sábado, 12 de setembro de 2015

O drama “FAIR PLAY”, 2014, baseado em fatos reais, foi o representante oficial da República Tcheca no Oscar/2015 de “Melhor Filme Estrangeiro”. Dirigido por Andrea Sedlácková e ambientado no início dos anos 80, conta a história da corredora Anna (Judit Bárdos), uma das maiores promessas do atletismo da então Tchecoslováquia. Ela era uma das esperanças de medalha do país nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, mas que afinal seriam boicotados pela mãe Rússia e seus “filhos” da Cortina de Ferro. O filme destaca o duro e torturante treinamento de Anna sob o comando do treinador Bohdan (Roman Luknár). Para melhorar seus resultados, Anna foi obrigada a utilizar o esteroide anabolizante Stromba, mesmo contra sua vontade. Sua mãe Irena (Anna Geislerová), chegou a aplicar-lhe injeções de Stromba dizendo que eram vitaminas. O governo exigia que Anna fosse melhor do que as russas e alemãs. “Se eles usam anabolizantes, também vamos usá-los”, diz um agente do governo. Embora o enfoque de toda a história seja o esporte, a utilização de anabolizantes e o treinamento quase desumano ao qual Anna era obrigada a se submeter, o aspecto predominante no filme é o político. O enredo escancara como era viver sob um regime opressor e de vigilância permanente aos cidadãos. Uma das cenas mais impactantes mostra como eram feitas as chamadas “Buscas Domiciliares”, quando agentes do governo invadiam as casas de suspeitos durante a madrugada, vasculhando tudo em busca de indícios de subversão. Trata-se de um filme bastante revelador, um verdadeiro soco no estomago em quem ainda defende os regimes comunistas. O filme é ótimo, valorizado ainda mais pelo excelente desempenho das atrizes Judit Bárdos e Anna Geislerová. 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

“ALOFT”, EUA, 2014, é o primeiro filme em língua inglesa dirigido pela peruana Claudia Llosa (“A Teta Assustada”). O filme, cujo roteiro foi escrito por Llosa, tem um pano de fundo místico. O filme inteiro é ambientado nos cenários gélidos de Minnesota e da província de Manitoba, no Canadá. Mãe solteira de dois meninos, Nana Kunning (Jennifer Connelly) descobre sem querer que possui o poder de curar pessoas. Em meio ao dilema de seguir ou não esse dom, Nana é atingida por uma tragédia envolvendo seus dois filhos. Ela some do mapa, abandonando Ivan, o filho mais velho, mais tarde interpretado pelo ótimo ator Cilian Murphy. Vinte e cinco anos depois, graças à interferência da jornalista Jannia (a atriz francesa Mélanie Laurent), mãe e filho se reencontram. O filme não foi bem recebido pela crítica após sua exibição de estreia no Festival de Berlim/2014. A diretora exagerou na dose e fez um filme esquisito, complicado, um tanto difícil de digerir. Mas os atores são ótimos, principalmente a bela Jennifer Connelly, uma das poucas atrizes a ficar mais bonita sem maquiagem. Aliás, merece destaque - e elogios - a maquiagem feita em Jennifer para torná-la 25 anos mais velha. Enfim, um filme apenas interessante, sem muitos motivos para uma indicação entusiasmada.                   

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

“MORTE LIMPA” (“Good Kill”), 2014, conta o dilema do Major Tom Egan (Ethan Hawke), um veterano ex-piloto de combate que agora trabalha no comando de drones utilizados para exterminar terroristas, “via satélite”, em várias regiões do mundo, como Afeganistão e Iemen. Egan gosta mesmo de voar e está insatisfeito com a nova função, principalmente com as missões diárias de eliminar pessoas. Ele está sediado numa base da Força Aérea no deserto de Nevada e mora em Las Vegas com a família. Cada vez mais incomodado e estressado por causa dessa rotina de mortes, Egan passa a beber e contestar algumas ordens, o que prejudica uma possível promoção e seu retorno aos aviões de verdade. A situação acaba provocando uma séria crise no casamento com Molly (January Jones). O diretor Andrew Niccol (“Gattaca”, “A Hospedeira” e “O Senhor das Armas”), que também escreveu o roteiro, baseou a história em depoimentos de pilotos de drones. Ao mostrar os bastidores desse trabalho, Niccol realizou um filme bastante interessante. Ao final de sua exibição no Festival de Veneza 2014, no qual concorreu ao “Leão de Ouro”, o filme foi – injustamente, na minha opinião -  vaiado pelos jornalistas. Eu gostei.   
Menos canastrão e longe daqueles personagens valentões dos filmes de ação que o levaram ao estrelato, Nicolas Cage até que se sai bem no drama político “FATOR DE RISCO” (“The Runner”), 2014, escrito e dirigido por Austin Stark. Cage é o deputado Colin Price, do Estado de Louisiana, cuja carreira está em franca ascensão graças a um discurso emotivo depois do vazamento de petróleo de uma plataforma da Britishi Petroleum. Além disso, o político assume a defesa dos pescadores da região afetada pelo acidente, inclusive angariando fundos para mantê-los. Tudo indicava que Colin partiria com tudo para se eleger senador, porém um escândalo provocado por um caso extraconjugal põe fim à pretensão. Ele renuncia ao posto de deputado, o que provoca o pedido de divórcio da ambiciosa esposa Deborah (a bela Connie Nielsen). Na tentativa de se reerguer, psicológica e politicamente, Colin contará com a ajuda da sua ex-assessora Kate Haber (Sarah Paulson, uma mistura malsucedida de Nicole Kidman com Maitê Proença) e do pai, o ex-político Rayne Price (Peter Fonda, irmão de Jane), um alcoólatra convicto. O diretor estreante Austin Stark fez um bom trabalho, conduzindo o filme num clima tenso até o seu final. Dos filmes recentes com Nicolas Cage, este é, disparado, o melhor, o que não significa que seja lá muito bom. 

sábado, 5 de setembro de 2015

“AS CHAVES DE CASA” (“Le Chiavi di Casa”) é um sensível e comovente drama italiano de 2004, dirigido por Gianni Amelio. A história: Paolo (Andrea Rossi) nasceu durante um parto bastante complicado, que o deixou com sequelas permanentes (deficiências físicas e psicológicas) e provocou a morte da mãe. Gianni (Kim Rossi Stuart), o pai, nunca quis ver o filho, que acabou sendo criado pelos tios. Quinze anos depois, Gianni concorda em finalmente conhecer Paolo, assumindo a missão de levá-lo de Milão até um hospital de Berlim para exames médicos e fisioterapia. É nessa viagem - e principalmente na relação entre pai e filho - que se baseia todo o enredo. No hospital da capital alemã, Gianni conhece Nicole (Charlotte Rampling), que é uma dedicada mãe de uma menina também deficiente. Os diálogos entre os dois revelam os sentimentos de quem assume a obrigação de cuidar de filhos com esses tipos de problema. Numa de suas conversas, Nicole confessa que estranhou ver um pai acompanhando um filho nessa situação. Ela diz: “Normalmente, esse trabalho ‘sujo’ fica sempre com a mãe”. Em outro diálogo, Nicole mostra-se fragilizada e revela que já se perguntou diversas vezes: “Por que ela não morre?”. A história é baseada no livro “Nati Due Volte” (“Nascer Duas Vezes”), no qual o escritor Giuseppe Pontiggia (1934-2003) descreve sua relação com o filho deficiente. O filme foi indicado para representar a Itália no Oscar 2005 na Categoria “Melhor Filme Estrangeiro”. Além disso, recebeu várias premiações em importantes festivais de cinema. Difícil não se emocionar, principalmente com a interpretação do garoto Andrea Rossi.           

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

“CLEAN” é uma produção francesa de 2004 dirigida por Olivier Assayas, que também escreveu o roteiro. A história é centrada no drama de Emily Wang (Maggie Cheung),  integrante da banda de rock do namorado, Lee Hauser (James Johnston). O grupo fez sucesso numa época, mas agora está em franca decadência. Emily e Lee são viciados em heroína. Um dia, Lee tem uma overdose e morre. Maggie é acusada de ter comprado e fornecido a droga e acaba presa por seis meses. Quando sai da cadeia, ela pretende mudar de vida, arrumar um emprego e se livrar das drogas, principalmente porque quer ter o filho, Jay, de volta. O garoto, desde que nasceu, é criado pelos avós em Vancouver (Canadá). Para recuperar a guarda do filho, Emily tenta se aproximar do Albrecht Hauser (Nick Nolte), avô de Jay. Ao mesmo tempo, ela persegue o sonho de voltar ao mundo artístico como cantora e compositora. Enfim, dar a volta por cima. O filme é muito bom, mas o melhor mesmo é a espetacular interpretação da atriz chinesa Maggie Cheung, que pelo papel de Emily ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes/2004, onde o filme teve sua estreia. Aproveito para recomendar outros dois ótimos filmes do diretor francês Olivier Assayas, “Depois de Maio” - uma pequena obra-prima - e “Acima das Nuvens”.                         

 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

“LUGARES ESCUROS” (“DARK PLACES”), 2014, França (mas falado em inglês), é um drama pra lá de pesado, tenso ao extremo, sombrio e angustiante. Assassinatos de crianças, satanismo, personagens com mentes doentias etc. Enfim, um filme bastante desagradável. A história é baseada no livro “Dark Places”, de Jillian Flynn, a mesma autora de “Garota Exemplar”. Libby Day (Charlize Theron) vive há anos com o trauma do assassinato de sua mãe e de suas irmãs. Ben, o irmão mais velho, é acusado e preso. Muitos anos depois, quando se envolve com uma sociedade secreta especializada em investigar crimes não resolvidos, Libby é influenciada a pensar que o seu irmão talvez não seja o assassino e passa a rever toda a história. A partir daí, o filme entra naquela fase de reviravoltas e a verdade finalmente vem à tona. O roteiro e a direção do diretor francês Gilles Paquet-Brenner não economizam no suspense e no clima tétrico. Além de Charlize, estão no elenco Chloë Grace Moretz, Tye Sheridan, Christina Hendricks, Nicholas Hoult e Corey Stoll, só para citar os mais conhecidos. A personagem de Charlize é masculinizada demais, cabelos bem curtos e sempre de calça jeans, camiseta e boné, muito longe do charme de outros papeis.                      

 
“A ESPIÃ QUE SABIA DE MENOS” (“Spy”), 2014, é uma comédia que traz, desta vez como protagonista principal, a gorducha Melissa McCarthy, a comediante do momento depois de fazer o maior sucesso em “Missão Madrinha de Casamento”. Ela é Susan Cooper, uma competente analista de base da CIA, encarregada de monitorar, via satélite, a ação dos agentes em lugares remotos. Um desses agentes é Bradley Fine (Jude Law), por quem Susan é apaixonada. Ele, porém, morre numa missão na Europa, tentando desvendar quem está por trás da venda de uma ogiva nuclear. Como é desconhecida no mundo dos espiões, Susan é enviada para se infiltrar na organização criminosa chefiada pela poderosa Raina Boyanov (Rose Byrne), justamente a assassina de Bradley. Na missão, ela receberá a ajuda do atrapalhado agente Rick Ford (Jason Statham). A trama se desenrola em cenários como Roma, Paris e Budapest, o que dá um charme todo especial ao filme, cujo roteiro e direção ficaram a cargo de Paul Feig, (que dirigiu Melissa também em “Missão Madrinha de Casamento” e “As Bem-Armadas”). A abertura do filme é ótima, uma paródia dos filmes de James Bond, com uma cena repleta de ação, perseguição e tiros. A apresentação dos créditos também segue o estilo dos filmes do famoso espião inglês, incluindo a trilha sonora. O filme é uma grande bobagem, mas diverte muito e deve ser encarado como um ótimo entretenimento.       

domingo, 30 de agosto de 2015

“LONGE DESTE INSENSATO MUNDO” (“Far from the Madding Crowd”), 2014, é um drama romântico inglês adocicado. Embora ambientado em 1840 no interior da Inglaterra, o filme não adota aquele linguajar empolado e pomposo da época. É leve e agradável de assistir, além de valorizado por um quarteto de ótimos atores. Os românticos de carteirinha vão adorar. A jovem Bathsheba Everdene (Carey Mulligan) é a herdeira de uma grande fazenda. Bonita e simpática, ela é cortejada por três homens: o soldado Troy (Tom Sturridge), o pastor de ovelhas Gabriel Oak (o ator belga Matthias Schoenaerts) e o rico fazendeiro William Boldwood (Michael Sheen). A história é centrada no dilema de Bathsheba em decidir por um deles. O enredo é baseado no livro “Far from the Madding Crowd”, escrito por Thomas Hardy e publicado em 1874. A direção ficou por conta do dinamarquês Thomas Vinterberg (“A Caça”, “Festa de Família”), um dos cineastas participantes do malfadado e lamentável movimento Dogma 95.  

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

“O FRANCO-ATIRADOR” (“THE GUNMAN”), 2014, co-produção França/Espanha, proporciona um bom programa para quem curte filmes de ação e suspense. A história (baseada no livro “The Prone Gunman”, de Jean-Patrick Manchette): na época em que era um eficiente matador de aluguel, Jim Terrier (Sean Penn), assassinou uma alta autoridade do Congo. O crime ocorreu a mando de um inescrupuloso empresário interessado na exploração de minérios e ouro no país africano. Anos depois, os envolvidos no atentado começam a ser executados, numa evidente ação do tipo “queima de arquivos”. Quando chega a vez de Jim, porém, a tarefa não será nada fácil. Ele lutará para não ser morto e, ao mesmo tempo, tentará descobrir quem entregou o seu grupo. A médica Annie (a atriz italiana Jasmine Trinca), ex-namorada de Jim, também correrá perigo depois de se envolver com Felix (Javier Bardem), um dos membros do grupo responsável pelo atentado anos antes. Do Congo, o cenário muda para Londres e Barcelona. Mesmo aos 55 anos, Sean Penn mostra uma invejável forma física, explorada em demasia durante o filme. Em quase todas as cenas lá está ele sem camisa, esbanjando músculos e a barriga “tanquinho”. Apesar de tudo, Senn é ótimo ator (ganhou dois Oscars, por “Sobre Meninos e Lobos” e “Milk – A Voz da Igualdade”), mas talvez muito feio para fazer papel de mocinho e ainda ser par romântico com a bela Jasmine Trinca. Um contraste e tanto. O filme tem muita ação, o que é a especialidade do diretor francês Pierre Morel (de “Busca Implacável”). Ótimo programa para acompanhar um potão de pipoca.   

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Como espectador comum, discordo da grande maioria dos críticos profissionais que elogiaram o drama “MANGLEHORN” e o trabalho do ator Al Pacino. O filme é um abacaxi dos mais azedos, sonífero puro. E Pacino interpreta um dos personagens mais chatos do cinema nos últimos anos, Angelo Manglehorn, um chaveiro que, em sua vida particular, é um homem recluso, antissocial, amargurado, rancoroso e em estado crônico de mau-humor. Resumindo: antipático ao extremo. Ele vive se lamentando com as lembranças de uma antiga paixão, Clara, que ninguém explica quem foi ou que fim levou. Nem uma mulher ainda bonita como Dawn (Holly Hunter), consegue despertar o interesse de Angelo. Ela dá todas as dicas de que está a fim de uma cama a dois, mas ele prefere falar da gata Fannie e de Clara, seu antigo amor. Angelo não se dá nem com seu próprio filho Gary (Chris Messina). Como em seus últimos papeis, Al Pacino (vide “O Último Ato” – “Humbling”, no original) exagera na interpretação, beirando o histriônico. E quem sofre com tudo isso é o espectador. O filme, dirigido por David Gordon Green, concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2014 e, merecidamente, não ganhou. Como disse, e repito, o filme é muito chato. O grande Al Pacino, desta vez, ficou pequeno.  
Em 1978 e 1979, os assassinatos de jovens mulheres praticados na região de Oise chocaram a França. Mais ainda depois da revelação de que o assassino era o próprio policial encarregado de investigar as mortes. Essa história real foi transformada em 2013 no ótimo suspense “NA PRÓXIMA, ACERTO NO CORAÇÃO” (“La Prochaine fois je Viserai le Coeur”) por Cédric Anger, responsável pelo roteiro e direção. Na vida real, o nome do assassino era Alain Lamare. No filme, foi modificado para Franck Neuhart (Guillaume Canet). O título do filme foi inspirado numa frase dita pelo psicopata para uma de suas vítimas. O roteiro de Cédric destaca o lado obscuro da mente do policial, na verdade um desequilibrado mental, psicótico e totalmente perturbado. Ele praticava seus crimes nos dias de folga. No trabalho, mostrava-se um policial eficiente e também discreto, acima de qualquer suspeita. O clima de suspense predomina desde o primeiro minuto, reforçado por uma fotografia sombria e uma trilha sonora que aumenta a tensão nas cenas de maior impacto, como fazia Hitchcock. O ator Guilhaume Canet tem uma atuação impressionante, personificando com perfeição o policial psicopata. O filme é muito bom. Mais um gol de placa do cinema francês. Imperdível! 

sábado, 22 de agosto de 2015

“ENTRE MUNDOS” (“ZWISCHEN WELTEN”), Alemanha, 2014, roteiro e direção da austríaca Feo Aladag. Uma unidade do exército alemão, sob o comando de Jasper (Ronald Zehrfeld), é enviada ao Afeganistão para proteger um vilarejo dos ataques dos Talibãs. O jovem Tarik (Mohsin Ahmady) é contratado como intérprete dos alemães, o que vai lhe causar enormes problemas com o pessoal da sua comunidade, que o acusará de traição. O filme prioriza o choque de culturas, os alemães tentando impor seus métodos e os afegãos fazendo questão de manter suas tradições, não aceitando qualquer outro tipo de imposição, ainda mais dos ocidentais. Esse conflito ideológico proporciona diálogos interessantes e esclarecedores sobre o pensamento e o modo de vida dos afegãos. Num desses diálogos, um afegão, a respeito das sucessivas invasões que o país sofreu nos últimos anos (séculos, na verdade), relembra um velho ditado local: “Vocês têm o relógio, nós temos o tempo”. Em determinado momento da história, Jasper é obrigado a tomar uma difícil decisão: abandonar o comando do seu grupo ou salvar a vida da irmã de Tarik. Ao contrário de outras produções que exploram o tema da guerra, nesta não há profusão de tiros ou explosões. O filme ganhou o prêmio de “Melhor Filme de Ficção” da 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo/2014. Realmente, um belo filme que merece ser visto por quem aprecia cinema de qualidade.   

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Quem curte cinema já deve ter ouvido falar em François Ozon ou assistido a alguns de seus filmes. Os filmes do diretor francês acabam gerando sempre alguma polêmica, caso de “Swimming Pool - À Beira da Piscina”, “O Refúgio”, “Jovem e Bela” e “Dentro da Casa”, este último uma pequena obra-prima do gênero suspense. Seu filme mais recente é “UMA NOVA AMIGA” (Une Nouvelle Amie”), que também polemiza ao tratar de um homem casado, pai de família, que adora se vestir de mulher. No caso, é o viúvo David (Romain Duris), que acaba de perder a esposa Laura (Isild Le Besco). Travestido, ele se transforma em Virginia. Não sai de casa e vive para cuidar de Lucie, o bebê que teve com Laura. Um dia, porém, ele é surpreendido pela melhor amiga de Laura, Claire (Anaïs Demonstier). Como desculpa, ele alega que a criança sente falta da mãe, o que ele procura compensar se vestindo com as roupas de Laura. Além de guardar segredo sobre a nova personalidade do viúvo da sua amiga, Claire acaba mudando seu próprio comportamento, o que implicará numa crise em seu casamento com Gilles (Raphaël Personnaz). A história, inspirada livremente num conto da escritora Ruth Rendell, é muito interessante e ganha ainda mais força e impacto nas mãos de Ozon. O filme é valorizado ainda mais pelos ótimos desempenhos de Duris e, especialmente, de Demonstier, uma jovem atriz de enorme talento.  
“O PEQUENO QUINQUIN” (“P’tit Quinquin”), 2014, foi produzido, originalmente, como uma minissérie para a TV francesa, em quatro episódios. Agora chega ao cinema, com 3h20 de duração. É um filme interessante, a começar do elenco, constituído integralmente por atores amadores, alguns deles com defeitos físicos bem evidentes, como o rosto disforme do próprio Quinquin (Alane Delhaye). A história é toda ambientada num vilarejo litorâneo, provavelmente na Normandia, e gira em torno de três macabros assassinatos. Pedaços de corpos humanos são encontrados no interior de vacas mortas, uma delas resgatada num bunker remanescente da Segunda Grande Guerra. Em paralelo às investigações realizadas pelo capitão Van der Weyden (Bernard Pruvost) e seu assistente abobado Carpentier (Philippe Jore), o jovem Quinquin e sua turma passam os dias aprontando as maiores traquinagens. Todos os atores são amadores. Bernard Pruvost, por exemplo, que interpreta o capitão Van der Weyden, é jardineiro na vida real. O diretor francês Bruno Dumont (“O Pecado de Hadewijch”, “Camille Claudel”) não economizou no politicamente incorreto. Além de Quinquin, a maioria dos atores tem um defeito físico, como o próprio capitão Van der Weyden, manco e cheio de cacoetes. O politicamente incorreto também está na atitude racista com relação a um negro filho de imigrantes africanos, xingado e humilhado em várias cenas. Não é um filme comum e, com certeza, não seria exibido em nossos canais abertos. Apesar da história trágica, tem muito humor e momentos até hilariantes, como a cena da missa em homenagem a um dos mortos. Trata-se, na verdade, de mais uma excentricidade do diretor Bruno Dumont. Talvez sirva como aval o fato do filme ter sido eleito pelos críticos da Revista Cahiers Du Cinéma como o Melhor de 2014.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Misto de drama romântico e thriller de suspense, “OCTOBER GALE” (ainda sem tradução por aqui; literalmente, “Ventania de Outubro”), Canadá, traz no elenco três bons atores - Patricia Clarkson, Scott Speedman e Tim Roth. O filme, lançado no Festival de Cinema de Toronto/2014, foi escrito e dirigido por Ruba Nadda, cujo filme mais conhecido é o mediano “Cairo Time”, também com Clarkson. Vamos à história. A médica Helen Mathews (Clarkson), ainda deprimida depois da recente morte do marido, com quem teve um casamento bastante sólido, vai para a casa de campo onde costumava ir com o falecido. A casa fica isolada numa ilha, provavelmente na região dos Grandes Lagos. Em meio às inúmeras recordações dos momentos românticos, acontece uma tempestade e um misterioso homem ferido à bala aparece na casa. Ele é Will (Scott Speedman). Helen cuida dele e depois quer saber o que aconteceu. Mas ele não quer falar sobre o assunto, o que deixa no ar a dúvida se ele é o mocinho ou o bandido. Aí aparece na ilha outro homem misterioso, Tom (Tim Roth), querendo acertas as contas com Will. Se a história já é fraca e o filme entediante, o desfecho então é lamentável. Patricia Clarkson é ótima atriz e até já foi indicada ao Oscar como melhor Atriz Coadjuvante por “Pieces of April”, mas desta vez pisou na bola. Admira que Tim Roth, outro grande ator mal aproveitado por Hollywood, também tenha entrado nessa barca furada. Se não fosse minha obrigação comentar, poderia definir o filme como “Sem Comentários”.   

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Depois de participar de tantas produções medíocres como “É o Fim”, “Palo Alto” e “A Entrevista” - este último foi aquele que gerou aquela polêmica toda com o governo norte-coreano -, o ator James Franco volta a atuar num nível mais elevado. No drama “A HISTÓRIA VERDADEIRA” (True Story”), 2015, direção do inglês Rupert Goold, baseado em fatos reais, Franco é Christian Longo, norte-americano acusado de ter assassinado a mulher e os três filhos menores. Depois do crime, Longo se refugiu no México, onde dizia para todo mundo que era o jornalista Mike Finkel (Jonah Hill), do New York Times, chegando até a trabalhar na profissão. Em 2002, o FBI acaba descobrindo o seu paradeiro e ele é preso. Por seu lado, Finkel, depois de ser demitido do NYT por causa de forjar informações numa reportagem investigativa, fica sabendo que Longo usava sua identidade e ficou curioso em saber por que. Ele vai visitar Longo na prisão e os dois acabam se entendendo, surgindo até a oportunidade de Finkel escrever um livro contando toda a verdade sobre o crime. Até então, Longo dizia que era inocente. Estaria ele manipulando o jornalista? A ótima atuação de Franco tem jeito de mais uma indicação ao Oscar 2016, como já havia acontecido pelo drama “127 Horas”, em 2011. Jonah Hill também está muito bem, assim como a atriz Felicity Jones (de “Teoria de Tudo”), que interpreta Jill, a esposa do jornalista. O filme é muito bom e merece ser visto não apenas pela história em si, pouco conhecida por aqui, mas também pela correta direção de Goold e pelo ótimo desempenho dos atores.                                  olHolan      

terça-feira, 11 de agosto de 2015

“EM TERRA ESTRANHA” (Strangerland”), 2014, Austrália, é um drama de suspense, que marca a estreia de Kim Farrant na direção de longas. A história é centrada na família formada pelo casal Matt (Joseph Fiennes) e Catherine (Nicole Kidman) e os filhos adolescentes Lily (Maddison Brown) e Tommy (Nicholas Hamilton). Eles são recém-chegados à pequena cidade de Nathgari, no meio do deserto australiano. A família vive quase que reclusa, sem muitos amigos e nenhuma vida social. O enredo dá a entender que eles se mudaram por causa de um caso amoroso que Lily teve com um professor na cidade grande. Lily, aliás, é a única a se entrosar com o pessoal jovem da nova cidade, o que inclui transar com a maioria. Um dia, porém, depois de uma forte tempestade de areia, Lily e Tommy fogem de casa e desaparecem no deserto. A partir daí – e até o seu final -, o filme se concentra nas buscas dos jovens e nos conflitos entre o casal Matt e Catherine, cada um acusando o outro de ser o responsável pela fuga dos filhos. O filme é lento demais, chegando a ser entediante, sensação reforçada pelo clima árido do deserto e pela fotografia amarelada, quase esmaecida. Nicole Kidman não precisa provar mais que é linda e ótima atriz, mas tem pisado feio na bola em suas últimas escolhas.  

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

“AS MEDUSAS” (“Jellyfish”), 2007, direção de Etgar Keret, é uma produção israelense muito original. A história foi criada, assim como o roteiro, pela escritora israelense Shira Geffen, esposa de Etgar. Não há uma história com começo, meio e fim, e sim histórias envolvendo mulheres tendo como cenário a cidade litorânea de Tel-Aviv. O mar é o único elo entre elas. Há boas pitadas de humor e um tanto de surrealismo. As principais personagens são todas mulheres: uma moça, Keren (Noa Knoller), que acaba de se casar e que, durante a festa de casamento, quebra a perna. A viagem de lua de mel para o Caribe é cancelada e o casal se hospeda num hotel de Tel-Aviv defronte ao mar. Outra personagem é uma garçonete, Batya (Sarah Adler), que trabalha num buffet de festas e que um dia encontra uma menina perdida na praia e tenta ajudá-la a encontrar os pais. Ainda tem uma filipina, Joy (Ma-Nenita de Latorre) em busca de emprego como cuidadora de idosos para juntar dinheiro e comprar um navio à vela para o filho. Outras personagens de destaque são uma fotógrafa desempregada e uma poetisa em estado terminal de depressão. Embora não seja um filme difícil ou hermético, não entendi a ligação entre as mulheres – e a própria história – com o título do filme. Afinal, as medusas são seres marinhos (a água-viva é um deles) ou, na mitologia grega, mulheres com serpentes na cabeça. Não consegui associar as mulheres do filme com qualquer tipo de medusa. De qualquer forma, como já escrevi no início, trata-se de um filme bastante interessante e inovador, que vale a pena ser conferido. Uma vantagem a mais: não há qualquer referência à questão palestina ou aos inimigos árabes, como na grande maioria dos filmes produzidos no Oriente Médio.                   olHolan      

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O drama francês “GAROTAS” (“Bande de Filles”), 2014, gira em torno da jovem Marieme (Karidja Touré), de 16 anos, que mora na periferia de Paris com a mãe, faxineira de um hotel de luxo, o irmão mais velho e duas irmãs mais jovens. Como quase todos os personagens da história, Marieme é descendente de imigrantes africanos. Ela é tímida, péssima aluna e está cansada de ser vigiada pelo irmão mais velho, que a trata com violência. Ela se modifica a partir do momento em que conhece Lady, Fily e Adiaton, três outras jovens da periferia, desajustadas, revoltadas com a condição de rejeitadas pela sociedade branca, desbocadas e sem qualquer perspectiva mais séria a não ser fazer coisa nenhuma e, às vezes, experimentar roupas de grife em lojas incrementadas, roubando algumas. Elas gargalham por qualquer bobagem, o que chega a irritar em muitos momentos. Não demora muito e Mariame foge de casa e acaba se envolvendo com Abou, um conhecido traficante de origem árabe. A diretora Céline Sciamma (do ótimo “Tomboy”, de 2012) provavelmente tenha tido a intenção de fazer um filme simpático aos imigrantes, principalmente africanos, para amenizar a rejeição da sociedade francesa – e europeia em geral. Acho que o tiro saiu pela culatra, pois o filme mostra um tipo de comportamento social que beira a marginalidade. De qualquer forma, trata-se de uma abordagem interessante sobre o tema. Alguns críticos profissionais desenvolveram verdadeiros tratados sociológicos sobre o filme, exagerando na dose da costumeira afetação intelectual.   

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Você já se interessou em conhecer a história da Holanda? Ou já ouvir falar no nome Michiel De Ruyter? Nem eu. O drama histórico “MICHIEL DE RUYTER”, superprodução holandesa de 2014, conta uma parte da história da Holanda no Século XVII, centrando o foco no Almirante Michiel De Ruyter, que naqueles anos de guerra contra a Inglaterra e França foi um grande herói daquele país. Durante 152 minutos, você assistirá a inúmeras batalhas navais, conhecerá um pouco dos bastidores da política holandesa, onde orangistas e republicanos rangiam os dentes uns para os outros nas sessões do parlamento, e, principalmente, as batalhas vitoriosas comandadas por De Ruyter, um grande estrategista, respeitado até pelos inimigos. As cenas de ação são muito bem feitas. Aliás, o diretor Roel Reiné é especialista no gênero (“Corrida Mortal" 2 e 3). O ator Frank Lammers, que interpreta De Ruyter, é a antítese da figura de um herói: é feio e gordo. Um dos destaques do filme é o ótimo ator inglês Charles Dance como o Rei Charles II da Inglaterra. Embora longo, o filme é bastante interessante sob o ponto de vista histórico, pois apresenta fatos e personagens que pouca gente conhece por aqui.   

domingo, 2 de agosto de 2015

“WELCOME TO ME” (ainda sem tradução por aqui), 2014, é uma comédia independente norte-americana que comprova mais uma vez o talento para o humor da atriz Kristen Wiig - durante sete anos (2005 a 2012), ela foi um dos grandes destaques do Programa “Saturday Night Live”. Em “Welcome to Me” ela interpreta Alice Krieg, uma mulher que há muitos anos sofre de transtornos de personalidade. É bem maluquinha. E ninfomaníaca. Além de sexo, Alice é obcecada por programas de TV de variedades, aqueles que dão dicas de culinária, saúde, entrevistas etc. Fica evidente que o roteirista Eliot Laurence e a diretora Shira Piven quiseram fazer uma crítica aos espectadores desse tipo de programa, colocando uma desequilibrada mental como fã desse gênero. Um dia, Alice ganha uma grande fortuna na loteria e resolve mudar a sua vida. Abandona as sessões de terapia com o psiquiatra Dr. Moffat (Tim Robbins), para de tomar os remédios, vai morar num cassino e, pior, compra um espaço de duas horas numa emissora de TV para fazer um programa do jeito dela, o que dará margem a situações hilariantes. O desespero da equipe de produção da TV diante das loucuras de Alice é um dos trunfos dessa comédia bastante interessante, inteligente e muito engraçada. Confira os coadjuvantes de luxo: Joan Cusack, James Marsden, Linda Cardellini, Jennifer Jason Leigh, Wes Bentley e Loretta Devine. O filme estreou no Festival de Cinema de Toronto em 2014, recebendo muitos e merecidos elogios.