar 2016, entre as quais Melhor Filme e Melhor Ator, “Perdido em Marte” é diversão garantida na telinha. 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

“BOULEVARD”, 2014, EUA, direção de Dito Montiel, foi um dos últimos filmes de Robin Williams, falecido em agosto daquele ano. O ator norte-americano interpreta Nolan Mack, que trabalha num banco há 26 anos e mantém um casamento de conveniência com Joy (Kathy Baker), já que é homossexual e precisa manter as aparências para conseguir promoções no trabalho. À noite, Nolan sai pelas ruas à procura de garotos de programa e acaba se envolvendo com um deles, Leo (o ator mexicano Roberto Aguirre). Ao mesmo tempo em que vive o dilema de uma paixão proibida, Nolan recebe o convite para assumir a gerência de uma agência do banco, uma promoção e tanto. Só que o relacionamento com Leo se transforma numa paixão avassaladora, provocando grandes transformações no comportamento de Nolan, colocando em risco o seu casamento e até o próprio emprego no banco. Robin Williams defende o papel de Nolan com competência, mas quem se destaca é a veterana Kathy Baker. O filme carrega uma enorme carga dramática, é trista e melancólico, passa longe de um entretenimento agradável, mas trata de um tema bastante polêmico e que, por isso, merece ser visto.