sábado, 31 de janeiro de 2015

“SNIPER AMERICANO” (“American Sniper”), 2014, EUA, dirigido por Clint Eastwood, conta a história real do soldado Chris Kyle, atirador de elite das forças especiais da Marinha dos EUA – os navy seals -, que em 10 anos, em missões no Iraque, assassinou 150 inimigos. Virou herói. No topo de edifícios, Chris (Bradley Cooper) era encarregado de alvejar qualquer pessoa que colocasse em risco os soldados americanos. Às vezes o inimigo era apenas um garoto ou uma mulher carregando uma granada ou um lança-morteiros. Para Chris, não importava quem era o inimigo, embora ficasse chateado nesses casos. Para ele, o que importava mesmo era salvar seus companheiros. Nos 10 anos (1999 a 2009) em que foi atirador de elite, Chris cumpriu 4 longas missões no Iraque, totalizando mais de mil dias. Entre os 150 inimigos que matou estava um atirador de elite recrutado na Síria e que já havia participado de Jogos Olímpicos. A esposa de Chris, Taya Renae (Sienna Miller), sofria muito quando o marido estava em missão, principalmente por temer que ele voltasse num caixão. O filme de Eastwood teve seis indicações para concorrer ao Oscar 2015, entre as quais Melhor Filme e Melho Ator. Independente se ganhar ou não alguma estatueta, o filme é muito bom, apesar do tom um tanto patriótico adotado por Eastwood. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O drama “HOMENS, MULHERES E FILHOS” (“Men, Women & Children”), EUA, 2014, do diretor canadense Jason Reitman (de “Amor sem Escalas” e “Juno”), aborda um assunto bastante atual: a interferência cada vez maior da Internet em nosso cotidiano, em nossas ações, em nossas atitudes. A mensagem do filme é bastante clara: estamos conectados virtualmente, mas desconectados na vida real. Reitman exemplifica apresentando famílias de classe média disfuncionais, com problemas de relacionamento e, principalmente, falta de comunicação, além de adolescentes em crise. O casal que não se relaciona mais sexualmente e encontra uma saída nas redes sociais, o rapaz que abandona o time de futebol por causa de um jogo virtual, a menina que se torna obcecada por regime, a garota que quer ser uma celebridade cinematográfica e até uma vilã virtual, que costuma invadir o computador da filha e até responder e-mails em nome dela. Enfim, são várias histórias de pessoas psicologicamente abaladas e que têm, em comum, alguma influência nefasta da Internet. Embora com um elenco de peso (Jennifer Garner, Adam Sandler, Ansel Elgort, Judy Greer, Rosemarie Dewitt e Kaitlin Dever), o filme foi um grande fracasso nos EUA, onde ficou apenas um mês em cartaz com pouco público. Como curiosidade, a voz que narra a história em off pertence à atriz inglesa Emma Thompson. De qualquer forma, o filme não é tão ruim quanto parece, mas não é tão bom que mereça uma avaliação ou recomendação entusiasmada. Mas não deixa de ser interessante.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

“NASCIDO EM ALGUM LUGAR” (“Né Quelque Part”), 2012, é uma comédia francesa cuja história é inspirada em fatos que aconteceram com o próprio diretor, o francês de família argelina Mohamed Hamidi. No filme, ele é Farid (Tewfik Jallab), nascido na França de pais argelinos que saíram do país natal na década de 60. Ao receber a notícia de que a casa que construiu e em que morou num pequeno vilarejo da Argélia será desapropriada, Hadj (Mohamed Majder), pai de Farid, fica nervoso e é internado num hospital. Ele pede a Farid que vá até a Argélia e resolva o problema, não deixando desapropriar a casa de tantas recordações para a família. Quando chega ao vilarejo, Farid logo faz amizade com um primo trambiqueiro (Jamel Debbouze), o que lhe custará um grande aborrecimento. Com um pouco de conhecimento que adquiriu no curso de Direito que faz na França, Farid vai enfrentar as autoridades locais e tentar reverter a desapropriação não só da casa de seu pai como de outras pessoas do vilarejo. Em sua estada, Farid vai conhecer muito da cultura e das tradições argelinas, além da história de sua família. É nas conversas entre os moradores, com a participação de Farid, que o diretor Hamidi extrai os momentos mais engraçados do filme, mostrando que o bom humor também faz parte do cotidiano daquelas pessoas. O ator Mohamed Majder, que interpreta o pai de Farid, morreu logo após o término das filmagens, em janeiro de 2013, e a ele é dedicado o filme.  

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

“ALABAMA MONROE" (“The Broken Circle Breakdown”), de 2012, é um belo e comovente drama belga que conta a história do amor de um cantor, tocador de banjo e líder de uma banda country, Didier (Johan Heldenbergh), por uma tatuadora, Elise (Veerle Baetens). Ele é ateu e ela, apesar de toda tatuada, é religiosa. Eles se casam, têm uma filha e vivem felizes, mas não para sempre. Uma doença grave que terminará em morte irá quebrar o círculo de felicidade, o que remete ao título do filme. Apesar do tema dramático, o filme alterna momentos de bom humor e sensibilidade, principalmente quando a banda se apresenta nos palcos, agora com Elise como crooner. No meio de tudo isso, o diretor Felix Van Groeningen ainda encontra espaço para discutir a questão dos estudos das células-tronco e a eutanásia. Os dois atores principais são espetaculares. Como curiosidade, o filme é todo falado em Flemish, dialeto alemão do norte da Bélgica. Se você for de chorar, esqueça a pipoca e separe uma caixa de lenços de papel. Sem exagero, um dos melhores filmes deste século.  

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

“BABÁ FORA DE CONTROLE” (“Babysitting”), 2014, é uma comédia francesa bastante divertida, o que não deixa de ser uma raridade no cinema atual. A história é centrada em Franck (Philippe Lacheau), recepcionista de uma grande editora parisiense. Ele adora desenhar histórias em quadrinhos e quer seguir essa carreira. No dia do seu 30º aniversário, Franck planeja uma grande festa com seus amigos, mas seu patrão, sr. Schaudel (o ótimo Gérard Jugnot), o convoca para ser babá de seu filho Rémi (Enzo Tomasini), de 10 anos, por um dia. Com a promessa feita por Schaudel de analisar seus desenhos, Franck aceita a missão e cancela a festa. Só que seus amigos insistem na comemoração e, sem avisar Franck, farão uma surpresa que colocará a casa de Schaudel literalmente de pernas para o ar. Na manhã seguinte, a polícia localiza Schaudel para avisá-lo da bagunça na sua casa e que seu filho havia sumido. Schaudel e a esposa (Clotilde Courau) voltam apavorados para casa, onde assistem, ao lado dos policiais, a um vídeo gravado por um dos amigos de Franck registrando tudo o que aconteceu de noite e de madrugada. É uma sucessão de momentos hilariantes e situações bastante engraçadas. O filme não perde o pique do começo ao fim, num ritmo quase alucinante. O ator comediante Lacheau, além de atuar, escreveu e dirigiu, ao lado de Nicolas Benamou. Não deixe de ver e se divertir!               
Se no filme argentino “Abutres” (2010), dirigido por Pablo Trapero, Ricardo Darín era um advogado à espreita e forjador de acidentes de trânsito para depois ganhar indenizações das seguradoras, em “O ABUTRE” (“The Nightcrawler”), 2014, EUA, o ator Jake Gylenhaal é Louis Bloom, um cinegrafista amador que filma ocorrências policiais de madrugada para depois vender as imagens a telejornais matutinos. A cidade é Los Angeles, ou seja, garantia de material farto. Bloom é um sujeito fracassado, desempregado e trambiqueiro. Um dia, tem a ideia de se transformar numa espécie de paparazzo macabro, seguindo ambulâncias e viaturas da polícia para filmar pessoas morrendo. Ele vende as imagens para uma pequena emissora de TV local, cuja diretora de telejornais, Nina Romina (Rene Russo), é adepta de notícias sensacionalistas e imagens chocantes para elevar o índice de audiência. Bloom não tem escrúpulos em forjar situações, o que inclui arrastar vítimas de acidente de trânsito para conseguir um ângulo de filmagem melhor e ainda colocar seu assistente Rick (Riz Ahmed) em situações de perigo. Sua ousadia chega ao cúmulo de, antes de a polícia chegar, invadir uma casa para filmar os cadáveres de vítimas de um violento tiroteio. O filme é muito bom, chega a ter cenas realmente eletrizantes, e Gylenhaal está ótimo (merecia uma indicação ao Oscar). Chegou a emagrecer 10 quilos para fazer o personagem ficar parecido, segundo ele próprio, com “um coiote faminto”. Dan Gilroy, o diretor, é conhecido como roteirista de filmes como “O Legado Bourne” e agora dirige seu primeiro filme. Um destaque especial para a atriz Rene Russo - por sinal, esposa do diretor -, que aos 60 anos continua bonita e charmosa.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Para tentar decifrar as mensagens secretas nazistas criptografadas, o governo britânico criou o Projeto Ultra e convidou os maiores gênios da matemática e da lógica da Inglaterra para fazer parte da equipe. O trabalho desse pessoal é mostrado no filme “O JOGO DA IMITAÇÃO” (“The Imitation Game”), 2014. O personagem central da história é Alan Turing (Benedict Cumberbatch), que por sua inteligência e espírito de liderança viria chefiar o grupo. Alan, com a ajuda de sua equipe, e mesmo a despeito da desconfiança das autoridades inglesas envolvidas no projeto, inventou uma máquina (considerada a precursora dos computadores atuais) bastante complexa que, depois de muito trabalho, conseguiu finalmente decifrar as mensagens dos nazistas, contribuindo para vitórias importantes dos aliados durante a Segunda Grande Guerra. A homossexualidade de Alan também é destacada no filme. Em 1952, Alan seria preso por atentado ao pudor e submetido a um tratamento hormonal conhecido como “castração química”. Ou era isso ou a prisão. Como o Projeto Ultra era supersecreto, as autoridades policiais não sabiam o que Alan havia feito. Dirigidos pelo norueguês Morten Tyldum (do ótimo “Headhunters”), ainda estão no elenco Keira Knightley, Matthew Goode, Mark Strong e Charles Dance. O filme é muito bom e, com justiça, recebeu 8 indicações ao Oscar 2015, entre as quais Melhor Filme, Melhor Ator (Cumberbatch), Melhor Atriz Coadjuvante (Keira) e Melhor Diretor. Imperdível!

Ao ser exibido no Festival de Berlim, em fevereiro de 2014, o suspense “AS DUAS FACES DE JANEIRO” (“The Two Faces of January”), EUA, 2013, dividiu os críticos. Na verdade, a acolhida geral foi bem morna, com poucos elogios. A história, baseada em livro da escritora de romances policiais Patricia Highsmith, é ambientada em 1962 e começa na Acrópole de Atenas, na Grécia.  Aqui, o guia norte-americano Rydal (Oscar Isaac) conhece Chester MacFarland (Viggo Mortensen) e Colette (Kirsten Dunst), turistas que vieram dos EUA. Rydal é um trambiqueiro notório, enganando turistas principalmente na hora de trocar seus dólares por dracmas (a moeda em uso na Grécia até ser substituída pelo euro em 2002). Depois de deixar o casal no hotel, Rydal encontra no táxi uma pulseira de Colette. Rydal está no corredor do hotel para devolver a pulseira quando surpreende Chester arrastando o corpo de um homem. A partir daí, Rydal torna-se cúmplice de um provável assassinato e, por causa de sua atração por Colette, vai ajudar o casal a sair de Atenas. Os três fogem para a Ilha de Creta e depois para Istambul, na Turquia. Já dá para advinhar que as paisagens são muito bonitas, valorizadas por uma excelente fotografia. Tanto a história como o desenrolar da trama e o tipo de suspense lembram muito os filmes de Alfred Hitchcock, o que já é um bom aval para recomendar este que é o filme de estreia do diretor iraniano Hossein Amini. 

sábado, 24 de janeiro de 2015

Uns escolhem escalar os picos mais altos do mundo, outros pular de bungee jump ou atravessar o topo de edifícios  equilibrando-se numa corda e ainda aqueles que se arriscam nadando entre tubarões. Enfim, há louco e aventureiro para tudo. “TRILHAS” (“Tracks”), 2013, conta uma dessas histórias malucas. Em 1977, a jovem australiana Robin Davidson (Mia Wasikowska), então com 26 anos, com o apoio da Revista National Geographic, decide atravessar o impiedoso deserto da Austrália a partir da cidade de Alice Springs até o Oceano Índico, totalizando uma distância de 2.700 quilômetros. Com um detalhe: a pé. E apenas com a companhia de sua cadela de estimação e quatro camelos – a viagem durou 9 meses. De vez em quando, em seu caminho, aparecia o fotógrafo da revista Rick Smolan (Adam Driver) para tirar algumas fotos. Uma aventura e tanto, repleta de perigos e sacrifícios. Em alguns momentos, tal era o seu nível de exaustão, Robin pensou em desistir. Mas foi até o fim, o que na época tornou a moça mundialmente famosa. Aliás, depois disso, Robin continuou aventurando-se pelo mundo afora, incluindo atravessar os EUA numa moto e trabalhar como guia turístico na Índia. Para quem gosta de viagens inusitadas e de sofrer junto com o viajante, “TRILHAS” é um ótimo programa.
A bonita e competente atriz norte-americana Maria Bello já trabalhou em bons filmes como “Marcas da Violência”, “Os Suspeitos” e “O Troco”. Ultimamente, porém, suas escolhas não têm sido das melhores. A mais recente delas é o suspense “BIG DRIVER- EM BUSCA DE VINGANÇA” (“Big Driver”), produzido em 2014 para o Canal Lifetime e dirigido por Mikael Salomon (“O Enigma de Andômeda”). Trata-se de uma história baseada num conto do escritor Stephen King. Bello interpreta Tess Thorne, uma famosa escritora de romances policiais, de mistério e suspense – assim como King. Convidada para autografar seu mais recente livro, Tess vai a uma pequena cidade de New England. Uma de suas fãs sugere que ela faça a viagem de volta utilizando-se de uma estrada no meio da floresta. Aí começa o maior pesadelo para Tess, que será vítima de um psicopata sexual. Além de estuprada, ela é violentamente espancada e depois deixada para morrer dentro de um tubo de drenagem. Só que ela não morre. Quando se recupera, Tess parte para a vingança. Para curtir o filme, o espectador tem de entrar no clima das histórias de Stephen King e aceitar que a protagonista converse com fantasmas, com os mortos e até com o GPS do seu carro. Nada que mereça uma recomendação entusiasmada.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Uma sensação no mínimo desagradável é o que se tem ao assistir ao drama grego “O GAROTO QUE COME ALPISTE” (“To Agori Troei To Fagito tou Pouliou” no original, ou “Boy Eating the Bird’s Food” em inglês). O filme é bastante indigesto e deprimente. Trata-se de uma chocante alegoria à grave situação econômica da Grécia a partir de 2010. O jovem Yorgos (Yiannis Papadopoulos), de 23 anos, é um cantor lírico desempregado, não tem amigos e está distanciado da família. Vaga pelas ruas de Atenas remexendo nas latas de lixo para encontrar o que comer. Quando não encontra, divide o alpiste com seu canário e se alimenta com o próprio sêmen depois de se masturbar (desagradável ou não é?). De vez em quando, entra no apartamento do vizinho, um velho doente, para roubar comida e alguns objetos para vender no penhor. Com a mente entravada por dias sem comer, Yorgos tenta manter a pouca sanidade que lhe resta, mas ele é a verdadeira personificação do fracasso. E aí ninguém dá jeito. O filme marcou a estreia de Yiannis Papadopoulos na direção. Começou bem, pois o filme foi indicado para representar a Grécia no Oscar/2014 de Melhor Filme Estrangeiro. De qualquer forma, é bom alertar o espectador desavisado: não espere um entretenimento agradável. Pelo contrário. 
O drama polonês “EM NOME DO...” (“W Imie...”), 2012, estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim/2013 e causou grande polêmica. Não é para menos, pois o filme aborda o tema homossexualidade na Igreja. E mais: produzido no país mais católico da Europa. O padre Adam (Andrzej Chyra) é responsável por uma paróquia no interior da Polônia. Além das missas, confissões e de outras atribuições da sua função, Adam cuida de um centro comunitário que abriga jovens problemáticos à beira da delinquência. Ele é muito querido por todos e muito dedicado. Joga futebol com os rapazes, participa das festas da cidade e está sempre disposto a ajudar a quem precisa, seja com uma palavra de carinho ou um conselho. Só que ele vive o terrível dilema da tentação da carne. Adam é homossexual enrustido e luta consigo mesmo para não sucumbir ao desejo, principalmente com relação aos jovens do centro comunitário. Para piorar, ele é assediado por uma jovem e fogosa paroquiana, ainda por cima casada. A diretora Malgoska Szumowska (de “Elas”, com Juliette Binoche) trata o tema com sobriedade e até alguma sensibilidade, aprofundando-se no sofrimento solitário do padre Adam e seu sacrifício para resguardar sua identidade sexual. O trabalho do ator Andrzej Chyra é fenomenal, um trunfo a mais desse excelente drama polonês.    

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

“ERROS DO CORPO HUMANO” (“Errors of the Human Body”), 2011, é uma co-produção Alemanha/EUA com direção de Eron Sheean. Trata-se de um drama de ficção com algumas pitadas de suspense. Geoff Burton (Michael Eklund), um renomado cientista canadense, é convidado para participar de uma experiência num mundialmente respeitado instituto para Biologia Celular e Molecular e Genética em Dresden (Alemanha). Aqui, sob a supervisão da dra. Rebecca Müller (Karoline Herfurth), está sendo desenvolvido um experimento que objetiva a busca do gene da regeneração humana. Geoff topa na hora, pois o estudo tem relação com a doença que acometeu seu filho ainda bebê. Como é possível prever, muitos diálogos são difíceis de entender, a não ser que você seja um cientista, um biólogo ou um geneticista. É claro que logo aparece o   famoso vilão de laboratório, o cientista com cara de maluco Jarek (Tomas Lemarquis), que será o responsável pela criação de um vírus devastador. Ao tentar desmascarar Jarek, Geoff acaba contaminado pelo vírus e, claro, correrá um grande risco de vida. Admira que um filme alemão seja tão ruim. O resultado final é constrangedor, a começar pelo ator canadense Michael Eklund, que passa o filme inteiro com olhos de peixe morto e ar de coitado, mesmo antes de ser contaminado. O personagem Jarek é tão ridículo e constrangedor que mais parece um vilão de filme infantil ou saído de um filme dos Trapalhões. Em todo esse contexto medíocre, surpreende a participação da ótima atriz alemã Karoline Herfurth, de “O Leitor”. De tão ruim, o filme, na verdade, deveria se chamar “Erros da Mente Humana”, referência óbvia ao criador desse abacaxi.     

“FILHA DISTANTE” (“Días de Pesca”), 2012, direção de Carlos Sorin, é mais um bom e sensível filme argentino. Conta a história de Marco Tucci (Alejandro Awada), que, aos 52 anos, depois de um problema sério de saúde, resolve mudar de vida. Deixa de fumar e de beber e começa a praticar exercícios físicos. Marco aproveita essa fase de mudança para também reencontrar a filha Anna (Victoria Almeida), que não vê há anos, retomar o relacionamento de outrora e aparar algumas arestas do passado. Para isso, Marco utiliza a desculpa de tirar umas férias para pescar tubarões no litoral da Patagônia, onde sua filha mora. Saindo de Buenos Aires, ele pega estrada de carro e, pelo caminho, com seu sorriso simpático e cativante, vai fazendo amizades. Ao chegar à cidade onde sua filha morava, vai descobrir que ela já havia mudado há uns três anos, sem avisar, o que já dá uma ideia da distância entre os dois – não apenas geográfica. No reencontro com a filha e o neto, que não conhecia, acontece um dos momentos mais tocantes do filme, quando, durante o jantar, Anna pede a Marco que cante “aquela canção”. Marco então canta a ária “Che Gelida Manina” a capella. Apesar de todos os esforços de Marco, a reaproximação será mais difícil do que ele imaginava. Além da história em si, o filme é bastante interessante porque toda a ação se desenrola em meio aos cenários deslumbrantes e belas paisagens, embora um tanto melancólicas, da Patagônia. Com exceção dos dois protagonistas principais, o restante do elenco é composto somente por atores amadores. Mais um gol de placa do cinema argentino.                                                                                          

domingo, 18 de janeiro de 2015

“SUSPENSÃO DA REALIDADE” (“Suspension of Disbelief”), 2012, é um drama inglês bastante criativo e instigante. Em sua trama policialesca, mescla o gênero noir com muito erotismo e um certo suspense. Na festa de aniversário de sua filha Sarah (Rebecca Nighty), o escritor e roteirista de cinema Martin (o ator alemão Sebastian Koch, de “A Vida dos Outros”), em crise criativa, conhece a exuberante Angelique (a atriz holandesa Lotte Verbeek). Conversam durante algum tempo e depois ele vai dormir. Dois dias depois, Angelique aparece morta, aparentemente, por afogamento. Em meio às investigações da polícia, aparece em cena Therese (Verbeek), a irmã gêmea de Angelique. Tal qual a irmã, Therese também é uma jovem sedutora. Por suas atitudes, difícil acreditar que ela tenha boas intenções. O aparecimento de Therese vai aumentar ainda mais o mistério com relação à morte de Angelique. Envolvido na história, Martin volta a encontrar ideias para um novo roteiro de filme. A partir daí, ficção e realidade se misturam num jogo que estimula o cérebro do espectador. A bela atriz holandesa Verbeek, como a mulher fatal em dose dupla, está ótima. É um filme bastante diferente e interessante, com a assinatura de Mike Figgs, diretor inglês que tem no currículo filmes como “Despedida em Las Vegas”, de 1996, que deu um Oscar de melhor ator para Nicolas Cage. Há 9 anos que ele não dirigia um longa. Quem curte cinema de qualidade e fora do padrão habitual vai gostar.              
A atriz Kristen Stewart, da Série Crepúsculo, faz a personagem principal do drama “CAMP X-RAY”, 2013, dirigido por Peter Sattler, que também escreveu o roteiro. Kristen é a soldado Amy Cole, uma jovem que sai de sua pequena cidade do interior dos EUA e se alista no exército. Seu objetivo é ir para o Iraque, conhecer uma nova cultura e, principalmente, conseguir a oportunidade de uma viagem para o Exterior, o que nunca conseguiu fazer. Só que ela é enviada para uma nova unidade da Prisão de Guantánamo, em Cuba, criada logo após o 11 de setembro de 2001. A missão de Amy é vigiar uma dezena de celas ocupadas por terroristas envolvidos com o atentado. A ordem é específica: não deixar que cometam suicídio. Uma das regras a serem cumpridas é jamais conversar com um detento. Só que Amy a descumpre e dá atenção especial para Ali (Payman Maadi, de “A Separação”), com o qual costuma conversar em seus turnos. Esse tipo de situação já foi mostrada em muitos outros filmes. Um clichê dos mais desgastados. No caso desse filme, chega a ser até inverossímil, já que em seu primeiro dia no corredor das celas Amy é atingida por um “coquetel” (como chamam um bolo de fezes) lançado por Ali, situação que mais provoca inimigos do que amigos. Resumo da ópera: o filme é fraco. Também não é fácil suportar quase duas horas em frente à telinha para ver a ação ser desenrolada quase que inteiramente num corredor de prisão. Stewart precisa ser mais rigorosa em suas próximas escolhas, já que provou que, além de bonita, é uma boa atriz, como já comprovaram filmes como o recente “Acima das Nuvens” e “On the Road”. 

sábado, 17 de janeiro de 2015

“INVENCÍVEL” (“Unbroken”), 2014, é o segundo longa de Angelina Jolie como diretora (o primeiro foi “Terra de Amor e Ódio”, de 2011, sobre a Guerra na Bósnia). O filme conta a incrível história de Louis Zamperini, norte-americano filho de italianos, que nos dois últimos anos da Segunda Grande Guerra passou por uma experiência quase inacreditável. Pois tudo que está na tela aconteceu de verdade, exatamente como relata o livro “Unbroken: A World War II Story of Survival, Resiliense and Redemption”, escrito por Laura Hillenbrand (o roteiro do filme foi elaborado pelos irmãos Ethan e Joel Coen). Antes da guerra, Zamperini (Jack O’Connell) era um ótimo corredor. Chegou a competir nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, integrando a equipe de atletismo dos EUA. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, ele se alistou na Força Aérea. Em 1943, depois de um combate, seu avião caiu no Oceano Pacífico. Em dois botes de borracha, Zamperini e dois companheiros ficaram perdidos no mar durante 47 dias, sem água ou comida. Foi um verdadeiro milagre dois deles terem sobrevivido. Mas o pior viria depois. Resgatados pela marinha japonesa, eles são enviados para um campo de prisioneiros no Japão comandado pelo sádico oficial Watanabe (o ator e astro pop japonês Takamasa Ishihara). A vítima preferida para suas torturas era justamente Zamperini, que ficaria preso mais dois anos, até o final da guerra (ele morreu em julho de 2014, aos 97 anos). O filme é muito bom, embora tenha sido indicado ao Oscar 2015 em apenas 3 categorias: “Melhor Fotografia”, “Edição de Som” e “Mixagem de Som”.                                                             

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A pacata cidadezinha de Aramoana, no litoral da Nova Zelância, foi palco, em 1990, de um terrível massacre. David Gray (Matthew Sunderland), um desempregado estranho e antissocial, resolve se vingar do mundo. Compra uma espingarda automática de caça e, no dia 13 de novembro, começa a atirar nas pessoas da vizinhança. Mata 13 e fere outras tantas, até ser morto pela polícia. Este acontecimento trágico, que ficou gravado para sempre como uma das maiores carnificinas da Nova Zelândia, é mostrado em detalhes no filme “24 HORAS DE MASSACRE” (“Out of the Blue”), 2006. Como diz o título, foram 24 horas de pura aflição e medo para os habitantes de Amanoara, tempo em que o assassino ficou solto. Os policiais da cidade não estavam preparados para enfrentar uma situação desse tipo e nem habituados a utilizar armas. Enquanto esquadrões especiais não chegavam a Amaroana, seus moradores ficaram confinados em suas casas e orientados a trancar portas e janelas. O filme neozeolandês, dirigido por Robert Sarkies, pode ter muitos defeitos, mas tem pelo menos um grande mérito: manter um clima angustiante de tensão, horror e suspense do começo ao fim. O trauma foi tão grande que a população de Amanoara não permitiu que as filmagens ocorressem na cidade. Long Beach, uma localidade bem próxima, serviu de cenário para as filmagens. Mesmo que hoje em dia a gente esteja tão acostumada a fatos desse tipo, o filme incomoda muito principalmente pela forma como a matança é mostrada.  

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O novo filme do diretor canadense David Cronenberg é “MAPAS PARA AS ESTRELAS” (“Maps to the Stars”), 2014. Na verdade, o título poderia ser “Mentes Psicóticas”, já que praticamente todos os personagens apresentam distúrbios mentais, histerismo e comportamento neurótico. Como uma crítica velada a Hollywood, toda a ação se passa em Los Angeles e seus personagens têm, de uma forma ou de outra, uma ligação com a indústria cinematográfica. Tem a atriz ninfomaníaca e desequilibrada Havana Segrand (Juliane Moore), obcecada para ganhar o papel que foi de sua mãe num filme da década de 80. Tem a família Weiss, de comportamento totalmente disfuncional. A filha Agatha (Mia Wasirowska), piromaníaca, acaba de sair de uma prisão psiquiátrica e vai trabalhar como assistente de Havana. Seu irmão é o ator mirim Benjie (Evan Bird), um adolescente mimado e maléfico de 13 anos que aos nove já frequentava clínicas de reabilitação. O dr. Stafford (John Cusack) é o pai, um psicólogo que aplica métodos inusitados de terapia, e a histérica Christina (Olivia Wiliiams) é a mãe. Tem ainda Jerome (Robert Pattinson), um motorista de limusine que quer ser ator - este talvez o único personagem perto da normalidade. O filme é muito perturbador. Há cenas quase explícitas de sexo grupal, lesbianismo, incesto e violência, além do sobrenatural, aqui representado pela aparição de fantasmas. Mas não deixa de ser um filme bastante instigante na medida em que nos faz refletir sobre a potencialidade maléfica e doentia da mente humana em qualquer contexto, o que não livra nem a meca do cinema - o título do filme reforça essa intenção. Juliane Moore, que já está na disputa do Oscar 2015 como Melhor Atriz pelo Filme “Para Sempre Alice”, dá mais um show de interpretação, provando que é uma das melhores atrizes do cinema atual (por esse papel, ganhou o Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes 2014). Quem quiser conhecer um pouco mais sobre o trabalho do diretor David Cronenberg, recomendo três que considero seus melhores filmes: "Marcas da Violência”, “Um Método Perigoso” e “Senhores do Crime”.           

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

“A REUNIÃO” (“Återträffen”), 2013, é um drama sueco bastante original. Além de ter escrito o roteiro e dirigido o filme, Anna Odell também interpreta a personagem principal da história, a quem dá seu nome. Durante 9 anos, Anna estudou e se formou com a mesma turma. Só que, por seu comportamento meio alienado, era vítima de bullying por parte da maioria dos seus colegas. Pois essa turma toda vai se reunir 20 anos depois para um reencontro festivo. Anna não é convidada, mas mesmo assim aparece na festa, sendo friamente recebida e até ignorada por alguns. Mas ela não deixa barato. Vai fazer de tudo para estragar a reunião, acusando quem a tratava mal. Enfim, vai armar o maior barraco. Constrangimento geral. Na verdade, toda essa parte da história integra um filme realizado por Anna, agora diretora de cinema, no qual imagina o que aconteceria se ela realmente tivesse ido à tal reunião. Quando termina a produção do filme, Anna resolve convidar os verdadeiros personagens – seus antigos colegas de turma – para assistirem, causando novos constrangimentos e situações bastante embaraçosas. Não sei se a Anna real passou por esse tipo de experiência, mas a personagem que ela criou para o filme, de tão frustrada, é de uma chatice irritante. Dá vontade de entrar na telinha e acertar-lhe uns tabefes (perdão, Maria da Penha). De qualquer forma, o filme é interessante, mas só vai agradar a um público específico. “A Reunião” foi exibido pela primeira vez no Festival de Veneza 2013, com muitos elogios, e marca a estreia de Anna Odell na direção.                                                     

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O suspense “UM BOM CASAMENTO” (“A Good Marriage”) 2013, dirigido por Peter Askin, é baseado num conto de Stephen King publicado em 2010 no livro “Full Dark, No Stars”. Autor de ótimas histórias de arrepiar (só para lembrar algumas: “O Iluminado”, “Colheita Maldita” e “Carrie, a Estranha”), muitas delas adaptados para o cinema, King também assina o roteiro deste filme. Casados há 25 anos, Bob (Anthony LaPaglia) e Darcy Anderson (Joan Allen) ainda vivem em clima de lua de mel. Até que, um dia, ao procurar pilhas na garagem, ela encontra uma caixa contendo indícios de que o marido é o tal serial killer responsável pelo assassinato de várias moças na cidade. Ela entra em desespero. O que fazer diante dessa situação? Chamar a polícia, denunciar o marido? Sem saber o que fazer, ela começa a ter pesadelos terríveis. Num deles, ela é assassinada pelo próprio marido.  Muita água vai rolar até Darcy receber a visita de um investigador de polícia aposentado (Stephen Lang), que tem aproveitado o tempo ocioso para investigar os assassinatos praticados por Bob. O filme não tem aqueles sustos habituais nem o clima de terror que caracterizam a obra de Stephen King. Na verdade, a história é fraca e o filme idem, apesar da presença da ótima atriz Joan Allen e do bom ator LaPaglia.    

domingo, 11 de janeiro de 2015

Mais do que uma comédia, “O PALÁCIO FRANCÊS” (“Quai d’Orsay”), de 2013, é uma sátira inteligente aos burocratas e políticos franceses - e à própria política exterior francesa. O filme mostra os bastidores do Ministério das Relações Exteriores como uma verdadeira fuzarca, onde ninguém se entende. A história começa quando o jovem Arthur Vlaminck (Raphaël Personnaz), recém-formado na Escola Nacional de Administração, é contratado para o Setor de Linguagem do Ministério. Ele é apresentado ao ministro Alexandre Taillard (Thierry Lhermitte), que parece um furacão. Entra nas salas dos seus assessores já gritando e dando ordens, sempre o dono da razão. Um tormento. Toda vez que abre a porta de um escritório voa um monte de papelada, maneira criativa que o diretor Bertrand Tavernier encontrou para reforçar a ideia de um tsunami. Hiperativo, autoritário, ganancioso e megalomaníaco, Taillard toma suas decisões consultando o livro de frases criadas pelo filósofo Heráclito. Em meio ao bagunçado ambiente, Arthur recebe a missão de escrever o texto de um importante discurso que Taillard fará dali a alguns dias na ONU. A participação da atriz Julie Gayet – aquela que, dizem, teve um caso com o presidente francês François Hollande – como uma fogosa assistente do ministro Taillard reforça ainda mais o tom de sátira desta ótima comédia francesa. Outro destaque é Jane Birkin, irreconhecível no papel de uma escritora ganhadora do Prêmio Nobel. Estão ainda no elenco Niels Arestrup e Anaïs Demoustier. Mas quem domina mesmo o filme, com uma atuação impagável, é o ator Therry Lhermitte como o ministro. Um show!