Se
você tem algum tipo de preconceito contra o cinema asiático, deixe-o de lado e
assista “UM DIA DIFÍCIL” (“Kkeutkkaji Ganda”). O filme sul-coreano é diversão
pura. Trata-se de um thriller policial eletrizante, com muita ação, suspense e
humor. E um roteiro bastante inteligente. O detetive Ko Gun-Soo (Lee Sun-Kyun) sai do enterro de sua mãe e, no
caminho, atropela um homem. Como tinha bebido, resolve ficar quieto. E o que
fazer com o cadáver do homem atropelado? Gun-Soo tem a “brilhante” ideia de
escondê-lo no próprio caixão onde está sua mãe. A confusão só está começando. Ele
recebe um telefonema anônimo de alguém que diz ter visto o atropelamento e
começa a chantageá-lo. Em meio a toda essa confusão, Gun-Soo ainda é
investigado pela Corregedoria da Polícia, que descobre em sua mesa dinheiro
proveniente talvez da venda de drogas. As coisas pioram quando ele descobre a identidade do homem atropelado. Gun-Soo corre pra lá e pra cá para
tentar se livrar dos problemas, mas acaba se complicando cada vez vez mais. E o
espectador acompanha tudo muito atento, pois não há espaço para conversa fiada
com tanta ação e suspense, além de uma boa dose de pancadaria. Méritos para o diretor Seong-Hoon Kim, que também
escreveu o roteiro. O filme estreou no Festival de Cannes 2014 e foi bastante elogiado. Portanto, prepare um bom pote de pipoca e curta esse ótimo entretenimento.
“THE EICHMANN SHOW”, 2014, é um drama inglês, baseado em fatos reais, produzido pela BBC,
mostrando os bastidores da cobertura jornalística do julgamento do nazista
Adolf Eichmann, um dos idealizadores e organizadores do extermínio judeu. O
julgamento foi iniciado em abril de 1961 e durou 4 meses. O enfoque principal do
filme é o trabalho de uma equipe de TV autorizada pelo primeiro-ministro David Ben-Gurion,
de Israel, a filmar todo o julgamento (Não ao vivo. As fitas eram enviadas por
avião para o mundo inteiro. Só as emissoras de rádio transmitiram ao vivo). O produtor
Milton Fruchtman (Martin Freeman) reuniu uma equipe de técnicos de TV israelenses
e convidou para comandá-la o diretor norte-americano Leo Hurwitz (Anthony LaPaglia),
na época desempregado por estar na lista negra de Hollywood – acusado de
comunista, assim como outros diretores, roteiristas e artistas. Para não
atrapalhar o andamento do julgamento, as câmeras de filmagem foram instaladas em
paredes construídas poucos dias antes no prédio do tribunal em Jerusalém,
ficando invisíveis para o público. O filme reproduz imagens da época, tanto do
julgamento como dos campos de concentração. As cenas são chocantes. Só para
lembrar, muita gente, na época, não acreditava que o Holocausto realmente existiu.
As imagens dos campos de concentração chocaram o mundo. O filme mostra também a
disputa pela audiência mundial, pois o julgamento de Eichmann concorreu com reportagens
sobre o primeiro astronauta no espaço – o russo Yuri Cagarin – e o desenrolar da
revolução cubana. O julgamento de Eichmann acabou vencendo a partir dos
depoimentos chocantes dos sobreviventes – também mostrados no filme, dirigido
por Paul Andrew Williams (do comovente “Canção para Marion"). Ótimo filme para quem curte os bastidores de fatos históricos.
Jean
Dujardin (de “O Artista”) e Gilles Lellouche, dois dos principais atores
franceses da atualidade, encabeçam o elenco de “A
CONEXÃO” (“Le French”), 2014, filme
policial baseado em fatos reais. A história começa em 1975, quando o juiz
Pierre Michel é designado para Marselha com a missão de combater a French Connection,
como era chamada a organização criminosa que traficava grandes quantidades de
heróina para a Europa e, principalmente, para os Estados Unidos. Durante suas
investigações, o magistrado descobre que o chefão do tráfico é Gartan Zampa
(Gilles Lellouche). Mas não será tão fácil obter provas para condenar o poderoso
traficante, tendo ainda que lidar com policiais e políticos corruptos. O
trabalho dura anos e Pierre Michel não desiste até provar a culpa de Zampa,
trabalho que colocará o juiz e sua família em grande perigo. O filme, dirigido
por Cédric Jimenez, ainda tem no elenco Guilhaume Gouix, Benoit Magimel, Céline
Sallette e Mélanie Doutey. Mais um bom filme do cinema francês.
No
drama inglês “A TEORIA DE TUDO” (“The Theory of Everything”), o ator Eddie Redmayne tem uma das atuações
mais impressionantes da história do cinema. Pelo papel do físico Stephen
Hawking, Redmayne ganhou o Oscar 2015 de Melhor Ator. Escolha incontestável. Ele
está perfeito, a ponto do próprio Hawking, num e-mail enviado ao diretor James
Marsh, dizer que pensou que estava assistindo a si mesmo no filme. A história
começa em 1963, quando Hawking, então com 21 anos, estudava Cosmologia na Universidade
de Cambridge e conhece a estudante de Arte Jane Wide (Felicity Jones), sua
futura esposa. Naquele mesmo ano começam a aparecer os primeiros sintomas da
Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). O diagnóstico dos médicos não era muito animador:
deram-lhe, no máximo, mais dois anos de vida. Erraram feio, pois o físico está
vivo até hoje, com 72 anos (2015). Jane e Hawking casaram e tiveram 3 filhos. A
história do filme é baseada no livro biográfico escrito pela própria Jane, que
não escondeu o caso com Jonathan (Thomas Cox), com quem passaria a viver depois
de se separar do físico. O filme recebeu 5 indicações para o Oscar 2015 (Filme,
Ator, Atriz, Roteiro Adaptado e Trilha Sonora). Conquistou apenas o de “Melhor
Ator”, embora a atriz Felicity Jones esteja ótima no papel de Jane. Um drama triste
e comovente que não pode deixar de ser visto.
“UM VERÃO NA PROVENÇA” (“Avis de Mistral”), 2014,
França. Ao saber que sua filha Emily (Raphaëlle Agogué) atravessa uma grave
crise no casamento e está prestes a se separar, Irène (Ana Galiena) resolve
levar seus três netos para passar as férias de verão em Provença (o nome original francês
é Provence). Só que tem um problema: Léa (Chloé Jouannet), Adrien (Hugo
Dessioux) e o pequeno Théo (Lukas Pelissier) não conhecem o avô Paul (Jean
Reno). O motivo: quando ficou grávida pela primeira vez, Emily brigou com o pai
e fugiu de casa. Nunca mais se falaram e praticamente perderam o contato. De
início, Paul detestou a ideia de Irène, mas aos poucos vai se entendendo com os
netos. A aproximação entre avô e os netos é justamente o foco principal da
história. O filme é dirigido por Rose Bosch (do impactante e ótimo “Amor e Ódio”).
A cena em que Paul e Irène reencontram os antigos amigos motoqueiros de estrada
é emocionante. Outro destaque do filme é a trilha sonora, que vai de Simon e Garfunkel a Deep Purple, passando por Bob Dylan. Outra grande sacada da diretora Bosch foi explorar e mostrar algumas das festas folclóricas tradicionais da região de Provence, colocando os protagonistas para participar. Enfim, um filme muito interessante,
sensível e comovente, levado com muito bom humor.
Programão!
Parece
que Hollywood desaprendeu a fazer boas comédias. Você se lembra de alguma
recente que valha a pena? Nos últimos anos, é o cinema francês que tem
produzido os melhores filmes do gênero. Mais um exemplo para comprovar essa
afirmação é “QUE MAL EU FIZ A DEUS?” (“QU’EST-CE QU’ON A FAIT AU BOn DIEU?”), 2014, escrito e dirigido por
Philippe de Chauveron. Conta a história dos Verneuil, que formam uma família
católica conservadora de classe média alta. Claude Verneuil (Christian Clavier), chefe do clã, é
casado com Marie (Chantal Lauby). O casal tem quatro filhas: Isabelle, Odile,
Laure e Ségolène. Tudo vai às mil maravilhas até que elas começam a se casar.
Para desespero dos pais, uma casa com um empresário judeu, outra com um
advogado argelino muçulmano, outra com um chinês gerente de banco. Sobrou a filha mais
nova, que reserva outra “boa” surpresa para os pais. Os encontros em família
sempre acabam mal, cada um querendo defender o seu ponto de vista com relação à
religião, política, situação dos imigrantes, racismo etc. As discussões acabam
criando situações hilariantes, tudo na base de diálogos inteligentes e do mais
fino humor. É riso do começo ao fim, num ritmo alucinante. Comédia divertidíssima. Simplesmente
imperdível!
“O OLHAR DO AMOR” (“The Look of Love”), 2013,
Inglaterra, direção de Michael Winterbottom. Baseado em fatos reais, o filme conta a história do empresário Paul
Raymond (Steve Coogan, de “Philomena”), conhecido também pelos apelidos de “The
King of Soho” e “Barão da Pornografia”. Uma espécie de Hugh Hefner inglês, mas
muito mais ousado. A partir dos anos 50, com seu jeito agressivo de empreender,
Raymond construiu um verdadeiro império empresarial baseado na exploração do
erotismo, criando revistas como Only Men, Club International e Mayfair, além de
produzir shows musicais e peças de teatro onde a nudez feminina era obrigatória
e grande chamariz. O enfoque principal do filme, porém, é a vida pessoal do
empresário, que largou a esposa Jean (Anna Friel) para ficar com Fiona Richmond
(Tamsin Egerton), uma das maiores estrelas de Raymond. Festas regadas a
champanhe e cocaína, orgias sem fim, valia tudo no mundo em torno do empresário,
cujo número de amantes só foi menor que sua conta bancária. Nem mesmo a
morte da filha Debbie (Imogen Poots) por overdose, no início dos anos 90, foi
capaz de diminuir a ganância de Raymond, que chegou a ser considerado o homem
mais rico da Inglaterra. Raymond também investia no mercado imobiliário e no
comércio. O filme é ótimo e, entre seus maiores trunfos, estão o roteiro bem estruturado, o elenco, a
recriação de época e, principalmente, a trilha sonora (inclui a música que dá nome original ao
filme). Impossível não destacar também a beleza estonteante e a sensualidade
da atriz Tamsin Egerton como Fiona. “Um mulherão para seiscentos talheres”,
como diria um amigo. Um filmaço!
“MAR NEGRO” (“BLACK SEA”), 2014, EUA/Inglaterra, é um thriller de ação e suspense quase que
inteiramente ambientado nas profundezas do Mar Negro. Logo após perder o
emprego na empresa em que trabalhou durante 30 anos, o comandante Robinson (Jude
Law), experiente piloto de submarinos, é contratado por um milionário inglês
para encontrar um submarino alemão que teria naufragado no Mar Negro durante a
II Guerra Mundial. No interior da embarcação estariam mais de 40 milhões de
dólares em barras de ouro. Robinson reforma um submarino praticamente sucateado,
recruta marinheiros ingleses e russos para a tripulação e parte para a perigosa
aventura. A primeira grande preocupação é a de não ser detectado na superfície
pela marinha russa. A segunda é evitar a ganância dos tripulantes, que planejam
eliminar uns aos outros para poderem receber uma parte maior. O capitão
Robinson tem a difícil missão de administrar toda essa confusão. Daí para frente, os clichês habituais de um filme envolvendo
submarinos: brigas entre a tripulação, acidentes de percurso, mortes, muita
tensão etc. Um filme bastante claustrofóbico e sombrio. De qualquer forma, o diretor
escocês Kevin MacDonald (“O Último Rei da Escócia”) soube manter o suspense do
começo ao fim, o que garante um bom entretenimento. Nada a mais de muito
interessante para merecer uma recomendação entusiasmada. Nem mesmo a presença do ótimo ator inglês Jude Law.
Reúna
os ingredientes dos melhores filmes de ação que você já viu (no meu caso, os filmes de James Bond, "Matrix", "Missão Impossível" etc.). Acrescente algumas pitadas do estilo de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. O resultado será “KINGSMAN:
SERVIÇO SECRETO” (“Kingsman: The Secret Service”), 2014, Inglaterra. História: a agência ultrassecreta britânica Kingsman
acaba de perder um de seus principais agentes, morto numa missão em algum país
árabe. O veterano Harry Hart (Colin Firth) é encarregado de recrutar o novo integrante.
Enquanto os testes com os candidatos – que já valem o filme - são realizados, surge
o vilão maluco Valentine (Samuel L. Jackson), que ameaça acabar com a população
do planeta para salvar o próprio – o planeta. Daí pra frente não dá tempo nem de
olhar para o pote de pipoca. É ação o tempo todo, efeitos especiais de primeira
e muito humor. O elenco conta ainda com Michael Caine, Taron Egerton, Mark
Strong e Sofia Boutella. O diretor é Matthew Vaughn, que dirigiu alguns filmes
da série “X-Men”. “Kingsman” é diversão
garantida como há muito tempo o cinema não proporcionava. Estão dizendo que vai haver
continuação: tomara! Aviso: não desligue quando os créditos finais começarem a
aparecer, pois ainda tem mais...
“DEUS BRANCO” (“Fehér Isten”), Hungria, 2014. Começa o filme e você acha que vai assistir a mais um
daqueles filmes “sessão da tarde” da Disney. Ledo engano. O filme é sobre a
amizade de uma menina com um cachorro. Eles são separados e aí cada um vive o
seu drama. O diretor Kornél Mundruczó não economizou nas cenas de crueldade com
os bichos, o que inclui espancamentos, brigas sanguinárias de cães em rinhas e
matança generalizada. As cenas do treinamento do cão para lutar são chocantes e
revoltantes, mostrando como o ser humano pode ser tão cruel. A história: com a
viagem da mãe e do padastro para a Austrália, Lili (Zsófia Psotta) vai morar um
tempo com o pai biológico. Só que tem um problema: o pai detesta cachorros e
Lili tem um enorme, Hagen, um misto de labrador com vira-lata. O pai solta o
cachorro pelas ruas de Budapest. Daí pra frente, só drama. Entre as cenas de
maior impacto está aquela em que mais de 250 cães correm pelas ruas de Budapeste.
Não há efeitos especiais. Os cães, recrutados nas ruas, foram treinados por
Teresa Ann Williams, famosa adestradora de Hollywood, e pelo treinador húngaro
Arpad Halasz. Fiquem tranquilos os espectadores que se chocam com cenas que
mostram crueldade contra animais: as filmagens foram acompanhadas pelo pessoal
da Sociedade Protetora dos Animais, garantia de que as cenas de maldade foram
forjadas. Além disso, todos os cães foram adotados depois das filmagens. A
produção húngara foi uma das mais comentadas durante o Festival de Cannes/2014,
recebendo o Prêmio “Um Certain Regard”. O filme também foi selecionado para disputar
o Oscar 2015 de Melhor Filme Estrangeiro, mas não foi indicado. O filme é muito
interessante e merece ser conferido, principalmente pela cena final, de
arrepiar – no bom sentido.
“SOBREVIVENTE” (“Survivor”), 2014,
EUA, é um thriller de ação e suspense com um elenco de primeira: Pierce
Brosnan, Milla Jovovich, Angela Bassett, Dylan McDermott e Robert Forster.
Milla é Kate Abbott, agente especial do governo norte-americano encarregada de
rastrear redes terroristas internacionais e descobrir possíveis planos de
atentados. Uma de suas suspeitas recai sobre o Dr. Emil Balan (Roger Rees) e a
leva a Londres para seguir uma pista. Lá, descobre que o Dr. Emil planeja um grande
atentado em Nova Iorque. Em meio à sua investigação, Kate vai se confrontar com
Nash (Brosnan), conhecido também pelo codinome de “O Relojoeiro”, um assassino
frio e calculista contratado para executar o plano. Pior: será acusada de um
crime que não cometeu, sendo perseguida pela polícia inglesa e também por Nash,
que tem a missão de matá-la. O desfecho apoteótico da história será em Nova
Iorque na noite de Ano Novo, quando milhões de pessoas correrão o risco de
morrer se Kate não agir depressa. O filme, dirigido por James McTeigue (“V de
Vingança”), tem uma trama bem elaborada e ação do começo ao fim. Nada que exija muito esforço do intelecto. Programão para
uma sessão com pipoca.
“PONTE AÉREA”,
2014, escrito e dirigido pela jovem Júlia Rezende (“Meu Passado me Condena”), é
um bom drama romântico nacional. A história reúne Amanda (Letícia Colin) e Bruno
(Caio Blat). Eles se conhecem num hotel de Belo Horizonte, onde são obrigados a
se hospedar pela companhia aérea cujo voo para São Paulo é cancelado devido ao
mau tempo. Na mesma noite, os dois acabam na cama e, a partir daí, viverão um
romance tumultuado, principalmente pelas diferenças. Ele mora no Rio, é um
artista plástico que vive de bicos como grafiteiro, não tem dinheiro e muito
menos ambição. Ela é paulista, trabalha numa grande agência de publicidade e
acaba de ser promovida a Diretora de Arte. Nas idas e vindas de uma cidade para
a outra, eles se encontram, passam a noite juntos e passeiam como verdadeiros
namorados. Ao visitar o pai internado em estado grave em São Paulo, Bruno
descobre que tem um irmão pré-adolescente. A descoberta, e depois a morte do
pai, mexe com a cabeça de Bruno e a relação com Amanda fica por um fio. Não dá
pra contar o final para não estragar as surpresas. De qualquer forma, é um
filme interessante e que revela uma bela e excelente atriz, a paulista Letícia
Colin. Muita mulher pra pouco homem. Letícia é um mulherão e Blat baixinho, magro e feinho. Coisas inexplicáveis do amor...
Embora
o título nacional dê ideia de um filme de faroeste ou um policial violento, “RESPOSTA
À BALA” (“ANSWERED BY FIRE”) é um drama sério,
de fundo político, ambientado no Timor-Leste em 1999. Trata-se de uma
co-produção Canadá/Austrália, de 2006, produzida para a TV canadense. A
história enfoca o trabalho de uma equipe da ONU (Nações Unidas) designada para organizar
e fiscalizar a realização de referendo no Timor-Leste que consultaria a
população se queria obter a independência da Indonésia, que dominava, a ferro e
fogo, o pequeno país localizado na ilha de Timor, no Sudeste Asiático, desde 1975.
Desarmados e em pequeno número, os voluntários da ONU viveram situações de
extremo perigo, enfrentando as milícias sanguinárias mantidas e armadas pela
Indonésia, além da omissão escancarada dos policiais locais, responsáveis pela
segurança do pessoal. A diretora Jessica Hobbs soube manter um angustiante
clima de tensão em grande parte do filme, só amaciando no final, com direito a
desfecho parecendo novela da Globo. Nos principais papeis estão o ator
australiano David Waldman (o “Faramir” de “Senhor dos Aneis”) e a bonita atriz
canadense Isabelle Blais. O filme tem o mérito de abordar e reviver um fato
histórico e político da maior importância. Um bom programa para quem gosta de
História.
“LONGE DOS HOMENS” (“Loin Des Hommes”), 2014, direção de David Oelhoffen, é um
drama francês ambientado na Argélia em 1954, ano em que começa a Guerra da Independência
do país contra os colonizadores franceses. Num pequeno colégio localizado numa
região inóspita, árida e cercada por montanhas, o professor Daru (Viggo
Mortensen) dá aulas de francês às crianças do vilarejo. Quando eclode o
movimento, as autoridades policiais de uma cidade próxima, ocupadas demais com
o início da revolução, pedem a Daru que levem um argelino para ser julgado numa
outra cidade. Mohamed (Reda Kateb, ator que lembra, ao mesmo tempo, Anthony
Quinn e Mário Moreno, o “Cantinflas”), o argelino, é acusado de ter assassinado
um homem. Os parentes da vítima fatal querem vingança e partem no encalço de Mohamed.
Em meio a essa perseguição e ao fogo cruzado entre franceses e rebeldes
argelinos, Daru e Mohamed percorrem um caminho repleto de perigos. A amizade
entre os dois é o grande trunfo do filme. Daru mostra um grande sentido de
justiça e Mohamed de lealdade por aquele que o protege. A carga dramática da
história foi amenizada pelo roteiro, também escrito por Oelhoffen, que reservou
alguns diálogos bem-humorados entre Daru e Mohamed, além de uma fotografia
deslumbrante dos cenários desérticos onde o filme é ambientado. É um filme, sem
dúvida, bastante sensível, mas indicado apenas a um público mais restrito.
“A INCRÍVEL HISTÓRIA DE ADALINE (“The Age of Adaline”), 2014, EUA, é um drama romântico com um
enredo fantasioso. Aos 27 anos de idade, Adaline Bowman (Blake Lively),
nascida no começo do Século XX, sofre um grave acidente de carro, que cai num rio e é
atingido por um raio. O efeito é o mesmo de um desfibrilador e ela praticamente
ressuscita. E com uma vantagem a mais: a partir dali, não envelhece mais. Os argumentos científicos
utilizados para tentar explicar o fenômeno são também fantasiosos. O filme pula
para 2014 e lá está ela com a mesma aparência, contracenando com a filha Flemming
(Ellen Burstyn) e reencontrando velhos amores, hoje literalmente velhos, como é
o caso de William Jones (Harrison Ford), coincidência das coincidências, pai de
seu namorado Ellis (Michiel Huisman). O filme é bom, bem produzido e vai
agradar principalmente os espectadores mais sensíveis e românticos. A jovem
atriz Blake Lively, mais conhecida por atuar na Série “Gossip Girl, tem sua
grande chance como protagonista principal. E não decepciona. Além de bonita e
charmosa, é muito competente. A direção é de Lee Toland Krieger (de “Celeste e
Jesse para Sempre”). A história de Adaline lembra muito outro filme, “O Curioso
Caso de Benjamin Button”, com Brad Pitt, embora neste caso o homem nasce velho
e vai rejuvenescendo. Um bom programa para uma sessão da tarde com pipoca.
“JIMI, TUDO A MEU FAVOR” (“Jimi All is by my Side”), 2013, Inglaterra, direção de John Ridley, é
uma viagem cinematográfica indescritível aos anos psicodélicos de 1966 e 1967,
acompanhando os fatos que culminaram no surgimento daquele que talvez tenha
sido o maior guitarrista do Século XX: Jimi Hendrix. O filme é sensacional, com
destaque para a recriação da época. Cenários, figurinos, trilha sonora, elenco,
roteiro (do próprio diretor), tudo funciona com perfeição. E ainda tem um ator
em estado de graça: o norte-americano André Benjamin (também conhecido nos EUA por
Rapper André 3000), que interpreta Hendrix. O filme começa com o polêmico
guitarrista sendo descoberto, tocando em bares de Nova Iorque, pela modelo inglesa
Linda Keith (Imogen Poots), nada menos do que a namorada, na época, de Keith
Richards (Rolling Stones). Ela convence o amigo e empresário Michael Frank
Jeffery (Burn Gorman) a levar Hendrix para Londres com o objetivo de gravar seu
primeiro disco, o lendário “Are You Experiences”, e realizar uma turnê com a
banda “Jimi Hendrix Experience”. Entre as inúmeras cenas antológicas do filme
está aquela em que Eric Clapton, já um astro da guitarra, concorda em dividir o
palco com um músico desconhecido, um tal de Jimi Hendrix. Quando Hendrix inicia
seu solo, Clapton abandona a guitarra e se refugia no camarim, sentindo-se
humilhado. Outra cena maravilhosa é a que reproduz a histórica apresentação de
Hendrix no Teatro Saville, em Londres, no dia 4 de junho de 1967. Com os quatro
Beatles presentes, Hendrix improvisa na música “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club
Band”, do LP do mesmo nome lançado dias antes. Ele ensaiou a música minutos
antes de subir ao palco. O filme termina - uma pena! - pouco antes de Hendrix
viajar para os EUA para sua apresentação no Monterey Pop Festival. Tomara que
tenha continuação. Inexplicável que ainda não tenha sido exibido por aqui no
circuito comercial. De repente ainda será. Simplesmente IMPERDÍVEL!
“TIMBUKTU”,
2014, Mauritânia, é um filme altamente impactante e bastante esclarecedor sobre
a questão islâmica. É inspirado numa situação ocorrida na pequena cidade de Timbuktu,
na República Africana de Máli, em 2012, ocupada durante oito meses por
extremistas religiosos, certamente adeptos do Estado Islâmico e tão radicais
quanto. O diretor Abderrahmane Sissako adaptou a história e a transformou em
filme, utilizando como cenário uma aldeia da Mauritânia, país vizinho, já que
seria impossível filmar em Máli por questões políticas. Os
extremistas ditavam as leis, proibindo música e até os meninos de jogarem
futebol, entre outras imposições absurdas e radicais. Apesar desse quadro dramático, o
filme apresenta cenas de rara beleza e sensibilidade, como a dos garotos
jogando futebol sem a bola, “sequestrada” pelos extremistas. Um verdadeiro balé
visual, um verdadeiro “achado” do diretor, um dos momentos mais bonitos do cinema nos últimos anos. A trilha sonora, por sinal, é belíssima. Por outro lado, há cenas chocantes e
de muito impacto, como o apedrejamento de um homem e uma mulher – enterrados até
o pescoço - em praça pública. O filme também mostra a contradição de um povo
que vive praticamente na antiguidade e que não dispensa o uso de celular, um
dos maiores símbolos do Ocidente e da modernidade. Com “Timbuktu”, a Mauritânia concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (2015) pela primeira vez - não ganhou - e foi o grande vencedor do
Prêmio César 2015 (o Oscar francês), ganhando em 7 categorias, incluindo a de Melhor
Filme. Enfim, um belo filme, uma
pequena obra-prima que merece ser
vista por quem aprecia cinema de qualidade.
“TUDO INCLUÍDO” (“ALL INCLUSIVE”), Dinamarca, 2014, direção de Hella Joof, é uma ótima comédia. A história: três semanas antes
de viajar com o marido para comemorar seu 60º aniversário na Ilha de Malta,
Lise (Bodil Jørgensen) recebe um “presentão” antecipado. Seu marido a abandona
por outra mulher mais jovem. Ela entra em depressão e não quer mais viajar, mas
as filhas Ditte (Danica Cursic) e Sigrid (Maria Rossing) resolvem convencê-la a
ir e também vão junto. Um dos problemas que pode afetar a convivência é que Ditte
é completamente diferente de Sigrid. Ditte é solteira, adepta do sexo livre,
fuma, bebe e adora uma balada. Sigrid é casada, tem três filhos, é um tanto
tímida e muito séria. Mesmo com essas diferenças, as duas vão se unir e tentar fazer a mãe sair da depressão, o que
inclui contratar um amante latino, Antonio (Diogo Infante), o barman do hotel.
O ponto alto do filme é o relacionamento das três mulheres, que tentarão aparar
velhas arestas, se entender e tocar a vida adiante. Trata-se de um filme muito
divertido e, acima de tudo, bastante sensível. As três atrizes têm uma atuação
inspiradíssima, principalmente Bodil Jørgensen como a mãe depressiva e depois
expansiva, liberada. Um show de atriz e um filme simplesmente imperdível!
“AS FÉRIAS DO PEQUENO NICOLAU” (“Les Vacances du Petit
Nicolas”), 2014, é uma divertida comédia
francesa, sequência de “O Pequeno Nicolau”, que fez enorme sucesso em 2010. Embora
tenha um pano de fundo infantil, com Nicolau e sua turma aprontando as maiores confusões,
o filme deve agradar mais aos adultos, principalmente porque as cenas mais engraçadas envolvem os pais de Nicolau, interpretados por Kad Merad e a ótima Valérie
Lemercier – os mesmos pais do primeiro filme (mudou o ator de Nicolau, agora interpretado
por Mathéo Boisselier). A família e mais a avó (Dominique Lavanant) vão para um
hotel na praia passar as férias de verão. Ao conhecer uma garota chamada
Isabelle, Nicolau ouve uma conversa dos pais e acredita que eles querem forçar
seu casamento com a menina. Nicolau e sua turma de amigos, então, farão tudo
para desfazer a ideia do tal casamento. O melhor do filme, porém, é a
transformação da mãe de Nicolau após receber o convite de um diretor de cinema
italiano para ser a estrela do seu próximo filme, o que vai gerar situações
hilariantes. As duas versões, inspiradas nos quadrinhos franceses publicados
entre 1956 e 1964, foram dirigidas por Laurent Tirard (“Asterix e Obelix: Ao Serviço
de Sua Majestade”). Diversão garantida do começo ao fim, essencial para esses tempos tão difíceis.
Difícil
de encontrar uma comédia romântica de qualidade. Na verdade, uma raridade. De
vez em quando surge alguma que merece ser recomendada, como é o caso de “SIMPLESMENTE
ACONTECE” (“Love, Rosie”), Inglaterra, 2014.
Tudo funciona bem, a começar pelos atores que fazem os protagonistas principais, Lily
Collins e Sam Claflin, bonitos, charmosos e simpáticos. O filme não apresenta o
chororô habitual do gênero, tem humor na dose certa e romance sem pieguice.
Tudo bem que não dá para fugir dos clichês que caracterizam o gênero, mas é um filme bastante agradável,
entretenimento garantido. Rosie (Collins) e Alex (Claflin) são amigos desde a
infância. Amigos inseparáveis. Em nome dessa amizade, eles mantiveram a paixão
enrustida por muitos anos. Cada um levou sua vida – Alex foi morar nos EUA -,
casaram com outros pares e seguiram em frente, pouco sabendo um do outro. É
claro que, um dia, voltarão a se ver e
você vai torcer para ficarem definitivamente juntos. A história é baseada no
romance “Onde Terminam os Arco-Íris”, escrito pela irlandesa Cecelia Ahern e publicado em
2004. No livro, a história percorre um período de 45 anos. No filme, foi reduzido para 12 anos. A direção é do alemão Christian Ditter. Informação adicional: Lily Collins é filha do cantor e compositor Phil Collins.
“INSENSÍVEIS” (“Insensible”), Espanha/França, 2014, é um drama bem pesado com pitadas de terror gótico
e algumas doses de trash. A trama se
desenrola com duas histórias distintas que vão se alternando até o final,
quando acontece a ligação. No início dos anos 30, a comunidade científica
mundial é convocada para um internato localizado numa montanha dos Pirineus, em
território espanhol, para presenciar uma descoberta incrível: crianças imunes à
dor. A notícia chega à Alemanha e Hitler envia o dr. Holzmann (Derek de Lint)
para estudar o assunto. Já pensou um exército nazista com soldados que não
sentem dor? Além disso, algumas crianças têm poder sobrenatural, a ponto de realizar
cirurgias em cães – pasmem, a sangue-frio! O asilo servirá como pano de fundo
para o diretor Juan Carlos Medina, também autor do roteiro, abordar fatos
históricos envolvendo a Espanha, como a Guerra Civil Espanhola, a Segunda
Guerra Mundial e a Ditadura de Franco. A história que segue em paralelo apresenta, nos dias atuais, o dilema do renomado neurocirurgião David Martel (Àlex
Brendemühl), que sofre de câncer e precisa com urgência de um transplante de
medula óssea. Na busca dos pais biológicos que poderão servir de doadores, o
médico vai descobrir a história do tal asilo. É quando haverá a ligação das
duas histórias. Pena que o desfecho é fantasioso demais e acaba destoando do
restante do filme, que, aliás, é mais interessante do que bom. Recomendo sem muito entusiasmo.
O
drama “O FALSIFICADOR” (“The Forger”), 2014, EUA, direção de Philip Martin, traz John Travolta como o ex-presidiário
Ray Cutter, um pai que sempre foi ausente para o filho adolescente Will (Tye
Sheridan), situação que só piorou com a temporada na prisão. Tye sofre de uma
doença incurável e, pelo jeito, não tem muito tempo de vida. Cutter ainda terá
que cumprir 10 meses de pena, mas recorre ao pessoal do crime para soltá-lo
antes em condicional. Cutter quer passar mais tempo com o filho. Um juiz recebe propina para soltá-lo. Para pagar a
dívida, Cutter terá de realizar a falsificação do quadro “Mulher com Sombrinha”,
do pintor impressionista Claude Monet, e roubar o original, exposto num museu
de Boston. Para executar o plano, Cutter recorre ao pai Joseph Cutter
(Christopher Plummer) e ao próprio filho. Em meio aos preparativos, Cutter
ainda tem de atender aos últimos desejos de Will, o que inclui conhecer a mãe
biológica Kim (Jennifer Ehle) e fazer sexo com uma prostituta. O melhor do
filme é realmente a retomada da relação do pai com o filho, capaz de gerar bons e até divertidos diálogos. As cenas mostrando Cutter pintando a falsificação são bastante interessantes. Fora isso, o filme
não tem atrativos suficientes para ser recomendado. Nem mesmo a presença de Travolta e de Plummer. Completam o elenco Abigail Spencer e Anson Mount.