À beira
dos cinquenta, a atriz francesa Sophie Marceau continua competente, bela e em
ótima forma física, sem qualquer sinal aparente de plástica ou botóx - privilegiada! Ela é a estrela da comédia romântica “SEXO,
AMOR E TERAPIA” (“Tu Veux ou Tu Veux
Pas”), 2014, roteiro e direção de Tonie
Marshal. Judith (Marceau) é uma executiva de vendas de uma grande empresa,
responsável pelo mercado asiático. Ela, porém, é ninfomaníaca, transa com
qualquer coisa que se mova, o que inclui um grande número de chineses e
japoneses. Acaba demitida e volta para a França a fim de procurar emprego. O piloto
de avião Lambert (Patrick Bruel) é viciado em sexo – antigamente, seria chamado
de tarado – e também acaba demitido por transar em pleno vôo com comissárias,
aeromoças e quem passar na sua frente. Ele vira terapeuta de casais e, nas
horas vagas, frequenta um grupo de terapia destinado a viciados em sexo. Judith
e Lambert, claro, vão se encontrar e iniciar uma relação bastante conturbada. Como
terapeuta, Lambert ainda vai ter de segurar as rédeas da sua mãe fogosa, Nadine
(a cantora Sylvie Vartan, ótima). Embora seja capaz de provocar algumas
risadas com algumas boas sacadas, o filme não é dos melhores – o desfecho, então, é constrangedor, para não
dizer lamentável -, mas a presença de Sophie Marceau vale uma indicação.
Mais
um filme francês de qualidade, inteligente e delicioso de assistir. “GEMMA BOVERY – A Vida Imita a Arte” (“Gemma
Bovery”), 2014, direção de Anne
Fontaine. O casal Charlie (Jason Flemyng) e Gemma Bovery (Gemma Arterton) saem
da Inglaterra e vão morar numa pequena cidade francesa na Normandia. Estão em
busca de paz para trabalhar, ela como pintora e ele como restaurador de obras
de arte. Eles serão vizinhos de Martin Joubert (Fabrice Luchini) e sua esposa
Valérie (Isabelle Candelier). Apesar de ser padeiro (herdou a padaria do pai),
Martin trabalhou numa editora e não perdeu seu amor pela literatura. Ele é
obcecado pelo clássico “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert. Já dá para
imaginar, portanto, que Martin irá associar a vizinha à famosa personagem do
livro, Emma Bovary – não foi à toa a escolha do nome Gemma Bovery. A conexão
não ficará restrita apenas à personagem, mas também ao enredo trágico do livro - daí o subtítulo "A Vida Imita a Arte". O filme desenvolve esse paralelo com muita competência, acrescentando a paixão
platônica do velho Martin pela jovem Gemma. Ao vê-la pela primeira vez, ele
fala com seus botões: “Lá se vão dez anos de tranquilidade sexual”. Realmente,
a atriz inglesa Gemma Arterton é um fenômeno de beleza e sensualidade, além de
atuar com muita competência. E que ator é Fabrice Luchini! Enfim, o filme é ótimo,
imperdível!
Ninguém
pode colocar em dúvida o grande talento de Kim Basinger como atriz, o que já foi
comprovado em inúmeros filmes. Nem contestar sua beleza, que continua inalterada. Suas últimas escolhas,
porém, não têm sido à sua altura. Mais uma prova disso é o recente “EU
ESTOU AQUI” (“I Am Here”), 2014. Embora falado em inglês, é uma co-produção Dinamarca/Alemanha. Trata-se de
um drama com algumas pitadas de suspense. Maria (Basinger) é uma empresária bem
sucedida que tem um sonho, na verdade uma obsessão: ser mãe. Ela e Peter (Sebastian
Schipper), o marido, tentam há mais de 10 anos. Depois de vários abortos, ela
recebe o diagnóstico do médico: não pode tentar mais, pois, além da idade, seu
útero apresenta problemas que a impedem de engravidar. Já que não pode mais ser
mãe biológica, ela agora vai tentar adotar uma criança, o que o marido não concorda.
Depois de ler uma notícia de que na República Tcheca as prostitutas jovens
estão vendendo seus bebês, é para lá que Maria decide ir. Pega o carro, cai na
estrada sozinha e, durante o caminho, acaba conhecendo Petit (Jordan Prentice),
um anão drogado, ao qual pede ajuda para a sua missão. Em meio a vozes
estranhas de crianças – os nenês abortados? -, lá vai Maria em busca do seu
bebê. O filme, dirigido pelo dinamarquês Anders Morgenthaler, é muito fraco e mal
resolvido, sem contar a forçada de barra em escalar a sessentona atriz como mãe potencial. Só para os fãs incondicionais de Basinger.
Na
minha longa peregrinação pela Sétima Arte, já vi incontáveis filmes esquisitos,
aqueles sem pé nem cabeça, indecifráveis, que os críticos profissionais e
festivais adoram exaltar e premiar. Para o grande público, que busca apenas um
entretenimento, tais filmes podem se transformar num grande fardo. Mais um
exemplo é o sueco “UM POMBO POUSOU
NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA” (“En Duva Satt pa en Gren Funderade pa Tillvaron”). Pelo título, já dá para ter ideia de que tipo de filme estamos prestes
a assistir. E, de fato, é muito esquisito. São 39 pequenos episódios (esquetes)
tragicômicos, alguns deles utilizando o mesmo cenário e, às vezes, os mesmos
personagens. A câmera é fixa, estática, e as cenas são mostradas como se fossem
um quadro, onde somente os personagens se movem. Aliás, muito lentamente. Pelos
menos há um pouco de bom humor para amenizar o non sense predominante. Só pra você ter uma ideia: num bar da
Gotemburgo atual, de repente entra o Rei Charles XII (que reinou na Suécia na
segunda metade do Século 17) e seu séquito para tomar um copo de água, enquanto
soldados da época marcham pela rua. O filme, premiado com o “Leão de Ouro” no
Festival de Veneza 2014, é o terceiro da chamada “Trilogia dos Vivos”, da qual
fazem parte “Canções do Segundo Andar” (2000) e “Tu, que Vives” (2007), todos
escritos e dirigidos pelo diretor sueco Roy Andersson. Uma mente privilegiada
ou mais um cineasta louco? Só assistindo para responder. Eu vi e respondo: é
mais um cineasta louco, mas muito criativo.
O
drama “FAIR PLAY”, 2014,
baseado em fatos reais, foi o representante oficial da República Tcheca no
Oscar/2015 de “Melhor Filme Estrangeiro”. Dirigido por Andrea Sedlácková e
ambientado no início dos anos 80, conta a história da corredora Anna (Judit
Bárdos), uma das maiores promessas do atletismo da então Tchecoslováquia. Ela era
uma das esperanças de medalha do país nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984,
mas que afinal seriam boicotados pela mãe Rússia e seus “filhos” da Cortina de Ferro.
O filme destaca o duro e torturante treinamento de Anna sob o comando do
treinador Bohdan (Roman Luknár). Para melhorar seus resultados, Anna foi
obrigada a utilizar o esteroide anabolizante Stromba, mesmo contra sua vontade.
Sua mãe Irena (Anna Geislerová), chegou a aplicar-lhe injeções de Stromba
dizendo que eram vitaminas. O governo exigia que Anna fosse melhor do que as
russas e alemãs. “Se eles usam anabolizantes, também vamos usá-los”, diz um
agente do governo. Embora o enfoque de toda a história seja o esporte, a
utilização de anabolizantes e o treinamento quase desumano ao qual Anna era obrigada
a se submeter, o aspecto predominante no filme é o político. O enredo escancara
como era viver sob um regime opressor e de vigilância permanente aos cidadãos. Uma
das cenas mais impactantes mostra como eram feitas as chamadas “Buscas
Domiciliares”, quando agentes do governo invadiam as casas de suspeitos durante
a madrugada, vasculhando tudo em busca de indícios de subversão. Trata-se de um
filme bastante revelador, um verdadeiro soco no estomago em quem ainda defende os regimes comunistas. O filme é ótimo, valorizado ainda mais pelo excelente desempenho das atrizes
Judit Bárdos e Anna Geislerová.
“ALOFT”, EUA,
2014, é o primeiro filme em língua inglesa dirigido pela peruana Claudia Llosa
(“A Teta Assustada”). O filme, cujo roteiro foi escrito por Llosa, tem um pano
de fundo místico. O filme inteiro é ambientado nos cenários gélidos de Minnesota
e da província de Manitoba, no Canadá. Mãe solteira de dois meninos, Nana
Kunning (Jennifer Connelly) descobre sem querer que possui o poder de curar
pessoas. Em meio ao dilema de seguir ou não esse dom, Nana é atingida por uma
tragédia envolvendo seus dois filhos. Ela some do mapa, abandonando Ivan, o
filho mais velho, mais tarde interpretado pelo ótimo ator Cilian Murphy. Vinte
e cinco anos depois, graças à interferência da jornalista Jannia (a atriz
francesa Mélanie Laurent), mãe e filho se reencontram. O filme não foi bem
recebido pela crítica após sua exibição de estreia no Festival de Berlim/2014. A
diretora exagerou na dose e fez um filme esquisito, complicado, um tanto difícil de digerir. Mas
os atores são ótimos, principalmente a bela Jennifer Connelly, uma das poucas atrizes
a ficar mais bonita sem maquiagem. Aliás, merece destaque - e elogios - a maquiagem feita em
Jennifer para torná-la 25 anos mais velha. Enfim, um filme apenas interessante,
sem muitos motivos para uma indicação entusiasmada.
“MORTE LIMPA” (“Good Kill”), 2014, conta o dilema do Major Tom Egan (Ethan Hawke), um veterano ex-piloto
de combate que agora trabalha no comando de drones utilizados para exterminar
terroristas, “via satélite”, em várias regiões do mundo, como Afeganistão e Iemen.
Egan gosta mesmo de voar e está insatisfeito com a nova função, principalmente
com as missões diárias de eliminar pessoas. Ele está sediado numa base da Força
Aérea no deserto de Nevada e mora em Las Vegas com a família. Cada vez mais incomodado
e estressado por causa dessa rotina de mortes, Egan passa a beber e contestar
algumas ordens, o que prejudica uma possível promoção e seu retorno aos aviões
de verdade. A situação acaba provocando uma séria crise no casamento com Molly
(January Jones). O diretor Andrew Niccol (“Gattaca”, “A Hospedeira” e “O Senhor
das Armas”), que também escreveu o roteiro, baseou a história em depoimentos de
pilotos de drones. Ao mostrar os bastidores desse trabalho, Niccol realizou um
filme bastante interessante. Ao final de sua exibição no Festival de Veneza
2014, no qual concorreu ao “Leão de Ouro”, o filme foi – injustamente, na minha
opinião - vaiado pelos jornalistas. Eu
gostei.
Menos
canastrão e longe daqueles personagens valentões dos filmes de ação que o
levaram ao estrelato, Nicolas Cage até que se sai bem no drama político “FATOR
DE RISCO” (“The Runner”), 2014, escrito e dirigido por Austin Stark.
Cage é o deputado Colin Price, do Estado de Louisiana, cuja carreira está em franca
ascensão graças a um discurso emotivo depois do vazamento de petróleo de uma
plataforma da Britishi Petroleum. Além disso, o político assume a defesa dos
pescadores da região afetada pelo acidente, inclusive angariando fundos para
mantê-los. Tudo indicava que Colin partiria com tudo para se eleger senador,
porém um escândalo provocado por um caso extraconjugal põe fim à pretensão. Ele
renuncia ao posto de deputado, o que provoca o pedido de divórcio da ambiciosa
esposa Deborah (a bela Connie Nielsen). Na tentativa de se reerguer, psicológica
e politicamente, Colin contará com a ajuda da sua ex-assessora Kate Haber
(Sarah Paulson, uma mistura malsucedida de Nicole Kidman com Maitê Proença) e
do pai, o ex-político Rayne Price (Peter Fonda, irmão de Jane), um alcoólatra
convicto. O diretor estreante Austin Stark fez um bom trabalho, conduzindo o
filme num clima tenso até o seu final. Dos filmes recentes com Nicolas Cage,
este é, disparado, o melhor, o que não significa que seja lá muito bom.
“AS CHAVES DE CASA” (“Le Chiavi di Casa”) é um sensível e comovente drama italiano
de 2004, dirigido por Gianni Amelio. A história: Paolo (Andrea Rossi) nasceu durante
um parto bastante complicado, que o deixou com sequelas permanentes (deficiências
físicas e psicológicas) e provocou a morte da mãe. Gianni (Kim Rossi Stuart), o
pai, nunca quis ver o filho, que acabou sendo criado pelos tios. Quinze anos
depois, Gianni concorda em finalmente conhecer Paolo, assumindo a missão de levá-lo
de Milão até um hospital de Berlim para exames médicos e fisioterapia. É nessa
viagem - e principalmente na relação entre pai e filho - que se baseia todo o
enredo. No hospital da capital alemã, Gianni conhece Nicole (Charlotte
Rampling), que é uma dedicada mãe de uma menina também deficiente. Os diálogos
entre os dois revelam os sentimentos de quem assume a obrigação de cuidar de
filhos com esses tipos de problema. Numa de suas conversas, Nicole confessa que
estranhou ver um pai acompanhando um filho nessa situação. Ela diz: “Normalmente,
esse trabalho ‘sujo’ fica sempre com a mãe”. Em outro diálogo, Nicole mostra-se
fragilizada e revela que já se perguntou diversas vezes: “Por que ela não
morre?”. A história é baseada no livro “Nati Due Volte” (“Nascer Duas Vezes”), no
qual o escritor Giuseppe Pontiggia (1934-2003) descreve sua relação com o filho
deficiente. O filme foi indicado para representar a Itália no Oscar 2005 na
Categoria “Melhor Filme Estrangeiro”. Além disso, recebeu várias premiações em
importantes festivais de cinema. Difícil não se emocionar, principalmente com a interpretação do garoto Andrea Rossi.
“CLEAN” é uma produção francesa de 2004
dirigida por Olivier Assayas, que também escreveu o roteiro. A história é
centrada no drama de Emily Wang (Maggie Cheung), integrante da banda de rock do namorado, Lee
Hauser (James Johnston). O grupo fez sucesso numa época, mas agora está em
franca decadência. Emily e Lee são viciados em heroína. Um dia, Lee tem uma
overdose e morre. Maggie é acusada de ter comprado e fornecido a droga e acaba
presa por seis meses. Quando sai da cadeia, ela pretende mudar de vida, arrumar
um emprego e se livrar das drogas, principalmente porque quer ter o filho, Jay,
de volta. O garoto, desde que nasceu, é criado pelos avós em Vancouver
(Canadá). Para recuperar a guarda do filho, Emily tenta se aproximar do Albrecht
Hauser (Nick Nolte), avô de Jay. Ao mesmo tempo, ela persegue o sonho de voltar
ao mundo artístico como cantora e compositora. Enfim, dar a volta por cima. O
filme é muito bom, mas o melhor mesmo é a espetacular interpretação da atriz
chinesa Maggie Cheung, que pelo papel de Emily ganhou o prêmio de Melhor Atriz
no Festival de Cannes/2004, onde o filme teve sua estreia. Aproveito para
recomendar outros dois ótimos filmes do diretor francês Olivier Assayas, “Depois
de Maio” - uma pequena obra-prima - e “Acima das Nuvens”.
“LUGARES ESCUROS” (“DARK PLACES”), 2014, França
(mas falado em inglês), é um drama pra lá de pesado, tenso ao extremo, sombrio e
angustiante. Assassinatos de crianças, satanismo, personagens com mentes
doentias etc. Enfim, um filme bastante desagradável. A história é baseada no
livro “Dark Places”, de Jillian Flynn, a mesma autora de “Garota Exemplar”.
Libby Day (Charlize Theron) vive há anos com o trauma do assassinato de sua mãe
e de suas irmãs. Ben, o irmão mais velho, é acusado e preso. Muitos anos
depois, quando se envolve com uma sociedade secreta especializada em investigar
crimes não resolvidos, Libby é influenciada a pensar que o seu irmão talvez não
seja o assassino e passa a rever toda a história. A partir daí, o filme entra
naquela fase de reviravoltas e a verdade finalmente vem à tona. O roteiro e a
direção do diretor francês Gilles Paquet-Brenner não economizam no suspense e
no clima tétrico. Além de Charlize, estão no elenco Chloë Grace Moretz, Tye
Sheridan, Christina Hendricks, Nicholas Hoult e Corey Stoll, só para citar os
mais conhecidos. A personagem de Charlize é masculinizada demais, cabelos bem curtos
e sempre de calça jeans, camiseta e boné, muito longe do charme de outros
papeis.
“A ESPIÃ QUE SABIA DE MENOS” (“Spy”), 2014, é
uma comédia que traz, desta vez como protagonista principal, a gorducha Melissa
McCarthy, a comediante do momento depois de fazer o maior sucesso em “Missão
Madrinha de Casamento”. Ela é Susan Cooper, uma competente analista de base da
CIA, encarregada de monitorar, via satélite, a ação dos agentes em lugares
remotos. Um desses agentes é Bradley Fine (Jude Law), por quem Susan é apaixonada.
Ele, porém, morre numa missão na Europa, tentando desvendar quem está por trás
da venda de uma ogiva nuclear. Como é desconhecida no mundo dos espiões, Susan é
enviada para se infiltrar na organização criminosa chefiada pela poderosa Raina
Boyanov (Rose Byrne), justamente a assassina de Bradley. Na missão, ela receberá
a ajuda do atrapalhado agente Rick Ford (Jason Statham). A trama se desenrola
em cenários como Roma, Paris e Budapest, o que dá um charme todo especial ao
filme, cujo roteiro e direção ficaram a cargo de Paul Feig, (que dirigiu
Melissa também em “Missão Madrinha de Casamento” e “As Bem-Armadas”). A
abertura do filme é ótima, uma paródia dos filmes de James Bond, com uma cena repleta
de ação, perseguição e tiros. A apresentação dos créditos também segue o estilo
dos filmes do famoso espião inglês, incluindo a trilha sonora. O filme é uma
grande bobagem, mas diverte muito e deve ser encarado como um ótimo entretenimento.
“LONGE DESTE INSENSATO MUNDO” (“Far from the Madding
Crowd”), 2014, é um drama romântico
inglês adocicado. Embora ambientado em 1840 no interior da Inglaterra, o filme
não adota aquele linguajar empolado e pomposo da época. É leve e agradável de
assistir, além de valorizado por um quarteto de ótimos atores. Os românticos de
carteirinha vão adorar. A jovem Bathsheba Everdene (Carey Mulligan) é a
herdeira de uma grande fazenda. Bonita e simpática, ela é cortejada por três
homens: o soldado Troy (Tom Sturridge), o pastor de ovelhas Gabriel Oak (o ator
belga Matthias Schoenaerts) e o rico fazendeiro William Boldwood (Michael
Sheen). A história é centrada no dilema de Bathsheba em decidir por um deles. O
enredo é baseado no livro “Far from the Madding Crowd”, escrito por Thomas
Hardy e publicado em 1874. A direção ficou por conta do dinamarquês Thomas
Vinterberg (“A Caça”, “Festa de Família”), um dos cineastas participantes do malfadado e lamentável movimento Dogma 95.
“O FRANCO-ATIRADOR” (“THE GUNMAN”), 2014, co-produção
França/Espanha, proporciona um bom programa para quem curte filmes de ação e suspense.
A história (baseada no livro “The Prone Gunman”, de Jean-Patrick Manchette): na
época em que era um eficiente matador de aluguel, Jim Terrier (Sean Penn), assassinou
uma alta autoridade do Congo. O crime ocorreu a mando de um inescrupuloso
empresário interessado na exploração de minérios e ouro no país africano. Anos
depois, os envolvidos no atentado começam a ser executados, numa evidente ação
do tipo “queima de arquivos”. Quando chega a vez de Jim, porém, a tarefa não
será nada fácil. Ele lutará para não ser morto e, ao mesmo tempo, tentará
descobrir quem entregou o seu grupo. A médica Annie (a atriz italiana Jasmine
Trinca), ex-namorada de Jim, também correrá perigo depois de se envolver com
Felix (Javier Bardem), um dos membros do grupo responsável pelo atentado anos
antes. Do Congo, o cenário muda para Londres e Barcelona. Mesmo aos 55 anos,
Sean Penn mostra uma invejável forma física, explorada em demasia durante o
filme. Em quase todas as cenas lá está ele sem camisa, esbanjando músculos e a
barriga “tanquinho”. Apesar de tudo, Senn é ótimo ator (ganhou dois Oscars, por
“Sobre Meninos e Lobos” e “Milk – A Voz da Igualdade”), mas talvez muito feio
para fazer papel de mocinho e ainda ser par romântico com a bela Jasmine
Trinca. Um contraste e tanto. O filme tem muita ação, o que é a especialidade
do diretor francês Pierre Morel (de “Busca Implacável”). Ótimo programa para
acompanhar um potão de pipoca.
Como
espectador comum, discordo da grande maioria dos críticos profissionais que elogiaram
o drama “MANGLEHORN” e
o trabalho do ator Al Pacino. O filme é um abacaxi dos mais azedos, sonífero
puro. E Pacino interpreta um dos personagens mais chatos do cinema nos últimos
anos, Angelo Manglehorn, um chaveiro que, em sua vida particular, é um homem recluso,
antissocial, amargurado, rancoroso e em estado crônico de mau-humor. Resumindo:
antipático ao extremo. Ele vive se lamentando com as lembranças de uma antiga
paixão, Clara, que ninguém explica quem foi ou que fim levou. Nem uma mulher
ainda bonita como Dawn (Holly Hunter), consegue despertar o interesse de Angelo.
Ela dá todas as dicas de que está a fim de uma cama a dois, mas ele prefere
falar da gata Fannie e de Clara, seu antigo amor. Angelo não se dá nem com seu
próprio filho Gary (Chris Messina). Como em seus últimos papeis, Al Pacino (vide
“O Último Ato” – “Humbling”, no original) exagera na interpretação, beirando o histriônico. E quem sofre com tudo isso é o espectador. O filme, dirigido por David Gordon Green, concorreu ao Leão de Ouro no Festival
de Veneza 2014 e, merecidamente, não ganhou. Como disse, e repito, o filme é
muito chato. O grande Al Pacino, desta vez, ficou pequeno.
Em
1978 e 1979, os assassinatos de jovens mulheres praticados na região de Oise
chocaram a França. Mais ainda depois da revelação de que o
assassino era o próprio policial encarregado de investigar as mortes. Essa
história real foi transformada em 2013 no ótimo suspense “NA
PRÓXIMA, ACERTO NO CORAÇÃO” (“La
Prochaine fois je Viserai le Coeur”) por
Cédric Anger, responsável pelo roteiro e direção. Na vida real, o nome do
assassino era Alain Lamare. No filme, foi modificado para Franck Neuhart
(Guillaume Canet). O título do filme foi inspirado numa frase dita pelo
psicopata para uma de suas vítimas. O roteiro de Cédric destaca o lado obscuro
da mente do policial, na verdade um desequilibrado mental, psicótico e
totalmente perturbado. Ele praticava seus crimes nos dias de folga. No
trabalho, mostrava-se um policial eficiente e também discreto, acima de
qualquer suspeita. O clima de suspense predomina desde o primeiro minuto, reforçado
por uma fotografia sombria e uma trilha sonora que aumenta a tensão nas cenas
de maior impacto, como fazia Hitchcock. O ator Guilhaume Canet tem uma atuação
impressionante, personificando com perfeição o policial psicopata. O filme é
muito bom. Mais um gol de placa do cinema francês. Imperdível!
“ENTRE MUNDOS” (“ZWISCHEN WELTEN”), Alemanha, 2014, roteiro e direção da
austríaca Feo Aladag. Uma unidade do exército alemão, sob o comando de Jasper
(Ronald Zehrfeld), é enviada ao Afeganistão para proteger um vilarejo dos ataques
dos Talibãs. O jovem Tarik (Mohsin Ahmady) é contratado como intérprete dos
alemães, o que vai lhe causar enormes problemas com o pessoal da sua comunidade,
que o acusará de traição. O filme prioriza o choque de culturas, os alemães
tentando impor seus métodos e os afegãos fazendo questão de manter suas
tradições, não aceitando qualquer outro tipo de imposição, ainda mais dos
ocidentais. Esse conflito ideológico proporciona diálogos interessantes e
esclarecedores sobre o pensamento e o modo de vida dos afegãos. Num desses diálogos, um afegão, a
respeito das sucessivas invasões que o país sofreu nos últimos anos (séculos,
na verdade), relembra um velho ditado local: “Vocês têm o relógio, nós temos o
tempo”. Em determinado momento da história, Jasper é obrigado a tomar uma difícil
decisão: abandonar o comando do seu grupo ou salvar a vida da irmã de Tarik. Ao contrário de outras produções que exploram o tema da guerra, nesta não há profusão de tiros ou explosões. O
filme ganhou o prêmio de “Melhor Filme de Ficção” da 38ª Mostra Internacional
de Cinema de São Paulo/2014. Realmente, um belo filme que merece ser visto por
quem aprecia cinema de qualidade.
Quem
curte cinema já deve ter ouvido falar em François Ozon ou assistido a alguns de
seus filmes. Os filmes do diretor francês acabam gerando sempre alguma
polêmica, caso de “Swimming Pool - À Beira da Piscina”, “O Refúgio”, “Jovem e
Bela” e “Dentro da Casa”, este último uma pequena obra-prima do gênero suspense.
Seu filme mais recente é “UMA NOVA AMIGA” (Une Nouvelle Amie”), que também polemiza ao tratar de um homem
casado, pai de família, que adora se vestir de mulher. No caso, é o viúvo David
(Romain Duris), que acaba de perder a esposa Laura (Isild Le Besco). Travestido,
ele se transforma em Virginia. Não sai de casa e vive para cuidar de Lucie, o
bebê que teve com Laura. Um dia, porém, ele é surpreendido pela melhor amiga de
Laura, Claire (Anaïs Demonstier). Como desculpa, ele alega que a criança sente
falta da mãe, o que ele procura compensar se vestindo com as roupas de Laura. Além
de guardar segredo sobre a nova personalidade do viúvo da sua amiga, Claire acaba
mudando seu próprio comportamento, o que implicará numa crise em seu casamento
com Gilles (Raphaël Personnaz). A história, inspirada livremente num conto da
escritora Ruth Rendell, é muito interessante e ganha ainda mais força e impacto nas mãos de Ozon. O filme é valorizado ainda mais pelos ótimos desempenhos de
Duris e, especialmente, de Demonstier, uma jovem atriz de enorme talento.
“O PEQUENO QUINQUIN” (“P’tit Quinquin”), 2014, foi produzido, originalmente, como
uma minissérie para a TV francesa, em quatro episódios. Agora chega ao cinema,
com 3h20 de duração. É um filme interessante, a começar do elenco, constituído integralmente
por atores amadores, alguns deles com defeitos físicos bem evidentes, como o
rosto disforme do próprio Quinquin (Alane Delhaye). A história é toda
ambientada num vilarejo litorâneo, provavelmente na Normandia, e gira em torno
de três macabros assassinatos. Pedaços de corpos humanos são encontrados no
interior de vacas mortas, uma delas resgatada num bunker remanescente da Segunda Grande
Guerra. Em paralelo às investigações realizadas pelo capitão Van der Weyden
(Bernard Pruvost) e seu assistente abobado Carpentier (Philippe Jore), o jovem Quinquin
e sua turma passam os dias aprontando as maiores traquinagens. Todos os atores
são amadores. Bernard Pruvost, por exemplo, que interpreta o capitão Van der
Weyden, é jardineiro na vida real. O diretor francês Bruno Dumont (“O Pecado de
Hadewijch”, “Camille Claudel”) não economizou no politicamente incorreto. Além
de Quinquin, a maioria dos atores tem um defeito físico, como o próprio capitão
Van der Weyden, manco e cheio de cacoetes. O politicamente incorreto também
está na atitude racista com relação a um negro filho de imigrantes africanos, xingado
e humilhado em várias cenas. Não é um filme comum e, com certeza, não seria exibido
em nossos canais abertos. Apesar da história trágica, tem muito humor e
momentos até hilariantes, como a cena da missa em homenagem a um dos mortos.
Trata-se, na verdade, de mais uma excentricidade do diretor Bruno Dumont. Talvez
sirva como aval o fato do filme ter sido eleito pelos críticos da Revista
Cahiers Du Cinéma como o Melhor de 2014.
Misto
de drama romântico e thriller de suspense, “OCTOBER GALE” (ainda sem tradução por aqui;
literalmente, “Ventania de Outubro”), Canadá, traz no elenco três bons
atores - Patricia Clarkson, Scott Speedman e Tim Roth. O filme, lançado no Festival de Cinema de Toronto/2014, foi escrito e
dirigido por Ruba Nadda, cujo filme mais conhecido é o mediano “Cairo Time”, também com Clarkson. Vamos
à história. A médica Helen Mathews (Clarkson), ainda deprimida depois da
recente morte do marido, com quem teve um casamento bastante sólido, vai para a
casa de campo onde costumava ir com o falecido. A casa fica isolada numa ilha,
provavelmente na região dos Grandes Lagos. Em meio às inúmeras recordações dos
momentos românticos, acontece uma tempestade e um misterioso homem ferido à
bala aparece na casa. Ele é Will (Scott Speedman). Helen cuida dele e depois quer
saber o que aconteceu. Mas ele não quer falar sobre o assunto, o que deixa no
ar a dúvida se ele é o mocinho ou o bandido. Aí aparece na ilha outro homem
misterioso, Tom (Tim Roth), querendo acertas as contas com Will. Se a história
já é fraca e o filme entediante, o desfecho então é lamentável. Patricia Clarkson
é ótima atriz e até já foi indicada ao Oscar como melhor Atriz Coadjuvante por “Pieces
of April”, mas desta vez pisou na bola. Admira que Tim Roth, outro grande ator
mal aproveitado por Hollywood, também tenha entrado nessa barca furada. Se não
fosse minha obrigação comentar, poderia definir o filme como “Sem Comentários”.
Depois de
participar de tantas produções medíocres como “É o Fim”, “Palo Alto” e “A
Entrevista” - este último foi aquele que gerou aquela polêmica toda com o
governo norte-coreano -, o ator James Franco volta a atuar num nível mais
elevado. No drama “A HISTÓRIA VERDADEIRA” (True Story”), 2015, direção
do inglês Rupert Goold, baseado em fatos
reais, Franco é Christian Longo, norte-americano acusado de ter assassinado a
mulher e os três filhos menores. Depois do crime, Longo se refugiu no México,
onde dizia para todo mundo que era o jornalista Mike Finkel (Jonah Hill), do
New York Times, chegando até a trabalhar na profissão. Em 2002, o FBI acaba
descobrindo o seu paradeiro e ele é preso. Por seu lado, Finkel, depois de ser
demitido do NYT por causa de forjar informações numa reportagem investigativa, fica
sabendo que Longo usava sua identidade e ficou curioso em saber por que. Ele
vai visitar Longo na prisão e os dois acabam se entendendo, surgindo até a
oportunidade de Finkel escrever um livro contando toda a verdade sobre o crime.
Até então, Longo dizia que era inocente. Estaria ele manipulando o jornalista?
A ótima atuação de Franco tem jeito de mais uma indicação ao Oscar 2016, como já havia
acontecido pelo drama “127 Horas”, em 2011. Jonah Hill também está muito bem, assim
como a atriz Felicity Jones (de “Teoria de Tudo”), que interpreta Jill, a esposa do jornalista. O filme é muito bom e merece
ser visto não apenas pela história em si, pouco conhecida por aqui, mas também pela correta direção de Goold e pelo ótimo desempenho dos atores. olHolan
“EM TERRA ESTRANHA” (Strangerland”), 2014, Austrália, é um drama de suspense, que
marca a estreia de Kim Farrant na direção de longas. A história é centrada na
família formada pelo casal Matt (Joseph Fiennes) e Catherine (Nicole Kidman) e
os filhos adolescentes Lily (Maddison Brown) e Tommy (Nicholas Hamilton). Eles
são recém-chegados à pequena cidade de Nathgari, no meio do deserto
australiano. A família vive quase que reclusa, sem muitos amigos e nenhuma vida
social. O enredo dá a entender que eles se mudaram por causa de um caso amoroso
que Lily teve com um professor na cidade grande. Lily, aliás, é a única a se
entrosar com o pessoal jovem da nova cidade, o que inclui transar com a maioria. Um dia, porém, depois de uma forte
tempestade de areia, Lily e Tommy fogem de casa e desaparecem no deserto. A
partir daí – e até o seu final -, o filme se concentra nas buscas dos jovens e
nos conflitos entre o casal Matt e Catherine, cada um acusando o outro de ser o
responsável pela fuga dos filhos. O filme é lento demais, chegando a ser
entediante, sensação reforçada pelo clima árido do deserto e pela fotografia
amarelada, quase esmaecida. Nicole Kidman não precisa provar mais que é linda e
ótima atriz, mas tem pisado feio na bola em suas últimas escolhas.