sábado, 27 de dezembro de 2014

A presença de Juliette Binochet e Clive Owen é um bom motivo para assistir à comédia romântica “POR FALAR DE AMOR” (“Words and Pictures”), EUA, 2013, direção de Fred Schepisi. Jack Marcus (Owen) é professor de literatura inglesa numa escola secundária. É um poeta frustrado, editor de uma revista da escola e beberrão crônico. Uma nova professora de Artes Plásticas é contratada pela escola. Chama-se Dina Delsanto (Binochet). No primeiro dia, ela tem seu primeiro contato com Marcus na sala dos professores. E o encontro não é dos mais simpáticos – clichê dos clichês dos filmes românticos. Em sua primeira aula, ministrada aos mesmos alunos da turma de Marcus, Delsanto defende a afirmação de que uma imagem vale por mil palavras. Ao saber disso, Marcus retruca aos alunos que as palavras são muito mais importantes do que a arte visual. A guerra entre os dois professores está declarada, dividindo os alunos entre os defensores da tese de Delsanto e aqueles que dão valor às palavras, em apoio a Marcus. Até que os argumentos de um e de outro são bastante interessantes, fornecendo um toque de erudição ao filme. O toque dramático da história fica por conta do personagem de Binochet, que sofre de artrite reumatoide, doença que prejudica os movimentos e provoca muita dor. No mais, nada que mereça uma indicação entusiasmada.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

“SEM RUMO” (Rudderless”), 2014, EUA, marca a estreia do ator William H. Macy na direção. E não fez feio. Trata-se de um drama com pano de fundo musical, estrelado por Billy Crudup, Anton Yelchin, Felicity Huffman, Selena Gomez, Laurence Fishburne, Miles Heizer e o próprio Macy. A história começa com o adolescente Josh (Heizer) matando seis colegas e se suicidando na escola. Antes de cometer a tragédia, Josh compunha músicas e as gravava em CDs. Ao arrumar o quarto do garoto, a mãe Emily (Huffman) separa seus pertences e os entrega ao ex-marido Sam (Crudup), hoje morando num barco e trabalhando como pedreiro – antes da tragédia, ele era alto executivo de uma empresa. Antigo músico amador, Sam encontra os CDs e começa a ouví-los. Ele escolhe uma das canções e consegue uma oportunidade para uma apresentação no bar de Trill (Macy). Quentin (Anton Yelchin), um jovem guitarrista, ouve a música e se encanta. Ele procura Sam e propõe que formem uma banda para tocar aquelas músicas – Sam não fala que foram compostas pelo filho, o que será um grande problema mais tarde. Embora o tom dramático predomine, Macy consegue um bom resultado ao amenizá-lo, com muita música e alguns momentos de humor, tornando seu filme um entretenimento bastante agradável.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Embora não seja um grande filme, “GAROTA EXEMPLAR” (“Gone Girl”), 2014, EUA, já desponta como um dos favoritos a ganhar algumas estatuetas no Oscar 2015. Acho um exagero, em todo caso... Trata-se de um thriller inspirado no livro “Garota Exemplar”, de Gillian Flynn, que também é a autora do roteiro. É o tipo de filme que só permite comentar sua primeira parte para não estragar a surpresa da reviravolta que mudará o rumo da história. Nick Dunne (Bem Affleck) é casado há cinco anos com Amy (Rosamund Pike). O casamento vive uma crise quando, de repente, Amy desaparece de casa. Os indícios apontam, inicialmente, para um provável sequestro, mas a polícia descobrirá algumas pistas que colocam Nick como principal suspeito de assassinato. O jogo psicológico, recheado de suspense, é mantido até o final. Impossível não ficar ansioso para saber o que vai acontecer. Méritos para o experiente diretor David Fincher (“Clube da Luta”, “Seven – Os Sete Pecados Capitais”, “O Curioso Caso de Benjamin Button”). A grande surpresa do filme, além da inesperada reviravolta na história, é o ótimo desempenho da atriz inglesa Rosamund Pike, que finalmente ganha um papel à altura do seu talento.     
“UM PEQUENO CASO DE SETEMBRO” (‘Bi Küçük Eylül Meselesi”), 2013, direção de Kerem Deren, é um drama romântico turco daqueles bem açucarados. A jovem Eylül (a loiraça Farah Zeyner Abdullah) sofre um acidente de carro com o namorado Atil (Onur Tuna). Quando é levada para um hospital em estado grave, Eylül tem uma parada cardíaca por minutos e durante um bom tempo fica desacordada. Quando acorda, não se lembra do que aconteceu durante o mês anterior, setembro, quando viajou de férias com a amiga Berrak (Ceren Moray) para a ilha de Bozcaada, no Mar Egeu. O filme inteiro é dedicado ao esforço de Eylül para relembrar tudo o que aconteceu – estranho para os nossos padrões que a mocinha do filme (Eylül) fume sem parar. Em sua estada na ilha ela conheceu Tekin (Engin Akyürek), um tipo simples com cara e jeito de autista que vive pelas ruas ganhando uns trocados para desenhar placas e letreiros. Eylül e Tekin viverão um romance de férias. Em vários flashbacks, o filme mostra ao espectador o que Eylül tenta relembrar. Parece que consegue, mas aí vem o desfecho com uma reviravolta que tenta arrancar lágrimas, mas que deixa o filme ainda mais piegas, lembrando uma novela das Sete à moda turca. Quem for diabético que tome cuidado: a dosagem de açúcar é elevadíssima!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

“REACH ME” (ainda sem tradução por aqui, mas algo como “Siga-me”), 2013, EUA, direção de John Herzfeld, é uma comédia meio non sense reunindo vários personagens cujos caminhos irão se cruzar um dia. Uma piromaníaca em liberdade condicional, um policial que cada vez que mata procura um padre para se confessar, uma atriz frustrada que acaba num filme pornô, um jornalista que é obrigado por seu editor a descobrir o paradeiro de um escritor, mafiosos em busca de vingança, capangas com remorso. E por aí vai. Cada personagem com sua história, todos, de uma forma ou de outra, têm alguma ligação com o livro de autoajuda intitulado “Reach Me”, escrito por Teddy Raymonds (Tom Berenger), um ex-treinador de futebol americano que vive recluso. Sylvester Stallone está no elenco como Gerald, o editor carrasco que ameaça Roger (Kevin Connolly) de demissão caso ele não consiga uma entrevista com o tal escritor. Embora um tanto irregular, o filme tem algumas boas sacadas, como a relação do policial Wolfie (Thomas Jane) com o Padre Paul (Danny Aiello). Cada vez que mata um bandido, Wolfie corre para se confessar com o Padre Paul. Foram tantas vezes que um dia o Padre Paul recusa-se a ouví-lo, dizendo que já se achava um cúmplice. De um modo geral, é um filme  interessante, com um bom elenco, que serve como um entretenimento bastante agradável.   
O cinema brasileiro tem tradição de fazer boas cinebiografias: “Gonzaga – De Pai para Filho”, “Getúlio”, “Heleno” e "Cazuza - o Tempo não Para" são algumas delas. Agora, lança “TIM MAIA”, direção de Mauro Lima, que conta a história da vida turbulenta do magistral cantor e compositor carioca. O roteiro foi baseado no livro “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia”, escrito por Nelson Motta. Dos primórdios no bairro da Tijuca, tocando bateria no conjunto “The Sputniks”, ao lado de Roberto e Erasmo Carlos, passando pela temporada em Nova Iorque, até o seu final trágico, aos 55 anos, afogado na bebida e nas drogas, o filme não esconde quem foi Sebastião Rodrigues Maia, o Tim Maia, um ser humano dos mais execráveis, malcriado, prepotente, ególatra, irresponsável e mais todos os adjetivos que formam um mau caráter. O que não se pode negar, porém, e o filme deixa bem claro isso, é que Tim era um raro talento musical, não apenas como cantor, mas também como compositor. A trilha sonora, deliciosa, é recheada de seus maiores sucessos. O filme destaca também a grande amizade de Tim com o cantor e compositor Fábio (lembram-se de “Stella”?), interpretado por Cayã Reymond, o romance com Janaína (Alinne Moraes) e a sua indisfarçável mágoa de Roberto Carlos. Não deixa de ser um filme bastante interessante. Destaques também para os atores Babu Santana (Tim adulto) e Robson Nunes (Tim jovem), ambos ótimos. Você vai, com certeza, balançar muito na poltrona. 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Se em “Capitão Phillips”, de 2013, os piratas somalianos sequestram a tripulação e o navio comandados por Tom Hanks, em “O SEQUESTRO” (“Default”), EUA, 2014, os terroristas – também somalianos - fazem refém uma equipe de TV norte-americana. Só que, ao invés de navio, desta fez é um avião prestes a decolar do aeroporto das Ilhas Seychelles, no Oceano Índico. Se no filme com Tom Hanks a tensão é de arrasar, neste é duas vezes de arrasar. Tanto a tripulação do avião quanto a equipe de TV vão passar o maior sufoco. É o mesmo suspense “mata-não-mata”, gritos e tortura psicológica. O objetivo dos somalianos é que o jornalista Frank Saltzman (Greg Callahan), membro da equipe sequestrada, faça uma entrevista com o líder do grupo, Atlas (David Oyelowo). Só que a situação acaba saindo de controle e, ao contrário de “Capitão Phillips”, a história não vai acabar bem. O filme é claustrofóbico demais - toda a ação se passa dentro da aeronave. O espectador também vai sentir desconforto com a câmera agitada, nervosa, como se tudo fosse filmado por um cinegrafista amador tremendo de medo. Parece que a história é verídica, pois aparece muito noticiário televisivo aparentemente verdadeiro sobre o sequestro. Deveria haver alguma indicação nos créditos. De qualquer forma, é daqueles filmes com tanto suspense e tensão que você nem percebe quando o saco de pipoca acabou nem que entortou o braço da poltrona.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O drama “IDA” é a grande aposta do cinema polonês na disputa do Oscar 2015 de Melhor Filme Estrangeiro. O filme, dirigido por Pawel Pawlikowski, está entre os 9 finalistas selecionados para concorrer ao prêmio. E não será nenhuma surpresa se vencer, pois trata-se de um belíssimo filme. A história, ambientada em 1962, está centrada na  noviça Anna (a estreante Agata Trzebuchowska), de 18 anos, que vive desde pequena num convento. Prestes a ser ordenada, ela é liberada para visitar seu único parente vivo, a tia Wanda Cruz (Agata Kulesza), que é juíza num tribunal comunista. O encontro entre as duas fará ressurgir alguns segredos de família tendo como pano de fundo acontecimentos trágicos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial. Anna descobrirá, por exemplo, que nasceu de uma família judia e que seu verdadeiro nome é Ida. A noviça quer resgatar toda essa história, descobrir como seus pais morreram e onde estão enterrados. Em nenhum momento, porém, sua fé católica correrá risco. Tia e sobrinha iniciam então um road movie para encontrar pessoas que tenham algo para contar sobre tudo o que aconteceu. Se para Ida a viagem foi esclarecedora e, de certa forma, redentora, para Wanda foi um martírio que afetará ainda mais a sua já abalada condição psicológica. A fotografia em preto e branco é um dos destaques do filme, além dos enquadramentos originais e do trabalho excepcional das atrizes, principalmente Agata Kulesza. Sem exagero, um dos momentos mais sublimes do cinema nos últimos anos.   

domingo, 21 de dezembro de 2014

Embora a protagonista principal seja interpretada pela atriz francesa Marion Cotillard, “DOIS DIAS, UMA NOITE” (“Deux Jours, unie Nuit”), 2014, é um filme belga, dirigido pelos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Aliás, o filme foi candidado da Bélgica ao Oscar 2015 de Melhor Filme Estrangeiro, mas não ficou entre os 9 selecionados para a disputa. Concorreu ainda à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2014, também sem sucesso. A verdade é que a história não é das mais animadoras. Sandra (Cottilard) retorna ao trabalho depois de um período de afastamento por motivos de saúde (depressão). Só que tem um problema: o chefe da empresa prometeu um bônus de mil euros para os funcionários, mas com o retorno de Sandra, esse bônus não poderia ser pago – menção à crise econômica europeia. Ficou decidido que haveria uma votação numa sexta-feira. Sandra perdeu, mas não desistiu e insistiu numa nova votação. Conseguiu ama nova chance para segunda-feira. Ou seja, os dois dias e uma noite do título. Ela teria, portanto, o final de semana para visitar os seus colegas de trabalho e convencê-los a desistir do bônus em favor de sua readmissão. O filme inteiro mostra os esforços de Sandra para pedir votos para sua causa, em meio a novos surtos de depressão. Muito pouco para um filme que tem dois diretores consagrados e uma atriz que até já ganhou Oscar (por “Piaf – Um Hino ao Amor”, em 2007). Dá até para recomendá-lo, mas sem muito entusiasmo. 
Com o visual de um Kung Fu afrodescentente, Denzel Washington não economiza na porrada no filme de ação “O PROTETOR” (“The Equalizer”), EUA, 2014, dirigido por Antoine Fuqua e inspirado numa série de TV de grande sucesso nos EUA na década de 80, “The Equalizer”. Denzel é o misterioso e pacato cidadão Robert McCall, empregado numa grande loja de ferramentas e que todas as noites vai tomar um chá e ler um livro numa lanchonete perto de sua casa. Na verdade, McCall é um ex-agente especial do governo dos EUA, perito em artes marciais. Quando vê uma injustiça ou alguém em perigo, ele se transforma num misto de David Carradine, Steven Seagal e Van Damme. Ou seja, numa verdadeira máquina mortífera. Ninguém fica de pé - e muito menos vivo - para contar história. Seus métodos para matar são os mais variados e criativos possíveis. Ao se vingar do cafetão que agrediu Teri (Chloë Grace Moretz), uma jovem prostituta, McCall atrai o ódio de uma organização de mafiosos russos, que envia um assassino sanguinário para matá-lo. O assassino, interpretado por Marton Csokas, também dá medo. E daí para a frente, até o final do filme, não vai faltar pancadaria.  Washington, mais uma vez, dá conta do recado como um vingador frio e calculista. Pra quem gosta de filmes de ação, um programão! 

sábado, 20 de dezembro de 2014

“O JUIZ” (“The Judge”), 2014, EUA, é um drama que, na mão de outro diretor, poderia descambar para um dramalhão daqueles. Mas David Dobkin, que já havia dirigido as comédias “Penetras Bons de Bico”, “Uma Noite Fora de Série” e “Eu queria ter a sua vida”, amenizou a história com muito humor. Não deve ter sido fácil. Afinal, o juiz do título, Joseph Palmer (Robert Duvall), fica viúvo, é acusado de assassinato e tem um câncer avançado; seu filho mais novo é deficiente mental e ele não se dá com o filho do meio, Hank Palmer (Robert Downey Jr.), um advogado sem escrúpulos que não recusa defender gente da pior qualidade. Ele se justifica para um colega dizendo que "Os inocentes não podem pagar meus honorários". Para defendê-lo no tribunal, Joseph contrata um advogado incompetente e atrapalhado. A muito custo, Joseph concorda que Hank o defenda. Em sua grande parte, o filme retrata justamente a difícil relação entre Hank e o pai, alguns flashbacks da família em filmes antigos e muitas cenas de tribunal. Mas o grande destaque do filme é, sem dúvida, o ótimo elenco. Além de Downey e Duvall, também trabalham Vera Farmiga, Billy Bob Thornton, Vincente D’Onofrio e Jeremy Strong. Como curiosidade, vale lembrar que Jack Nicholson e Tommy Lee Jones foram cogitados para o papel do Juiz, que ficou em boas mãos com Duvall. Há que se destacar também Vera Farmiga, que, além de excelente atriz, está mais madura e cada vez mais bonita. Trata-se de um ótimo entretenimento.   

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

“ISOLADOS”, 2014, direção de Tomas Portella, é mais uma tentativa do cinema brasileiro de emplacar um filme no gênero suspense. Pena que ainda não foi desta vez, embora seja superior a outras produções. Na verdade, trata-se de um suspense com cara de terror psicológico, na linha de “O Sexto Sentido” ou “Os Outros”. O médico psiquiatra Lauro (Bruno Gagliasso) e sua namorada e paciente Renata (Regiane Alves) alugam um casarão na região serrana do Rio de Janeiro para passar alguns dias. Eles não sabem, mas dias antes houve o assassinato de uma menina. E a polícia está por lá investigando. Enquanto isso, Lauro e Renata são atacados durante um passeio na floresta e se trancam no casarão com medo de um novo ataque. Renata sofre de ataques histéricos e Lauro começa a perder o controle. A tensão aumenta cada vez mais e, alguns sustos depois, o mistério é desvendado, numa reviravolta inesperada e surpreendente. O ator José Wilker faz uma aparição rápida no filme como Dr. Fausto, colega de Lauro no hospital psiquiátrico. Foi o último filme de Wilker, que acabou homenageado nos créditos finais.                                         

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

“BETIBÚ”, co-produção Argentina/Espanha de 2013, direção de Miguel Cohan, é um policial ao estilo daquela série sueca Millenium. A morte misteriosa de um poderoso empresário mobiliza dois jornalistas de um mesmo jornal, o experiente Jaime Brena (Daniel Fanego) e o novato Mariano Saravia (Alberto Ammann). Para ajudá-los no trabalho investigativo, o editor Lorenzo Rinaldi (José Coronado) convoca Nurit Iscar (Mercedes Morán), conhecida também pelo apelido de Betibú, uma ex-repórter do jornal que agora é escritora de romances policiais. Outras mortes ocorrem e a polícia, como sempre, está mais perdida do que cego em tiroteio. Os dois jornalistas e a escritora vão seguir algumas pistas relacionadas com o passado dos homens mortos. Tudo leva a crer que a chave do mistério está numa foto antiga em que o empresário assassinado aparece ao lado de alguns amigos, todos jovens – as outras vítimas. A explicação será dada mais tarde pelo irmão mais novo do empresário. O filme, cuja história foi inspirada no livro homônimo da escritora argentina Claudia Piñero, foi uma das atrações da 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, realizado em outubro de 2014.      

domingo, 14 de dezembro de 2014

Nem Nicole Kidman, nem Colin Firth e muito menos Mark Strong salvam o suspense psicológico inglês “ANTES DE DORMIR” (“Before I Go to Sleep”), 2014, dirigido por Rowan Joffe, que em 2010 já havia sido responsável por outro abacaxi, “Um Homem Misterioso”, com George Clooney. Depois de sofrer um acidente, Christine Lucas (Kidman) tem a memória afetada. Além de não lembrar o que aconteceu no dia fatídico, ela acorda todos os dias sem saber quem é, o que aconteceu no dia anterior e nem reconhece o marido Ben (Firth). Todos os dias ela também conversa com o dr. Nash (Strong), que diz ser seu psiquiatra há anos. O médico trata de Christine e a obriga a não dizer nada ao marido. Se a história já é meio esquisita, fica pior ainda quando surge Claire (Anne-Marie Duff), uma misteriosa mulher que se intitula sua antiga amiga e protetora. Os fatos vão acontecendo sem nenhuma lógica, perturbando ainda mais a cabeça da coitada da Christine – e também do espectador. Se às vezes o desfecho salva um filme, neste só serve para piorá-lo. A história é baseada no livro homônimo escrito por S. J. Watson, sua estreia na literatura. Se houve o interesse em adaptá-lo para o cinema, o livro não deve ser tão ruim. Mas o filme...
“LONDRES PROIBIDA” (“London to Brighton”), 2006, é um bom suspense inglês dirigido por Paul Andrew Williams. A história é meio barra pesada. A prostituta de rua Kelly (Lorraine Stanley) recebe uma ordem de seu cafetão Derek (Johnny Harris): encontrar uma menina bem novinha para satisfazer os desejos de um milionário pedófilo. Ao sair pelas ruas de Londres, Kelly encontra Joanne (Georgia Groome), de 11 anos, que pedia esmola na escadaria de uma estação do metrô. Em troca de 100 libras, a menina topa fazer o programa, desde que Kelly vá junto. O programa toma um rumo diferente e o pedófilo acaba sendo morto pelas duas, que acabam fugindo para Brighton. Só que o filho do milionário assassinado é um bandidão violento que quer vingança. Ele e seus capangas vão atrás de Kelly e Joanne. Esse jogo de gato e rato vai permear praticamente toda a ação, com muitas cenas de violência e um desfecho dos mais imprevisíveis. A história é legal, o filme é bem feito e o elenco é ótimo. Mesmo com toda violência, pode ser um entretetenimento interessante. O filme foi premiado em vários festivais, inclusive o de melhor estreia em direção concedido a Paul Andrew Williams, que depois faria “Cabana Macabra” (2008) e “Canção para Marion” (2010).                                        
Para comemorar de forma inusitada o 60º aniversário do Festival de Cannes, em 2007, Gilles Jacob, o presidente do evento, encomendou a 34 dos principais cineastas do mundo um curta-metragem de 3 minutos cujo tema era “O Amor ao Cinema”. O resultado está no filme "CADA UM COM SEU CINEMA" ("Chacun son Cinéma"), exibido durante o festival daquele ano na sessão de gala. Alguns diretores optaram pelo bom humor, como Roman Polanski e Lars von Trier. Claude Lelouch reproduziu cenas do filme “Top Hat”, de 1935, onde Fred Astaire e Ginger Rogers aparecem dançando “Cheek to Cheek”. No curta, Lelouch lembra que seus pais se conheceram durante uma sessão do filme. O grego Theo Angelopoulos utilizou a atriz Jeanne Moreau para fazer uma bela e tocante homenagem a Marcello Mastroianni. O cineasta malaio Ming Liang Tsai mostra uma família com o retrato da mãe falecida voltado para a tela. A mãe adorava ir ao cinema. Walter Salles, único diretor brasileiro a participar do projeto, optou por utilizar uma dupla de repentistas em frente à fachada de um cinema no Nordeste. Cada qual com seu estilo, os cineastas convidados realizaram um belíssimo trabalho. O conjunto da obra ficou ótimo, mas, como escreveu Luiz Carlos Merten, crítico do Estadão, “É o filme dos sonhos de qualquer cinéfilo". Realmente, o projeto é direcionado apenas aos aficionados por cinema. Quem quiser curtir duas excelentes homenagens ao cinema deve assistir "Splendor", de Ettore Scola, e "Cinema Paradiso", de Giuseppe Tornatore, este último uma verdadeira obra-prima.  

sábado, 13 de dezembro de 2014

Não será nenhuma surpresa se o cinema italiano conquistar pela segunda vez consecutiva o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro/2015 (em 2014, o vencedor foi “A Grande Beleza”). O candidato oficial da Itália, desta vez, é “CAPITAL HUMANO” (“Il Capitale Umano”), direção de Paolo Virzi (”La Prima Cosa Bella”). É um filmaço. O roteiro, escrito por Virzi, é primoroso. Em quatro capítulos, ele descreve a história de vários personagens. Num capítulo, determinado personagem é quase que um figurante. No capítulo seguinte, assume o papel de protagonista. Virzi repete algumas cenas modificando o ângulo da câmera de acordo com o personagem em destaque. Uma aula de criatividade cinematográfica. A história gira em torno de um poderoso empresário à beira da falência e de um acidente que fere gravemente um ciclista. O principal suspeito é o filho do empresário, cujo casamento enfrenta uma fase de grande turbulência. O filho suspeito namora uma moça cujo pai quer ganhar dinheiro fácil e se aproxima do tal empresário. E por aí vão se entrelaçando todos os personagens, num verdadeiro mosaico narrativo, sem jamais entediar ou confundir o espectador. O elenco é da melhor qualidade, tendo à frente a atriz Valeria Bruni Tedeschi (irmã de Carla Bruni, ex-primeira dama da França), que dá um show como a esposa infeliz do empresário. Por esse papel, ela foi merecidamente premiada como Melhor Atriz no Festival de Tribeca. Não perca, pois é cinema de altíssima qualidade.           

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Desistir de um trabalho repleto de adrenalina em zonas de guerra ou viver de um emprego seguro, perto da família? Esse dilema deve mexer com a cabeça de nove entre dez fotojornalistas acostumados (ou viciados?) a trabalhar pelo mundo afora fotografando em áreas de conflito. É o que acontece com a fotógrafa Rebecca (Juliette Binoche) em “MIL VEZES BOA NOITE” (“Tusen Ganger God Natt”), 2012, um ótimo drama norueguês dirigido por Erik Poppe - ele próprio um ex-fotógrafo de guerra. Em ação no Afeganistão, Rebecca é ferida numa explosão causada por uma mulher-bomba. Quando volta para casa, na Irlanda, ela recebe um ultimato do marido Marcus (Nikolaj Coster-Waldau). Ou abandona esse tipo de trabalho ou então o casamento já era. As duas filhas adolescentes apoiam o pai e Rebecca concorda em abandonar as zonas de guerra, apesar dos protestos de sua editora, já que ela é uma das cinco melhores fotógrafas de guerra do mundo. Quando tudo parecia correr de acordo com o desejo de Marcus, Rebecca faz uma viagem com a filha mais velha Steph (Lauryn Canny) ao Quênia. Essa viagem resultará numa nova crise familiar, obrigando Rebecca a tomar uma decisão definitiva. Se o filme já é excelente, melhor ainda é o desempenho da fabulosa atriz francesa Juliette Binoche como a mulher dividida entre a profissão e a família. Binoche prova, mais uma vez, que é uma das melhores atrizes em atividade. Um aviso: prepare-se para a cena inicial do filme, onde Rebecca fotografa o ritual de preparação e a posterior ação de uma mulher-bomba. Trata-se de uma das sequências mais tensas, impactantes e bem feitas do cinema nos últimos anos. Enfim, o filme é simplesmente imperdível. 
“UMA FAMÍLIA EM TÓQUIO” (“Tokyo Kazoku”), 2012, direção de Yoji Yamada, é uma refilmagem de “Era uma vez em Tóquio” (1953), de Yasujiro Ozu, considerado um dos grandes clássicos do cinema japonês. O enredo é uma verdadeira crônica dos relacionamentos familiares. O casal de idosos Tomiko (Kasuko Y oshiuki) e Shukichi (Isao Hashizume) viaja para Tóquio com o objetivo de rever, depois de muito tempo, seus três filhos adultos, Shigeko, dona de um salão de beleza, Koichi, médico, e Shoji, o caçula, que vive de bicos e não é tão bem sucedido quanto os irmãos. Na recepção aos pais, dá para perceber uma grande frieza, fruto de uma educação baseada mais no respeito do que no afeto. Não há contato físico, um abraço por exemplo. Fica claro que é uma relação de muito respeito. As atividades profissionais não permitem que os filhos dediquem muita atenção aos velhos. Como em quase todas as famílias do mundo, aquele gesto de carinho ou atenção vem justamente de quem menos se espera: da nora, do filho “ovelha negra” e de sua namorada. Perto do desfecho, um fato trágico finalmente será capaz de reunir a família. Sem dúvida, um filme japonês bastante sensível que merece ser visto por quem aprecia cinema de qualidade.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Rotulado como comédia, o filme italiano “VIVA A LIBERDADE” (“Viva la Libertà”) passa longe de ser motivo de risos. Pelo contrário, tem um pano de fundo sério, baseado em questões políticas. O grande ator italiano Toni Servillo (de “A Grande Beleza”) faz dois personagens: Enrico Olivieri, senador e 1º Secretário de um importante partido de esquerda, opositor do governo, e seu irmão gêmeo Giovanni Ernani, um professor filósofo, bipolar, que de vez em quando é internado num hospício. Em depressão por causa de uma agenda de inúmeros compromissos, somada a muitas críticas de seus companheiros de partido e ainda pela péssima situação nas pesquisas (17%) para a próxima eleição, Enrico resolve sumir. Viaja incógnito para Paris. Seu assistente Andrea Bottini (o ótimo Valerio Mastandrea) não sabe o que fazer. De início, é obrigado a cancelar reuniões e discursos de Enrico, alegando que ele se afastou por motivo de doença. Mas a pressão é insuportável, e Andrea tem a ideia de utilizar Giovanni para fazer o papel de Enrico. Com sua grande erudição, o professor dá entrevistas e faz discursos utilizando uma linguagem muito distante daquelas que os políticos costumam usar. Num dos discursos, por exemplo, ele cita frases de Brecht. Sua atuação é responsável por uma grande reviravolta nas pesquisas. Enquanto isso, Enrico revê um grande amor de juventude, Danielle (Valeria Bruni Tedeschini), agora casada com um cineasta. Tudo bem que o diretor Roberto Andó tentou fugir dos clichês próprios desses filmes onde os personagens trocam de identidade, mas o resultado final é decepcionante, ainda mais com um elenco tão bom.    
“O ARTISTA E A MODELO” (“El Artista y La Modelo”) é uma produção espanhola de 2012, com direção de Fernando Trueba (de “Belle Époque”, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1993). Ambientado em 1943 num pequeno vilarejo do interior da França próximo à fronteira da Espanha, o filme conta a história do relacionamento do famoso escultor Marc Cross (Jean Rochefort) com Mercé (Aida Folch), uma jovem espanhola fugitiva do regime de Franco. Léa (Claudia Cardinale), esposa de Cross, acolhe a jovem e a acomoda no ateliê do marido que, aos 80 anos, não trabalhava mais. A chegada da bela Mercé, porém, dá uma renovada em Cross, que começa a esculpir de novo utilizando a jovem como modelo. Em meio ao seu trabalho de escultor, Cross conversa muito com Mercé, em diálogos recheados de humor e erudição, abordando temas como filosofia, política, arte e religião. Num desses diálogos, o escultor confessa a Mercé que existem duas provas da existência de Deus: a criação da mulher e do azeite. Cross não acredita que Deus, responsável pela criação de tantas coisas bonitas, como o mar e as florestas, possa ter criado um ser tão feio quanto o homem. Outro diálogo que merece ser ressaltado é aquele em que Cross discute um famoso desenho de Rembrandt com a modelo, um dos momentos mais tocantes do filme. Mercé aparece nua praticamente o filme inteiro, mas a (ótima) fotografia em preto e branco atenua qualquer eventual apelo sexual. É um filme muito bonito, valorizado por um ótimo elenco. Destaque para Claudia Cardinale, que, aos 70 anos, ainda guarda a beleza que a consagrou como uma das maiores musas do Cinema nas décadas de 60/70. Quanto a Rochefort, ele comprova a condição de melhor ator francês da atualidade.                   

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O tema Gastronomia sempre resultou em ótimos filmes, o melhor deles, sem dúvida, “A Festa de Babette”, de 1987. Dos mais recentes, o melhor talvez seja mesmo “A 100 PASSOS DE UM SONHO” (“The Hundred-Foot Journey”), EUA, dirigido pelo sueco Lasse Hallström e com Steven Spielberg Oprah Winfrey como produtores. A história começa na Índia, onde Papa Kadam (Om Puri) possui um restaurante de comida tradicional indiana. Por motivos políticos, seu estabelecimento é incendiado criminosamente e a família decide fugir para a Europa. Depois de algumas andanças por aqui e ali, Papa Kadam chega ao aprazível vilarejo de Saint-Antonin-Noble-Val, sul da França, onde resolve abrir um restaurante. Só que bem em frente está o “Saule Pleureur”, um restaurante chique famoso por ter obtido uma estrela do Guia Michelin, o maior reconhecimento europeu da qualidade em gastronomia. No comando do “Saule Pleureur” está Madame Mallory (Helen Mirren), uma mulher arrogante que vive com o nariz empinado e um crônico mau humor. O barulho da música alta, os cheiros e o medo da concorrência fazem com que Mallory declare guerra ao restaurante indiano. Só que ela não contava com a astúcia gastronômica do jovem Hassan Kadam (Manish Dayal), que logo se revela um chef dos mais competentes. E por aí vai a história, entre receitas, romances e declaração de paz entre Mallory e os indianos, com muitos momentos sensíveis e tocantes. Um filme para curtir e, principalmente, saborear.